Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

PCP, Edição Nº 282 - Mai/Jun 2006

Para um PCP mais forte estudar e generalizar as experiências positivas

por Revista o Militante


No quadro da aplicação das orientações do XVII Congresso e das decisões do Comité Central, O Militante organizou uma mesa-redonda com camaradas com particulares responsabilidades no desenvolvimento do trabalho para o reforço do Partido. As ricas experiências já acumuladas serão certamente de grande interesse para todo o colectivo partidário e para suscitar ainda mais iniciativa na concretização desta importante e urgente tarefa.
Participaram na Mesa-redonda os camaradas Armindo Miranda (AM), membro da Comissão Política e responsável pela Organização Regional de Setúbal, Jaime Toga (JT), membro do Comité Central e do Executivo da Direcção da Organização Regional do Porto, João Frazão (JF), membro da Comissão Política e responsável pela Organização Regional de Aveiro e Margarida Botelho (MB), membro da Comissão Política e responsável pela Organização Regional de Coimbra.
Participaram na Mesa-redonda os camaradas Armindo Miranda (AM), membro da Comissão Política e responsável pela Organização Regional de Setúbal, Jaime Toga (JT), membro do Comité Central e do Executivo da Direcção da Organização Regional do Porto, João Frazão (JF), membro da Comissão Política e responsável pela Organização Regional de Aveiro e Margarida Botelho (MB), membro da Comissão Política e responsável pela Organização Regional de Coimbra.
Na sequência do XVII Congresso e da campanha «Sim é possível um PCP mais forte!», o corrente ano em que celebramos o 85.º aniversário do PCP foi considerado pelo CC «ano de reforço do Partido».

Em termos muito gerais como se está a concretizar este objectivo nas vossas OR’s? Que principais experiências e resultados são de salientar?



AM – No geral está a correr muito bem a concretização das decisões tomadas pelo Comité Central. Há muitos anos que não era feita uma discussão em todo o Partido com esta profundidade, tão abrangente e envolvendo um conjunto tão grande de militantes do Partido. Tem uma importância estratégica com muito significado que esta discussão esteja a ser feita não apenas para dar resposta a necessidades e dificuldades do nosso trabalho no imediato, identificadas durante a preparação do XVII, mas também a pensar na luta que o Partido vai continuar a travar pela alternativa política para o país e para a qual vai ser necessário um partido organizado e com grande intervenção política. De valorizar o esforço que está a ser feito para ver a aplicação deste conjunto tão grande de medidas de forma integrada no trabalho de direcção e organização do Partido.

São de salientar as seguintes experiências e resultados. O conjunto dos recrutamentos já concretizados, no seguimento do notável êxito conseguido com a campanha que terminou no final de Março e o facto de uma percentagem significativa terem sido recrutados dentro das empresas. Importante também o aumento significativo do número de camaradas com tarefas distribuídas nos organismos de direcção assim como, a responsabilização de várias dezenas de jovens quadros que, em conjunto, perspectivam um consistente reforço da nossa organização.



MB – Na Organização Regional de Coimbra o maior avanço que demos foi ao nível da discussão e da compreensão destas questões. Apesar das dificuldades e atrasos, é muito importante que sejam as organizações a definir como fazer funcionar determinada organização, se é necessário agrupar os militantes, como chegar àquela empresa. Ainda não conseguimos fazer esta discussão em todo o lado.

Saliento a questão do levantamento dos membros do Partido trabalhadores por conta de outrem com menos de 55 anos. Por um lado, porque nos permitiu objectivar realidades da nossa organização. Por exemplo: das 20 empresas que definimos como prioritárias, só numa é que não temos nenhum militante do Partido (embora haja da JCP). Não quer dizer que esteja resolvido o problema da nossa influência, mas exige-nos mais sistematização do trabalho. Por outro lado, das conversas que já fizemos com os camaradas para se ligarem ou transferirem para as organizações a partir das empresas e locais de trabalho, e não foram muitas, o resultado é muito positivo, ainda nenhum camarada recusou, e muitos receberam a proposta com agrado.



