Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Juventude, Edição Nº 284 - Set/Out 2006

Os jovens comunistas apontam perspectivas

por Revista «O Militante»

No seguimento da realização do 8.º Congresso da JCP O Militante considerou importante abordar quais são, na presente conjuntura, os principais aspectos de intervenção da juventude comunista e o seu significado no quadro geral da actividade do PCP.
Para esse balanço reuniu, numa mesa-redonda, moderada pelo camarada Aurélio Santos, os camaradas Paulo Marques (PM), Catarina Pereira (CP) e Miguel Tiago Rosado (MTR), da Comissão Política da Direcção Nacional da JCP, e Luísa Araújo (LA) que, no âmbito da Comissão Política do PCP, tem a seu cargo a área da juventude.

Creio que estarão de acordo em começarmos por falar no Congresso que a JCP acaba de realizar. Quais os seus aspectos mais importantes e o quadro  em que foi realizado?



PM – Fizemos o nosso Congresso ligado à realidade, por isso foi central o contacto directo com os problemas dos jovens.

A própria vitalidade do Congresso e as intervenções, quer antes da sua preparação quer no próprio Congresso, reflectem essa grande ligação aos anseios, à realidade e aos problemas.

Há um conjunto de questões que importa referir. Por exemplo, no quadro da preparação do Congresso inscreveram-se na JCP cerca de mil jovens, o que tem um peso político importante e demonstra que alargámos as fileiras da JCP. Aprovámos a Resolução Política que vai nortear a actuação da JCP nos próximos três anos. Elegemos a nova Direcção Nacional. Fizemos algumas alterações aos Princípios Orgânicos.



Porque decidiram realizar o Congresso em Vila Nova de Gaia?



CP – Isso corresponde à abrangência actual da JCP e a um grande crescimento nos distritos do Norte. Não somos uma juventude do Sul ou de abaixo do Tejo, somos uma organização de todo o País, que está forte, bem viva e ligada aos jovens.

Foi um Congresso que correu muito bem e, independentemente do local onde se realizasse, faríamos um balanço muito positivo. Foi muito importante pela ligação que teve à vida e pelos militantes que se inscreveram. Ficou bem patente que não somos uma organização regional, mas uma organização nacional que teve condições de o fazer no Norte, embora nos acarretasse algumas dificuldades a que demos resposta e que nos levaram a pôr as metas de fundos um bocadinho mais acima.



MTR – No 8.º Congresso penso que demos um passo significativo, nomeadamente no trabalho unitário.

O trabalho unitário que desenvolvemos procura lançar informação, apelar à própria reflexão, estar no seio da juventude e criar as condições para que exista movimentação. Ajudar a criar movimento mas sem instrumentalização. Isto distancia-nos de forma abissal das outras forças políticas de juventude. Porque têm a tendência de instrumentalizar: a direita para submeter os interesses da juventude às linhas do governo de direita e dissolver as capacidades reivindicativas da juventude; os esquerdistas aparentemente no sentido de radicalizar a luta para que ela, obviamente, vá no sentido oposto do que deve, num desrespeito claro à linha das massas juvenis.



Quais os aspectos deste Congresso da JCP que podemos considerar mais importantes a ter em conta no trabalho que o PCP desenvolve entre a juventude?



LA – Este Congresso coloca questões importantes para o desenvolvimento do próprio trabalho do Partido. O facto de a JCP ter conseguido promover um amplo debate de preparação do Congresso traz elementos novos para pelo menos aprofundar questões. E, tendo a JCP um papel essencial na ligação do Partido à juventude e na influência do Partido junto da juventude, o facto de ter preparado um amplo debate, ter ligado este Congresso às lutas, ter procurado ir à discussão com amplos sectores juvenis, isso também contribui para um maior conhecimento por parte do Partido dos problemas e da evolução da vida da juventude desde o anterior Congresso.

Há naturalmente questões que a JCP terá de desenvolver mais e matérias para o Partido aprofundar.

  A questão das liberdades democráticas, por exemplo. A liberdade de informação, de propaganda, de expressão, foi uma grande conquista de Abril. O facto de em vários momentos a JCP ter visto limitada essa liberdade no seu trabalho junto da juventude, das populações e dos trabalhadores, também coloca ao Partido a questão da importância de analisarmos e sabermos onde é que nos encontramos hoje relativamente às liberdades democráticas.

