Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Efeméride, Edição Nº 296 - Set/Out 2008

Trabalhadores da CUF no Barreiro - 100 anos de luta e de resistência

por Fernando Morais

Ao assinalar os 100 anos de luta e resistência dos trabalhadores da CUF no Barreiro, o PCP procurou sublinhar a importância da coragem e da dignidade das gerações de trabalhadores da CUF/Quimigal na história do nosso país. Sempre com as suas organizações unitárias e com o seu partido de classe, o PCP. Entre os vários aspectos importantes que se assinalavam neste centenário, a Comissão Concelhia do Barreiro tinha três objectivos fundamentais:

– Prestar homenagem aos milhares de trabalhadores e trabalhadoras da CUF/Quimigal que ao longo destes 100 anos lutaram e resistiram, enfrentando, em fases distintas, a intimidação e a chantagem, o desemprego e a fome, a perseguição e a repressão, a tortura e a morte. Realidades com o mesmo denominador comum – procurar aumentar a exploração de quem trabalha – que encontraram sempre gerações de homens e mulheres que não se resignaram;

– repor a verdade quanto ao chamado «humanismo» de Alfredo da Silva, não permitindo o branqueamento do carácter explorador e opressivo deste apoiante do regime fascista e do contributo que o império da CUF deu na manutenção desse regime opressor e bárbaro.

– demonstrar a importância da organização do Partido na CUF/Quimigal, pela  sua inquestionável influência, desde 1921, e pelo papel que teve na consciencialização, mobilização e na capacidade organizativa dos trabalhadores em defesa dos seus direitos e interesses.


A Comissão Concelhia do Barreiro levou a cabo um conjunto de iniciativas, de que se destacam o lançamento de uma brochura, uma exposição que tem percorrido o concelho, dois debates, um documentário, um almoço-convívio que juntou actuais e antigos trabalhadores da CUF e um comício com a participação do Secretário-geral do Partido.

Várias foram as comemorações, algumas ainda a decorrer, promovidas por várias entidades, da Câmara Municipal do Barreiro ao Grupo Mello, passando por outros partidos e pela RTP. Nenhuma outra instituição podia concretizar esses objectivos como o PCP. Praticamente desde a sua criação até aos dias de hoje, o PCP teve um papel determinante na organização e mobilização das lutas constantes dos trabalhadores da CUF/Quimigal. Este é um facto indesmentível, por muito que tentem silenciar, falsear ou deturpar a história.





A vinda da CUF para o Barreiro



A Companhia União Fabril estabeleceu-se em Lisboa em 1865. É já nos últimos anos da monarquia, em 1907, que Alfredo da Silva, Administrador-gerente da CUF, decide comprar terrenos na vila do Barreiro destinados à construção de novas instalações fabris. A proximidade com Lisboa e a abertura, cerca de meio século antes, em 1859, dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste e das oficinas ferroviárias, eram condições propícias para a instalação daquele que viria a ser o maior complexo industrial e financeiro do País.

Instalada no Barreiro em 1908, a CUF inicia a laboração da sua primeira unidade fabril, destinada à extracção de óleo de bagaço de azeitona para o fabrico de sabões.

Em 1909 passa à fabricação de adubos superfosfatos e de ácido sulfúrico, alimentados por uma central eléctrica. Nesta altura, a CUF tinha um total de 125 trabalhadores, dos quais 100 eram operários, iniciando-se a construção de um bairro operário, de um posto médico e de um quartel dos bombeiros, princípio de um conjunto de infra-estruturas – que incluía escolas e lojas – que levavam, através de um circuito financeiro fechado, a que os trabalhadores deixassem praticamente tudo o que ganhavam no grupo.

É já após a implantação da República, contra a qual Alfredo da Silva conspirou, não deixando no entanto de prosperar, que se dá, em Outubro de 1910, a primeira tentativa de fundar a Associação de Classe da CUF. A essa tentativa da organização operária sucede-se, como represália, uma série de despedimentos. Em Dezembro do mesmo ano, numa greve de solidariedade na CUF do Barreiro, reivindica-se o reconhecimento da Associação de Classe e a readmissão dos operários despedidos, sem sucesso. A fundação da Associação de Classe do Pessoal da CUF acontece em Abril de 1919, contando com cerca de 800 filiados e aderindo desde logo à União Operária Nacional.

Numa altura em que a República já decretara uma jornada de trabalho de 8 horas diárias, na CUF Alfredo da Silva mantinha a laboração durante 12, 14 ou mesmo 16 horas por dia, seis dias por semana. Os trabalhadores reagem e decretam greve, que dura 43 dias, tendo a retoma do trabalho só acontecido a 6 de Julho de 1919.

