Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Entrevista, Edição Nº 281 - Mar/Abr 2006

Batalhas eleitorais lançaram sementes novas

por Revista «O Militante»

Concluído com êxito um longo ciclo eleitoral que envolveu três consultas ao nosso Povo e a poucos dias do 85º aniversário do Partido Comunista Português, impunha-se que O Militante fizesse a sua primeira entrevista ao secretário geral do Partido, camarada Jerónimo de Sousa. Nesta longa conversa, conduzida, em nome da Redacção da nossa revista, pelos camaradas Aurélio Santos e Armando Pereira da Silva, foram abordados alguns dos temas e problemas, políticos e sociais, que  mais preocupam o Partido no seu conjunto, o povo português e a comunidade internacional. Apoiado na história do PCP e nas decisões e espírito de unidade e combatividade do XVII Congresso, o camarada Jerónimo de Sousa achou oportuno relembrar uma máxima interna, realista mas cheia de esperança, que continua a simbolizar o espírito de luta do colectivo partidário: «As derrotas não nos desanimam, mas as vitórias não nos descansam».O Militante – Acabámos de viver um período eleitoral. Qual a apreciação que o Partido faz sobre os resultados alcançados?

Jerónimo de Sousa – Para avaliar estes resultados, que são positivos, devemos ter em conta a realização e as conclusões do XVII Congresso. Foi um Congresso de grande afirmação do Partido, um Congresso que impulsionou o Partido, que lhe deu confiança para as batalhas eleitorais.



Logo três ou quatro dias depois desse Congresso a Assembleia da República foi dissolvida, pelo que tivemos de iniciar a pré-campanha das legislativas. A confiança que emanou do Congresso foi transmitida à dinâmica da pré-campanha eleitoral. E foi com muita confiança, com muita esperança, com o envolvimento de milhares de camaradas que conseguimos um bom resultado, invertendo a tendência dos últimos anos. Seguiu-se de imediato a batalha das eleições autárquicas e iniciou-se, também quase ao mesmo tempo, a das presidenciais. Subimos em todas as eleições – nas legislativas avançámos em votos, em percentagem, em número de deputados; nas autárquicas subimos em percentagem,  em número de votos, em número de câmaras municipais, sendo de realçar como de grande importância política o facto da CDU ter reconquistado a posição de primeira força na Área Metropolitana de Lisboa; e depois nas presidenciais, onde conseguimos quase dobrar a votação em relação a igual consulta popular anterior. E tendo como referência as legislativas houve um aumento significativo de votos na nossa candidatura, traduzindo-se num bom resultado.



O Militante – Poderemos falar em viragem?




Jerónimo de Sousa - Fechado o ciclo eleitoral, há uma ilação que devemos retirar: foi derrotada a tese, que circulava nos meios dos comentadores, dos analistas e doutras forças políticas, do chamado declínio irreversível do PCP. Foram três batalhas que travámos com êxito, em que o Partido cresceu, se afirmou eleitoralmente e tudo num quadro bastante complexo tendo em conta a situação nacional e internacional. Ninguém pode pretender iludir esta desmistificação e a derrota da tese do declínio irreversível ou do desaparecimento do PCP.



O Militante – Claro que toda esta evolução é uma das consequências positivas do XVII Congresso. Mas, sobretudo nestas últimas eleições, que importância atribuis a um fenómeno de que se falou bastante e que é o chamado «efeito Jerónimo de Sousa»?



