Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Tema, Edição Nº 288 - Mai/Jun 2007

O artista na revolução - A revolução e o artista novo (pistas de estudo)

por José Pedro Rodrigues

«Para quem lute pela transformação progressista da sociedade é justo defender que o artista (porque a sua obra intervém na sociedade e é um elemento e um factor de emoções, sentimentos e ideias) leve à sociedade com a sua obra uma mensagem que integre valores de classe que, num momento histórico dado, constituem a força de transformação voltada para o futuro.»
Álvaro Cunhal, em A Arte, o Artista e a Sociedade



Outubro. 1917, «Deve-se aderir ou não aderir? A mim, esta pergunta não se me punha (mas punha aos outros futuristas de Moscovo). Era a minha Revolução. Fui para Smólni. Trabalhei. Em tudo o que era preciso. Começaram a reunir»: Maiakovsky descrevia-se assim na agitada Rússia de 1917. Como o legado do poeta russo, o legado dos artistas que fizeram a Revolução russa surge-nos como testemunho exemplar de homens e mulheres que, mergulhados nas contradições e vicissitudes da sua época, assumiram na militância contra o czarismo e o capitalismo, a luta pela construção da sociedade socialista futura.

Evidenciam-se as questões centrais no capítulo novo da História: como ser artista numa pátria nova, como se define o papel do artista enquanto agente social activo num contexto de mudança radical, de estabelecimento de novos princípios de representação e constituição de novos quotidianos na sociedade soviética?

A agência encarregue da educação pública e da generalidade dos assuntos relacionados com a cultura, intitulada Comissariado para a Instrução do Povo (Narkompros), inicialmente dirigida por Anatoly Lunacharsky, defendeu uma resposta a estas questões e desempenhou um papel fundamental no estabelecimento de prioridades que conduziram à concretização da educação, cultura e ciência como direitos humanos fundamentais do povo soviético e à consolidação de condições objectivas para desenvolver adequadamente o trabalho de criação intelectual: através do trabalho da Likbez e da Profobr, respectivamente as secções responsáveis por liquidar a iliteracia e desenvolver o ensino profissional, da Glavlit e da Glavrepertkom, departamentos responsáveis pelo publicismo, literatura e avaliação de reportórios artísticos, e pelo Departamento de Mobilização das Forças Científicas, de quem passou a depender a Academia das Ciências Russa após 1918, que «começou o estudo e a investigação sistemática das forças produtivas naturais da Rússia (…) encarregue  de formar uma série de comissões de especialistas para elaborar com a maior rapidez possível um plano de reorganização da indústria e de ascenso económico da Rússia» (V. I. Lénine, Obras Escolhidas)  e que desempenhou um papel notável, durante o século XX, sublinhado por inúmeras conquistas científicas e tecnológicas que marcaram a humanidade no que de mais avançado foi sendo capaz de produzir. 

Igualmente significativo foi o resultado no investimento na área das artes visuais, sob a coordenação da Izo-Narkompros, criada em 1918, com a participação de Tatlin, Malevich, Mashkov, Udaltsova, Rozanova, Rodchenko, Kandinsky, entre outros.

O estabelecimento de novos patamares de consciência social decorrente do processo revolucionário russo – a afirmação dos valores revolucionários, a identidade do homem novo, a expressão concreta da construção do socialismo – exigiam uma arte transformadora, em que a forma e a técnica solidificassem valores ideológicos, e em que o objecto da criação também encontrasse a sua definição na prática. De três formas distintas este objectivo foi perseguido:

1) A criação de objectos úteis para (re)produção em massa e uso quotidiano. Vários foram os artistas que se envolveram num esforço criativo para conceptualizar objectos e equipamentos de aplicação quotidiana. Os exemplos de Malevich, nos casos da cerâmica, ou de Rodchenko, no desenho de tecidos e roupa de trabalho ou peças de mobiliário, são interessantes de aprofundar na medida em que não se esgotam no género artístico de design, inicialmente ligado à estética dos objectos correntes, iniciado em Inglaterra em meados do século XIX, mas levam esta criação artística para o âmbito do produtivismo, centrado na aplicação efectiva do objecto. Todavia mais relevante observar será o resultado efectivo do estímulo dirigido por estes, e muitos outros conceituados artistas, aos jovens criadores, no incremento do processo de conceptualização e produção de novos objectos para uma sociedade nova.

