Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

PCP, Edição Nº 284 - Set/Out 2006

Qual é o segredo? Reflectindo sobre a Festa

por Aurélio Santos

Com Setembro chega a Festa do «Avante!» à encosta da Atalaia.
Há 30 anos que a Festa marca o início do ano político.
Nenhum outro partido consegue este grande conjunto de vivências, com a enorme alegria de falar, de encontrar e dar, de conhecer o que proporciona o sentido inesperado da descoberta de tantos desconhecidos a sorrir. Porque a Festa desperta o sorriso espontâneo de um «olá» entre desconhecidos que muitas vezes termina num abraço a prometer encontro para o ano seguinte ou em troca de moradas e telefones. O que significa: encontrar um amigo...


Compreender o sentido desse sorriso que não se retém ao cruzar outro é compreender o significado humano que cerca a Festa do «Avante!». Não é o sorriso de boa educação que tropeça nos passos de um conhecido para o saudar com um «como está». Nem o inevitavelmente civilizado com que tantas vezes se pronuncia um «faça favor».

Este sorriso espalhado por todos os cantos da Festa não esconde as preocupações dos comunistas que anualmente a realizam, pela profunda regressão política, social – e também cultural – que se constata a nível nacional e internacional. E que se aponta e contesta largamente no terreno da Atalaia – mas com uma perspectiva de esperança. Com determinação na escolha de caminhos para novos rumos. E força nessa determinação.

Utopia? O significado deste conceito tem sido tão deteriorado por charlatães bem pagos que é preferível afirmar: necessidade urgente de uma outra realidade.

A Festa do «Avante!», em 30 anos de realização, tornou-se uma das expressões mais marcantes dos comunistas portugueses.

Trouxeram-na às costas desde a primeira festa, na FIL, em 1976. E andarilharam com ela, de local para local, de ano para ano, recomeçando-a em cada ano, tornando a reconstruir o aniquilado no ano anterior. 

Depois do Jamor, do Alto da Ajuda, de Loures, encontraram a Atalaia. Na outra margem do rio. O próprio nome contém a beleza de um alerta. Porque a Festa está constantemente ameaçada. Afronta os que sonham com o retorno a tempos sombrios, como os do salazarismo. E porque a Festa é também uma expressão e uma prova da militância comunista.

A Festa nunca se conseguiria realizar só com o traçado de alguns riscos no papel com  encomenda a qualquer empresa.

É obra de construção voluntária e  colectiva. É um trabalho colectivo na mais bela acepção desse termo. Agente e agindo em si própria, gerada por milhões de gestos que se organizam, se complementam. Se entrelaçam e cooperam para um efeito comummente desejado.

A Festa reflecte um  pulsar de trabalho, de modo de pensar e agir. Que mostra a falsidade das imagens que dão dos comunistas os que se acolhem nas sombras do Capital.

Diz-se muitas vezes que o discurso do PCP «não passa», não pega, não dá. A verdade é que não passa porque não é passado. E querem escondê-lo porque é perigoso para o poder que se instituiu em Portugal, numa espécie de democracia pendular de partido único de duas faces que  procura o monopólio do discurso, diariamente repetido, hora após hora, invadindo olhos e ouvidos para se apresentar como incontestável verdade.

A Festa do «Avante!» é, em cada ano, um rasgão no véu de mentira em que o obscurantismo procura envolver Portugal. É uma necessidade imperiosa e urgente desta democracia que conquistámos e nos está sendo vendida às fatias de um bolo mal repartido.

A Festa comprova como os comunistas têm em Portugal as mais variadas formas de criatividade, de expressão cultural, de poder de comunicação. Na verdade somos ricos de ideias. Adoptamos o ideal mais justo, mais lógico e mais belo para a construção da sociedade diferente desta que domina uma humanidade sujeita à avidez do lucro e que, querendo libertar-se dela, não tem os mesmos recursos.

Falando de recursos temos de ter presente as suas fontes. Ver quem deita mão aos  valores produzidos no trabalho, quem os suga e reparte, isto é, quem detém o dinheiro que paga e domina as influências que fazem trampolinar os discursos na ribalta. Este é um muro de ultrapassagem  difícil. Foi preciso um esforço de muitas gerações para que a voz do PCP fosse ouvida no país e a nível internacional. Os comunistas não têm um partido de influências pendulares. Constituem um partido de militantes.Nunca a Festa poderia ser construída e realizada sem a força imaginativa e extremamente dispendiosa do esforço de muitos milhares.