Jerónimo de Sousa – Sejamos claros: o que sei de política devo-o ao meu Partido. Evidentemente que existem características pessoais que cada militante pode valorizar no exercício das suas diversas responsabilidades e creio que nesta batalha eleitoral das presidenciais de carácter uninominal cada candidato conta. Mas se alguma contribuição positiva foi dada, julgo ter grande validade aquela ideia de que a contribuição e as capacidades individuais são sempre um bem precioso para o reforço do colectivo. E confirmou-se que esta não foi a batalha de um homem só: há que não esquecer a participação e o empenho de muitos militantes, dirigentes e organizações do Partido no êxito desta batalha. A minha contribuição pessoal é a contribuição óbvia de quem pensa sempre que, com as suas capacidades, as suas qualidades, pode reforçar o nosso colectivo. Seria um profundo erro, uma grande incorrecção estar a desligar o homem do projecto, ou o militante do projecto já que, e insisto nesta ideia, o que sei no plano político, no plano ético, no plano moral e no plano revolucionário devo-o ao meu Partido. Se no plano pessoal se gerou simpatia, abertura para ouvir a nossa mensagem, vencimento de preconceitos, ainda bem, ganhou o Partido.



Trabalho fraccional parece estar arredado




O Militante – Temos estado a falar de bons resultados e de uma fase de recuperação do Partido. Esses resultados foram uma forte resposta a todos os que auguraram que o PCP estava em vias de desaparecer ou ficar residual no mapa político português, mas o simples facto de estarmos a falar  de «recuperação» demonstra que houve quebras acentuadas, sobretudo na década de noventa. A que se deveram essas quebras? Será que o problema está ultrapassado?



Jerónimo de Sousa – Não, o problema ainda não está inteiramente resolvido. São diversas as causas, particularmente a ofensiva, em curso, do grande capital e da direita, muito direccionada contra os trabalhadores e os seus direitos e contra diversas vertentes do regime democrático. No entanto, há outros factores, designadamente o trabalho fraccionista que durante anos foi levado a cabo por elementos que hoje já estão noutras forças políticas, que estão cada vez mais distantes, mas conseguiram, na altura, federar descontentamentos envolvendo bons militantes. Tudo enquadrado numa campanha colossal por parte de certos meios da comunicação, que gastaram quilómetros de fita e resmas de papel a promover esse trabalho fraccional. Claro que tudo isto produziu efeitos negativos e fragilização no seio, na acção e influência do nosso Partido. Voltando à pergunta: tendo em conta aquilo que se verificou no XVII Congresso e as próprias dinâmicas eleitorais, somos levados a considerar que hoje esse trabalho fraccionista está arredado, nota-se uma reaproximação por parte de alguns que, justa ou injustamente, tinham um capital de queixa em relação a este ou àquele acontecimento, a este ou àquele tratamento em termos de quadros. Aquilo que eu verifiquei por todo o país foi um movimento de reaproximação, deixando nós de contar definitivamente com aqueles que tanto mal fizeram ao Partido no seu trabalho fraccional. Creio ter-se verificado uma certa clarificação, reaproximações e auto-exclusões definitivas, permitindo-me dizer que hoje existe no Partido não só um bom ambiente mas também um sentimento muito forte de unidade e coesão.



O Militante – Segundo sabemos, uma campanha de novas adesões ao Partido tem acompanhado com sucesso estes resultados eleitorais. Já há números?



Jerónimo de Sousa – Depois das eleições legislativas, o Comité Central decidiu fazer uma campanha de recrutamento até ao aniversário do nosso Partido, ou seja até Março deste ano. Aquilo que hoje se pode dizer com segurança é que estamos em condições de atingir a meta de 2.500 novos recrutamentos e que nesta altura já estamos em cerca de 2150. E com uma característica muito importante: é que muitos dos recrutamentos são de jovens. Não estou aqui a contabilizar as filiações, as adesões à JCP, estou a falar só do Partido. Senti, nesta campanha, muitos jovens a aproximarem-se do Partido, a sentirem-se atraídos, às vezes até só para ouvir. Tenho a ideia de que, para além deste necessário reforço do Partido através de mais recrutamentos, também foram criadas novas condições para um alargamento desse mesmo recrutamento, ou, pelo menos, chegámos a muita mais gente, a muitos mais portugueses, a muitos mais jovens (e menos jovens) que se mostram disponíveis para nos ouvir e aceitar a nossa mensagem. Tivemos  nestas últimas eleições quase 40 mil votos mais do que nas legislativas e não é possível contabilizar as dezenas de milhar de portugueses que hoje, não tendo votado em nós por razões diversas, estão atentos e abertos à mensagem do Partido, o que é de facto um grande ganho. Se há um elemento importante nestas eleições sucessivas é o facto de termos, de certa forma, vencido muitos dos preconceitos que existiam na sociedade portuguesa em relação ao nosso Partido e ao nosso projecto.