2) O desenho criativo, a publicidade das ideias, a fotografia: os novos elementos na comunicação de massas num contexto de intensa actividade revolucionária. A publicidade empresarial decorrente das necessidades específicas da Nova Política Económica («mais vale não fumar, mas se fumar, fume ARABI», Maiakovsky) e as campanhas sociais, os versos-slogan («a festa acabou, segunda-feira começou», Maiakovsky), que interferiam com o quotidiano dos cidadãos soviéticos no sentido de ultrapassar hábitos sociais desadequados (combate ao alcoolismo, por exemplo) e conduzir a práticas sociais mais avançadas, sublinhavam a colaboração profícua entre escritores, poetas e artistas plásticos. No campo da fotografia, na conceptualização de uma nova subjectividade, mais tarde magistralmente transposta para o cinema, de emancipação do espectador até ao ponto de vista do criador, da velocidade no acontecimento pela obliquidade na construção do plano, abraçaram-se conquistas que marcaram para sempre a história da imagem.

Ainda sob a direcção de Lunacharsky e do Comissariado para a Instrução, relevando estas conquistas, o esforço criativo, uma imensa produção artística e o sentido fundamental da mobilização das massas no processo de construção de uma nova sociedade, se concretizaram relevantes experiências no campo educativo e cultural, como a dinamização dos célebres comboios e dos barcos de agitação, que percorreram toda a Rússia, divulgando os ideias e as artes revolucionárias.

3) Por fim, o entendimento da criação intelectual, e dos objectos das suas diversas manifestações, como um valor de classe, uma força de transformação voltada necessariamente para o futuro. Intervindo a propósito das tarefas urgentes de construção da nova sociedade soviética, num quadro de permanente cerco, pressões e ataques externos à Revolução de Outubro, Lénine advertia que «toda a organização da instrução, tanto no domínio da instrução política em geral, como, mais especialmente, no domínio da arte, deve estar impregnada do espírito da luta de classe do proletariado pela realização vitoriosa dos objectivos da sua luta, isto é, pelo derrubamento da burguesia, pela supressão das classes e pela eliminação de toda a exploração do homem pelo homem.», (V. I. Lénine, Obras Completas).

Estas concepções – e, sobretudo, a perseverança do emergente Estado soviético na sua consolidação – garantiram que durante o período revolucionário, apesar da guerra e da invasão pelas potências estrangeiras no final da primeira década do século XX, apesar de todo o terror e violência exercidos contra este jovem Estado pelo imperialismo, fosse possível agrupar em torno das posições avançadas da classe operária e do campesinato o conjunto mais significativo da intelectualidade vanguardista russa, reforçando a efectiva ligação com as massas numa dinâmica criativa que marcou de forma indelével as décadas ulteriores, possibilitando a gestação de obras cujo valor humanista, importância histórica, marcante originalidade ou valor científico, figurarão para sempre – resistindo a todas as tentativas de reescrita da História – como sublimes criações do homem. 



O poeta operário



Gritam ao poeta da revolução:

«Seria bom ver-te a trabalhar num tomo.

Versos o que são?

Simples adorno!

Trabalhar não é contigo, se calhar.»

Mas, para nós,

trabalhar

é a ocupação favorita.

Eu também sou uma fábrica

e lá por não ter chaminés,

talvez

seja muito mais difícil.

Bem sei

que não gostas de frases vãs.

Cortar carvalhos, isso sim, é trabalho.

E nós

não seremos também derrubadores de árvores?

As cabeças das pessoas tratamos como carvalhos.

Certamente

pescar é uma coisa respeitável,

lançar a rede

e apanhar esturjões!

Mas o trabalho do poeta é mais respeitável:

não pescamos peixe mas sim gente viva.

Trabalhar na forja é trabalho violento,

o ferro fundido bater e temperar.

Mas quem é

que nos pode acusar de mandriar?

Com a goiva da linguagem polimos as mentes.

Quem vale mais – o poeta

ou o técnico

que conduz as pessoas para os bens materiais?

Ambos.

Os corações são iguais aos motores,

a alma igual a um motor complicado.

Somos iguais,

camaradas na massa trabalhadora,

proletários do corpo e da alma.

Só juntos

remoçaremos o universo

e com marchas poderemos vencer.

Das tempestades verbais defenderemos o povo.

Ao trabalho!

O trabalho é vivo e novo.



Os oradores fúteis, sem dó

ao moinho!

À fresadora!

Que a água dos discursos dê a volta à mó!



(Tradução de Manuel de Seabra)