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Karl Marx, Edição Nº 295 - Jul/Ago 2008

Ler e estudar Marx -«Um míssil lançado à cabeça dos burgueses»

por Revista «O Militante»

A obra intelectual que Marx nos legou é vasta, diversificada, de enorme riqueza de ideias, rara profundidade e indiscutível actualidade nos dias que vivemos. Em apenas três escassas páginas de O Militante não é possível referir com a extensão e a profundidade exigidas a herança teórica de Marx, pelo que ficaremos apenas por alguns registos.

Lembramos que retomando uma prática que remonta aos anos de vida clandestina, o Partido Comunista, após o 25 de Abril, através da Editorial «Avante!», tem dado uma particular atenção às obras dos clássicos do marxismo-leninismo, chamando a si a publicação das obras mais importantes de Marx, Engels e Lénine, desenvolvendo simultaneamente a sua difusão.

Em Portugal, cabe assim ao Partido Comunista Português o mérito de ter tornado conhecidas algumas das obras mais importantes de Marx. Em Obras Escolhidas de Marx e Engels em três tomos ou em publicações separadas, a Editorial «Avante!» tem vindo a publicar obras, ensaios, artigos, cartas, documentos políticos de Marx e continua com a publicação da sua obra mais conhecida O Capital.

Sobre esta sua obra, em 1867, numa carta datada de 17 de Abril, dirigida a J. Becker, amigo de Marx e Engels que organizou na Suíça a Secção da I Internacional e foi redactor do Verbote, jornal da Internacional, ao anunciar-lhe a entrega para impressão do manuscrito do primeiro volume de O Capital, Marx escrevia: «É certamente o mais terrível míssil que até hoje foi lançado à cabeça dos burgueses (e dos proprietários fundiários).» (1)

A partir de 1857, a crise económica mundial e o amadurecimento de importantes acontecimentos políticos na Europa haviam obrigado Marx a acelerar o seu trabalho no domínio da economia política. Destacam-se aqui os importantes manuscritos económicos de 1857-1858 – Fundamentos para a Crítica da Economia Política que contêm uma série de questões teóricas mais tarde desenvolvidas e formuladas com rigor em O Capital.

Em Junho de 1859 Marx publicou o primeiro caderno da obra Para a Crítica da Economia Política onde, pela primeira vez, expõe de forma sistemática a sua teoria do valor. O prefácio desta obra é de grande valor científico por conter uma formulação da essência da concepção materialista da história.

A obra teórica de Marx esteve sempre, desde o início até ao fim da sua vida, estreitamente ligada à sua actividade revolucionária. «Porque – como dizia Engels – Marx era em primeiro lugar um revolucionário […]. O seu elemento era a luta.» (2)

E a propósito do prestígio e da enorme influência de Marx no movimento operário internacional, Engels escrevia: «Marx conquistou, pelas suas realizações teóricas e práticas, um lugar em que a melhor gente de todos os movimentos operários nos diversos países tinha nele plena confiança. Eles voltavam-se para ele nos momentos decisivos para pedir conselho e descobrem, habitualmente, que o seu conselho é o melhor […].» (3)

Além dum intenso trabalho no seio da Liga dos Comunistas, Marx desenvolveu simultaneamente um intenso trabalho teórico relativamente às revoluções burguesas de 1848-1849. Escreveu, em 1850, As Lutas de Classes em França de 1848 a 1850 e em 1852 O 18 de Brumário de Louis Bonaparte.

Dessas revoluções Marx retirou importantes ensinamentos como, por exemplo, a necessidade da aliança da classe operária com o campesinato, o carácter duma revolução proletária, o papel do partido, a questão do Estado, que concretizou e desenvolveu.

No próprio fogo dos combates da Comuna de Paris, Marx não pôs de parte o seu trabalho teórico analisando a importância histórica deste acontecimento.

Numa carta a Kugelmann, datada de 12 de Abril de 1871, Marx expôs o que a experiência da Comuna trazia de essencial: «Se consultares o último capítulo do meu 18 de Brumário, verás que enuncio como próxima tentativa da revolução francesa não já, como até aqui, transferir a máquina burocrático-militar de umas mãos para outras, mas demoli-la, e isto é a condição prévia de toda a verdadeira revolução popular no continente. É esta também a tentativa dos nossos heróicos camaradas de Paris.» (4)

Na sua obra Crítica do Programa de Gotha (1875), Marx colocou e solucionou uma série de problemas teóricos importantíssimos, traçando os contornos da futura sociedade comunista e formulando teses fundamentais sobre o período de transição do capitalismo ao socialismo e sobre as duas fases do comunismo. Sobre isso, diria Lénine: «Toda a teoria de Marx é uma aplicação da teoria do desenvolvimento na sua forma mais consequente, mais completa, mais reflectida e rica de conteúdo ao capitalismo contemporâneo.» (5)

O Programa de Gotha foi um programa de compromisso do Partido Operário Alemão com elementos pequeno-burgueses instáveis e oportunistas que fizeram baixar o nível teórico e político do partido lançando-o numa grande confusão ideológica contra a qual Marx e Engels o haviam prevenido.