As derrotas não nos desanimam, as vitórias não nos descansam




O Militante – Na presente, e muito complicada, conjuntura nacional e internacional, é de prever que o Partido vá passar por outros momentos difíceis. De que forma pode ele preparar-se para tais dificuldades e que medidas encaramos, certamente dentro da nossa orientação virada para as massas e para o reforço da organização, para ultrapassar esses momentos?



Jerónimo de Sousa – Nós costumamos dizer que as derrotas não nos desanimam, mas que as vitórias não nos descansam. E sendo verdade este bom ambiente, estes resultados eleitorais positivos, também é verdade que a situação política e social parece caminhar para o agravamento, já que ao fim de trinta anos a direita conseguiu eleger um Presidente da República, ao mesmo tempo que o governo do PS parece tender para o desenvolvimento de uma ofensiva económica e social inquietante. É uma situação contraditória: a ofensiva vai certamente acentuar-se, mas a verdade é que temos um Partido em condições de reforçar a sua acção, a sua intervenção e a sua organização. Quanto à pergunta, creio que a decisão do Comité Central, que resulta das decisões do próprio XVII Congresso, de encarar o ano de 2006 como o ano de reforço do Partido vai ser crucial para as batalhas que aí vêm. Existem perigos, mas existem também potencialidades. E, seja numa situação ou noutra, seja de resistência, seja de ofensiva, nós precisamos de um Partido preparado para os confrontos que, inevitavelmente, se vão dar. Seria um erro muito grande do Partido se este subestimasse o bom ambiente que existe. Estas batalhas eleitorais lançaram sementes novas que podem ir no sentido do reforço do Partido mas, simultaneamente, estarmos também preparados para os embates. E é com este sentimento aparentemente contraditório de sentir as ameaças e os perigos mas também as potencialidades de luta que  havemos de concretizar, com muita força, com muito empenho, com muita dinâmica, as decisões do nosso XVII Congresso reafirmadas nas decisões do Comité Central, continuando o trabalho que, entretanto, foi feito.



Vai haver um afunilamento



O Militante – Uma das conclusões que poderemos vir a tirar é que, depois das eleições presidenciais, temos o chamado «centrão» organizado no poder, o que exigirá uma resposta de classe. Haverá condições e forças para dar essa resposta?



Jerónimo de Sousa – Há sectores na sociedade portuguesa que ainda estão numa posição muito expectante em relação àquilo que Cavaco Silva possa fazer como Presidente da República. Mas, olhando para os seus objectivos e o seu pensamento, verificamos que no plano estruturante, em termos de economia, de política social, em termos de política europeia, em termos do entendimento do mundo, não há diferenças substanciais entre Cavaco Silva e Sócrates. Isto tenderá, com o apoio do capital nacional e internacional, a sedimentar e assegurar esse bloco central ou esse «centrão» indissociável do bloco central de interesses, porque o problema não é só um problema político – o grande capital, o sector financeiro, os grupos económicos estão neste processo. Isso permite tirar uma conclusão: no plano institucional vai haver um afunilamento, vai haver entendimento ao mais alto nível entre o PS e o PSD, designadamente em relação ao regime democrático, por exemplo quanto às leis eleitorais; no plano económico em relação às privatizações; no plano social em relação à manutenção das precariedades, contra o direito à saúde, ao ensino e à Segurança Social, a uma submissão maior perante as orientações da União Europeia. Isto significa que, numa perspectiva de agravamento da situação económica e social, vai ter de desenvolver-se uma linha de massas. O Partido, com base no saber de experiência feito ao longo da sua história, vai ter de agir e intervir nos problemas concretos, nos anseios e aspirações dos trabalhadores, do nosso povo – digo trabalhadores, sem esquecer outros sectores e camadas sociais importantes que vão sofrer as consequências dessa política. É evidente que poderemos manter uma linha muito forte de intervenção nas instituições, designadamente na Assembleia da República, no Parlamento Europeu, também nas autarquias, apoiando e reforçando essa linha de massas. Trata-se de trabalhar e agir com o que foi a chave do segredo do Partido ao longo da sua história: estar com o povo, estar com os trabalhadores, intervir na resolução dos seus problemas e lutar pelos seus anseios concretos. Este é o alicerce para avançar com a luta e com o nosso projecto de transformação social.