Há ou não há repressão quando se vai para a porta de uma escola ou fazer um mural, e a JCP é limitada no seu direito de fazer propaganda? Como é que está hoje a vida na escola pública, se há limitações à eleição de associações de estudantes!?

  Na discussão com jovens trabalhadores, vê-se também que a situação é mais grave do que há anos atrás. Isto não constitui grande surpresa, levanta elementos concretos que fundamentam as análises que o Partido tem feito relativamente aos direitos das novas gerações de trabalhadores.

Até no plano ideológico o confronto que hoje é imposto à juventude portuguesa tem elementos novos.



Podem citar casos concretos de atentados ao direito de propaganda? Que dificuldades encontraram nesse plano quanto à preparação e realização do Congresso?



PM – Não são questões que estão no ar, são questões do dia-a-dia. Por exemplo, o colectivo da JCP na Universidade do Algarve propôs-se colocar à Biblioteca da Universidade uma exposição organizada pelo Partido a propósito dos 60 anos da vitória sobre o nazi-fascismo e promover exposições regulares. O responsável da Biblioteca mostrou-se muito interessado, mas passada uma semana disse que o reitor não autorizava com o argumento de não estar incluído no plano de actividades.



 

CP – A JCP definiu a meta nacional de pintar 100 murais. Na organização de Viseu seriam cinco, mas pintámos oito. Com muitas dificuldades, mas pintámos. Em três concelhos diferentes – Lamego, Tondela e Viseu, aqueles onde temos mais camaradas e consequentemente maiores facilidades. Só em dois locais (Tondela e uma freguesia de Tondela, no Caramulo) é que não tivemos problemas com a polícia. De resto, tivemos sempre a polícia a impedir, a apreender o material, acarretando-nos um prejuízo de 200 euros.



Que pretextos invocavam para essas intervenções policiais?



CP – Que não tínhamos autorização das câmaras municipais, que era vandalismo, que eram graffitis… Mesmo confrontados com a lei, os agentes procediam do mesmo modo. Além da apreensão do material, éramos detidos. Chegámos a estar seis camaradas detidos, assinarmos o auto de apreensão, sermos identificados e ficarmos lá duas horas à espera até que se fizesse em computador um papel que demoraria 5 minutos a preencher.

Além desta ofensiva concreta, houve jornais locais que fizeram artigos a dizer que graffitis ou murais eram iguais, que era vandalismo, que estragavam paredes... O Jornal de Tondela dizia mesmo que deveríamos ser penalizados e obrigados a pagar as tintas para a recuperação dos muros (embora tivéssemos tido a preocupação de escolher muros degradados).



E não havia imprensa local que referisse devidamente a vossa actividade?



PM – De um modo geral há um boicote. Em Mira (Coimbra), no dia seguinte à pintura de um mural, os funcionários camarários foram ao local de trabalho dos jovens perguntar se tinham andado a pintar. Isto é já uma acção repressiva para impedir a liberdade de propaganda e de expressão...



CP – É uma ofensiva em toda a linha.

Na preparação do Congresso houve muitas lutas do ensino secundário e do superior. Em Lamego, por exemplo, os estudantes juntaram-se para sair em manifestação até ao Governo Civil. A polícia chegava, reprimia os nossos camaradas em frente dos outros estudantes, levando-os a ter medo e a desmobilizar. Há repressão ainda quando um funcionário duma escola secundária nos vem avisar que temos de exercer a nossa acção a 50 metros do portão da escola.



PM – As dificuldades existem, mas quando nos conhecem, quando persistimos, também conseguimos o nosso espaço.

A liberdade também se defende exercendo-a...

Quanto maior é a nossa influência, quanto mais aparecemos, quanto mais insistimos, mais espaço ganhamos.



CP – A JCP é a única juventude partidária que informa os jovens no concreto, falando com eles para os esclarecer. Porque se nota que sabemos o que andamos a fazer, estamos a ganhar um crescente prestígio. Mesmo que os abaixo-assinados não sejam por vezes de fácil explicação para alguns jovens – como é por exemplo um abaixo-assinado contra as portagens ou o encerramento de maternidades – temos contactado milhares de jovens que os subscrevem, aceitam os materiais ou deixam o seu e-mail para um posterior contacto.