JF – Em primeiro lugar quero salientar que fazemos esta conversa poucos dias após a realização da VI Assembleia da Organização Regional de Aveiro. Esta Assembleia, é também resultado dessa decisão do CC. Quero com isto dizer que admito que, não fosse a decisão do CC, a pressão dos diversos actos eleitorais a empurraria mais para diante. E apesar de pensar que um dos nossos problemas é o de esta discussão ainda não estar suficientemente disseminada na organização do Partido, a todos os seus níveis, estamos agora a dar passos muito importantes. Saliento só o facto de várias organizações do Partido não terem inicialmente entre os seus objectivos a realização da sua Assembleia e de entretanto a terem já decidido ou até realizado.



JT – O Partido atravessa um bom momento. No plano interno, a disponibilidade para as tarefas, os comícios e as iniciativas do Partido com muita participação de camaradas, as assembleias de organização e a adesão de muitos homens e mulheres ao Partido são o espelho de um Partido mais forte.

No plano externo, a simpatia, o respeito e o reconhecimento do papel do PCP na defesa dos interesses da população e dos trabalhadores tem aumentado. Estes são factores importantes para o aumento da nossa influencia e para o reforço do Partido.



Vivemos um bom momento no Partido e é patente o clima de simpatia e respeito pelo PCP que, em geral, se respira no nosso contacto com os trabalhadores e as populações. Este facto está a ser devidamente considerado pelas organizações para alargar as fileiras do Partido e implantá-lo (e reforçá-lo) em novas empresas, locais e trabalho e localidades? Como se desenvolve o recrutamento de novos membros para o PCP?



MB – Da experiência que tenho, o recrutamento em geral ainda é muito baseado na vontade dos novos militantes, que pedem para se inscrever. Isto só mostra que há um campo larguíssimo de progressão e de reforço do Partido.

Temos comparativamente poucos (mas bons) exemplos de recrutamento mais dirigido, particularmente por parte de camaradas no movimento sindical, que estão atentos a quem se destaca, se identifica connosco, e a quem acabam por convidar para entrar para o Partido. Esta é uma linha de trabalho fundamental.

Também vão existindo casos em que as organizações locais levantam nomes de pessoas a convidar, logo com a ideia de tarefas que vão poder ter. Nestes casos, o trabalho unitário que se conseguiu em torno das listas para as autárquicas tem sido uma fonte muito importante de recrutamento.

A edição do folheto central, dizendo «É tempo de agir, adere ao PCP» foi muito útil e houve organizações que o distribuíram massivamente à porta de empresas prioritárias, ou durante vendas do Avante!. Ainda não tivemos respostas, mas a avaliação que fizemos é que valeu muito a pena este «atrevimento» de ir convidar os trabalhadores para aderirem ao seu Partido.

Temos grandes atrasos na integração dos novos recrutados, em dar-lhes tarefas. Num balanço que fizemos recentemente, detectámos que a maior parte ainda não as tem, mas que praticamente todos os que organizámos por sector ou empresa, têm ou estão ligados de alguma forma.

Queria dar o exemplo de uma organização que re-nasceu praticamente de um recrutamento: a Pampilhosa da Serra é um dos concelhos mais deprimidos e isolados do país, e o Partido tem muitas dificuldades de intervir, de ir lá, de ter contacto até com os militantes. A partir da inscrição de um jovem, ainda não há um ano, estão a dar-se os primeiros passos para criar uma organização: esclareceu-se no fundamental a situação dos militantes, inscreveram-se outros três jovens, fizeram-se algumas reuniões, pagaram-se quotas, decidiu-se fazer um comunicado sobre a floresta e os incêndios… passos muito simples, muito frágeis, mas que representam naquele contexto criar, de facto, Partido onde não existia.



JT – No Porto, por estarmos no distrito do país com maior índice de desemprego, onde a precariedade laboral é elevada, os salários inferiores à média nacional e os direitos contratuais são violados diariamente, as lutas dos trabalhadores encontram grandes dificuldades às quais o Partido não fica indiferente.

Reforçar o PCP é essencialmente reforçar a sua organização junto da classe operária e dos trabalhadores.

A participação de jovens trabalhadores da EMEF (sector ferroviário) do Porto na manifestação do dia nacional 28 de Março (1 autocarro), assim como na concentração nacional dos trabalhadores junto ao Conselho de Administração, a 6 de Abril e anteriormente a eleição de jovens para as ORT’s é o reflexo do recrutamento, organização e responsabilização de jovens para o Partido nos locais de trabalho.