Direitos dos trabalhadores não são separáveis da democracia




O Militante – O Partido tem muitas vezes falado, e tu referiste-o nesta campanha eleitoral, da necessidade de uma ruptura democrática para uma alternativa política real. Algumas das linhas prioritárias de alternativas políticas ou de políticas alternativas consideradas para essa ruptura democrática podem ter a ver com a questão do défice – que é uma questão a encarar devidamente –, com a questão das políticas económicas e também com as funções do Estado. Que propostas tem o Partido nesse sentido, mais concretamente para se mudar o rumo da vida política?



Jerónimo de Sousa – Nós, a par do combate contra esta política de direita que tem efeitos nefastos na vida do país e do povo português, para além desta posição de resistência e de luta somos também um partido de proposta, que se reflecte quando propomos uma ruptura democrática de esquerda, ou seja uma política diferente assente em cinco eixos centrais, designadamente no plano da democracia política, do respeito pelas liberdades, pelo pluralismo, pelos princípios da proporcionalidade, do respeito e desenvolvimento da democracia participativa; no plano económico defendemos claramente uma alteração de rumo na política económica que tem vindo a ser realizada, designadamente parando com as privatizações, parando com a destruição dos serviços públicos e das funções sociais do Estado, propondo a defesa e modernização do nosso aparelho produtivo, da nossa produção nacional. Continuamos a considerar os direitos dos trabalhadores uma questão intrínseca à própria democracia; assumimos que o Estado deve ter responsabilidades particulares no que concerne o desenvolvimento da justiça social em áreas como a saúde, a segurança social, o ensino e a cultura; temos uma outra postura que não a desta União Europeia pró-federalista, conduzida por orientações neoliberais. Defendemos o primado do interesse nacional, recusando a submissão perante as medidas económicas, o chamado Pacto de Estabilidade e Crescimento, que está a estrangular a nossa economia. É claro que a política que conduziu a este estado de coisas é responsável pela actual situação de estagnação. O fixismo e a sacralização do défice das contas públicas parece ser para o Governo um problema central. Nós consideramos que não deve ser assim. A questão central é o crescimento económico; o problema do défice, sendo um problema, não é o problema nacional. As coisas não se resolvem atacando tão só pelo lado da despesa. Nós temos outro ponto de vista: fundamentalmente o que é preciso é atacar pelo lado do aumento das receitas, o que pressupõe o tal crescimento económico, a defesa do nosso aparelho produtivo, concretamente a defesa da nossa indústria, das nossas pescas, da nossa agricultura, sectores que hoje estão a ser assolados por políticas liquidacionistas. Esta ideia do crescimento e do combate pelo lado das receitas parece-nos ser crucial. Porque o Governo fala muito do défice das contas públicas quando, do nosso ponto de vista, existem outros défices tão graves como esses, designadamente o défice da balança comercial, o défice energético, o défice agro-alimentar. Do que o nosso País precisa como de pão para a boca – passe o termo – é de defender, modernizar o nosso aparelho produtivo e a nossa produção nacional. Nesse sentido, temos uma proposta que não se fica apenas pela exigência de ruptura; pretende que Portugal se encaminhe para o desenvolvimento económico, para o progresso e para a justiça social.