LA – Isto leva-nos a concluir que os direitos podem defender-se sendo exercidos e que podem ser exercidos pelas pessoas que são detentoras desses direitos. A forma como os quadros e a organização da JCP estiveram na preparação do Congresso é também uma confirmação disto, é uma afirmação que também faz parte da formação, não só dos militantes da JCP, mas também dos amplos sectores da juventude que participaram na preparação e no Congresso. O grande desfile feito no sábado à noite em Gaia também é um exemplo concreto do exercício de direitos.

Nós temos tido um trabalho interessante com os próprios grafitters. E quando aparecem comparações, elas mostram no mínimo uma atitude depreciativa para com a expressão artística de centenas de jovens. Não podemos considerar que isto seja vandalismo ou provocação. É a sua arte e devem ter essa liberdade. Aliás há autarquias da CDU que lhes atribuem um espaço importante. Por outro lado, a JCP não raras vezes os tem chamado a iniciativas suas. Em momentos da nossa vida política eles têm dado apoio ao nosso trabalho e têm participado em iniciativas nossas. Em determinadas situações, ali está expressão artística e também uma atitude social e política.





Miguel Tiago, és deputado na Assembleia da República. Como exerces essa actividade tendo em conta que és também dirigente da JCP?



MTR –  O trabalho da JCP e o trabalho que se faz no quadro institucional é transversal tal como é o nosso entendimento da política de juventude. Em todas as frentes institucionais onde o Partido intervém – Parlamento, autarquias, Parlamento Europeu – verifica-se uma atenção em relação aos problemas da juventude.

No trabalho institucional a JCP faz tudo para dar expressão à sua ligação concreta às massas e às aspirações juvenis. Mas o trabalho institucional também traz vantagens para o movimento da juventude. Há casos em que o trabalho institucional potenciou as capacidades de intervenção da JCP e, como consequência, a capacidade reivindicativa e de mobilização do próprio movimento juvenil ou estudantil.

No plano dos projectos-lei, há talvez quatro que sobressaem pelo tempo que levam de maturação no quadro da nossa organização e que têm vindo a ser melhorados ao longo do tempo: a criação do subsídio de inserção na vida activa para os jovens que terminam a escolaridade obrigatória; o incentivo de arrendamento para os jovens; e dois relacionados com o associativismo.

Este Governo desferiu um rude golpe no associativismo juvenil, porque sabe que esta expressão do movimento juvenil é talvez aquela que, de forma organizada, é capaz de reagir, de organizar e mobilizar melhor a juventude na defesa dos seus direitos. É importante manter as características da actual legislação, ainda que possa ser aperfeiçoada.

Na revogação do Código de Trabalho e nas suas alterações, na defesa de uma água pública, na luta contra a co-incineração, em todas estas expressões também reflectimos as aspirações da juventude.

Isso é acentuado com uma preocupação de não deixar que a expressão juvenil de cada problema seja esquecida. Se numa determinada região há muito desemprego, um camarada a quem estão atribuídas tarefas institucionais tem o dever de conhecer esse problema, mas também saber de que forma ele afecta a população mais jovem.



LA – A articulação do trabalho entre o Partido e a JCP é uma questão essencial porque consideramos que o PCP é o Partido da juventude, pela alternativa de sociedade que apresenta e pelo papel que reconhece à juventude. O nosso trabalho é desenvolvido no sentido do esclarecimento e da informação, de colocar à reflexão a razão da sua situação, mostrar que é possível outra política, que o seu destino não está traçado, que é possível lutar, colocar elementos de confiança e de esperança. Isto é o oposto da instrumentalização da juventude, isto é colocar a juventude numa situação de reflexão.





O Congresso foi uma importante expressão da actividade da JCP, mas houve também várias lutas e movimentações durante a preparação do Congresso...

 

CP – Nós para preparar o Congresso não nos fechámos numa sala, porque assim não ganhávamos a organização nem levávamos o Congresso aos outros jovens. E como organização revolucionária que somos, os próprios camaradas nos seus locais de trabalho e nas suas escolas participaram nessas lutas, sendo, também eles, um pólo dinamizador das lutas.



PM – Os militantes da JCP envolveram-se em muitas lutas, nomeadamente do secundário, com acções em todo o país, a16 de Novembro e 16 de Fevereiro, contestando os exames nacionais, o numerus clausus de acesso ao ensino superior, ou a inexistência da educação sexual. O nosso país, como se sabe, é o segundo na Europa com mais mães adolescentes e mais jovens com doenças sexualmente transmissíveis. Isto deve-se, em grande medida, à falta de informação.

