Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Organização, Edição Nº 286 - Jan/Fev 2007

Fazer Partido para intervir! Intervir para fazer Partido!

por Manuel Rodrigues

O PCP é um Partido com 85 anos de vida. Todos sabemos que este Partido nasceu com uma distintiva marca de classe, apostado em interpretar e, sobretudo, transformar a sociedade portuguesa contemporânea numa sociedade do futuro, a sociedade socialista. Na prática, esta natureza de classe e a sua força propulsora no sentido da criação dessa outra sociedade, vai criando os caminhos que, do presente, nos hão-de levar ao futuro. Envolvendo sempre, numa intrínseca relação dialéctica, o local e o nacional, o particular e o geral. Neste artigo, dar-se-á breve nota de uma experiência de trabalho, no concelho de Viseu onde, da intervenção à volta de problemas concretos, se criou Partido na freguesia de Calde e como, ao fazer e reforçar o Partido nessa freguesia, se criaram as condições para aprofundar e projectar a luta transformadora à volta desses problemas, elevando sempre essa intervenção para um nível mais geral de combate às políticas que os geraram e pela concretização de uma real alternativa a essa política.

Calde é uma pequena freguesia do concelho de Viseu, situada 12 kms a nordeste da cidade. De acordo com os Censos de 2001, tem uma população residente de 1647 habitantes, que se dedicam, em grande número, à agricultura (de tipo familiar), com outras ocupações, mais escassas, sobretudo nos serviços (principalmente, na cidade de Viseu) e numa ou outra empresa da região, em particular, na área da construção civil. Atravessada por uma importante via rodoviária (a A24), a freguesia de Calde, viu-se privada de qualquer nó de ligação àquela via, obrigando os seus habitantes a percorrer uma distância de vários kms, para entrar nesta auto-estrada, em direcção às cidades de Viseu, Lamego, Régua ou outras cidades e regiões.

A Organização Regional de Viseu do PCP não tinha, em 2005, qualquer militante em Calde. Mas, em 2005, deu-se um acontecimento que, de certo modo, marcou uma viragem nesta situação. Um pequeno grupo de caldenses procurou o Partido, na cidade de Viseu, para formar uma lista da CDU de candidatura à Assembleia de Freguesia de Calde, nas Eleições Autárquicas de Outubro de 2005. Entendiam estes caldenses que esta poderia ser a forma adequada de combater o imobilismo a que a gestão autárquica do PSD e do PS (sempre com a solícita ajudinha do CDS/PP) tinham conduzido a freguesia. Era, por assim dizer, para aquelas pessoas, uma forma de manifestar o descontentamento da população contra a gestão daqueles partidos, responsável pelo estado de imobilismo, abandono e crescente desertificação humana da freguesia, agravado, nos últimos tempos, pelo processo de construção da A24, que, apesar de ser reconhecida pela população como uma importante via de comunicação para a região e para o País, tinha deixado consequências muito negativas sobretudo para os pequenos agricultores locais (expropriações baixas e por pagar, caminhos rurais destruídos, linhas de água «cortadas»). E, mais grave ainda, era a população local a ficar apenas com os sacrifícios da construção daquela via, já que as vantagens desta importante acessibilidade ficavam a vê-las passar por um canudo – como se diz na gíria popular destas aldeias.

Obviamente, o PCP desdobrou-se para dar todo o seu apoio à formação desta candidatura da CDU. E, de imediato, aproveitou para propor e gerar um fenómeno de mobilização da população, organizando uma visita ao local do Secretário-Geral do nosso Partido, Jerónimo de Sousa. A visita viria a realizar-se num quadro de grande participação popular e constituiu um importante impulso para um maior prestígio do Partido e um novo estímulo no avanço da candidatura da CDU.

Em simultâneo, o PCP começou a dar apoio na organização das primeiras lutas pela construção de um nó de ligação, na freguesia, à A24 e pelo pagamento das expropriações dos terrenos e reparação dos estragos (realizaram-se abaixo-assinados, marchas lentas, denúncias junto dos órgãos de comunicação social). Combateu-se o depósito de lixos na floresta (em baldios) da freguesia. Obrigou-se a Câmara a intervir e a retirar pneus ali depositados por desconhecidos.

Realizadas as eleições autárquicas, a CDU obteve um expressivo resultado na freguesia de Calde, que se traduziu, ali, pela primeira vez, na eleição de um membro da lista de candidatura, na Assembleia de Freguesia de Calde, em cujas reuniões passou a intervir com o apoio do PCP.

Passado algum tempo, este eleito inscreveu-se no Partido e com ele mais cinco apoiantes e candidatos da CDU. E, pouco tempo depois, mais quatro caldenses. Criou-se, então, na freguesia, uma pequena organização do Partido, e dois daqueles camaradas passaram a integrar a Comissão Concelhia de Viseu. E, agora, são estas pequenas organizações locais do Partido que planificam as novas lutas pelo desenvolvimento da freguesia e do concelho e, sempre, pelo reforço do Partido, como instrumento orgânico fundamental no combate às políticas de direita e pela criação de condições a uma efectiva alternativa política. E os militantes de Calde participam agora nas lutas da freguesia contra os velhos e novos problemas, mas também nas lutas mais gerais em que o Partido intervém.

Por exemplo, foi a luta do PCP, depois das eleições autárquicas de 2005, que fez avançar a rede de saneamento básico em algumas localidades da freguesia e questionou a estranha interrupção da obra, na aldeia de Calde, poucos meses após ao seu início, promovendo e entregando, na Câmara Municipal de Viseu, um abaixo-assinado que recolheu as assinaturas de mais de 80% dos habitantes desta povoação. E vai continuar a ser a luta do PCP, juntamente com a população da freguesia, que há-de levar à resolução do problema das acessibilidades, de combate contra o encerramento de escolas na freguesia, em defesa do ambiente, pela realização de importantes obras, etc.

É já nesse quadro que, em breve, teremos a visita a esta freguesia do deputado Miguel Tiago, do Grupo Parlamentar do PCP, para contactar a população, conhecer os seus problemas e levantar na AR as questões suscitadas. E é já a Comissão de Freguesia do PCP a organizar localmente esta visita.

Em conclusão: a intervenção do Partido na freguesia de Calde é um bom testemunho das reais possibilidades que o Partido tem de crescer e se reforçar, mesmo nas zonas mais inóspitas e onde o nosso trabalho político parece muito mais difícil. É que a identidade deste Partido, a sua natureza específica, o seu projecto de sociedade e a força intrínseca dos seus ideais possuem um forte valor atractivo a que, no entanto, é possível e necessário dar sempre mais força e melhor organização, numa marcha dialéctica entre o particular e o geral, o local e o nacional.