Não se pode meter tudo no mesmo saco




O Militante – Muitas vezes a crise é utilizada como pretexto para retirar direitos, agravar as condições das massas populares e dos trabalhadores Mas também tem sido uma forma de produzir uma campanha contra o regime democrático. Como é que o Partido encara essa campanha, campanha também contra os partidos, e toda esta ofensiva no sentido, que já começa a aparecer, de mudança de regime?



Jerónimo de Sousa – Esse esforço de teorização acentuou-se, particularmente nesta batalha das presidenciais, tendo em conta a forma como alguns candidatos se posicionaram e como o poder económico desenvolveu algumas teorias contra os partidos ou acima dos partidos. É evidente que existe aqui um claro equívoco. Os partidos têm uma natureza e um conteúdo de classe e o capital que os promove e financia pode considerar que não precisa dos seus partidos para lhe cumprir os objectivos, que qualquer governo o pode fazer. Obviamente que, sendo assim, está a pensar no partido da classe operária e dos trabalhadores, no Partido Comunista Português. Procura-se deste modo inculcar, mesmo em alguns sectores que se afirmam de esquerda, a ideia de que os partidos estão ultrapassados, que os partidos estão envolvidos em corrupção, que os partidos hoje procuram apenas manter o poder e os lugares, enfim, que «são todos iguais». Misturam tudo, metem tudo no mesmo saco para alterar o regime democrático. Vejamos por exemplo, quanto às leis eleitorais, a criação dos círculos uninominais. Aprovando-se esta alteração, estar-se-ia a valorizar mais a pessoa que iria concorrer do que o partido. Pensamos que esta é uma via perigosa e nem precisamos de consultar a história da primeira República. Os partidos que são fundadores do próprio regime democrático, que são parte intrínseca do regime democrático, nem sequer são contraditórios, antes pelo contrário, com a existência, o funcionamento e a acção dos movimentos e organizações sociais de massas. Não é por acaso que a nossa Constituição refere a democracia representativa e a democracia participativa. Portanto,  quem procura aqui encontrar uma questão dilemática tem vistas curtas em relação ao próprio regime democrático. Mas, consultando as teses dos fazedores de opinião essa linha vai acentuar-se, visando particularmente as leis eleitorais e a configuração do próprio regime.



O Militante – Não será o anticomunismo uma das causas do bloqueio que existe para uma alternativa democrática, isto é, a campanha que há para negar ao Partido Comunista Português a capacidade de governar assim  como o seu estatuto de partido necessário para uma alteração da política governamental?



Jerónimo de Sousa – A vida está a demonstrar que o Partido Comunista Português assume um papel ímpar, insubstituível na sociedade portuguesa, não só pela sua influência eleitoral e pela sua influência social, mas pelo seu próprio projecto e pelas suas propostas. É evidente que o anticomunismo continua, apesar dos avanços na luta contra muitos preconceitos. A verdade é que os centros de decisão do capital não querem, por razões de classe,  permitir a contribuição democrática e patriótica que o nosso Partido estaria pronto a dar no quadro duma alternativa de esquerda. Por razões de defesa dos seus próprios interesses e privilégios vêem no PCP um perigo. Mas o que se trata de saber, e esta é uma questão-chave, é se o nosso povo, se o nosso país não beneficiariam da participação de um partido que, com base no seu projecto, com base na sua luta, com base na sua influência e nas suas propostas, estaria em condições de integrar um governo de esquerda.

