Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Economia, Edição Nº 293 - Mar/Abr 2008

Uma crise de alcance planetário

por Carlos Carvalhas

Afirmámos há uns meses e ao contrário da generalidade das opiniões técnicas instaladas, desde o governador do Banco de Portugal ao Ministro das Finanças, que a crise estava para durar, que não era apenas uma crise situada no imobiliário e no sistema financeiro mas que se tratava de uma crise sistémica atingindo a dita economia real – diversos sectores da economia, e que a economia dos EUA iria entrar numa crise socioeconómica. Hoje isto é evidente. Até o governador do Banco de Portugal veio dizer que a crise vai durar todo o ano de 2008. Nós acrescentamos, todo o ano de 2008 e vai prolongar-se por 2009. A sua decantação só se verificará lá para o segundo semestre de 2009 e nos EUA a crise ainda continuará.

Afirmámos também na altura, que Portugal seria dos países mais atingidos no quadro da União Europeia, quer pelo encarecimento e contracção do crédito, quer pelas exportações devido à valorização do euro e ao inevitável abrandamento dos países nossos principais clientes: Espanha, Alemanha, Reino Unido. Os factos aí estão a demonstrá-lo.

A crise que teve o seu epicentro no sistema financeiro americano e na especulação sobre o imobiliário, tem como explicação última a substituição há muito praticada de salários decentes pelo crédito fácil. É uma crise do sistema capitalista, crise de sobreprodução em relação ao poder aquisitivo das massas. Já no seu tempo Ford deu-se conta de que a sua empresa só poderia prosperar se os seus próprios trabalhadores ganhassem o suficiente para comprar os seus carros! Em termos Keynesianos podemos dizer que a procura efectiva foi alimentada pelo crédito fácil e sem garantias reais e não pelo poder de compra das famílias, pois a concentração da riqueza e a baixa de impostos aos plutocratas acelerou-se na era Bush.

Desta vez foi na actividade imobiliária e na construção que incidiu a especulação. Na última crise a especulação e a bolha bolsista assentou na dita nova economia, na Internet... Estamos, como já alguém disse, num capitalismo de borbulha em borbulha, a que não é alheia a liberdade de circulação de capitais e uma globalização que, como afirmou Stiglitz – Prémio Nobel da economia –, foi desenhada para promover maiores lucros ao sistema financeiro e para que se verifique uma maior transferência de dinheiro dos países em desenvolvimento para os países industrializados.





Como é que se desenvolveu?



A diminuição dos rendimentos reais dos assalariados nos EUA foi substituída por uma agressiva política de crédito à compra de habitação e ao consumo geral com garantias mínimas ou sem garantias efectivas. A partir destes empréstimos foram criados títulos e mais títulos numa criatividade muito elogiada na Europa pelos aprendizes de feiticeiro, que se fascinavam com o andamento da economia americana. Tudo isto foi facilitado pela liberalização financeira que engordou um «monstro» incontrolável. A especulação sobre o imobiliário foi criando novas ilusões e novos investimentos em pirâmides do tipo D. Branca encobertos pela opacidade dos offshores. Em 21 de Maio o jornal Business Week, num artigo dedicado ao «negócio da pobreza» documentava a prática das instituições financeiras com os diversos slogans dirigidos à gente simples: «compra a casa dos teus sonhos», «refinancia a tua casa», «financiamos todos». A bolha especulativa foi enchendo. Com o aumento das taxas de juro e os despedimentos começaram os incumprimentos. Ao princípio muitos pensavam que a situação poderia ser contida. Afinal estava-se apenas na ponta do iceberg, como então se afirmou.

Agora as instituições financeiras e os especuladores que ganharam milhões tudo fazem para passar os custos da crise para os assalariados e pequenas e médias empresas.

Os bancos centrais perderam o controlo da crise e as suas intervenções nos mercados, injectando dinheiro, não a conseguiram travar. O Relatório Anual do Banco de Pagamentos Internacional (BPI), publicado em Junho de 2006, já salientava o triunfo dos comportamentos económicos predadores e alertava para o perigo de um «big bang» poder atingir os mercados...

E o «big bang» aí está a confrontar a economia de casino à custa dos povos e dos países com economias mais débeis e dependentes.

A crise do imobiliário tem sido devastadora nos EUA onde se vêem bairros e bairros desertos com casas despejadas e à venda, sem compradores, numa situação difícil de imaginar e atingindo milhares e milhares de famílias. A explosão da bolha imobiliária e a insolvência crescente de vários operadores financeiros estão a repercutir-se numa acentuada quebra do consumo e das receitas das instituições públicas.

A dívida pública e privada que atingiu um montante colossal, sem equivalente histórico nos EUA, foi progressivamente alimentada graças à criatividade dos operadores financeiros e à cumplicidade do sistema financeiro (bancos centrais, agências de rating, imprensa económica...), criando-se uma autêntica explosão de títulos da dívida com a benção do então Presidente da Reserva Federal, Alan Greenspan.

A «produção da dívida» não parou nos EUA, sempre convictos que a «economia real» iria absorver essa dívida, ou seja que o mundo continuaria indefinidamente a comprar a sua dívida, que por sua vez se refinanciaria com novas dívidas.

Em Agosto do ano passado, os grandes bancos internacionais chegaram então à conclusão, dada pela evidência do rebentar da bolha especulativa, de que uma percentagem elevada dessas dívidas nunca mais seria reembolsada.

