Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Entrevista, Edição Nº 195 - Nov/Dez 1991

A Revolução de Outubro venceu com o apoio das massas

por Revista «O Militante»

Entrevista com Miguel Urbano Rodrigues

A mudança do nome da cidade de Leninegrado para Sampetersburgo surge hoje como sequência natural de uma situação em que, de diversos lados, se afirmava que a Revolução de Outubro não passou de um acto aventureiro, ilegítimo e até criminoso. Foi ou não foi justificada pela vida e pela história a revolução conduzida por Lénine?

Toda a revolução profunda, para o ser, nasce da vontade e da participação popular. Os dramáticos acontecimentos de Agosto na URSS, que levaram à suspensão do PCUS e ao confisco do seu património, não podem apagar essa evidência histórica. Em 1917, o Partido Bolchevique tomou o poder porque contou com o apoio torrencial das massas. A Rússia revolucionária resistiu ao bloqueio das 14 potências que aprovaram a intervenção. Resistiu aos ataques conjugados das forças terrestres e marítimas de Inglaterra, de França, dos EUA e do Japão, que ocuparam largas extensões do seu território e armaram e financiaram as tropas contra-revolucionárias. Resistiu à ofensiva dos exércitos brancos de Iudenitch, Koltchak, Denikine e Wrangel.

Sem o apoio entusiástico da classe operária e da maioria dos camponeses, a Revolução não poderia ter vencido os exércitos contra-revolucionários nem expulsado os intervencionistas estrangeiros.

O socialismo, por muito que isso custe aos teóricos do anticomunismo, foi construído com o apoio das grandes massas. Essa adesão manteve-se após a morte de Lénine. Transcorrido um quarto de século sobre a Revolução de Outubro, a monstruosa máquina de guerra alemã foi destruída nos campos de batalha e a humanidade preservada do flagelo nazista porque o Exército Vermelho contou, sempre, nesse período trágico, com o apoio maciço do povo.

A mudança do nome da cidade de Leninegrado para Sampetersburgo demonstra a incapacidade de entendimento da História e desrespeito por ela. É um facto que a cidade foi dedicada a São Pedro quando o imperador Pedro I a mandou fundar em 1702. Mas foi já com o nome de Lénine que ganhou eterna glória ao resistir vitoriosamente durante mais de 900 dias ao cerco do exército alemão. Leninegrado não se rendeu. Era a cidade símbolo da Revolução.

Nos últimos anos de «perestroika" ela foi muitas vezes comparada à NEP. O que foi verdadeiramente a NEP, porque começou e porque acabou? Pode-se comparar a NEP com a «perestroika», pelo menos com aquilo que, de início, se disse ser a «perestroika»?

A Nova Política Económica – NEP foi a resposta necessária à situação criada com a guerra civil e o bloqueio. Na Primavera de 1921 a contra-revolução estava derrotada e o malogro da intervenção estrangeira fora já reconhecido pelas potências da Entente. Mas havia fome na Rússia e as massas camponesas levantavam-se, pela primeira vez, contra o poder soviético em amplas regiões. A política de requisições, instaurada durante o período do comunismo de guerra, tirava aos camponeses o estímulo para produzirem. A NEP ficou a assinalar uma viragem na estratégia da produção e do abastecimento. As requisições acabaram, sendo substituídas pelo imposto em géneros. Assim, depois de pago o imposto, os camponeses podiam vender o resto da colheita. Essas medidas, ao restabelecerem a liberdade de comércio, reanimaram uma agricultura arruinada por sete anos de guerra.

Numa série de artigos então publicados, Lénine analisou a complexa problemática da NEP. «Num ano e meio – escreveu – o camponês não somente venceu a fome como pagou o imposto em géneros em tal qualidade que recebemos centenas de milhões de puds, e isso sem aplicar quaisquer medidas de coação». 1

A NEP acabou prematuramente. Stálin não lhe compreendeu o alcance. A socialização dos meios de produção não podia por si só (como a história confirmou) destruir instantânea e radicalmente as superestruturas culturais da antiga sociedade e, portanto, formas de comportamento do campesinato. Lénine desceu ao fundo da questão num ensaio revelador da importância que o poder soviético atribuía à permanência de um amplo sector privado na economia do jovem Estado socialista.