Eu falo do grande capital, mas esta concepção do grande capital tem reflexos na própria concepção anticomunista, designadamente no PS que continua, no plano das alianças políticas, a fazer uma opção de direita com o PSD, abrangendo diversos domínios da vida política portuguesa. Por exemplo, na questão das leis eleitorais, das revisões constitucionais, da partilha de lugares nas empresas públicas, na partilha de lugares em termos de órgãos de comunicação social.



Movimentos inorgânicos não podem substituir os partidos




O Militante – Esta campanha de descrédito contra o regime democrático, o que contém? Como responder-lhe? E quanto aos movimentos inorgânicos?




Jerónimo de Sousa – A causa fundamental desse descrédito são as políticas realizadas e as promessas não cumpridas pelos partidos que se alternam no poder. Mas não existe uma crise de democracia. A crise resulta duma política concreta e de políticos e partidos políticos concretos, e é este o nó da questão. Nós consideramos que o projecto de democracia, do regime democrático consagrado na Constituição, continua a ter grande actualidade e validade. Mas aqui o problema dos partidos tem a ver, de facto, com a política que estes mesmos partidos realizaram durante 30 anos.

É importante lembrar que o regime democrático consagrado na Constituição não se esgota na democracia representativa. Também existe a dimensão participativa dessa mesma democracia. O nosso Partido, tal como defende a existência, a acção e a intervenção das organizações sociais de massas, defende a existência, a acção e a intervenção de movimentos sociais. Eles não são contraditórios com a acção e a intervenção dos partidos políticos. É evidente que, com estas eleições presidenciais, com Cavaco Silva supostamente acima dos partidos (mas nós sabíamos que era apoiado por toda a direita, política e social), com o movimento que se levantou e se construiu em torno da candidatura de Manuel Alegre,  movimento que, diga-se de passagem, não foi assim tão inorgânico como isso, criou-se a ideia de que era possível encontrar as soluções fora dos partidos em torno de causas. E se nisto pode não haver contradição, seria mau para a democracia que tais movimentos inorgânicos se quisessem substituir aos partidos políticos. Não é uma má solução, é sim uma falsa solução, porque o problema está nas políticas, na natureza de classe dessas mesmas políticas.



Não deixa de ser curioso que estas questões dos movimentos de cidadania têm um carácter abstracto, negando a natureza de classe dessas políticas e desses partidos que têm governado o país. Considero por tudo isto que é um mau serviço prestado à democracia alimentar a ideia de que esses movimentos inorgânicos poderiam substituir de alguma forma os partidos políticos. Pela parte que nos toca, o PCP, partido de facto independente do poder económico, partido que tem uma natureza de classe, consideramos que isto deve ser desmistificado, até porque nem sequer é novo. Em certos momentos da vida política em democracia já existiram diversas tentativas, sempre disfarçadas de movimentos de cidadania, mas comportando na prática um projecto político, só que liberto das grandes questões e opções de classe que hoje opõem o nosso Partido a outros, opõem o nosso Partido ao grande capital.



Vamos acompanhando os desenvolvimentos, insistindo sempre nesta ideia: o nosso Partido considera que a democracia representativa e participativa comporta a existência fundamental dos partidos e simultaneamente das organizações dos movimentos sociais de massas que, em torno de questões e causas concretas, desenvolvam a sua acção e a sua luta.



O Militante – Como avalias a situação internacional e a actividade do Partido a esse nível?