Foram também importantes o Dia do Estudante (24 de Março) e o Dia da Juventude (28 de Março), com cerca de 1500 jovens trabalhadores de todo o País em Lisboa. Temos de valorizar e de dar continuidade a estas acções, pois são muitos os problemas que se colocam à juventude. Daí também a importância do nosso Congresso, pois deu mais força para continuarmos a lutar.



CP – No superior, uma das grandes lutas que está a decorrer – além das propinas e da lei de financiamento – é contra o Processo de Bolonha. Temos um abaixo-assinado a circular e, se não formos nós a esclarecer, ninguém sabe muito bem do que se trata. Só se referem floreados: que agora é mais fácil ir estudar para o estrangeiro, como se qualquer pessoa tivesse dinheiro para ir estudar num sítio qualquer! A mobilidade é apresentada como a coisa melhor do mundo.



PM – Nas universidades está em marcha uma brutal campanha a favor do Processo de Bolonha, embora a União Europeia admita que só 0,97% dos estudantes em Portugal é que têm condições para fazer programas de «Erasmus» ou programas de mobilidade.

Eu participei numa sessão de esclarecimento sobre Bolonha e o professor falou de tudo menos das propinas, de numerus clausus... Ou seja, do principal não falam. Uma questão que se coloca é que, com Bolonha, vai haver numerus clausus entre o primeiro e o segundo ciclo. Ou seja, assim como há um limite de vagas na entrada no superior, haverá também na passagem para o segundo ciclo (mestrado). E quem não tem o segundo ciclo, na prática não tem as mesmas hipóteses no mercado de trabalho. Vou dar um exemplo concreto. Há uns tempos ainda não estava claro se ia haver mais do que um ano de transição. Por exemplo, eu estou no 1.º ano de um curso e se Bolonha fosse já aplicado para o ano, eu teria que entrar já no plano de estudos de Bolonha e ia ser uma confusão, porque cadeiras que fiz já não valiam nada. Havia a dúvida se quem entrou num plano de estudos se mantém ou se troca imediatamente para o plano de estudos de Bolonha. Estava numa aula e um professor diz aos alunos: «Vocês se tivessem que escolher se iam já para o processo de Bolonha ou não, qual seria a vossa escolha?». Já tínhamos estado a falar entre nós sobre a importância de defender o que existe até agora, porque a licenciatura tem outro peso diferente do que será com os dois ciclos. A maior parte da malta levantou o braço a dizer que preferia manter o actual plano de estudos. Foi curioso porque passado uma semana saiu um decreto-lei do Governo a dizer que só há um ano de transição e quem está no primeiro ano mantém-se. O professor que estava na aula é o responsável pela aplicação do Processo de Bolonha naquela escola e curiosamente é um militante do PS com ligações ao Governo e estava a tentar perceber qual a sensibilidade dos estudantes.



Como é que a JCP esclarece os jovens sobre o significado desse  «processo de Bolonha»? Quais as consequências directas para a juventude da implantação dessas condições?



PM – Existe a táctica de fazer campanha sem informar, dizendo apenas que Bolonha é bom.

Este processo terá um impacto muito grande quer no universitário, quer no politécnico. Em vez das licenciaturas terem 4 ou 5 anos, terão 3 anos. É passada a ideia de que vai demorar menos tempo a fazer a licenciatura, mas o problema é que é totalmente diferente o que os estudantes podiam fazer com a licenciatura antes e agora. Na prática, vão ter é bacharelato. Hoje dizem que um estudante no mercado de trabalho com o 1.º ciclo (licenciatura) é um técnico. No mercado de trabalho não terá as mesmas condições de um aluno com um mestrado. O problema é que o 2.º ciclo vai ser mais caro. A correlação de forças faz com que tenham comportamentos diferentes em cada sítio. Há universidades em que se assume que todos os mestrados são 2500 euros. Por exemplo, na minha universidade, dizem que os mestrados vão ser ao mesmo preço da licenciatura. Vão até onde conseguem!. O nosso papel é dizer «não», pois é possível contrariar esses planos.



