Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Livro, Edição Nº 283 - Jul/Ago 2006

Concentração nos medias: uma troca perigosa de valores

por Armando Pereira da Silva

Jornalismo, Grupos económicos e Democracia
Autor: Fernando Correia
Editorial Caminho, Col. Nosso Mundo, 2006 É um círculo nada virtuoso: alterações políticas, alterações sociais, alterações na realidade concreta dos meios de comunicação social, alterações no seu capital, transformações profundas e delicadas na composição e número da classe dos jornalistas. A ordem é arbitrária, não cuidamos aqui de resolver o dilema do ovo e da galinha. Quem depende de quem, quem é vítima de quem, pouco interessa. Interessa o resultado que, como todos sabemos, não é lá muito promissor para o futuro sadio da democracia. Há, pelos vistos, muito dinheiro em jogo, assistimos a uma troca pura e simples, e perigosa,  de valores: quando o valor do dinheiro se sobrepõe aos valores da verdade, do rigor, da dignidade e da honra,  algo vai mal no mundo da informação. E no resto.



É deste ciclo recursivo que trata o recente livro do nosso camarada Fernando Correia. Trabalho académico de investigação que salta, em interesse específico, do espaço universitário para o todo social. Lê-lo é compreender melhor o que se passa à nossa volta, aprender a desmontar algumas armadilhas. E deixar-se tentar pelo exercício de reflexão sobre uma questão capital da democracia, no nosso tempo e lugar.

                                         

Há duas ou três décadas, o número de jornalistas em Portugal não ultrapassaria a meia dúzia de centenas; hoje, são alguns milhares. Mais ou menos pela mesma altura,  ainda não havia nenhuma escola de jornalismo, em qualquer dos graus de ensino; hoje, há como que um exagero de sentido contrário: são cerca de três dezenas as escolas superiores, faculdades e institutos, que ministram cursos na matéria. Há pouco mais de trinta anos, o panorama da comunicação social,  algo deprimido por tradição em tempo de ditadura, saltara repentinamente da empresa de tipo familiar, com as suas desvantagens e alguns benefícios, para um tipo de concentração a mata-cavalos, mais ou menos tresloucada: o regime fascista, na sua versão marcelista, colocara no regaço da Banca praticamente toda a imprensa diária portuguesa, que dos bancos era fortemente, irremediavelmente devedora. Foi assim, pelos canais da Banca entretanto nacionalizada que o novo poder democrático recebeu nos braços todo um sector economicamente enfermo. O mundo, entretanto, deu muitas voltas. E a nossa democracia também. O  mundo da comunicação não evitou, talvez até se tenha adiantado, a este movimento transformador, por um lado, desagregador, por outro. Mudou muita coisa: as técnicas de comunicar e de fabricar; as técnicas de vender, as técnicas de comprar e consumir. Mudaram também as vantagens relativas e os perigos reais. Sobretudo, mudaram os donos dos médias: hoje, parece estar quase realizado o velho desígnio capitalista da concentração em grupos económicos reconstruídos ou constituídos para o efeito. E, segundo o livro «Jornalismo, Grupos Económicos e Democracia» de Fernando Correia, jornalista e Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação, o «negócio» mostra-se muito rentável. «Escandalosamente rentável», na expressão publicada de um dos negociantes entretanto chegados ao meio.



«Produtos» e «conteúdos»



O «negócio» pode ser bom, mas a qualidade do «produto» deixa muito a desejar. E o «produto» (termos como produto, negócio, conteúdos e outros que tais aplicados ao jornalismo e à informação em geral são o essencial do reduzido léxico profissional dos novos senhores dos jornais, rádios e televisões) tem muito, tem tudo a ver com os direitos de informar e ser informado, com a dignidade das pessoas, com o respeito pela sua inteligência, com o exercício responsável da cidadania, com a qualidade e futuro da democracia, da liberdade. Coisas que têm de facto um conteúdo outro e não dependem de «produtos», mas de valores, de outros valores.





Em nome da flexibilização



O nível escolar (e académico) dos jornalistas melhorou, o que é bom e pode valorizar a qualidade do seu trabalho, mas, em termos de deontologia, a situação que se vive é preocupante; os acasos da evolução do ensino e a forte atracção e mediatização da profissão de jornalista (vista pelo prisma da meia dúzia de «estrelas» televisivas escolhidas a dedo e bem pagas) sobre os jovens, transformaram os novos cursos num bom negócio para as universidades e institutos, públicos ou privados, mas contribuíram com a sua parte, por  ausência absoluta de planificação, para a desregulação brutal da profissão. A tão negada, mas desejada, programada, planificada formação de uma bolsa de mão-de-obra disponível e barata, ou mesmo gratuita, não reivindicativa, ou mesmo subserviente, desamparada mas expectante, em  nome da flexibilização, realizou-se aqui, talvez onde menos fosse de esperar: hoje, o grupo daqueles de quem em termos genéricos se diz «os jornalistas» divide-se fundamentalmente em três subsectores que o público desconhece: a pequena elite dos quadros superiores de direcção editorial e de trabalho, normalmente bem pagos e próximos, com poucas excepções, dos representantes do capital mandante; uma camada intermédia de jornalistas anónimos, mais ou menos experientes, que na sombra asseguram o trabalho fundamental sobre o qual brilham as estrelas contratadas a peso de oiro, tipo futebolistas, mas descartáveis às primeiras rugas ou cãs; e a tal bolsa de jovens licenciados, feitos pau para toda a obra, vagas de estagiários mal pagos ou não pagos que se revezam nas Redacções, ainda sem regulamentação apropriada, na mirífica esperança de conseguirem um lugar que nestas condições é uma espécie de cenoura na história do burro.



