Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

PCP, Edição Nº 291 - Nov/Dez 2007

A Greve Geral em Viseu - A experiência do distrito

por João Abreu

Já muito se falou da importância da Greve Geral de 30 de Maio na luta dos trabalhadores contra a política de direita do Governo PS/Sócrates e dos seus reflexos na melhoria da organização e estruturação sindical.
Propomo-nos nós, agora, com este artigo, trazer ao conhecimento dos leitores a experiência vivida pela organização do Partido e pelo movimento sindical em Viseu na preparação e concretização dessa grande jornada de afirmação do sindicalismo de classe.

Comparando com a de 2002, consideram os camaradas que viveram ambas as greves que esta última triplicou o número de adesões, teve a participação de mais sectores e uma visibilidade pública incomparavelmente maior.

Para este êxito contribuíram decisivamente vários factores: o primeiro e determinante foi, sem dúvida, o reforço continuado do Partido em efectivos e nível de estruturação.

Como se salientava na VII Assembleia de Organização Regional de Viseu, realizada a 22 de Outubro de 2006, nos dois últimos anos tinham-se recrutado para o Partido 212 camaradas (mais de 20% do total de inscritos), realizado nove Assembleias de Organização envolvendo 13 organizações concelhias, criado o organismo de empresas e a célula da PSA-Peugeot/Citroen. Desta dinâmica resultou a responsabilização de mais de 90 camaradas, entre os quais cerca de 30 jovens. A campanha de esclarecimento da situação dos inscritos no Partido ultrapassou nesse período os 90%.

Esse salto qualitativo habilitou o Partido a dar uma contribuição mais forte para o reforço e enraizamento do movimento sindical no distrito.

A Greve Geral de 30 de Maio surge assim como um teste sério à efectiva capacidade de direcção e de mobilização do Partido e do movimento sindical unitário no distrito, como já o tinha sido a mobilização para a grande manifestação nacional de 2 de Março.

É verdade que muito do empenhamento e adesão verificados na Greve Geral de 30 de Maio se deveu à justeza e oportunidade da sua convocação. Contudo, ganhar o Partido, a começar pelos organismos de direcção, para os objectivos da Greve Geral e para a importância do seu êxito, foram decisivos para os bons resultados alcançados.

As cinco reuniões específicas de coordenação com camaradas envolvidos no movimento sindical, a reunião da DORV e do Executivo da DORV, as quatro reuniões do Secretariado voltadas essencialmente para a discussão e preparação da greve, bem como as reuniões das concelhias de Mangualde (com a célula da Citroen), Tondela, Lamego, Nelas, Lafões e Mortágua, inseriram-se nessa estratégia.

Nestas reuniões foram analisados os planos de acção, os sectores estratégicos, os meios e os objectivos a atingir.

Por sua vez, a União e os Sindicatos elaboraram um ambicioso plano de contacto com os trabalhadores, que contemplou plenários nas empresas (Coldkit, Avon, Ernesto Matias, Citroen, Câmara de Viseu e de Lamego, Hospital S. Teotónio e Tondela, hotelaria, maioria das escolas secundárias do distrito), visitas aos locais de trabalho (F. Pública), distribuição de milhares de documentos (alguns específicos: Coldkit, Topack, Gavis, Citroen) nas empresas, nas zonas industriais e à população, afixação de centenas de faixas e cartazes nos centros urbanos e junto às empresas, feitura e colocação de MUPIs próprios para o distrito - na rua a partir do 1º de Maio - três carros de som durante duas semanas, cuja acção incidiu sobre as principais concentrações de trabalhadores, focando problemas concretos de empresas e divulgando o apelo à greve.

Em face do planificado e insistente trabalho realizado, as expectativas de uma boa Greve Geral no distrito eram fundadas. Deve ter sido essa convicção que levou o BE a colocar à pressa cartazes de apelo à greve, exactamente na véspera desta se realizar.

É óbvio que seria profundamente irrealista pensar que iria parar tudo. Daí terem-se definido objectivos prioritários para o êxito da greve, nomeadamente em relação a transportes públicos, serviços municipais, serviços de saúde, tribunais, e Citroen.

