Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Internacional, Edição Nº 288 - Mai/Jun 2007

Encruzilhada imperialista

por Jorge Cadima

Os dois anos e meio decorridos desde o último Congresso do PCP confirmaram os traços fundamentais da situação internacional indicados na Resolução Política: a «violenta e generalizada ofensiva do imperialismo», mas também os «importantes processos de luta e de rearrumação de forças» e a «instabilidade, a insegurança e a incerteza [que] dominam as relações internacionais». Mas evidenciaram também que a ofensiva imperialista enfrenta dificuldades cada vez maiores no plano militar, político e económico. O imperialismo enfrenta hoje uma situação muito complexa. Não é de excluir que procure resolvê-la através de um uso brutal da força, com consequências desastrosas para a Humanidade. Mas como salientou igualmente a Resolução do XVII Congresso: «Vivem-se tempos de grandes recuos e perigos de retrocesso histórico, mas também de forte resistência e potencialidades revolucionárias».

As dificuldades militares do imperialismo




Os últimos 15 anos evidenciaram a natureza profundamente belicista e agressiva do imperialismo, a par da sua natureza brutalmente exploradora e opressiva. Sentindo-se liberto dos constrangimentos que a existência da URSS impunha, o imperialismo norte-americano procurou tirar partido da sua superioridade militar. Lançou uma série de guerras que – desmentindo as ilusões em que, ingenuamente, muitos se haviam deixado cair – evidenciaram que o imperialismo não mudou na sua essência. Do Golfo à Jugoslávia, do Afeganistão ao Iraque, e também no Líbano e na Somália, o imperialismo procurou impor uma «nova ordem mundial» baseada na força das armas e subverter o quadro legal internacional que emergiu da derrota do nazi-fascismo na II Guerra Mundial. Mas os EUA estão hoje em claras dificuldades, graças à resistência – heróica – dos povos que sofreram as suas mais violentas agressões, e em primeiro lugar graças à resistência do povo iraquiano à ocupação imperialista.

As dificuldades são evidentes no plano militar. Após 4 anos de ocupação, os EUA mantêm cerca de 150 mil soldados no Iraque (fora os mercenários, que um membro espanhol de um Grupo de Trabalho da ONU recentemente estimou entre 30 a 50 mil (1) ), e mesmo assim não controlam o país. O envio pelo Presidente Bush de 20 mil novos soldados (entretanto aumentados para 28 mil (2) ) para tentar controlar a capital iraquiana é bem revelador das dificuldades no plano estritamente militar. Esse «surto» de efectivos não está a inverter a situação, como pôde comprovar pessoalmente o novo Secretário-Geral da ONU, Ban ki-Moon, durante a sua escandalosa viagem a Bagdade. As imagens da sua Conferência de Imprensa a ser interrompida pelo rebentamento de um morteiro valem mais do que mil proclamações oficiais sobre «melhorias» na «situação de segurança». A própria imprensa dos EUA dá indicações de que a situação militar está, até, a agravar-se. O Washington Post de 29.3.07 informa que em 6 dos dias da semana anterior a Zona Verde de Bagdade, centro do poder norte-americano, foi alvo de ataques da resistência com morteiros e foguetes, uma ocorrência que o jornal já considera «frequente». E acrescenta um dado revelador: «os insurgentes são capazes de lançar foguetes e morteiros à distância de muitas milhas, utilizando as coordenadas do Sistema de Posicionamento Global [GPS] para conduzir os mísseis até aos seus alvos». Registe-se ainda a cada vez maior frequência com que são abatidos helicópteros das forças de ocupação. Estas dificuldades estão a reflectir-se na moral e capacidade de combate das tropas dos EUA.