JF – É verdade que vivemos um bom momento a nível nacional e também o é na região de Aveiro. O ambiente é claramente favorável ao Partido, e à nossa intervenção. O ano de 2005 foi o melhor dos últimos cinco em recrutamentos. Em Janeiro definimos uma meta de 75 novos recrutamentos, que actualizámos para 100, tendo-a superado. Desde a Assembleia temos já recenseados mais cinco recrutamentos. Desses novos membros do Partido estamos a procurar contactar individualmente os que trabalham em empresas prioritárias para, a partir deles, desenvolver trabalho dirigido para elas, o que representaria um passo que consideramos muito importante. O Partido deixará de ir lá só distribuir documentos nacionais, passará a ter com eles a relação de proximidade de lhes falar dos seus problemas específicos. Creio que a maior dificuldade está em fazermos listagens de trabalhadores que se destacam para lhes ir propor a adesão ao Partido. Até agora estamos a falar dos que vêm espontaneamente ao Partido. E eu poderia mesmo referir aqui o caso de uma grande empresa, com trabalho regular do Partido, de que temos uma lista de trabalhadores para contactar, mas já passaram duas reuniões e isso não foi feito.



AM – O bom ambiente de facto existente não está a ser aproveitado em toda a sua dimensão pelas organizações do Partido porque, resulta essencialmente das decisões tomadas no nosso Congresso e dos resultados eleitorais conseguidos nas eleições que se lhes seguiram. Entretanto, as dificuldades identificadas nesse mesmo Congresso, no nosso trabalho de organização, não desapareceram e continuam a ser em muitos casos bloqueios ao desenvolvimento do trabalho das organizações. No entanto há avanços significativos nomeadamente no reforço do Partido nas células do Partido nas empresas e locais de trabalho onde o recrutamento é feito essencialmente de forma orientada e em alguns casos dão origem à própria célula.



Entre os 2700 novos recrutamentos realizados desde Janeiro de 2005, mais de mil têm menos de 30 anos de idade e a sua boa integração orgânica é da maior importância. Podes comentar brevemente a atenção que está a ser dada a esta tarefa assim como ao trabalho do PCP voltado para a juventude e a ajuda ao fortalecimento da JCP?



JT – Na campanha de recrutamento de 2500 novos membros que realizamos até ao 85.º aniversário, dos cerca de 350 recrutamentos do Porto, 141 tinham menos de 30 anos. Já este ano inscreveram-se 32 camaradas com menos de 30 anos. Com regularidade aparecem nos centros de trabalho jovens que querem conhecer mais do Partido, que querem aderir ao PCP.

Este é também reflexo do «bom momento» que será confirmado com a dinâmica em torno do 8.º Congresso da JCP que se realiza no distrito e para o qual a Direcção Regional do Partido dará o seu contributo e o seu empenhamento.

A integração e a responsabilização destes jovens é uma preocupação que existe e se tem reflectido na constituição de organismos aos mais diversos níveis de responsabilidade: metade da Comissão Executiva da Direcção Regional tem menos de 35 anos.

Nas várias assembleias realizadas desde Novembro, foram responsabilizados (ou mais responsabilizados) 74 jovens em organismos de direcção ou outras tarefas, quando o objectivo até ao fim de 2006 é responsabilizar 120 jovens. Muitos deles com pouco tempo de Partido mas com muita disponibilidade e com muita vontade de assumir tarefas.



AM – Em Setúbal estamos ainda atrasados nesta componente tão importante do nosso trabalho, ou seja a integração orientada dos jovens militantes. É certo que muitos estão a ser integrados e a assumir tarefas em muitos casos de grande responsabilidade. Há mesmo casos em que os jovens, nomeadamente militantes da JCP, passam a ser o elemento impulsionador da actividade dessas organizações. Mas temos condições para melhorar bastante a acção junto da juventude, fizemos uma discussão no Executivo da Direcção Regional e as conclusões apontam nesse sentido.



JF – Na nossa VI Assembleia decidimos dar uma particular atenção a esta tarefa. Apesar do elevado numero de recrutamentos de jovens, há que reconhecer que não temos um trabalho dirigido muito profundo. Reconhecemos na Assembleia a falta de um plano de trabalho que aponte no sentido de informação, esclarecimento e recrutamento de jovens para o Partido. E foi por isso que apontámos para uma acção coordenada com iniciativas temáticas, documentos específicos direccionados para os problemas concretos dos jovens, junto das empresas e locais de trabalho, associações juvenis, e colectividades.