Com a Crítica do Programa de Gotha, Marx culminou a sua teoria revolucionária sobre o Estado, prevendo a necessidade histórica de um período de transição em que o Estado tem de ser a ditadura do proletariado.

Juntamente com Engels, Marx escreveu as tão conhecidas e importantes obras: Manifesto do Partido Comunista, A Sagrada Família, A Ideologia Alemã.

A publicação do Manifesto em 1848, por incumbência da Liga dos Comunistas (e que este ano assinala o seu 160.º aniversário), coincidiu com a revolução burguesa de Fevereiro em França.

Denominado pelos seus próprios autores de «documento histórico» (6) , «programa prático e teórico pormenorizado do Partido» (7) , o Manifesto ocupa um lugar particular na história do pensamento marxista, pois expõe pela primeira vez a teoria do comunismo científico e formula as leis objectivas do desenvolvimento social.

A Sagrada Família ou Crítica da Crítica Crítica (1845) contém já quase inteiramente formulada a ideia de Marx e Engels sobre a tarefa histórica mundial do proletariado («coveiro» do capitalismo), base sobre a qual se ergue a teoria do comunismo científico.

Em A Ideologia Alemã (1845-1846), Marx e Engels submetem a filosofia de Hegel e o idealismo subjectivo dos jovens hegelianos e o carácter inconsequente, metafísico, passivo do materialismo de Feuerbach a uma ampla crítica.

Nesta obra, Marx e Engels formulam as teses essenciais do materialismo histórico sobre o papel determinante da produção material na vida da sociedade, sobre a dialéctica do desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção e sobre a luta de classes como força motriz de desenvolvimento nas sociedades de classes antagónicas.

A Ideologia Alemã marca uma etapa importante na formação das bases teóricas do comunismo científico – o materialismo dialéctico e o materialismo histórico, descoberta genial do pensamento humano que transformou a filosofia numa ciência que reflecte fielmente as leis objectivas do desenvolvimento da natureza, da sociedade e do pensamento. A filosofia marxista, única filosofia verdadeiramente científica, meio eficaz não apenas de conhecer o mundo mas de o transformar.

Os nossos leitores dispõem, já publicadas pela Editorial «Avante!», além das atrás referidas nestas notas, outras obras e textos que importa ler e estudar. Entre outros: Teses sobre Feuerbach, Manuscritos Económico-Filosóficos de 1844, Trabalho Assalariado e Capital, Salário, Preço e Lucro, Miséria da Filosofia, Para a Crítica da Economia Política (Prefácio), A Burguesia e a Contra-Revolução, Mensagem Inaugural da Associação Internacional dos Trabalhadores, A Guerra Civil em França, «Prefácio à Primeira Edição Alemã do Primeiro Volume do Capital» e os tomos I, II e III do livro I de O Capital.

Aos trabalhos de investigação, ensaios, documentos políticos, cartas, artigos e obras de grande fôlego de Marx, devem milhões de homens em todo o mundo as mudanças radicais que se operaram na sociedade, designadamente as novas sociedades nascidas durante o século XX segundo as suas ideias e que um dia retomarão o curso do socialismo e do comunismo em cuja construção estavam empenhadas e que foi brutal e traiçoeiramente interrompido.



Notas



(1) Lettres sur «Le Capital», Éditions Sociales, Paris, 1964, p. 156.

(2) Souvenirs sur Marx et Engels, Ed. en Langues Etrangères», Moscou, 1958, p. 76.

(3) Carta de Engels a E. Bernstein, 25 de Outubro de 1881, in Obras de Marx e Engels, t. 35 (ed. russa), p. 190.

(4) Carta de Marx a Kugelmann, 12 de Abril de 1871, in Marx/Engels, Obras Escolhidas em três tomos, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, t.2, 1983, p. 457.

(5) V. I. Lénine, Obras Escolhidas em três tomos, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, t.1, 1977, p. 279.

(6) Prefácio à edição alemã (1872), in Marx/Engels, Obras Escolhidas em três tomos, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, t.1, 1982, p. 96.

(7) Id., Ibid., p. 95