«Pela NEP – sublinhou então – fizemos uma concessão ao camponês, como comerciante, ao princípio do comércio privado e daí decorreu precisamente (ao contrário do que alguns pensavam) a enorme importância da cooperação. No fundo, aquilo de que necessitamos é cooperativizar a produção russa em grau suficientemente amplo e profundo sob o domínio da NEP, pois agora encontramos o meio de combinar os interesses privados, por um lado, com o seu controlo pelo Estado, e, por outro lado, o meio da sua subordinação aos interesses gerais...».2

Comparar a «perestroika» à NEP é um disparate. A «perestroika» nasceu como um projecto de reestruturação global da sociedade soviética para corrigir erros e perversões de um modelo em crise e para levar a URSS a uma forma superior de democracia e socialismo num contexto de progresso, paz e abundância. Entre os seus objectivos fundamentais figuravam a duplicação do Produto Interno Bruto até ao final do século e o regresso à democracia sociaIista, tomando como fonte de inspiração os princípios do marxismo-leninismo. Inicialmente não se falou sequer de privatizações e ao PCUS foi atribuído, no discurso de Gorbalchov, um papel decisivo, insubstituível, no processo de reestruturação da economia e da sociedade. O projecto, porém, foi a pique.

O desenvolvimento da história levou muitos observadores políticos a colocarem uma questão de difícil resposta sobre o objectivo real da declaração de intenções inicial da «perestroika» como projecto revolucionário. A dúvida é pertinente porque a «perestroika» se desviou gradualmente dos seus fins anunciados, passando a perseguir outros, opostos aos traçados.

A questão das nacionalidades foi um daqueles problemas que muitos comunistas em todo o mundo e mesmo na URSS consideraram resolvido no essencial. Afinal... Como explicar tudo quanto sucedeu? A eventual derrota do socialismo como sistema (o regime já foi derrotado) e a quebra de laços entre as diversas repúblicas que consequências terão para os povos da URSS? Que é que eles tinham ganho no quadro da União Soviética?

A Revolução de Outubro enfrentou, logo ao arrancar, uma contradição muito difícil de resolver. Para garantir a sobrevivência, o Estado Soviético precisava de evitar o esfacelamento da Rússia pré-revolucionária.

Mas manter unidas, num novo espaço socialista, nações de culturas diferenciadas por milénios de evoluções por vezes antagónicas era tarefa aparentemente inatingível. Na vastidão do antigo império coexistiam nações com trinta séculos de história como a Arménia, os povos nómadas como o da Kirguisia onde o analfabetismo atingia os 99%, e outros como os uzbeques, herdeiros da grande saga do Islão na Ásia Central. No Sul todos emergiam da opressão colonial.

A obra da construção da União Soviética foi talvez a última grande contribuição de Lénine para o desenvolvimento da Revolução de Outubro. Fez-se o que era possível. Vladimir Ilitch linha uma lúcida consciência de que as soluções encontradas eram muito imperfeitas e de que o problema não estava resolvido definitivamente.

Foi durante o período de Stálin que se forjou o mito de que a convivência entre mais de cem nacionalidades na URSS se aproximava da perfeição. Mas a URSS antecipou de alguma maneira a tendência da humanidade para criar grandes países-Estados que funcionem como espaços de integração de nacionalidades diferentes cujos interesses comuns possam ser harmonizados e defendidos pela convergência num conjunto simultaneamente descentralizado e unido. É absurdo glorificar a CEE e defender o desmembramento da URSS.

Ao longo de setenta anos foram cometidos muitos e graves erros na condução da política das nacionalidades. Mas, apesar deles, a URSS, no tocante à convivência e processo (lento) de miscegenação das nacionalidades, abriu portas para o futuro da humanidade, antecipando-o.

Percorrendo as planuras do Amudaria, na Ásia Central, pude testemunhar prodigiosas transformações nascidas da revolução. A Norte dessa fronteira natural, na União Soviética os povos saltaram da Idade Média para o século XX. Em algumas repúblicas a percentagem de população universitária iguala a dos EUA. A Sul do rio, na Báctria, em território do Afeganistão, ao lado das ruínas esplêndidas de cidades gregas erguidas pelos sucessores de Alexandre, vegetam tribos onde o analfabetismo atinge os 90%.

Hoje, o prólogo de desagregação a que assistimos aparece-me como um recuo histórico cujas consequências políticas, económicas e sociais podem levar a uma balcanização do antigo território da URSS. Na Geórgia já se instalou uma situação de caos.

Depois de 1985 assistiu-se na URSS ao início de um debate sobre a história da construção do socialismo no pais. Esse debate foi, porém, interrompido, passando muitos órgãos de comunicação social a divulgar como coisas positivas as ideias e posições de pensadores, historiadores, economistas, sovietólogos burgueses. Como entender esta orientação?

A pergunta envolve uma questão muito debatida e mal estudada: a da criação do chamado homem novo. Durante décadas, milhões de comunistas acreditaram que o socialismo daria rapidamente origem a um homem novo. O desenvolvimento da história não confirmou essa esperança. Atrevo-me a afirmar que Cuba é talvez o único país que realizou uma revolução socialista onde emergiu um homem de novo tipo.

