Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Organização, Edição Nº 295 - Jul/Ago 2008

As tarefas de propaganda e o reforço do Partido

por Vasco Cardoso

A denúncia da política de direita e a afirmação das propostas do Partido, a projecção do ideal comunista e das possibilidades de construção de uma sociedade nova – o socialismo –, a par do persistente e orientado silenciamento e deturpação das posições e da acção do PCP, exigem uma maior atenção aos meios próprios de propaganda e a sua consideração como factor inseparável da acção geral de reforço da organização partidária.



As classes dominantes, em particular a burguesia monopolista, contam, para assegurar a sua posição de domínio e controlo económico, político, social e cultural da sociedade, com poderosos meios de informação e formação ideológica. Desde logo, os órgãos de comunicação social, cuja natureza da sua propriedade (grandes grupos económicos) não oferece dúvidas quanto aos objectivos que servem.

Em Portugal, a sua intervenção é marcada não apenas por um persistente silenciamento do PCP e por uma atitude marcadamente anticomunista, mas também pela promoção e valorização de outras forças políticas e sociais, quer sejam as que beneficiam e concretizam a política de direita, quer as que, dizendo combatê-la, na verdade procuram impedir o crescimento e reforço do Partido.

Mas não é apenas com base nos media que aqueles a quem o Partido se dirige formam as suas opiniões, as suas opções de voto, a sua consciência social e política, a sua consciência de classe. O conjunto de organismos e instituições do Estado (também este um instrumento de dominação de uma classe por outra), nomeadamente o sistema de ensino, assim como outras estruturas que intervêm na sociedade, como a Igreja, ou os grandes difusores de produção cultural e artística, tem um papel que não pode ser ignorado.

No presente, uns e outros, projectam predominantemente valores, concepções e modelos facilitadores da aceitação das «dificuldades», das «inevitabilidades», da «crise», da «ordem natural das coisas» e procuram limitar a compreensão da natureza exploradora do capitalismo, empurram as massas para alternarem entre opções políticas e eleitorais que garantam a continuidade da política de direita, diluem responsabilidades, apagam as contradições de classe, tentam eliminar a perspectiva de luta e as possibilidades de transformação da sociedade.

Enfrentamos ainda crescentes limitações às liberdades e à democracia, que interferem directamente com a iniciativa política do Partido e com o direito de propaganda. Limitações que passam pela tentativa de proibição, à margem da Constituição da República, de distribuição de documentos, de afixação de cartazes, de pintura de murais.

É neste quadro que o PCP desenvolve a sua acção política, e da qual faz parte uma intensa e diversificada intervenção de informação e propaganda sem paralelo na realidade partidária em Portugal, e que tem de ser compreendida à luz da natureza e dos objectivos de um partido revolucionário como o nosso.

Uma intervenção tanto mais necessária quanto a política de direita levada hoje a cabo pelo governo PS atinge de forma inapelável não só os trabalhadores mas também sectores e camadas não monopolistas, e que é responsável pelo agravamento das condições de vida, pela retirada de direitos, pela acentuação das injustiças e desigualdades, pela concentração e centralização do capital, pela alienação da soberania nacional, pelos ataques às liberdades e à democracia, pela destruição das conquistas de Abril.

Uma intervenção que, sendo de denúncia, assume também um papel de mobilização para a luta, de esclarecimento sobre as reais possibilidades de resistir e avançar, de transmissão de confiança num futuro melhor. Uma intervenção que projecta o PCP como o partido da classe operária e de todos os trabalhadores, como a grande força não só de oposição à política de direita mas também portadora de propostas e soluções para os problemas do país, como a opção justa e necessária para muitos homens, mulheres e jovens que aspiram a mais justiça, liberdade, democracia e paz e que, em muitos casos, podem e devem tornar-se comunistas. 