CP – As escolas politécnicas não vão ter condições para dar o 2.º ciclo. Há estudantes que entram numa escola e depois vão ter que acabar a formação noutra. É o caso de Engenharia Civil, na Escola Superior de Tecnologias de Viseu. Os estudantes podem fazer o 1.º ciclo, só que ninguém é engenheiro civil com o 1.º ciclo, fica técnico de engenharia civil. Para acabar a formação tem que acabar noutro estabelecimento. Estão a colocar outdoors a fazer campanha por Bolonha. Nós andamos a colocar comunicados da JCP ao lado desses outdoors, para esclarecer os estudantes.



PM – Outra questão é o anunciado encerramento de todos os cursos que tenham menos de 20 alunos. A conquista do 25 de Abril de ter ensino superior em todos os distritos vai ser uma miragem. E não é só no ensino politécnico, é no Ensino Universitário também. Vai-se ver em Évora, no Algarve, na Beira Interior quantos cursos é que não têm menos de 20 alunos... Esta questão é tratada de forma burocrática. Há cursos em que todas ou quase todas as cadeiras são comuns a outros cursos. Embora estejam apenas 5 alunos no curso, há sempre aulas com 40 e 50 alunos.

 



Quanto ao ensino secundário, qual é o quadro da intervenção da JCP?



PM – A JCP tem sempre conseguido ter luta no ensino secundário. A questão é que os sucessivos governos continuam a não ouvir os estudantes. A prática dá-nos razão. Há alguns anos dissemos que a revisão curricular iria trazer problemas para os estudantes e hoje o abandono escolar continua, os estudantes dos cursos gerais deixaram de ter componente prática e os dos cursos tecnológicos têm a componente geral bastante diminuída.

O problema da educação sexual continua a ser central.

Os exames nacionais são outro problema. Um estudante que queira entrar no superior tem de pensar primeiro na nota final do secundário (o exame nacional vale 30% da sua nota) e depois a disciplina específica para o curso a que pretende concorrer vale 50% da nota de acesso. A importância devia ser dada à avaliação contínua.



CP – Certamente existe uma directiva do Governo para os conselhos executivos reprimirem as associações de estudantes (AE’s). É cada vez mais difícil formar AE’s, há uma intromissão maior do órgão de gestão da escola. Na Guarda está a decorrer um abaixo-assinado porque um estudante está com um processo disciplinar por o órgão de gestão da escola não dar liberdade à AE para executar as suas actividades, como realizar uma exposição sobre o 25 de Abril. O Grupo Parlamentar do PCP já questionou o Governo por causa deste problema. O Conselho Executivo da Escola Secundária de Tondela não autoriza a formação de AE, como se fosse necessária a sua autorização! Isto surge um pouco por todo o país.



Catarina tens referido casos da situação em Viseu.  Podes abordar alguns aspectos da tua experiência nesse distrito?



CP – No dia 16 de Novembro na Escola Secundária de Tondela – onde não existe AE mas temos alguns camaradas – conseguiu-se mobilizar de tal maneira os estudantes que nenhum dos 1300 estudantes entrou. Houve um desfile pelas ruas de Tondela até à Câmara Municipal, com cerca de 800 estudantes. Nesse dia não houve aulas. Também houve outros processos de luta, como em Lamego.

No dia 16 de Fevereiro houve lutas em cinco concelhos diferentes do distrito: São Pedro do Sul, Vouzela, Lamego, Tondela e numa escola em Viseu. Em Lamego não passou da concentração por causa da repressão policial. Em São Pedro do Sul e Vouzela houve manifestações. Às vezes os estudantes deixam que o conselho executivo se intrometa porque não sabem que isso não é legal. Nós também temos um papel fundamental de informação.



PM – As coisas não acontecem por acaso. Em Faro, houve uma acção importante com cerca de 500 estudantes de várias escolas. Em Tavira – é um meio onde a direita tem uma influência grande –, houve dois ou três jovens que foram ao Centro de Trabalho do Partido inscrever-se na JCP e levaram 60 colegas de comboio para a manifestação de Faro. Não havia AE, mas de um dia para o outro foram marcadas eleições e apresentada uma lista.



Falemos agora da acção da JCP junto da juventude trabalhadora. Como se combina essa acção com a acção do Partido?