A geração de 1917, que fez a Revolução na Rússia e a defendeu, transmitiu os seus princípios e valores à que se lhe seguiu. Esta, assumindo os ideais humanistas de Outubro, identificou a defesa da Pátria com a defesa do Socialismo. Protagonizou uma epopeia ao derrotar o fascismo (à custa de 20 milhões de mortos). As gerações do pós-guerra cresceram num país poderoso e industrializado. O povo soviético tornou-se um dos mais instruídos e saudáveis do mundo. Mas houve uma ruptura na cadeia de transmissão dos valores. Com a «perestroika» ficou transparente que o homem novo do final do século XX se assemelha, afinal, muito ao homem velho anterior à Revolução.

A comunicação social desempenhou um papel decisivo e muito negativo na evolução dos acontecimentos. Em vez de contribuir para uma informação transparente numa sociedade que sofria de desinformação crónica, funcionou como instrumento de demolição generalizada do ideário que havia sido a referência fundamental de sucessivas gerações. O elogio sistemático do capitalismo e do modo de vida do Ocidente passou a ser rotina em muitos (quiçá a maioria) jornais soviéticos. A partir de 1988 destacados intelectuais usaram as colunas da grande imprensa, da televisão e da rádio, não apenas para denegrir Lénine e o marxismo-leninismo, mas também para apresentar como democratas mal compreendidos políticos contemporâneos como Kissinger, Carlucci, Brezezinski e estadistas como Reagan e Helmut Kohl. Alguns órgãos de informação – o «Notícias de Moscovo», o «Tempos Novos» e a «Literaturnaya Gazeta», por exemplo – publicaram com frequência artigos em que os autores faziam sem disfarce a apologia dos contra-revolucionários cubanos e da Unita, do liberalismo de Cavaco Silva e mesmo da obra de Salazar em África. Os elogios ao modelo económico de Pinochet e a desculpabilização dos crimes do ditador chileno foram tema de reportagens de enviados especiais. Em contrapartida, Fidel Castro, os dirigentes da Frente Sandinista e do MPLA e os revolucionários afegãos eram apresentados aos leitores soviéticos como inimigos da liberdade e da democracia.

Perante tal inversão de valores e tamanha deturpação de factos da história, como estranhar o crescimento da maré anticomunista numa sociedade na qual o incentivo da adesão aos valores da sociedade capitalista vinha de cima, de altos dirigentes do PCUS, como Alexandre Yakovlev (o braço direito de Gorbatchev) e Edward Chevardnarze, e, obviamente, do próprio Boris Yeltsin, ex-membro do Politburo.

Os arquivos do PCUS estão a ser devassados por pessoal enviado pelo Governo da Federação Russa. Do ponto de vista histórico esta é ou não uma acção da maior gravidade?

Transcorridos dois séculos conhecemos hoje melhor a Revolução francesa do que os historiadores que foram testemunhas daquele período transcendental. Isso graças, em grande parte, à preservação de arquivos fundamentais.

A violação dos arquivos do PCUS por funcionários do Governo de Boris Yeltsin é, portanto, como se sublinha na pergunta, uma iniciativa da maior gravidade que não hesito em qualificar de agressão à história.

Grande parte da história mal conhecida ou desconhecida das revoluções de Fevereiro e Outubro de 1917 e de sete décadas de regime socialista somente poderá ser bem iluminada se os arquivos do PCUS sobreviverem à sanha persecutória de Boris Yeltsin.

Cito um único exemplo. No momento em que tanto se fala das Repúblicas Bálticas (que afinal somente foram independentes durante duas décadas) os arquivos do PCUS encerram materiais de enorme valor para a compreensão do período em que o exército imperial alemão tentou esmagar a revolução desencadeada na Estónia, Letónia e Lituânia pela classe operária daquelas nações. Mais tarde, após a capitulação alemã, em Riga e Liepaja foram os fuzileiros navais da Inglaterra que reprimiram com violência a revolução depois do bombardeamento prévio a que os cruzadores de Sua Majestade submeteram os destacamentos de patriotas letões. Documentos relativos à oposição dos governos da França e dos EUA à independência das Repúblicas Bálticas (porque Clemenceau e Wilson acreditavam na derrota da Revolução de Outubro) fazem também parle do património do PCUS.

Por que os devassam hoje os investigadores do Governo da Federação Russa? Que conceito da democracia e da memória histórica é o de Boris Yeltsin?

Notas:

(1) In «O imposto em espécie», Lénine, «Oeuvres», Tomo 32, p. 381.

(2) In «Sobre a cooperação», Janeiro de 1923, «Obras Escolhidas», Lénine, Torno 5, pp. 360-365, Ed. «Avante!» – Progresso, Lisboa.

Edição Nº 195 - Nov/Dez 1991

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