A presença do Partido
  Mesmo que por absurdo a comunicação social dominante, ou mesmo a imprensa local e regional, desse uma ampla cobertura à iniciativa do Partido, tal não significaria que pudéssemos prescindir do trabalho de propaganda e informação. A presença do Partido é tão mais indispensável quanto mais forte queremos que seja a nossa ligação às massas e a identificação destas com os objectivos pelos quais lutamos.

A regular distribuição de documentos à porta das empresas, seja com conteúdos que se referem à situação do país, seja com questões concretas que envolvem os trabalhadores desse local de trabalho, é uma das principais tarefas de propaganda que levamos por diante. A sua concretização, que procuramos que seja o mais regular quanto possível, é não apenas uma marca distintiva do PCP em relação às outras forças políticas – um partido que está sempre presente, independentemente de se tratar ou não de períodos eleitorais, que se preocupa, que ouve e fala com os trabalhadores – mas também um instrumento para a criação de organização partidária dentro dessa empresa, de levantamento de problemas, de prestação de contas, de aferição do estado de espírito e da disponibilidade desses trabalhadores para a luta.

Devemos ter presente que, apesar da diversidade de situações, essa presença é reconhecida e um factor de prestígio do Partido. Quantas vezes, como resultado dessas jornadas, não ficamos com um contacto, não marcamos um encontro, não identificamos um problema que mais adiante o colocamos na Assembleia da República ou na autarquia. A distribuição de documentos nas empresas é sobretudo uma forma de contacto do Partido com os trabalhadores. Distribuições que se estendem também às ruas, às praças, aos terminais de transporte, ao comércio tradicional, aos hospitais, aos locais de recreio e convívio, isto é, aonde estão as pessoas.

E se em muitos casos as distribuições assentam em materiais produzidos centralmente – sobretudo nas grandes campanhas nacionais como a que decorre actualmente sob o lema «Basta de Injustiças!» ou nas jornadas nacionais de propaganda –, noutros são as próprias células, os sectores e outras organizações do Partido que realizam esses materiais. É importante ter presente que a realização de um documento é, em si, um factor de reforço da organização. Pressupõe identificar a necessidade de o realizar, situar os problemas, discutir colectivamente o seu conteúdo, apontar propostas, envolvendo nesse processo camaradas e ganhando-os para uma maior intervenção partidária.

Outro grande elemento da afirmação do Partido é a presença de rua. A manutenção e renovação de cartazes (tipo mupi) nas estruturas de rua, a colocação de faixas, a pintura de murais, a colocação de pendões, a circulação de «carros de som», ou o próprio tratamento das fachadas dos Centros de Trabalho, constituem um importante elemento de afirmação política. Garantir essa presença exige uma atenção muito cuidada, sob pena da degradação desses materiais, ou a sua má localização, ser contraproducente do ponto de vista do efeito de propaganda.

Para além da presença regular e programada, onde se inclui também a presença do Partido na Internet e as possibilidades que este instrumento comporta e que têm sido bem exploradas por nós, sublinhe-se também a concretização de iniciativas de agitação em torno de problemas ou questões concretas, em muitos casos mobilizadoras das populações e para as quais devemos dar uma maior atenção. 





Reforçar os meios próprios de propaganda



As resoluções das últimas reuniões do Comité Central têm vindo a chamar a atenção para a necessidade de integrar o reforço do trabalho de propaganda e informação nas tarefas mais gerais que se colocam no plano do reforço orgânico.  

É na organização partidária, na participação e envolvimento dos militantes e organizações do Partido, na sua ligação à vida e ao concreto, nos meios próprios de que dispomos, que reside a principal força do Partido na intervenção junto dos trabalhadores e das populações.