MB – Queria acrescentar um aspecto: a grande ajuda que a JCP dá ao reforço do Partido, prestigiando o projecto comunista entre a juventude, formando quadros, dinamizando lutas.



Razões de ordem diversa conduziram a significativos recuos da organização do Partido nas empresas e locais de trabalho pelo que o reforço do Partido aí é uma prioridade do esforço de organização em que estamos empenhados. Como se desenvolve o trabalho nesta direcção? Há experiências que queiras sublinhar?



JF – Esta era a área em que era mais gritante o atraso do Partido no distrito. Ali, em Aveiro, estamos a falar de cerca de 300 mil trabalhadores assalariados, cerca de metade dos quais na indústria. Estamos a falar de dezenas de empresas e locais de trabalho, com centenas de trabalhadores cada um. Na indústria, e nos serviços. Falamos de uma realidade que inclui sectores com um peso determinante no plano nacional e até mundial. Por exemplo, no concelho de Santa Maria da Feira produz-se cerca de 80% da cortiça a nível mundial. Mas estamos também a falar de uma realidade que tem hoje um rosto já diferente do que teve há poucos anos atrás. As deslocalizações, os encerramentos de empresas, os despedimentos em massa fazem-se sentir com muita intensidade.

É neste quadro que se desenvolve a acção do Partido. A organização do Partido, essa apresenta grandes debilidades. A partir das forças que temos, procurámos sempre garantir a presença do Partido, nomeadamente com a distribuição de propaganda á porta das empresas. Durante um tempo editámos o Alerta!, boletim do Organismo de Empresas. Entretanto sabemos ser essencial a existência, a par da preocupação e discussão em todo o Partido, de uma estrutura de direcção que  acompanhe, discuta, dirija e faça o controle de execução desta tarefa.

E é a partir deste entendimento que eu creio que a mais importante experiência a relatar é a da definição do Organismo de Empresas, com uma forte composição, que está a reunir com uma regularidade mensal. Na Organização Regional de Aveiro destacámos um funcionário para realizar, quase em exclusivo, esta tarefa. Contamos depois com outros quadros funcionários que acumulam essa tarefa com outras e com outros quadros, do movimento sindical e das empresas.

Desde a reunião do CC de Novembro há passos a registar. Há células que funcionaram. Fizeram reuniões e avançaram com trabalho. Embora em fases muito diferentes, que talvez não tenhamos tempo para aprofundar posso referir algumas, num relato felizmente não exaustivo. A célula da CACIA (ex-Renault), que já fez dois boletins, a da Yazaki com trabalho e presença regular na empresa, a dos comunistas do sector corticeiro, que já conseguiu fazer uma reunião, o que consideramos positivo. Criámos um organismo de professores que está reunir regularmente.

Como objectivos definimos a realização de reuniões regulares (mensais) onde houver militantes, bem como a edição de documentos específicos com uma periodicidade trimestral para cada uma das empresas prioritárias. Nos casos onde não temos qualquer militante decidimos procurar «pontas» para estabelecer contactos regulares, para conhecer a realidade das empresas e podermos ter ligação aos trabalhadores.



AM – Nesta primeira fase, a discussão sobre a importância desta tarefa para todo o Partido foi o factor prioritário e essencial, até para não voltar de novo a ser apenas isso, mais uma abordagem do problema, como tantas outras feitas no passado. E por isso mesmo, a acompanhar as decisões tomadas, são definidas as formas de verificar a sua concretização. Os resultados estão já a surgir, o Partido já está mais forte nas empresas e locais de trabalho e, podemos mesmo afirmar que alguns desses avanços são base de partida para novos saltos na ligação aos trabalhadores e à sua luta por melhores salários e  condições de trabalho. Um muito bom exemplo é a célula da Autoeuropa, cujo alargamento em militantes e reforço do seu trabalho de direcção e ligação aos trabalhadores deixam antever um aumento significativo do prestígio do Partido na empresa.



MB – Temos no distrito de Coimbra uma experiência muito interessante, que precisamos de alargar, de trabalho à porta de algumas empresas, de procurar «pontas», de procurar assuntos sobre os quais intervir. Num caso que já veio referido no Avante!, a Davion, em Oliveira do Hospital, onde o patrão usa as formas mais primárias de repressão, onde dinamizou um abaixo-assinado das operárias contra o Partido (e onde 50 não assinaram, o que é notável!) – nessa empresa, pela acção do Partido através de comunicados, de um requerimento no Parlamento, a verdade é que aquelas operárias estão neste momento a cumprir as 8 horas. E o Partido é muito bem recebido à porta, confiam. Mas o fundamental para nós é encontrar forma de estar «lá dentro» das empresas, diariamente.



