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Karl Marx, Edição Nº 295 - Jul/Ago 2008

Marx hoje

por Carlos Aboim Inglez

Artigo de Carlos Aboim Inglez escrito para o Diário de Notícias de 10 de Março de 1983, na passagem do centenário da morte de Karl Marx (14 de Março de 1883)



1. Não haverá hoje quem, minimamente culto e honesto, não reconheça em Karl Marx, sobre cuja morte passam, a 14 de Março, cem anos, um dos maiores pensadores de toda a história da Humanidade, um cientista de rara profundidade, envergadura enciclopédica, rigor intelectual e previsão genial. E também dificilmente alguém negará ter sido Marx um dos homens que, pela força do seu pensamento, mais ainda, que pela sua aliás notável actividade prática, maior influência exerceu sobre a vida ulterior da Humanidade.

Inclusive aqueles que hoje negam a validade do marxismo, os que o combatem, ou que combatem as forças sociais, políticas e intelectuais que o encarnam e continuam, mesmo esses usam-no, utilizam o marxismo, ou conhecimentos, conceitos, teorias de raiz marxista. E não é isto qualquer paradoxal contradição, nem sequer plágio consciente. Para uns, sendo o marxismo verdade, da verdade se têm de socorrer, mesmo negando-a e ocultando-a, para agirem eficazmente na prossecução dos seus interesses. Mas para outros, para todos, para a grande massa, do que se trata é que muito do que Marx descobriu e formulou se difundiu de tal forma (com a expansão e desenvolvimento do marxismo) que passou já hoje ao património do próprio senso comum e ao acervo do conhecimento científico mais generalizado.

O marxismo é pressuposto teórico plasmado na prática quotidiana de incontáveis milhões de homens no mundo de hoje, universalmente.



2. O conhecimento humano da realidade é um processo de acumulação ininterrupto, como ininterrupta é a sua base e fundamento, a produção social e, em primeira linha, a produção material, sem a qual nem o homem existiria. Processo de acumulação e aprofundamento que, necessariamente, se realiza através de negações e negações da negação, afirmações de um conhecimento superior, mais aprofundado, mais geral. E mesmo o novo que nasce e aparece, ou se descobre, não surge ex nihil, do nada, é apreendido a partir do antes adquirido, acumulado. Assim também nas revoluções científicas como foi a realizada por Marx (e Engels, e depois Lénine, e afinal o marxismo em geral). Assim também, pois, no desenvolvimento do próprio marxismo, que não é algo de feito e acabado uma vez por todas. Coisa que aliás não existe.

Será fácil hoje, quase século e meio após as grandes descobertas de Marx e Engels e a elaboração do seu corpo teórico original, apontar partes dele, certas ideias, afirmações, teses, que se poderão considerar ou erradas ou caducas, ou ultrapassadas. O próprio Marx, Engels, Lénine, o fizeram durante a sua própria vida, durante a elaboração das suas próprias obras. Mais difícil será, e não creio que ninguém o tenha feito, realizar uma outra revolução científica de tal monta que ponha em causa o próprio marxismo na sua integralidade e essência. Muito pelo contrário. Muitos daqueles que «refutam» o marxismo não passam de pigmeus intelectuais e, quando não ignorantes, decerto desonestos – desonestidade é deformar para refutar, isolar do todo para pôr o todo em causa – e esses são os processos usuais dos «refutadores» de Marx, e do marxismo). Alguns, afirmando querer «renovar» o «velho» Marx, pretendem é deitar fora o corpo vivo do marxismo, e deitar dentro da banheira da «renovação» as velhas águas sujas do eclectismo mais estafado e repugnante. É no marxismo e com o marxismo, na sua aplicação criadora, que o marxismo efectivamente se renova, isto é: se confirma e desenvolve. Tal como se elaborou, afinal, há já século e meio atrás.



3. O processo de aferimento do que é ou não válido – no marxismo, como em qualquer outra ciência ou domínio do conhecimento – passa pela prática, pela ampliação do domínio da natureza pela homem, pelo estudo, pela experimentação, aprofundamento do conhecimento da realidade. Esse processo (prático-revolucionário e científico-teórico), ao longo deste século desde a elaboração original do marxismo, não infirmou, antes confirmou, fase a fase e domínio a domínio, as teses fundamentais do marxismo, as leis científicas que descobriu e fundamentou. Mais: esse processo foi igualmente um processo de desenvolvimento do marxismo pela aplicação do próprio marxismo. Processo de desenvolvimento, logo de inovação, que obviamente não terminou, ou não fora a realidade inesgotável e por isso infindo o processo do seu conhecimento. Conhecimento que se transmuta em e identifica com a transformação da própria realidade.