CP – A JCP procura conhecer cada vez melhor os locais de trabalho dos jovens e definir quais são prioritários para intervir. Fazemos documentos específicos para esses locais ou sectores, porque chegamos mais facilmente aos jovens se falarmos dos seus problemas concretos. Há empresas que têm muita mão-de-obra juvenil, onde a JCP consegue chegar mais facilmente do que o PCP. Há empresas onde não havia nenhum sindicalizado, a JCP foi lá com um documento e conseguiu recrutar jovens. Agora há colectivo de jovens da JCP que contribuirá para a constituição da célula do Partido.



PM – A taxa de desemprego nos jovens é o dobro dos restantes escalões. Em três anos o número de jovens desempregados aumentou 70 mil.



CP – Os jovens vão para o mercado de trabalho com a ideia de que não têm direitos e de que têm sorte se tiverem emprego de três em três meses. Os jovens até têm medo de se sindicalizar por terem um emprego precário. Mais do que nunca se nota a ruptura clara entre os jovens trabalhadores  e os que já eram há mais tempo, nomeadamente com a tentativa de acabarem com o contrato colectivo de trabalho. Os enfermeiros que entram agora têm contratos individuais. Quem é que pensaria que um novo enfermeiro já não teria os direitos que foram conquistados por gerações de trabalhadores?



Como é que a JCP dá a sua participação para a campanha «É possível um PCP mais forte»?



LA – Na última campanha de recrutamento do PCP, 36% dos novos membros tinham menos de 30 anos. Isto não está desligado do trabalho de recrutamento da JCP e das suas campanhas de denúncia das políticas de direita. Tornar o PCP mais forte passa também pelo recrutamento de jovens para o Partido e pela responsabilização de mais jovens nas tarefas do Partido.

A Resolução Política do Congresso da JCP confirma a transversalidade da política de juventude: está ligada à política da educação, do trabalho, da cultura, da saúde, da toxicodependência, da habitação... A partir do conhecimento que é transmitido pela JCP, temos melhores condições para intervir nos órgãos de poder onde estamos representados. É um trabalho articulado e de grande importância e que também contribui para o prestígio do Partido.



PM – Quando falamos no nosso projecto, no nosso ideal, no que fazemos, conseguimos atrair amplas camadas e temos sempre resultados, sempre, sempre... Há sempre alguém que fica interessado. Isto é decisivo! Quer dizer que nós andamos por cá e a quanto mais sítios formos mais capacidade nós temos de nos alargar.



E como é encarado o trabalho com o movimento sindical e com a Interjovem?



CP – A preocupação com o reforço do movimento sindical de classe começa muito por explicar aos nossos camaradas como é importante estarem sindicalizados e no seu local de trabalho sindicalizarem outros trabalhadores, bem como o papel fundamental que têm os sindicatos de classe na defesa dos trabalhadores e dos seus direitos. Reforçar a Interjovem é reforçar o movimento sindical de classe. Como os jovens têm problemas específicos, nada melhor do que terem um espaço dentro do próprio sindicato para atrair mais jovens e dar uma maior visibilidade às suas lutas específicas.



PM – Há uma relação dialéctica entre reforçar a Interjovem e reforçar o movimento sindical.



Vejamos agora quais são, no plano internacional, as vossas maiores preocupações e linhas de actividade, para além do papel que a JCP tem na presidência da FMJD.



PM – A JCP é solidária com muitas lutas de muitos países. Há questões que hoje têm uma actualidade muito grande, mas sobretudo há uma questão central: se existe uma tentativa de dominação planetária do capitalismo, por outro lado existem experiências que demonstram que é possível continuar a resistir e que existem potencialidades grandes de luta, como mostra a Revolução Bolivariana da Venezuela. São muitos países que demonstram que é possível resistir, lutar e dizer «não» à tentativa de dominação, cada um com as suas especificidades demonstram que é possível, que há uma chama que está acesa e que nós não a deixamos apagar.



LA - A intervenção da JCP a nível nacional e internacional – nomeadamente com a presidência da Federação Mundial da Juventude Democrática – tem reflexos, no plano internacional, para o próprio Partido. Num momento de dificuldade que os comunistas do mundo atravessam, o facto de este Partido ter uma organização de jovens com este nível de intervenção mostra o apoio que tem na juventude a orientação do PCP no plano político e ideológico de firmeza ideológica e de coerência.