Esta crise é muito mais profunda e longa do que era estimada pelos bancos centrais, FMI, OCDE e Banco Mundial e a estagno-inflação, isto é, a estagnação do crescimento com a inflação de que os liberais acusavam os Keynesianos aí está de novo a mostrar as taras do sistema capitalista e a infecção financeira global pelo endividamento americano. A incapacidade dos bancos centrais ultrapassarem a penúria de crédito mostra como a crise tem estado fora do controle. Até já vemos defensores da nacionalização do Banco inglês, Northem Rock, para evitar a banca rota! E Bush a devolver dinheiro aos contribuintes para ver se estimula o consumo interno, numa tentativa desesperada de conter o afundamento da economia.

Na verdade, apesar das sucessivas injecções de crédito e da última reunião concertada de Bancos Centrais, as taxas de juro não estabilizaram nem diminuíram, pois os bancos continuam com falta de liquidez e a desconfiar uns dos outros no seu refinanciamento.





Ruptura do sistema monetário internacional?




Poderemos estar no limiar da ruptura do sistema financeiro internacional, tal como foi definido em Breton Woods.

As consequências da crise nos EUA terão implicações desastrosas para o dólar e para as instituições financeiras mais ligadas aos empréstimos do imobiliário nos EUA, bem assim como na Ásia e também em diversos países da União Europeia. As contradições e os interesses divergentes dos diversos actores da finança mundial e do Sistema Monetário Internacional tendem a agravar-se com o afundamento do dólar e com a disputa acerca do estatuto da moeda de reserva mundial. Esta é uma questão estratégica de grande relevância.

Os EUA com a desvalorização do dólar pretendem passar parte da crise para o resto do mundo, incluindo a China, grande detentor de fundos americanos.

Mas a acentuada desvalorização e decomposição do dólar começa a levar à perda de credibilidade desta moeda. Vários produtores de petróleo, entre os quais a Venezuela e o Irão, têm pressionado para que o petróleo deixe de ser apenas pago em dólares. E a China já declarou que se o dólar continuar a afundar-se perderá o estatuto de primeira moeda de pagamentos internacionais.

Para o evitar os EUA têm feito pressão sobre os seus aliados e jogado com o aumento do preço do petróleo quase na mesma proporção da desvalorização do dólar, procurando não dar argumentos aos produtores que dizem que com o petróleo pago em dólares são prejudicados. A visita de Bush à Arábia Saudita insere-se neste quadro de pressão sobre os seus aliados produtores de petróleo, venda de armas para ver se reanima o complexo militar-industrial, reconfiguração da geografia política daquela área com o objectivo de controlar toda a produção e rota do petróleo, de forma a não perder o «novo século americano». Está cada vez mais em causa com o atoleiro do Iraque e do Afeganistão e a crise financeira iniciada em Agosto de 2007, sendo esta mais uma acha para a fogueira no projecto imperial neoconservador americano. Embora não se possa esquecer o poderio militar deste país.

E é aqui, na disputa da liderança ou da ocupação de um maior terreno, que entra também a valorização do euro, que se quer afirmar como pilar de um novo sistema monetário internacional. Neste domínio, as contradições inter-imperialistas tendem a aumentar, estando em aberto a reestruturação do «sistema monetário internacional».





Portugal e a «crise financeira»



Mas a excessiva valorização do euro traz também consequências muito negativas para a actividade produtiva mesmo de países como a Alemanha, cujas exportações estão muito menos dependentes de factor/preço como são, por exemplo, as portuguesas.

As consequências para Portugal são bastante negativas. A crescente dependência e subcontratação da nossa economia, a substituição crescente da produção nacional pela estrangeira, o domínio também crescente dos centros de decisão – empresas básicas e estratégicas – pelo capital externo, facilitado pelas privatizações e pela adesão ao euro nas condições conhecidas, tornaram o país mais vulnerável e pior preparado para enfrentar a crise.

E aqueles que têm lucrado com a especulação já estão a passar os custos da crise para os assalariados e para as pequenas e médias empresas, através do encarecimento do crédito, da subida de preços e da perda de poder de compra da maioria dos assalariados baseado num iníquo índice de preços. Como sempre, fazem o mal e a caramunha. Não tarda que os responsáveis pela dependência e fragilidade da nossa economia face à valorização do euro e abrandamento do crescimento dos nossos principais clientes (Espanha, Alemanha) sejam os primeiros a brandir de novo o espectro da crise para impor mais e gravosos sacrifícios.

Não podemos esquecer que a política do «bloco central» tem levado o país à liquidação do aparelho produtivo e à crescente dependência do estrangeiro, que já detém um terço do capital das empresas portuguesas, tendo passado de 21,1% em 1997, para 34,8% em 2006! Por outro lado, o endividamento dos portugueses em percentagem do «Rendimento Disponível» era em 2006 de 124%, e em percentagem do PIB de 88%.

Também o endividamento das empresas em percentagem do PIB era em 2006 de 105% e o nível de endividamento externo do país em percentagem do PIB no fim de 2007 será superior a 80%.

Serão precisas mais palavras para evidenciar a gravidade da situação a que chegámos e a nossa vulnerabilidade face ao estrangeiro e ao encarecimento e restrição do crédito?

É por isso, necessário informar a opinião pública sobre os verdadeiros responsáveis por esta situação e mobilizar consciências para combater aqueles que pretendem continuar a passar a factura aos trabalhadores e à população em geral da política de concentração da riqueza, da dominação financeira e do capitalismo, que navega de crise em crise especulativa condenando milhões de seres humanos a grandes dificuldades, à pobreza e à indignidade.

A desregulamentação financeira, a livre circulação de capitais e a financeirização da economia têm alimentado a concentração da riqueza e a pauperização de milhões e milhões de seres humanos a níveis nunca vistos.