A comunicação social reflecte a catástrofe da ocupação para o povo iraquiano. Mas procura transmitir a ideia de que a violência no Iraque é sobretudo uma «guerra civil» que opõe diferentes comunidades numa espiral de «ataques sectários». Uma leitura atenta da própria comunicação social dos EUA revela que este quadro falseia a realidade. Por ocasião do aniversário da agressão, o New York Times (18.3.07) publicou um gráfico com o «número médio de ataques por semana» que «foram contabilizados pela coligação chefiada pelos americanos», bem como a natureza dos seus alvos. Dos cerca de mil ataques semanais no período mais recente, dois terços visavam as tropas de ocupação, e mais cerca de 20% visavam as tropas iraquianas que combatem ao lado do agressor. Os «alvos civis» são muito minoritários nas estatísticas das próprias forças de ocupação e não é claro quem sejam os reais autores dos ataques contra civis. A gigantesca manifestação de dia 9 de Abril (aniversário da ocupação de Bagdade pelas tropas dos EUA), em que centenas de milhar de manifestantes exigiram a defesa da soberania iraquiana e a retirada das tropas de ocupação, é outro desmentido eloquente das versões manipuladoras da situação que o imperialismo procura difundir.

Também o Afeganistão se revela um problema cada vez maior para as forças do imperialismo, com um grande aumento das baixas entre os exércitos ocupantes. Israel foi derrotado na sua guerra de agressão contra o Líbano, claramente concertada com os EUA (que impediram qualquer solução política do conflito enquanto acreditaram na possibilidade de uma vitória militar israelita contra a resistência popular libanesa, como ainda recentemente confessou o então Embaixador dos EUA na ONU, John Bolton (3) ). E agora vemos o fracasso militar da invasão da Somália por outro «aliado» integrado na estratégia imperialista para a região: a Etiópia.

A resistência dos povos agredidos complicou os planos de guerra que o imperialismo norte-americano tinha elaborado. Esses planos foram confessados pelo General Wesley Clark, que comandou a agressão da NATO contra a Jugoslávia em 1999, numa entrevista recente (4) . Alguns dias após o 11 de Setembro, durante uma visita ao Pentágono, um dos generais que havia trabalhado sob o seu comando disse-lhe: «Este é o memorando que descreve como vamos atacar sete países nos próximos cinco anos, começando pelo Iraque e depois a Síria, o Líbano, a Líbia, a Somália, o Sudão e, para terminar, o Irão». Hoje, os EUA terão enorme dificuldade em desencadear novas agressões utilizando tropas terrestres. O que não exclui o perigo de outras, e porventura mais graves, formas de agressão.

A resistência dos povos agredidos está a evidenciar uma realidade antiga, mas de que os dirigentes do imperialismo e os seus arautos se haviam esquecido: a de que mesmo o mais poderoso dos exércitos pode ser derrotado por um povo determinado a resistir.





As dificuldades políticas




O fracasso dos EUA no plano militar está a ter evidentes reflexos políticos, quer no plano interno, quer a nível internacional. A maioria do povo norte-americano virou-se já contra a política de guerra do seu governo, como ficou expresso nas eleições parlamentares de Novembro passado e nas manifestações de protesto de 17 de Março. Mas as dificuldades políticas reflectem-se num plano bem mais vasto. Os EUA sofreram um golpe demolidor no mito da sua invencibilidade. Reforçou-se a consciência dos povos de que é possível fazer frente à super-potência imperialista. Este facto é reconhecido pelo General Loureiro dos Santos: «Os constrangimentos provocados pelos empenhamentos militares em que se envolveu [a superpotência norte-americana] impedem-na de agir pela força, assim como os erros que cometeu ao aplicá-la lhe diminuíram a credibilidade e a possibilidade de obter resultados apenas através de manobras políticas de influência» (Público, 12.8.06). Esta manifestação pública de fraqueza é de enorme significado para uma estratégia que assenta na força militar como factor decisivo para impor a hegemonia global dos EUA (a inimigos e a «aliados», como se viu em 2003).

A actual onda de processos mais ou menos progressistas, ou até revolucionários, que percorre a América Latina, reflecte o profundo descontentamento de povos duramente castigados pelas desastrosas políticas económicas neo-liberais em voga nos anos 90, mas também uma renovada confiança desses povos na possibilidade de concretizar transformações progressistas. E uma afirmação mais clara de opções soberanas e autónomas de desenvolvimento por parte de alguns governos asiáticos e africanos reflecte igualmente o enfraquecimento do «Consenso de Washington» que, até há bem poucos anos, era imposto como inevitável em qualquer parte do mundo.