Jerónimo de Sousa – Há uma situação carregada de contradições! Por um lado surgem perigos e ameaças que decorrem dos objectivos estratégicos do capitalismo e do imperialismo e da sua natureza predadora e insaciável conducente ao aumento da exploração e opressão dos povos e países, à agressividade militarista. Por outro, os trabalhadores e os povos em diversos pontos do planeta resistem, lutam e conquistam posições no plano social, político e eleitoral. Sublinhe-se que no plano ideológico a actual campanha anticomunista não é só tal ou tal afloramento localizado mas antes surge com nova dimensão e articulação. O exemplo do Projecto de Resolução levado à apreciação da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa constitui um passo adiante na ofensiva anticomunista. Por cá, abundam as publicações, teses, escritos, claramente articulados com esta ofensiva. A tentativa de «criminalizar» o comunismo e a sua ideologia é inseparável do actual quadro de agudização da crise do capitalismo, da incapacidade de resolver os problemas e contradições que gera, usando-a para dar corpo a um salto qualitativo na repressão dos trabalhadores e dos povos e das forças mais consequentes e empenhadas na sua defesa. Mas esta perigosa campanha também revela fraqueza e medo de que os ideais dos partidos comunistas e forças de esquerda mantenham e alarguem o seu poder de atracção entre os que sofrem a dominação e a exploração capitalistas. Fizemos recuar as pretensões dos subscritores dessa Resolução mas há que continuar a agir.  O PCP nesta e noutras questões internacionais tem tido um importante papel através das relações bilaterais e multilaterais com partidos comunistas e forças progressistas, construindo e potenciando convergências em torno de causas e objectivos. Somos hoje uma referência em muitos países e junto de muitos partidos. Digamos que não temos é possibilidades humanas e financeiras para corresponder a tanto convite que nos é feito. De qualquer forma também consideramos como fundamental o princípio de que a nossa luta nacional, os nossos êxitos, o reforço do nosso Partido é condição fundamental para o desenvolvimento da nossa acção e solidariedade internacionalista.



Temos em Portugal uma central sindical única na Europa




O Militante – De facto, o Partido tem uma grande experiência e tradição de valorização dos movimentos de massas iniciados com vários interesses e por camadas da população com objectivos mais concretos, designadamente no movimento sindical.

Nessa perspectiva, como se desenvolve a acção do Partido também nessas áreas e que papel tem a CGTP neste aspecto da luta social?




Jerónimo de Sousa – É conhecida a grande influência que o nosso Partido continua a ter no movimento operário e sindical. Não por se tratar de uma qualquer decisão do Comité Central, mas por decisão dos próprios trabalhadores que elegem muitos comunistas para as Comissões de Trabalhadores e nos diversos níveis do movimento sindical, desde a empresa ao sindicato e à sua central sindical. Nós temos em Portugal uma central sindical ímpar no quadro europeu e, porque não dizê-lo, no contexto mundial. As suas características unitárias, democráticas, de massas, de classe e a sua autonomia são de facto uma grande construção, uma grande obra dos trabalhadores portugueses. Os variados aspectos da ofensiva em curso (veja-se o novo Código de Trabalho, mas também os factores das precariedades, das inseguranças, dos despedimentos, das deslocalizações, a falta de democracia dentro das empresas) reflectiram-se naturalmente no movimento sindical, na sua dimensão, na sua luta, mas é notável que esta CGTP, apesar de toda a ofensiva, apesar de todas as dificuldades, continue a ser uma grande central sindical com filiações novas, com novos sindicatos a aderir à CGTP, não só sindicatos operários mas de serviços e sindicatos da área da administração pública. Continuamos a valorizar muito o papel que a CGTP e o movimento sindical unitário tiveram, têm e terão, tendo em conta os problemas que atingem os trabalhadores. É claro que o movimento sindical não se substitui aos partidos, mas o seu papel será sempre decisivo para fazer frente a esta ofensiva e  travar, ao lado de outros movimentos de massas e com o nosso Partido, uma luta por melhores condições de vida e de trabalho dos trabalhadores, pela defesa dos direitos, pela defesa dos salários, pela defesa do emprego, pela defesa dos serviços públicos. Creio que, aqui também, o movimento sindical, com a sua CGTP, é capaz de levar por diante a tarefa de prosseguir a luta por um Portugal mais justo, por um Portugal menos assimétrico, por um Portugal independente e desenvolvido valorizando o trabalho com direitos, agindo, organizando e lutando a partir dos locais de trabalho. E nesse sentido, nós contamos com o movimento sindical e damos uma grande importância ao seu papel.