A militância da Festa – e para a Festa – tem vertentes variadas. Com conteúdos diversificados. Em qualquer delas o sociólogo com independência bem informada poderia identificar:

– a militância de membros do Partido com elevada consciência política que destinam parte das suas férias (por vezes, todas elas) para trabalharem na construção, preparação e realização da Festa;

– a militância indispensável e tão generosa e dedicada como as outras de membros das organizações regionais que asseguram a presença das suas regiões no espaço da Festa, tanto na parte política como nos espaços de lazer, levando os seus comeres e produtos e divulgando os traços mais marcantes da sua região, os seus problemas e propostas – e  também para obterem, para suporte da actividade política do Partido na sua região, os recursos obtidos com o seu trabalho na Festa;

– mas  encontramos também na Festa outro tipo de militância, a militância lúdica, de alegria e fascínio pela construção e na construção, na realização e concretização de um largo, generoso e criativo trabalho colectivo que dá alegria e entusiasma.

A Festa é obra que vai de braço em braço, de mão em mão, de discussão em discussão sobre o que está bem ou menos bem no que se está fazendo. E nessa grande obra colectiva feita de generosidade e dedicação há muitos jovens que, não sendo membros do Partido, colaboram na Festa, às vezes ano após ano, em todas as fases, da preparação ao levantamento. E muitos depois até aderem ao Partido... Pela Festa e com a Festa. Porque a  Festa, na sua realização e preparação cria a alegria de um acolhimento amigo e seguro que se vai encontrando no caminho dos que a percorrem.

Mas a Festa do «Avante!» não é só isso.

Tem um cariz ideológico profundo que a atravessa. Não é uma imposição, é uma atmosfera que traz ventos refrescantes de análise e reflexão virados para o futuro. Podem não o reconhecer alguns comentadores de olhos velados perante uma enorme multidão festivamente desassossegada. Quem o não sente, é observador míope, de má fé ou inexperiente. E a falta de experiência, ou uma experiência falhada, pode levar a preconceitos simplistas.

Pois é de bradar aos céus confundir aquela imensa ondulação popular em que se combina e reveza trabalho e puro divertimento, pensamento meditado e discutido, debatido em múltiplas versões, políticas e culturais, com um vulgar espectáculo promovido por cervejeiras, embora tenha uma ampla paleta de música e espectáculos, e também reuna multidões de jovens de muitas idades. A Festa não se confunde também com uma vulgar romaria a assinalar sementeiras ou colheitas. É também isso, semeia e colhe, e é popular: tem tanta gente a fazê-la, a visitá-la, a desfazê-la... Não ignora o que semeou nem o que vai colhendo. Mas ultrapassa tudo isso.

Quem lá vai sabe que pode discutir tão livremente o pão com chouriço que para a sua fome demora a sair do forno, como as ideias mais difíceis e complexas que implicam a constante ousadia de discorrer, pensar e refutar.

A Festa é nossa – dizemos com orgulho os comunistas.

Mas é também de todos os que lá vão e lá estão. Quem diria a um Português que visita o stand do Vietname que o «olá camarada» lhe foi dito com um  sorridente «ciao dong chi»?  Poderá talvez aprender que o «dong chi» vietnamita, que corresponde ao nosso «camarada», tem a significativa tradução literal de «companheiro de ideias».

Dizia Marx que o capital não tem pátria. Pois não. Procura explorar onde maior lucros possa arrancar.

A ideologia comunista também não tem fronteiras – mas para partilhar com todos os homens e mulheres do mundo inteiro a luta pela libertação da exploração do homem pelo homem. Os comunistas lutam na sua pátria mas também além das fronteiras por esse ideal comum, esse companheirismo de ideias. E a Festa do «Avante!» também reflecte essa amplitude e grandeza do ideal comunista.

Muita gente pergunta: qual é o segredo desta Festa? Como conseguem os comunistas manter há 30 anos esta espantosa realização, que criou raízes e mantém expressão própria com tão forte influência na vida política e cultural portuguesa e com inegável  projecção internacional?

E isso apesar de todas as vicissitudes e dificuldades, apesar de todas as viragens que a vida política nacional e mundial tem sofrido nos três decénios de realização das Festas, apesar das violentas ofensivas do capital em todo o mundo e da crise que o movimento comunista e as forças revolucionárias têm atravessado, apesar das constantes medidas e campanhas anticomunistas em que se multiplicam e empenham as forças reaccionárias, os senhores do capital e os seus serventuários nos sucessivos governos e órgãos do poder político? Qual o segredo?

Além de ser expressão da firmeza e coerência da actuação dos comunistas portugueses, há também um outro segredo que explica a vitalidade da Festa do «Avante!». Esse segredo é a sua abertura à vida e ao mundo.

Não é segredo guardado em cofre.

Está à vista de quem quiser ver.

E quem tem olhos para o ver compreenderá a grande força colectiva de quem constrói ideal e se une para dar vida a esse ideal.

Isso explica muitos dos sorrisos que iluminam a Festa do «Avante!». Que eles se alarguem e espalhem, como uma afirmação de confiança e determinação. Para podermos seguir Avante!