JT – De positivo na região quero destacar a criação da célula do Partido na Câmara Municipal de Matosinhos e a evolução do nosso trabalho na Câmara Municipal e nos SMAS do Porto, tendo contribuído para esta realidade as medidas de direcção tomadas na Assembleia de Organização Concelhia e a responsabilização de camaradas por esta tarefa.

Noutros concelho, não havendo organismos já criados, estão definidas as empresas e sectores prioritários havendo nelas intervenção regular do Partido, sendo o objectivo o criação de organização.



A política de direita do Governo PS e as suas graves consequências no plano económico e social (baixos salários, desemprego, precariedade, desmantelamento de serviços sociais, etc.) provocando o alastrar do descontentamento não cria simultaneamente dificuldades objectivas e subjectivas ao desenvolvimento da luta? Como se reflecte esta situação na esfera do trabalho de organização?



AM – Sim cria muitas dificuldades. Desde logo porque a facilidade com que o patronato já hoje despede os trabalhadores leva a que, em alguns casos, quando damos por ela, os nossos camaradas já não estão na empresa tendo por vezes que recomeçar tudo de novo. Noutras situações, tendo em conta a situação económica das famílias e nomeadamente o seu endividamento, a pressão sobre os trabalhadores para que prescindam dos seus direitos é muito grande. Estas e outras  situações vividas dentro das empresas, leva a uma espécie de autocensura, receio e até ao abdicar de direitos conquistados com muita luta ao longo dos tempos porque se considera que o essencial é tentar garantir o salário para fazer face às despesas mensais. O melhor exemplo desta chantagem feita sobre os trabalhadores, é o das multinacionais que, estão sempre a ameaçar com a deslocalização para outras paragens onde, os irmãos de classe dos operários portugueses supostamente fazem o mesmo trabalho por um preço mais baixo. São de facto muito grandes as dificuldades que se colocam hoje ao desenvolvimento do trabalho do Partido nas empresas, mas há indícios claros e vários exemplos concretos de que esta nova geração de operários começa a ganhar consciência de classe e da exploração de que é vítima, primeira condição para se envolver na luta social e política.



MB – A instabilidade que esta política cria na vida das pessoas reflecte-se no Partido: há muitas saídas de empresas, precariedade, emigração, tudo muda muito rapidamente. Da mesma maneira, como os salários são muito baixos, há grande procura de biscates que complementem o salário, e que deixam menos disponibilidade. Ao mesmo tempo, a falta de respostas sociais à infância e à terceira idade também complica muito a vida quotidiana, particularmente das mulheres, e diminui a sua disponibilidade para a participação política.



JT – De facto a repressão e o medo que muitos dos patrões semeiam diariamente, principalmente em zonas e sectores de actividade onde a exploração é maior, são factor que pode dificultar o trabalho do Partido.

No entanto, a nossa ligação aos problemas e o grande conhecimento que temos da realidade das empresas é um factor que joga a nosso favor e permite ultrapassar as dificuldades.

Um exemplo: os 400 trabalhadores da empresa têxtil Flor do Campo (Santo Tirso) decidiram no início de Março entrar em greve até que lhes fosse pago o mês de Janeiro, o de Fevereiro e pelo menos um dos dois subsídios ainda em atraso do ano anterior.

Uma ida à empresa do Partido, contactando os trabalhadores e os camaradas que lá trabalham para melhor conhecer o problema permitiu a intervenção na AR, a ida do camarada deputado à empresa, a denúncia na comunicação social daquela situação e o reconhecimento de todos os trabalhadores quanto à intervenção do Partido.

Após tudo isto, houve uma boa receptividade dos camaradas que lá trabalham quando foram convocados para uma reunião do Partido no sentido de discutir a situação e a sua intervenção na empresa. A primeira reunião da «célula» já foi realizada… importa agora acompanhar e dinamizar este colectivo.