O Militante – O PCP afirma sem embustes a sua condição de partido de classe. Os outros também o são, mas escondem-no, são de outras classes que não as classes trabalhadoras. Agora, sendo o Partido da classe operária e de todos os trabalhadores, hoje o PCP é um partido que tem um plano de alianças sociais. Quais são essas alianças sociais que prevemos para desenvolver e para responder aos problemas nacionais, criando, de facto, no país uma nova situação, ou que tradução política podem ter? É uma questão mais abstracta no imediato, mas deve ser considerada por um partido que tem uma perspectiva não imediatista de desenvolvimento revolucionário.



Dificuldades não são impossibilidade




Jerónimo de Sousa – Nós, ao longo da nossa história sempre nos afirmámos um partido com uma identidade, uma natureza e uma ideologia de classe. Sempre fomos e continuamos de facto a ser um partido da classe operária e de todos os trabalhadores. Mas nunca subestimámos as alianças sociais básicas, designadamente com os intelectuais e os quadros técnicos, os micro, pequenos e médios empresários, os agricultores e outras classes e camadas antimonopolistas. Consideramos que se conseguirmos o desenvolvimento de tais alianças sociais estaremos em condições de construir uma política alternativa e a alternativa política. Valorizamos muito a luta da classe operária e de todos os trabalhadores, mas julgamos indispensável para uma alternativa de esquerda o papel que os intelectuais e os quadros técnicos, que a juventude, as mulheres, os pequenos e médios empresários e os agricultores possam ter nesta perspectiva de um futuro diferente para Portugal, aliás bem reflectido no projecto de Abril que a Constituição da República consagrou.



O Militante – Há pelo menos duas décadas que as pessoas são massacradas com teses perturbadoras sobre o fim da história e a derrocada das ideologias. No mesmo período assistimos ao desmoronar da União Soviética, com todas as suas dramáticas consequências e sequelas, e às transformações objectivas das condições sociais e alterações na natureza dos meios de trabalho da classe operária. Em suma: razões apontadas como definitivas para justificar a passagem de atestados de óbito a partidos como o nosso. É evidente que tudo isto causou perturbações, e muitas, noutros partidos e nós também não ficámos ilesos nem imunes. Quanto às teses sobre o fim das ideologias, o fim da história, isso é mais ou menos passado. Mas as consequências  sobre a evolução dos partidos... Estaremos nós a ultrapassar o vendaval e a reencontrar a forma de comunicar quer com os trabalhadores quer com a sociedade que, afinal, a história move-se... e continua?



Jerónimo de Sousa – Nós temos por princípio acompanhar o desenvolvimento das leis objectivas que confirmam que não há um fim da história – mas a nossa posição é a de não nos limitarmos a ficar numa posição de expectativa. Temos de agir, trabalhar, lutar para transformar. Enquanto alguns consideraram que dificuldades significavam impossibilidade, nós assumimos a posição contrária. Temos orientações e decisões suficientemente criativas e audaciosas para atingirmos os objectivos que nos propusemos. Este partido pode crescer, pode reforçar-se, este partido pode revalorizar o seu papel insubstituível na sociedade portuguesa, assim saibamos nós com essa confiança, com audácia, seguir o caminho que o nosso XVII Congresso nos indicou. Não se trata de optimismo histórico.

De facto, é a história, bem viva, que fala por nós. No mundo e aqui mesmo, um pouco por todo o País.



O Militante – É com esse sentido que vamos comemorar o octogésimo quinto aniversário do Partido?



Jerónimo de Sousa – Sim. Valorizando sua história, demonstrando a validade e actualidade do seu projecto, natureza e ideologia. Fazendo balanço, mas olhando para a frente concretizando tarefas e objectivos deste ano de reforço do Partido. Com memória, mas com mais projecto!