Quais, na actividade da JCP, os pontos fracos que pensam ser necessário vencer e quais os pontos fortes a consolidar e a desenvolver?



CP – Temos que aproveitar o facto do Congresso nos ter reforçado com mais mil militantes. Temos de os enquadrar, atribuindo-lhes tarefas. Estamos muito mais confiantes para continuar a luta. Claro que há imenso trabalho pela frente, há imensos jovens a que nós ainda não chegámos. É essencial reforçar a nossa intervenção, nomeadamente junto dos jovens trabalhadores. Esta frente teve um avanço desde o 7.º Congresso, mas é também necessário reforçá-la. No ensino secundário vamos tendo uma maior facilidade, mas nem tudo é um mar de rosas. No Superior também é necessário reforçar, nomeadamente junto dos jovens do politécnico e do particular e cooperativo



MTR – A História não se dá por solavancos, mas, embora o imperialismo esteja a ficar cada vez mais acérrimo, com posições e contradições mais bem marcadas, o mesmo acontece com as possibilidades revolucionárias. Cabe-nos sermos capazes de evidenciar essas contradições, dar-lhes respostas no quadro da resistência e garantir que nos momentos certos seremos capazes de dirigir. As nossas capacidades têm vindo a crescer. Em termos de capacidade e de compreensão dos problemas, ganhámos uma maior maturidade no estilo de trabalho, na forma de envolver, de pensar e agir em colectivo. Isso até se reflecte no nível da organização, na forma como hoje somos capazes de dar respostas de organização aos problemas. Julgo que temos dado passos muito significativos e hoje somos capazes de intervir num leque variadíssimo de problemas.

As nossas dificuldades não são homogéneas, mas talvez aquilo que mais se sente de forma transversal no país é conseguirmos dar a mesma resposta aos problemas locais que damos aos problemas nacionais. Ainda nos falta um grande caminho, mas temos vindo a melhorar na resposta local aos problemas locais, como por exemplo o autocarro de transporte para a escola.



PM – Nós somos conhecidos por sermos os que estão lá nos momentos bons e nos momentos maus, mas isso tem de se exercer no concreto e não basta afirmá-lo, tem de ser mesmo no dia-a-dia. Aí nós temos sempre um ponto fraco e um ponto forte. Por um lado, é uma coisa que nós temos sempre de fazer, porque temos de estar sempre a dar resposta e por isso falta sempre fazer. Por outro lado, se nós o fizermos ganhamos o tal enraizamento que nos dá força, sustentabilidade e proximidade. Vender o Avante! à porta da escola onde vamos todos os dias é totalmente diferente de irmos vender o Avante! onde nós nunca vamos... De pouco nos vale ter o colectivo todo organizadinho, com as tarefas todas bem distribuídas e com uma consciência ideológica muito boa, se depois não estamos no dia-a-dia a intervir.



No seguimento do Congresso, quais são as perspectivas com que a JCP vê a luta da juventude e da vossa intervenção na vida nacional?



PM – Há uma questão de fundo: a JCP é a organização revolucionária da juventude. Não existe mais nenhuma organização com estas características. Temos de assumir esse papel com confiança. Existem desigualdades, injustiças e exploração. Recentemente ouvia Cavaco Silva falar do plano da inclusão social... Eles sabem que este sistema é desigual e querem dar a aparência de respostas, mas não resolvem os problemas. Aí estaremos nós, os comunistas, a assumir esse papel. É preciso haver uma organização que tenha a capacidade de fazer com que as massas, os jovens, os trabalhadores confiem que as nossas propostas, o nosso projecto são a alternativa. Mas também não podemos ficar sentados à espera que as contradições se acumulem e que as desigualdades se acentuem. É com toda a confiança e coragem que assumimos o nosso papel.



E como pensa o Partido acompanhar essa dinâmica da juventude?



LA – A articulação do trabalho do Partido com a JCP tem a responsabilidade de potenciar as conclusões do Congresso, o que passa pelo trabalho central do Partido, mas também pelo trabalho das organizações regionais – que têm um trabalho importante no acompanhamento e apoio ao desenvolvimento do trabalho da JCP – e dos sectores centrais do Partido, onde a relação Partido/JCP tem de ser reforçada.

Este trabalho do Partido e da JCP é feito com grande confiança e com grande esperança, porque realmente é possível mudar. E transformar o sonho em vida!