Assim é porque assim entendemos que deve ser num Partido que não abdica da sua identidade, independência, ideais e natureza de classe. Mas esta concepção tem naturalmente consequências muito profundas em toda a vida partidária e também na forma em como organizamos, estruturamos e programamos o nosso trabalho de propaganda e informação. Apesar de uma importante experiência acumulada (que pode e deve ser valorizada), de um grande esforço dos membros e organizações do Partido, e até de alguns passos dados no sentido de uma melhor organização desta frente de trabalho, estamos ainda longe daquilo que é possível. Tal como noutras tarefas, também ao nível da propaganda e da informação as orientações definidas, por mais justas que sejam, não se concretizam sozinhas.

É necessário um maior envolvimento dos quadros e das estruturas de direcção quanto às medidas a tomar no plano da propaganda. Medidas que implicam a definição de quadros e meios para lhes dar resposta, a sua integração num plano mais geral de outras tarefas não menos exigentes, e também a ruptura com hábitos e rotinas menos positivos. Medidas que, entre outras, passam por:

– Criação de colectivos de propaganda e informação no plano regional que tenham como principal objectivo a organização, a planificação e, em alguns aspectos, a própria concretização de tarefas nesta frente de trabalho. As potencialidades destas estruturas são muitas e de certa forma a sua necessidade não é menor. Estruturas que respondam a aspectos tão simples como estes: conceber/produzir um documento ou cartaz; montar uma iniciativa de rua; produzir um ficheiro de som; controlar a presença de rua do Partido; dar resposta rápida a uma iniciativa de agitação; coordenar simultaneamente aspectos com a estrutura central e com organizações e sectores; acompanhar a concretização de uma campanha; manter um sítio do Partido na Internet actualizado; convocar os órgãos de comunicação social; apoio aos diferentes organismos do Partido.

– Responsabilização e formação de mais quadros para as tarefas de propaganda e informação. Uma coisa é considerarmos que esta é uma tarefa de todo o Partido, outra é ter presente que sem mais quadros que assumam directamente esta responsabilidade no seio das organizações não estaremos ao nível das exigências colocadas. Para além do acompanhamento geral, em alguns casos pode haver a necessidade de camaradas que possam desenvolver tarefas de carácter especializado como a paginação e composição gráfica de um material, ou a concepção e manutenção de um sítio na Internet.

– Melhor conhecimento e aproveitamento dos meios existentes e a planificação (de acordo com as possibilidades) da aquisição do indispensável, nomeadamente a rede de estruturas de rua; o conjunto de equipamentos informáticos; os meios para a reprodução de materiais; os equipamentos de som; os sítios do Partido na Internet; os elementos para decoração de salas, etc.



Ser claro, falar verdade



Se os objectivos da nossa intervenção são justos, se os meios e a capacidade de iniciativa são necessários, não podemos também deixar de considerar a importância do conteúdo do que dizemos e da forma como o apresentamos. A clareza das ideias, o rigor, a adequação da mensagem ao sentimento de quem lê, ouve ou vê, a oportunidade das nossas posições, a compreensão das nossas propostas, a criatividade e imaginação do nosso trabalho de propaganda são aspectos determinantes na eficácia dos materiais que produzimos.  

Sem falsos modernismos ou riscos desnecessários, podemos e sabemos fazer belos cartazes, documentos com rasgo, conceber palavras de ordem que sejam agarradas pelas massas, chamar a atenção de forma criativa e satírica para os problemas, a questão não está apenas nos meios, mas no trabalho colectivo, na força das nossas convicções, na própria experiência partidária e criatividade revolucionária.

A propaganda do Partido, juntamente com a imprensa partidária (o «Avante!» e O Militante), assume um papel fundamental na luta política e ideológica que travamos e um instrumento que pode e deve ser mais desenvolvido no futuro. A preparação do nosso XVIII Congresso, que decorrerá meses antes de um conjunto de importantes batalhas eleitorais, que colocam sempre redobradas exigências no plano da propaganda, constitui uma boa oportunidade para a discussão e concretização de medidas que reforcem esta frente de trabalho e que apetrechem o Partido para travar com êxito as lutas do presente e do futuro.