Por isso nunca o marxismo poderá ser reduzido a um «comentarismo» escolástico-dogmático, ainda quando de intenção apologética, ou assimilado a uma «re-leitura» das «entrelinhas» que nega as próprias linhas explícitas essenciais. Para que o marxismo seja hoje e amanhã algo em que Marx se pudesse reconhecer (recordemos a célebre boutade de Marx: se isso é marxismo, então eu não sou marxista...) há-de estar indissoluvelmente unido à prática revolucionária e ao estudo científico dos novos fenómenos e da complexa realidade. 



4. A discussão sobre a «actualidade» ou não de Marx, sobre o «renovamento» necessário ou não do marxismo (discussão velha de mais de um século... – e que, no curto prazo, cremos ser algo de temporariamente ultrapassado hoje, pelo menos com um mínimo de seriedade, já que se degradou do plano «académico» para o plano da grosseira manobra de diversão agenciada pelos mass media controlados pelo imperialismo), essa discussão cremos que, tirando a que se processa naturalmente no interior do próprio marxismo em desenvolvimento, não será tanto na «discussão» que se resolve, mas na prática, pela própria prática do marxismo: the proof of the puding is the eating, Engels o recordou. Com a vantagem de se não ter de travar tal batalha no terreno ou nos termos que o adversário pretende impor, mas sim nas frentes e nas direcções que efectivamente são necessárias aos interesses que o marxismo encarna e serve – os da emancipação do homem, os da transformação revolucionária da sociedade, os do avanço do conhecimento do mundo.

Tempos há em que o pensamento se substitui à acção, objectivamente inviável. Outros temas há, e situações, em que um passo prático em frente vale mais que cem pensamentos. Este é o tempo e a situação em que se não trata mais de apenas «interpretar» o mundo, mas de «transformá-lo». E Marx identificar-se-ia com Lénine, e ambos com Hegel, ao sublinharem a eminência da prática sobre o conhecimento meramente teórico, porque aquela tem não só a dignidade da universalidade, mas também a da realidade imediata...



5. Variado e riquíssimo é o conteúdo da obra de Marx. Impossível referir sequer um índice de «títulos de capítulo» das teorias, ideias, pistas. Poderá ser considerado pessoalmente subjectivo, e decerto o será, o que a seguir destacamos, até porque temos de omitir fundamentações. Mas do enorme contributo de Marx nos três grandes domínios teóricos em que mais relevo assume a sua obra, a saber: a filosofia, a economia política e a teoria do socialismo científico, cremos serem de destacar três questões fulcrais que definem essencialmente (não esgotam) o cerne do marxismo, ontem como hoje. Primeira: a dialéctica, como nervo revolucionário do marxismo. Segunda: a teoria da mais-valia, como pedra angular de todo o edifício teórico de «O Capital» e, por aí, no que a ela conduziu e no que de ela resulta, de toda a doutrinação marxista. Terceira: a tese (a descoberta, cientificamente fundamentada, praticamente demonstrada) da missão histórica e papel dirigente da classe operária na transformação revolucionária da sociedade, pondo fim a milenária exploração do homem pelo homem e dando o passo à história verdadeiramente humana de todos os homens.

O marxismo é um corpo íntegro nas suas traves mestras essenciais. Mas se de «essência das essências» do marxismo pudéssemos falar, creio bem que apontávamos esta terceira. Porque ela é o empenhamento vital de todo o autêntico marxista, a magna tarefa em curso na época contemporânea, na realização da qual se cumpre e desenvolve o mesmo marxismo – se cumpre e desenvolve até ao surgimento, séculos vindouros, de uma nova revolução científica de envergadura comparável àquela que empreendeu Karl Marx, falecido há cem anos, com o seu companheiro Friedrich Engels, e que Lénine continuou tão genialmente que, hoje, dizer marxismo é dizer marxismo-leninismo.