JF – Perante inúmeras situações de atropelo do direito dos trabalhadores, a ORAV tem afirmado que está hoje criado um clima de impunidade para o patronato que lhes permite agir assim, e que se aprofundou a partir da aprovação do Código do Trabalho. Ou seja, a relação já desigual entre os trabalhadores e o patronato, foi desequilibrada profundamente pelos Governos PSD/PP, em favor do patronato. Opção que o PS decidiu manter e até vincar, com as últimas alterações do Código. Ora isto tem evidentes reflexos no trabalho de organização. Citarei só três exemplos concretos. Um: um jovem metalúrgico que, estando numa empresa contratado a prazo faz trabalho de partido, ainda que sem grande exposição, sentiu as consequências no final do contrato. Não foi renovado. Dois: nem sempre se consegue que a distribuição do boletim seja assegurada com a presença de camaradas da célula, pelos problemas que isso pode trazer. Três: o extremo cuidado que temos que pôr na exposição de uma camarada na dinamização do Partido numa grande empresa, com mais de 1000 trabalhadores, mas onde o número de sindicalizados se conta pelos dedos. Isto porque, apesar de estar efectiva, o seu posto de trabalho estaria em risco. E o Partido precisa dela lá dentro.



Que salientas em relação às celebrações do 85.º aniversário do PCP?



MB – O que mais sobressai é um excelente ambiente e uma participação superior a anos anteriores, apesar de ainda não se terem realizado todas as iniciativas programadas. Aparece muito o sentimento de alegria e de orgulho em se ser deste Partido, em participar na construção de um projecto tão bonito, tão exaltante, como é o da construção de uma sociedade liberta da exploração do homem pelo homem. Há muita curiosidade em conhecer aspectos da história do Partido, disponibilidade para participar em acções de formação ideológica. Algumas experiências que fizemos (menos do que as necessárias) de fazer comemorações do aniversário em organizações de base foram muitíssimo positivas.



JF – As comemorações do 85.º aniversário do Partido revestem-se de uma característica única e que considero da maior importância. O aumento de participação (com mais de 650 pessoas nas iniciativas já realizadas), num quadro de muito bom ambiente. E isso tem imediatos reflexos. Por um lado na satisfação com que camaradas e amigos saem destes momentos de encontro e convívio. Por outro lado nos recrutamentos. Creio não mentir se disser que em todas as iniciativas se inscreveram novos militantes. E estou até a lembrar-me de um jantar onde se inscreveu um jovem trabalhador do restaurante.



AM – Essa é também a situação no distrito de Setúbal: alegria e satisfação como há muito não se via e sentia nos camaradas, amigos e simpatizantes do Partido, assim como uma grande determinação e confiança no futuro da luta pela transformação revolucionária da sociedade. Estes são os aspectos que devem, na minha opinião, ser salientados nestas comemorações do aniversário do Partido.



JT – O comício com o Secretário-Geral realizado no Coliseu do Porto foi o principal momento comemorativo dos 85 anos do Partido. Pelo segundo ano consecutivo fomos para a principal (e maior) casa de espectáculos do distrito.

Além do comício, realizaram-se iniciativas por todas as organizações, que envolveram mais de 1500 camaradas e amigos. Cada vez mais as iniciativas de aniversário são também espaço para a participação dos amigos do Partido.

Mas o prestígio do Partido também é reflectido no aniversário. Dois dos mais prestigiados artistas do Porto, José Rodrigues e Siza Vieira, ofereceram ao Partido trabalhos seus alusivos aos 85 anos.

Da parte da Direcção Regional houve ainda a preocupação de aliar às comemorações do aniversário um ciclo de cinco debates que se realizou no Centro de Trabalho da Boavista, proporcionando um espaço de discussão, mas também de formação ideológica.



Podes referir casos recentes de Assembleias de Organização, experiências positivas a generalizar e também, claro, eventuais traços negativos que importe superar?



JF – Terei que sublinhar três assembleias realizadas nos últimos meses: as Assembleias Concelhias de Ílhavo e Aveiro e a já referida VI Assembleia Regional.

No seguimento de um grande envolvimento nas eleições autárquicas do ano passado, as organizações de Aveiro e Ílhavo realizaram as suas Assembleias responsabilizando vários jovens que então se destacaram. Sendo Assembleias modestas, do ponto de vista da participação e dos documentos, o que delas resultou é bastante rico e de uma mais valia extraordinária. Esses jovens constituem hoje uma parte importante, senão decisiva da actividade do Partido. E isso levou a que alguns dos objectivos definidos para um ano, ao fim de quatro meses estejam já concretizados. Com alguma audácia, é certo, foram ultrapassados alguns nós que impediam o desenvolvimento do Partido.

