Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Cultura, Edição Nº 290 - Set/Out 2007

Dizer cem vezes a palavra «açúcar»

por Gisela Conceição

Questionar os conceitos, clarificá-los, resolvê-los na prática, no rigoroso sentido marxista desta fórmula, é um acto de cultura, de liberdade, de emancipação.                   
Convido-vos, leitores, para uma breve reflexão política em torno da violência lexical e semântica que procura manipular, subverter, rasurar as agudas contradições da realidade social.  
                                                                                                                              Alegados pensadores, analistas e membros dessa família peculiar de «fazedores de opinião» tentam obrigar-nos a circular numa feira de contrafacção conceptual, fundada em equívocos cognitivos deliberados. Perante o perigo, não nos é consentido um silêncio desertor.   Vejamos: os prefixos «neo» e «pós» acoplam-se ou vinculam-se, com graciosos hífenes, a conceitos não imutáveis decerto, sem dúvida sujeitos a transformação em consonância com o devir de realidade efectiva, mas dotados de substantividade histórica e ideológica matricial. Qual o resultado desta espécie de alquimia económica com três letras apenas? Em termos gerais, ou a mistificação despudorada ou a vacuidade.  Alguém saberá explicar de que fala quando fala de «pós-comunismo»? Ou de «pós-comunistas»? E, no entanto, o seu pronunciamento segrega a insinuação da presuntiva existência de um corpo doutrinário específico.   Analisemos, na mesma linha de raciocínio, o antepositivo «neo» no termo «neoliberalismo». Novo? De novo? O étimo grego é traiçoeiro. Apresenta duas vertentes de sentido e pode, só por si, se outros indicadores não houvesse, abrir caminho para a descoberta da mistificação. Novo? Não. De novo e sempre o mesmo liberalismo económico, preservando a sua matriz original, obcecado pela absoluta liberdade do mercado (essa entidade misteriosa, hipostasiada), pela redução da intervenção estatal a um grau mínimo, pelo enfraquecimento dos direitos e rendimentos do trabalho. O «neoliberalismo», enquanto palavra, é um constructo semântico. O prefixo «neo», mera engenharia de falaciosa introdução de diferença, não resiste ao investimento crítico. A alteração efectiva dos contornos do liberalismo actual mergulha as suas raízes na História: a mudança acelerada das condições objectivas políticas, económicas, sociais e culturais propiciou a intensificação da agressividade por parte da ideologia capitalista, o agudizar da luta de classes, o desfile de desmandos aberrantes que ferem o paradigma da racionalidade que é timbre da modernidade. Simultaneamente, o chamado «neoliberalismo» é um activo gerador de ficções. Veja-se, a título de exemplo, a versão que nos oferece da globalização: uma narrativa falsa, desmentida, dia após dia, pelosfactos.                                                                                                                               Prossigamos. Os direitos adquiridos (no essencial, fruto de duros, sofridos combates ideológicos e políticos) surgem-nos, com frequência, agasalhados dentro de jocosas ou assassinas aspas. A manipulação é simples. O propósito, de longo e torpe alcance.         Estes dispositivos bélicos são uma recidiva cíclica. Mas tal facto não nos autoriza nem inocência, nem atitude displicente. Com escassas letras e um par de aspas, joga-se uma batalha ideológica, gerida por quem proclama o fim das ideologias e a vitória do   pragmatismo, seja lá isso o que for.E que dizer da criatividade lexical do Governo que estilhaça, por via administrativa, a espessura legítima das expectativas dos trabalhadores da função pública? Excedentários? Supranumerários? Na rota do desemprego? Não: no quadro de mobilidade especial. Atente-se: mobilidade especial. É atraente, apelativo. Mergulhado na cadência de «os trabalhos e os dias», quem não exulta com tal privilégio? Avoco Cícero para exprimir a indignação: «Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?»

Abordemos ainda a proliferação dos «ismos» que pretendem denotar configurações de doutrina política de referência. Nem me abeiro desses artefactos paroquiais que assomam, de quando em quando, na comunicação social, sob os nomes de «barrosismo» e «bushismo». O ridículo, se bordeja o insano, pode matar o mensageiro. Aliás, «a nudez crua» do ideário político de Barroso e Bush encontra-se plasmada na açoriana fotografia de família de criminosos de guerra. Detenho-me apenas no «blairismo», dada a sua incursão recente nas presidenciais francesas, enlaçado no pensamento político hesitante da candidata socialista. A falência de Giddens, o ideólogo da falida terceira via do falido Blair, é um facto iniludível. No entanto, o «blairismo» do Tony ainda mexe. E Giddens, incansável, já se apresentou ao serviço: prevê para Gordon Brown um consulado brilhante, aconselhando um certo distanciamento da administração Bush. Vem aí o «brownismo»?                    Oriunda das bandas da Sociologia, emerge, para designar o nosso tempo, a categoria de «modernidade líquida». Esta inovação teórica parece recobrir fenómenos sociais como a flexi-segurança, o desemprego, a volatilidade das relações laborais, a precariedade do trabalho, a situação fragílima dos jovens que, uma vez fracassada a sua tentativa de autonomia, regressam à casa paterna. Comentários? Haja decoro. E claridade ética.      Mizoguchi, o cineasta genial dos murmúrios, escreveu: «É preciso lavar os olhos entre cada olhar». As metáforas, quando enraizadas na realidade objectiva, podem ser geradoras de prodigiosos sentidos que se inscrevem nos conceitos, enriquecendo-os. «Lavar os olhos entre cada olhar» significa, penso, entre outros riquíssimos veios sémicos, a recusa do imediatismo e da falsa transparência das evidências. Vem esta memória, lá do fundo dos lidos avulsos, a propósito do conceito de cidadania, imediatamente pacífico, revestido de dignidade, caucionado pela História. Um olhar mais «lavado» permite, talvez, isolar, nos seus núcleos de sentido, uma ausência perigosa e uma presença perturbadora. Por um lado, o conceito de cidadania rasura a existência de classes e da luta de classes. Tal como se apresenta, em inocente transversalidade, a cidadania funciona num registo abstracto, eventualmente propiciador de uma inautêntica consciência social. Por outro lado, o termo tolerância, campo de significado que integra o conceito de cidadania, desvela, numa avaliação rigorosa, posturas de superioridade étnica, religiosa, cultural perante o diferente. Tolerar é ainda condescender na aceitação do outro, do que não pertence à tribo. Enjeito a tolerância. Escolho o respeito. No quadro constitucional.    Afirma Marx na oitava das suas Teses sobre Feuerbach: «Toda a vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que induzem a teoria no erro do misticismo encontram a sua solução racional na prática humana e na inteligência dessa prática.» A citação não se pretende icónica. Convoco Marx não pelo valor da sua assinatura – mas porque o que diz é verdade. Manipulações lexicais e mistificações semânticas encontram a sua resolução na prática, no sentido marxista do conceito.   Poderia evocar, para concluir, a lição de Engels na sua referência à prova do pudim. Porém, impõe-se-me a lembrança da sabedoria de um operário agrícola alentejano, com quem entrei em cumplicidade no ano de 1975. Assim falou ele: «Não é por dizer cem vezes a palavra “açúcar” que a boca me fica doce.»