Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Mulheres, Edição Nº 293 - Mar/Abr 2008

Clara Zetkin e a luta contra a guerra

por Laura Cunha

Clara Zetkin foi uma incansável lutadora contra o imperialismo, contra a guerra e pela causa da paz.
Desde jovem sempre manifestou a sua forte oposição à guerra, apelando às mulheres para que se mobilizassem pela paz. Nas conferências de mulheres e nos congressos da II Internacional denuncia a corrida aos armamentos e a propaganda belicista, acusando a direcção social-democrata, cujas posições ao longo dos anos se caracterizavam pelo revisionismo, de não lutar com a energia necessária contra a sociedade capitalista e o imperialismo. Em 1910, no Congresso da Internacional em Copenhaga, apela às mulheres socialistas para se comprometerem a lutar com mais vigor pela manutenção da paz e faz aprovar uma resolução recordando que «todos os camaradas têm o dever de se lembrar das resoluções contra a guerra votadas no congresso internacional de Estugarda e de zelar pela educação das crianças no sentido da paz» (1) . Com o mesmo entusiasmo, combateu no seu partido aqueles que se mostravam favoráveis à guerra e ao militarismo e que no parlamento votavam favoravelmente o aumento das despesas militares. Dois anos antes da guerra deflagrar, no Congresso Socialista Internacional de Basileia (25/11/1912), Clara Zetkin lançou um veemente apelo às mulheres de todo o mundo para lutarem contra a guerra imperialista.

Atenta à sucessão dos acontecimentos – corrida aos armamentos, votação dos créditos de guerra, entre outros – que culminaram nos primeiros dias de Agosto de 1914 na declaração de guerra pelo Reich alemão à Rússia e depois à França, Clara Zetkin revigorou a sua acção anti-bélica, acusando o imperialismo e desmascarando a traição da social-democracia.

O jornal Die Gleichheit – órgão do Secretariado Internacional das Mulheres Socialistas, de que foi responsável durante longos anos – foi para ela uma poderosa arma de combate. O seu artigo Pela Paz!, escrito em Abril de 1915, é um hino à paz, assente na confiança na classe operária, a quem apela à unidade para que possa cumprir o seu papel histórico.

Neste artigo, Clara Zetkin constata com amargura que o imperialismo conseguira instrumentalizar grande parte do proletariado dos Estados beligerantes, com a ajuda dos discursos enganadores dos dirigentes socialistas e o recurso a slogans chauvinistas que desorientaram as massas operárias, que ela tenta encorajar. No eco do troar dos canhões inimigos a anunciar as primeiras vitórias, ela já perscruta as badaladas dos «sinos da manhã» a anunciar que os operários dos países em guerra no meio da embriaguez imperialista começam a recuperar e a lembrar-se dos seus interesses de classe e da sua grande missão histórica. Pois – afirma – «tal é o sentido das manifestações que se multiplicam em prol da solidariedade internacionalista do proletariado de todos os países e duma paz conforme aos princípios socialistas». (2)

Clara Zetkin enaltece as mulheres, particularmente as mulheres socialistas proletárias, que «fizeram sobre a guerra mundial e sobre as tarefas daí decorrentes para elas uma avaliação mais firme nos princípios do que a dos homens».

São postas em destaque as socialistas inglesas que nos países beligerantes foram as primeiras a afirmar a sua solidariedade internacional e o seu desejo de paz numa «Mensagem às mulheres de todos os países» e as inumeráveis marcas espontâneas de simpatia que as mulheres socialistas dos países neutros, em agradecimento, lhes testemunhavam, designadamente as camaradas russas, as mulheres sociais democratas da Áustria...

Mulher socialista e mãe, é sobretudo a mãe que fala a outras mães num dos seus inúmeros discursos anti-bélicos: «Se nós, mães, inculcarmos nos nossos filhos o mais profundo ódio à guerra, se implantarmos neles desde a sua mais tenra juventude o sentimento, a consciência da fraternidade socialista, virá o tempo em que na hora do perigo mais premente não poderá haver na terra poder capaz de arrancar este ideal dos seus corações. Então, nos tempos de perigo e do mais terrível conflito, eles pensarão primeiro no seu dever de homens e de proletários.

Se nós, mulheres e mães nos erguermos contra os massacres – não é porque, no nosso egoísmo e na nossa fraqueza, sejamos incapazes de grandes sacrifícios por grandes objectivos, por um grande ideal; nós passámos pela dura escola da vida na sociedade capitalista e nessa escola tornámo-nos combatentes.

Por isso podemos enfrentar o nosso próprio combate e cair, se for necessário, pela causa da liberdade...».

No mesmo artigo Pela Paz!, mobilizando as mulheres para a luta, ela não esconde a sua dureza: «Não dissimulamos que a sinfonia diabólica que sobe dos campos de batalha e os bramidos nacionalistas dos cantos belicistas abafam a voz das mulheres que reclamam a paz. Mas isso não durará muito tempo se as mulheres – e sobretudo as mulheres proletárias – o quiserem realmente».

Porém, a acção infatigável de Clara Zetkin e das forças anti-belicistas nos países europeus não conseguiram impedir o flagelo da I Guerra Mundial que apenas terminou em 1918 e se saldou em 12 milhões de mortos e toneladas de ruínas. Com a Revolução Socialista de Outubro (Novembro 1917), sob a orientação de Lénine, e a publicação do 1.º decreto sobre a paz, foi dado um passo decisivo para o fim da guerra imperialista e a sua transformação numa guerra revolucionária vitoriosa contra as classes opressoras e exploradoras.

Mas novas guerras imperialistas se seguiram. Porque os seus fomentadores alimentam-se com a guerra e com ela procuram perpetuar-se no poder, pondo em prática velhos e renovados planos de dominação mundial. A realidade mostra que entre a época em que vivemos e aquela que Clara Zetkin analisou existem semelhanças inegáveis. O imperialismo e a guerra, parte integrante do sistema capitalista mundial, sempre foram e continuam a ser, inimigos mortais dos povos e da liberdade.

Na luta diária contra a política de exploração dos trabalhadores e contrária aos interesses do povo português praticada pelo actual Governo «socialista» e denunciando a sua submissão aos planos de dominação e de guerra do imperialismo mundial, o PCP manifesta a sua inteira solidariedade internacionalista aos povos em luta contra as agressões e ameaças imperialistas, designadamente, aos povos de Cuba, Palestina, Colombia, Iraque, Irão, Venezuela bolivariana, Sahara Ocidental, Timor-Leste, honrando os seus princípios e deveres patrióticos e internacionalistas.



Notas



(1) Citado por Gilbert Badia (1993), in Clara Zetkin, féministe sans frontières, Paris, Les Éditions Ouvrières, p.147.

(2) Lénine, que conhecia pessoalmente Clara Zetkin e admirava a sua actividade revolucionária, não deixou sem crítica a ambiguidade desta sua posição ao afirmar que a «transformação da guerra imperialista actual em guerra civil é a única palavra de ordem proletária justa, ensinada pela experiência da Comuna, indicada pela resolução de Basileia (1912) e resultante das condições da guerra imperialista entre países burgueses altamente evoluídos».