O imperialismo norte-americano tirou a máscara nos últimos anos, revelando a sua verdadeira natureza perante milhões de seres humanos em todo o mundo. Mas revela agora de forma igualmente clara os limites do seu poder. Uma sua derrota clara representará uma viragem na situação política mundial.





As dificuldades económicas




Mas há outro plano de grandes dificuldades para os EUA: a sua situação económica. Os deficits nas balanças comercial e de pagamentos, que já eram considerados insustentáveis há alguns anos, estão a agravar-se a um ritmo impressionante. Hoje, os EUA importam, por ano, mais 829 mil milhões de dólares de mercadorias do que exportam (Economist, 31.3.07). A dívida do Governo Federal aproximava-se em finais de 2006 do astronómico montante de 9 biliões de dólares (5) , o que representa cerca de dois terços do PIB dos EUA. O endividamento prossegue em ritmo acelerado: o deficit orçamental em 2006 foi de quase 250 mil milhões de dólares (6) . Causa importante deste endividamento crescente são as aventuras militares: o Senado está a aprovar uma verba de 122 mil milhões de dólares para financiar as guerras no Iraque e Afeganistão (7) .

Os EUA são hoje um enorme parasita na economia mundial. A sua sobrevivência económica está dependente do afluxo diário de milhares de milhões de dólares provenientes do resto do mundo, não a troco de bens, mas apenas para integrar um sistema financeiro cada vez mais especulativo e desligado da realidade produtiva. A sustentabilidade desta situação é duvidosa e ameaça a posição do dólar de reserva internacional. As consequências para a economia mundial dum colapso financeiro dos EUA seriam dramáticas.

Esta realidade tem, como pano de fundo, a tendência para o enfraquecimento relativo dos EUA em termos da produção de bens e serviços, e o ascenso de novas potências económicas, como a China, mas também a Rússia, o Brasil e a Índia. É neste contexto que surge o discurso do Presidente russo Putin na Conferência sobre Segurança de Munique (8) , desferindo um duro ataque à política norte-americana perante uma plateia repleta de altos dirigentes políticos e militares dos EUA e da União Europeia. Putin ataca o «mundo unipolar» e fala de um «uso quase incontido da força – força militar» por parte «em primeiro lugar e sobretudo, dos Estados Unidos, que ultrapassaram as suas fronteiras nacionais de todas as formas», e considera que «a força está a conduzir o mundo para um abismo de conflitos permanentes». Putin refere explicitamente o ascenso de novas potências e exige que esse facto tenha reflexos no plano político. Com actores diferentes, estamos hoje a assistir a uma situação que tem semelhanças com a que caracterizou o início do século XX e que esteve na origem dos dois grandes conflitos bélicos desse século.



 

As incertezas e os perigos



A complexidade da situação que o imperialismo enfrenta hoje está a reflectir-se em duas tendências aparentemente contraditórias.

Assustados com o rumo dos acontecimentos, e com as consequências que um desastre norte-americano teria para todo o sistema capitalista mundial, as potências imperialistas europeias estão a cerrar fileiras em torno dos EUA, procurando secundarizar as contradições que de forma tão visível se manifestaram aquando da invasão do Iraque. Essa tendência ganha força em países cruciais da UE, como a França e a Alemanha. Mas reflecte também o número crescente de países, sobretudo a Leste, inteiramente subordinados aos EUA e onde se regista uma preocupante escalada fascizante. Daí resultam novos focos de conflito, nomeadamente nas relações da União Europeia com a Rússia. A decisão dos governos checo e polaco de abrir o seu território aos sistemas anti-mísseis do imperialismo norte-americano, bem como a criação de novas bases militares dos EUA na Roménia e Bulgária, integram-se na política norte-americana de cerco à Rússia, e estão na origem directa do discurso de Putin em Munique. A questão energética e os planos em curso para separar o Kosovo da Sérvia (contrariando todos os Tratados internacionais) são novas achas para esta fogueira.