Destes, apenas a Citroen ficou abaixo do esperado. Devendo no entanto valorizar-se o facto da célula do Partido ter reunido para discutir a greve, de se ter realizado um plenário na empresa - o que não acontecia há anos -  e de terem parado, apesar da pressão e da chantagem exercida pela Administração, cerca de 100 trabalhadores.

A constituição dos piquetes de greve, com participação de camaradas conhecedores dos problemas das empresas e dos locais onde iam exercer a sua acção, foram decisivos para os níveis de adesão verificados.

Três exemplos:

Hospital de S. Teotónio, em Viseu. Objectivo prioritário, por tocar directamente milhares de pessoas. Assegurada a adesão do pessoal da cozinha e refeitório, pela participação no plenário, havia que garantir a adesão do pessoal de enfermagem e administrativo para que a greve fosse sentida. A distribuição de documento específico com as razões da greve facilitou o diálogo, sobretudo com enfermeiros, mas também com pessoal médico e administrativo. Aos que saíam, o apelo para não voltarem no dia seguinte. Aos que chegavam, o argumento da importância da sua adesão para que o descontentamento manifestado tivesse eco público. Esta acção, sobretudo junto de jovens enfermeiros, foi decisiva para os níveis de adesão verificados, 75%, sendo que a cozinha e refeitório pararam a 100%.



Estaleiro dos Serviços de Limpeza da Câmara Municipal de Viseu, 5,30 h. da manhã. Outro piquete, integrando dirigentes experientes e conhecedores do sector, conversava com o pessoal que ia chegando, especialmente com os motoristas, dando continuidade ao trabalho de persuasão que vinha do plenário. No dia 30 de Maio, apenas um carro do lixo circulou na cidade de Viseu.



Central de camionagem dos STUV - Empresa Berrelhas. Não houve plenário na empresa, por avisada decisão do sindicato, ainda a remoer a desconvocação recente de uma greve, em resultado das pressões exercidas pelo patrão junto dos trabalhadores que tinham ousado ir à reunião sindical. Mas realizou-se um amplo trabalho de convencimento individual. No dia 30, pelas 5,45 h. da manhã, um piquete de greve com dirigentes dos rodoviários postou-se junto aos portões. Cada carro que chegava era convidado a parar e o motorista posto de imediato em contacto, via telemóvel, com o delegado sindical da empresa que se encontrava na Central de Camionagem de Viseu e que dava conta do número de motoristas aderentes. Mais de 70% dos autocarros pararam e mais de 80% dos trabalhadores efectivos fizeram pela primeira vez na sua vida greve, mercê dum trabalho de esclarecimento notável da equipa que teve a seu cargo os STUV.



A paralisação significativa dos transportes urbanos de Viseu, mais a paragem a 100% da Transdev e da RBL a 95%, (não se realizaram Expressos nem transportes escolares) deram o mote à Greve Geral: «O ambiente na cidade de Viseu parece o de um Domingo de manhã», dizia, na rádio local, o locutor de serviço.

Mas outros sectores contribuíram significativamente para o êxito da greve, dentro e fora de Viseu. Realçar o encerramento dos Tribunais Judicial e Administrativo. As adesões nas oficinas da GAVIS e do ENTREPOSTO a 95%. No Hospital de Tondela a 80%, nos Centros de Saúde e nas Conservatória de Mortágua e Lamego a 100%, na Coldkit a 70%, mais o elevado número de escolas do 1.º Ciclo e do 2.º e 3.º Ciclo que fecharam um pouco por todo o distrito.

A Greve Geral criou boas condições para o desenvolvimento do trabalho sindical nas empresas - vários trabalhadores despontaram para a sindicalização e para a necessidade de criação de estruturas sindicais na sua empresa: HUF, Topack, Gavis. Também se fortaleceu o papel do organismo sindical do Partido e a compreensão do papel dos membros Partido na organização e direcção das lutas. Abriu-se caminho ao recrutamento dirigido para algumas empresas: Transdev, Citroen, Serviços Municipalizados de Viseu. Um novo organismo para a administração local está em fase de concretização. O movimento sindical unitário e o PCP saíram mais fortes desta Greve Geral. Temperados na experiência única da luta, novos quadros assumiram tarefas dispostos a ganhar mais trabalhadores para prosseguir em novas batalhas a luta contra a vergonhosa política de subserviência ao grande capital do governo do PS/Sócrates.