Sem memória, que futuro?




A rica tradição sindical e reivindicativa da classe foi esquecida, ou anestesiada, assim se varrendo das redacções a memória da profissão. O conteúdo das regras deontológicas que os jornalistas portugueses estabeleceram e impuseram generosamente a si próprios, sem contrapartida dos empresários, é desconhecido da maioria e considerado pelos novos empresários do sector e seus porta-vozes como um empecilho a evitar. O panorama, em boa parte ignorado pelos destinatários do trabalho jornalístico, isto é, os leitores de jornais e revistas, os telespectadores, os ouvintes da rádio e mais recentemente os navegantes da Internet, é de facto preocupante, a ponto de levar um jornalista veterano a soltar o seu  grito de alma durante uma cerimónia integrada no centenário da Casa da Imprensa: «Chegámos a um tal ponto que eu sinto vergonha de ser jornalista!»

Desabafo a ter em conta, numa situação em que é óbvia a identificação social dos jornalistas em geral com um «produto» final cuja responsabilidade lhes será obviamente atribuída. Ora, na maioria dos casos, essa responsabilidade colectiva, a existir, será mais por omissão. Há que ter em conta uma outra realidade bem mais recente: o prato de substância da nova «informação» servida aos Portugueses, seja qual for o meio, tem a marca profunda de um sub-produto entretanto usado e abusado pelos novos senhores do mercado: os ditos «analistas». A pouco e pouco, eles invadiram torrencialmente um espaço desmesurado, ao ritmo das guerras e crises internas e externas. Falam sobre tudo, desde a economia à guerra, da política internacional aos pequenos dramas da política caseira. São omniscientes e omnipresentes. Com algumas e honrosas excepções, eles dizem e desdizem os maiores disparates, impingem ao receptor desprotegido as maiores alarvidades. São quase todos convidados «de fora», mas os seus dislates, embora agradem aos novos donos do ramo, comprometem toda uma (outra) profissão. Um exemplo: muitos deles apoiaram da forma mais subserviente a guerra de invasão contra o Iraque, ajudando a espalhar as mentiras de principiante que a «justificaram» junto da opinião pública; agora, passo a passo, alguns vêm admitir o «engano» criminoso de que foram veículo voluntário como se tudo isso fosse a coisa mais natural e comezinha do mundo, como se não estivessem em causa dezenas de milhares de mortos, destruições de bens materiais e culturais imensos e irrecuperáveis, o descrédito da política e dos políticos. Ora, no imaginário colectivo, quem enganou as pessoas? Os jornalistas, claro...

Vergonha? Não é para menos. Mas, ao mesmo tempo, resta-nos a esperança de haver sempre formas de resistência, de esclarecimento e auto-esclarecimento: há uma revolução que não pára, a do esclarecimento e das mentalidades, mesmo quando o liberalismo selvagem julga ter ganho a partida. Os novos jornalistas aprenderão à sua custa. Mas aprenderão.



Um livro oportuno e clarificador




Claro que num contexto de degradação social grave do exercício e prestígio do jornalismo; num processo de concentração empresarial que põe em risco o pluralismo da informação e afunila dramaticamente as possibilidades de expressão das classes sociais e organizações políticas a favor das economicamente dominantes, a democracia fica gravemente ameaçada. E a democracia, com toda a panóplia de direitos fundamentais que a estruturam, é por essência, digamos assim, a menina dos olhos do jornalismo e dos jornalistas. Os jornalistas portugueses ainda com memória sabem muito bem do que falamos.

O livro de Fernando Correia trata de tudo isto. É um trabalho de investigação que prima pela clareza de ideias e de estilo, abordando as questões de interligação desta trilogia temática com serenidade e rigor científico, sustentando as suas teses em casos concretos e fontes credíveis, desmistificando a nova língua de pau da classe dominante e, ao mesmo tempo, fazendo emergir a tripla condição de cidadão que não prescinde dos seus direitos elementares, de académico preocupado e de jornalista consciente com largos anos de experiência na tarimba das redacções e no campo da luta sindical e política. Em resumo: uma boa lição a reter pelos recentes, actuais e futuros alunos das escolas de jornalismo e uma obra de referência e utilidade, indispensável às pessoas em geral que desejem compreender o fenómeno extremamente complexo dos medias do nosso tempo.