Ao mesmo tempo, é no interior do sistema de poder dos EUA – que até há bem pouco tempo apoiou de forma quase unânime a ofensiva imperialista do governo Bush – que surgem sinais de divisão e de conflito profundos.

A situação muito complexa dos EUA faz crescer o perigo de aventuras terríveis. Sectores do poder parecem querer responder ao atoleiro em que se meteram com uma nova escalada militar, envolvendo um ataque ao Irão e outros países. Há advertências públicas de que os EUA e/ou Israel se preparam para utilizar armas nucleares (9) . Receosos das consequências potencialmente catastróficas de uma tal aventura para o próprio sistema, destacados militares na reforma têm manifestado publicamente a sua oposição, numa atitude pouco vulgar. Na já referida entrevista, o General Clark afirma: «nós estamos a apoiar grupos terroristas, ao que parece, que estão a infiltrar-se e provocar explosões no interior do Irão». O ex-Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Zbigniew Brzezinski (10) fez declarações ainda mais surpreendentes num depoimento perante a Comissão do Senado para as Relações Exteriores. Alerta contra uma guerra dos EUA «com o Irão e com uma boa parte do mundo do Islão» e insinua que os fautores dessa guerra poderão montar uma provocação para a justificar: «um cenário plausível para um confronto militar com o Irão envolve o fracasso iraquiano em alcançar as metas [estabelecidas por Bush para o actual «governo» iraquiano]; a que se seguirão acusações de responsabilidades iranianas por esse fracasso; e depois alguma provocação no Iraque ou um acto terrorista nos EUA, que será atribuído ao Irão; culminando-se com uma acção militar ‘defensiva’ contra o Irão que lance uma América solitária num pântano cada vez mais largo e profundo que acabará por se estender do Iraque ao Irão, Afeganistão e Paquistão». É impossível não analisar o incidente dos soldados britânicos capturados pelo Irão à luz deste contexto.





A importância da resistência dos povos




O facto de altos responsáveis do sistema de poder dos EUA virem a público lançar este tipo de alertas diz muito sobre as fortes divergências internas, e os receios quanto ao futuro. Essas divergências reflectem as enormes dificuldades e problemas que o imperialismo hoje enfrenta. Mas não podemos esquecer que essas dificuldades são o fruto da resistência e luta dos povos, em particular dos que são as principais vítimas da ofensiva imperialista. Trata-se duma lição fundamental da actual situação: a resistência à ofensiva imperialista é, não apenas necessária, como possível.

Os comunistas e revolucionários têm hoje a responsabilidade de avaliar a situação mundial, extrair as lições do passado recente e do presente, e estar preparados para intervir, qualquer que seja a saída que o imperialismo procure para a sua actual encruzilhada. Por mais fortes que sejam o imperialismo e as classes dominantes, mesmo no plano militar, a resistência e luta de massas pode derrotá-los. E a sua derrota é uma necessidade imperiosa para a Paz, o progresso e bem-estar dos trabalhadores e povos de todo o mundo.





(1) www.australiandefencereport.com.au/2-07/mercenaries_are_second_largest_f.htm

(2) International Herald Tribune, 8.3.07.

(3) news.bbc.co.uk/2/hi/middle_east/6479377.stm

(4) Entrevista à jornalista Amy Goodman (disponível em www.democracynow.org) , 2.3.07.

(5) Um 9 seguido de 12 zeros, ou 9 triliões na terminologia norte-americana.

(6) www.washingtontimes.com/op-ed/20070212-091022-6828r.htm

(7) www.cbsnews.com/stories/2007/03/22/iraq/main2595406.shtml

(8) www.securityconference.de , 10.2.07.

(9) Veja-se o Sunday Times de 7.1.07 e as declarações do General russo Leonid Ivashov (disponíveis em www.globalresearch.ca , 24.1.07).

(10) Responsável nos anos 80 pela política de armamento dos «mujahedines» afegãos, de onde surgiriam Osama bin Laden e os talibãs.