Quem assistiu à VI Assembleia da ORAV pode ter percebido a diferença que isso fez. Quem esteve no primeiro plano das intervenções, reflectindo com grande profundidade os problemas do distrito e a acção do Partido, foi exactamente um conjunto de jovens quadros que está agora a ser responsabilizado, das organizações que referi mas não só. Aliás creio que isto decorre também da Resolução do CC. Os quadros já existiam, mas ela obrigou-nos a sistematizar a discussão e decidir a sua responsabilização.

Pediste referências a experiências positivas e negativas. Deixa-me então sublinhar, por um lado, a necessidade de, em qualquer Assembleia se ir mais longe do que apesar de tudo se foi em algumas das realizadas, em matéria de análise da realidade envolvente. Por outro lado a importância de não colocar tais exigências para a sua realização, que acabem por a impedir. Desformalizar as Assembleias sem as desvirtuar, nos seus objectivos é o caminho a seguir.



JT – A realização de uma Assembleia de organização é importante, na medida em que discute e analisa a evolução social e a intervenção do Partido desde a assembleia anterior, define as linhas de intervenção para o futuro e elege a nova direcção.

Ter presente o XVII Congresso na preparação das assembleias de organização significa cuidar do reforço da organização e intervenção do Partido, particularmente junto da classe operária e dos trabalhadores. Na grande maioria das organizações isto reflecte-se nos documentos e nas medidas de direcção, há no entanto uma ou duas situações em que isto pode ser mais difícil, fruto de falta de discussão e trabalho colectivo ao longo de anos e por um partido demasiado focado na intervenção autárquica.

Contudo, é justo considerar que nas 37 assembleias de organização de base realizadas desde o CC de Novembro esteve presente a preocupação em reforçar o Partido nas empresas e locais de trabalho, que estão definidas as empresas e sectores prioritários, que estão responsabilizados camaradas por este trabalho. No entanto, só com o tempo é possível recrutar, construir organizações, ou seja, criar partido em algumas empresas onde já tivemos, ou onde nunca tivemos organização mas que hoje assumimos como objectivo.



AM – No caso concreto da organização regional de Setúbal, as assembleias são muitas e vão realizar-se mais lá para a frente pelo que não temos ainda experiências a referir.



MB – Em Coimbra houve um exemplo de uma Assembleia de Organização que eu valorizo muito: a da célula da Cimpor. É uma célula pequena, mas que tem influência na empresa e é muito ligada às lutas ali travadas. Os camaradas decidiram fazer a Assembleia e procuraram conhecer, através do levantamento dos militantes com menos de 55 anos, outros membros do Partido que eventualmente ainda não fossem conhecidos. Nenhum deles trabalhava já na empresa, fruto de uma política de rescisões, reformas antecipadas e precariedade dos trabalhadores dos empreiteiros. Fizeram a Assembleia na mesma, discutiram a situação da empresa, acções de luta, metas de recrutamento para cada um e editaram um boletim que foi entretanto distribuído. Prova que é possível fazer Assembleias das organizações de base, mesmo das mais pequenas.



O pagamento da quotização e, em geral, a recolha de fundos é uma tarefa política de capital importância para o desenvolvimento da actividade do Partido, nem sempre é bem compreendida e aplicada. Há também progressos nesta direcção?



JT – O pagamento da quotização é um aspecto fundamental do nosso quotidiano enquanto partido revolucionário. A quotização além de dever de cada militante é uma fonte de receita fundamental às organizações do Partido. Na ORP a discussão e medidas de direcção assumidas em alguns concelhos permitiram ao Partido aumentar as receitas de quotização 18% em 2004 e mais 2% em 2005, invertendo uma tendência de sempre na Organização Regional que descia nas receitas de quotização em ano de eleições autárquicas.

Além da discussão política em torno dos aspectos relacionados com a recolha de fundos para o Partido, é de considerar o alargamento do núcleo activo e os efeitos da campanha de contactos como factores fundamentais para os resultados registados.

Outra importante fonte de receita reside na entrega das senhas por parte dos camaradas e amigos por nós indicados para participar nas mesas de voto. Também aqui, a resolução da última Assembleia Regional destacava a necessidade de cumprir o princípio do Partido de que os camaradas não podem ser prejudicados nem beneficiados no desempenho das tarefas do Partido.

A discussão do cumprimento deste princípio nos organismos de base, mas também nos plenários que se realizam próximo das eleições permitiu alcançar bons resultados.



AM – Em Setúbal estamos a tomar medidas concretas para aumentar bastante as nossas receitas porque a situação financeira do Partido e as nossas necessidades específicas nos colocam essa exigência. O alargamento do número de camaradas a pagar e a aumentar a sua quota tem aqui um papel e significado muito importante. Estou convicto de que chegaremos ao final do ano com avanços grandes nesta matéria.



JF – Quanto à Organização Regional de Aveiro há resultados, mas muito tímidos. Uma das medidas tomadas tem a ver com o controle desta tarefa que, reconhecemo-lo com frontalidade, é muito deficitário. Há ainda muito caminho pela frente. Há organizações, como Santa Maria da Feira, em que se conseguiu evoluir bastante. Mas esse não é, infelizmente o retrato do distrito.



MB – Este é um dos aspectos em que a discussão está mais atrasada. Mas só conseguiremos resolver, no nosso contexto, através de uma «rede» de camaradas que cobrem as cotas a outros camaradas, que se comprometam a falar com um conjunto de camaradas do seu local de trabalho, do seu bairro, da sua terra.



Breve comentário final. 




MB – Penso que este reforço orgânico é decisivo para o futuro do nosso Partido. Mas é também decisivo para o futuro do nosso país, do nosso povo: quanto mais enraizado o Partido estiver entre os trabalhadores, entre o povo, entre a juventude, mais capacidade terá de organizar a luta por um Portugal democrático, socialista.



AM – Dizer apenas mais o seguinte: estamos a concretizar o reforço orgânico do Partido, em simultâneo com o desenvolvimento da luta dos trabalhadores contra a política de direita do governo/PS e não é contraditório pelo contrário  porque, os embates e combates a que o Partido vai ser chamado só os travará com êxito se reforçar e muito a sua organização e a sua ligação aos trabalhadores e às populações. Parece-me sinceramente que, com a dinâmica que está a ser criada, vamos vencer mais esta batalha e entraremos em 2007 não com todos os problemas resolvidos, mas em muito melhores condições para alargar e intensificar o combate por uma vida melhor para o nosso povo.



JT – Um PCP mais forte é possível como o demonstram, por exemplo, os resultados da campanha de actualização de dados onde contactamos com mais de milhares inscritos, a maioria dos quais retomaram a ligação ao Partido; ou os recrutamentos, particularmente de jovens; ou ainda o cada vez maior número de organismos de base a funcionar nas diversas organizações do Partido.

Prosseguir e intensificar este trabalho, particularmente junto dos operários, jovens e mulheres concretizando os objectivos de reforço orgânico definidos, garantindo a integração dos recrutamentos e responsabilização de mais camaradas nos organismos existentes ou a criar, o pagamento da quota e proporcionar-lhes a informação e formação necessárias são o caminho a percorrer para o fortalecimento do nosso Partido.

Tomos a responsabilidade de honrar a história, de fazer frente aos inúmeros atropelos aos direitos democráticos e às conquistas de Abril, continuando a nossa luta pela transformação revolucionária da sociedade.

É para isto que queremos o PCP mais forte!



JF – Somente três notas. A primeira, e porque o tempo não dá para tudo, para referenciar a importância da imprensa do Partido, designadamente o Avante!, como organizador colectivo. As experiências de venda especial mostram que o jornal tem prestígio junto dos trabalhadores e que há potencialidades para ir mais longe, apesar do esforço que cada uma delas representa.

A segunda para referir que, como esta conversa comprova, o reforço da organização do Partido não pode ser servido ás postas. Ou seja, a resolução do nosso CC não é, nem pode ser lida como um somatório de várias linhas de trabalho paralelas ou distanciadas entre si. Fica claro que quando nos perguntas sobre as Assembleias respondemos com rejuvenescimento e por aí fora, o que está muito certo. Todas essas linhas se interligam e devem de facto ser entendidas como uma ou melhor como a mais importante tarefa dos tempos presentes.

Por fim para sublinhar, como também creio que resulta da nossa mesa redonda, que para esta que é a tarefa, dificuldade não pode ser confundido com impossibilidade (e eu creio que esse aspecto está hoje mais adquirido no Partido), persistência é uma virtude indispensável e confiança é a palavra certa para definir o estado de espírito que é preciso, mas também que podemos ter.