A CUF continua a expandir-se. O número de operários e operárias vai crescendo. O contacto nas oficinas é permanente e vai estimulando e desenvolvendo a consciência de classe, a adesão ao cooperativismo, ao associativismo e mesmo actividades político-partidárias crescem significativamente. Os horizontes da luta alargam-se e em 1921 surge o Partido Comunista Português, ao qual desde logo aderem trabalhadores da CUF no Barreiro. A resposta à necessidade de os trabalhadores terem o seu próprio partido político estava dada, numa altura em que novas perspectivas de luta surgiam, até pelo que ia chegando de Leste.

A influência do Partido na CUF dá um passo decisivo em 1929, com a criação da célula do Partido. Desde então e até hoje, a sua história confunde-se com a da própria luta e resistência dos trabalhadores da CUF no Barreiro.

A CUF e outros sectores de grande influência, como o ferroviário ou o corticeiro, transformaram o Barreiro num dos bastiões da luta e da resistência ao fascismo, o que não está desligado da influência do Partido na classe operária destes sectores e junto de outros trabalhadores.

Servindo-se da força coerciva do Estado, a ditadura fascista impulsiona a centralização e a concentração de capitais. Todos os sectores fundamentais da economia nacional estão nas mãos de alguns grupos monopolistas, acumulando grandes fortunas assentes na sobre-exploração dos trabalhadores e dos povos de Portugal e das colónias. A CUF não foge à regra.





As lutas durante o fascismo



Em 1934, dá-se a primeira greve operária contra o regime fascista, em particular contra a fascização dos sindicatos.

Em 1935, o Comité Local do Barreiro do PCP participa numa jornada de agitação que se previa à escala nacional. No dia 27 de Fevereiro de 1935, cerca das 23 horas, uma grande parte do Barreiro fica às escuras. Na noite de 28, as células da CUF e das oficinas dos Caminhos-de-ferro, desenvolvem uma intensa campanha de agitação e propaganda. O dia acorda com centenas de manifestos espalhados pela vila e com bandeiras vermelhas hasteadas em vários locais, entre os quais no cimo da chaminé das oficinas dos Caminhos-de-ferro Sul e Sueste. A 12 de Abril, mulheres do Barreiro lideram uma manifestação contra as torturas infligidas aos presos políticos, que contará com a participação de 3 mil pessoas. Neste seguimento, a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) seria mandada retirar do Barreiro.

Durante as décadas de 30 e 40, o grupo CUF vai aumentando o seu império. Depois de nos anos 30 ter criado a Tabaqueira, inicia-se na metalurgia do chumbo, na construção e reparação naval e avança para as então colónias. Nos anos 40 funda a companhia de seguros Império e reforça-se no sector financeiro.

As condições de vida agravam-se no início dos anos 40, levando ao aumento do descontentamento e do desespero. Os trabalhadores da CUF no Barreiro entregam à administração um abaixo-assinado com as suas reivindicações, no dia 27 de Julho de 1943. Sem sucesso.

A paralisação é geral, com a adesão à greve de 14 mil operários da CUF e de outras fábricas. No dia seguinte os portões da CUF estão encerrados e os operários da CUF organizam duas marchas da fome, nas quais participaram os operários corticeiros.

A repressão é brutal, sendo efectuadas centenas de prisões pela GNR. A vila é ocupada militarmente, situação que só terminaria com o 25 de Abril de 1974.

Mesmo depois da morte de Alfredo da Silva, no início dos anos 40, os níveis de exploração e repressão mantiveram-se. Com a família Mello à frente da CUF, manteve-se a ligação ao regime fascista tal como antes, continuando a ser o império da CUF um dos principais grupos de suporte do fascismo em Portugal.

Na década de 50 o crescimento e a expansão da CUF caracterizam-se pela criação de novos sectores de actividade e pelo aumento do número de operários. Aumentam também a exploração e a repressão, seguidas de luta e resistência. Com a luta e sempre com orientação do PCP, foi possível alcançar em Junho de 1956 um importante aumento de 15% nos salários dos trabalhadores da CUF no Barreiro.

O reforço do Partido continua na década de 60. Apesar das duras condições impostas pela repressão, com a presença permanente da PIDE e da GNR, apoiadas numa rede de «bufos», o Partido na CUF crescia, fortalecia-se e organizava a luta, chegando ao final dos anos 60 com cerca de meio milhar de militantes e simpatizantes e distribuindo cerca de 500 Avantes dentro das fábricas.

As lutas por melhores salários durante a década de 60 foram uma constante. Mas outras lutas existiram: em Fevereiro de 1965, provando a elevada consciência de classe e revolucionária, os operários e operárias da CUF recusaram-se a contribuir nos peditórios para a guerra colonial. E em Fevereiro de 1967 os trabalhadores conseguem eleger representantes da sua confiança para a Comissão Interna da Empresa. Uma carta reivindicativa foi apresentada em Setembro de 1969, onde os trabalhadores, além das melhorias de salário e de trabalho, reivindicam o fim da guerra colonial, a saída de Portugal da NATO, amnistia a todos os presos e exilados políticos e a extinção da PIDE.





A luta no período revolucionário e as nacionalizações



Com o 25 de Abril e o derrube do fascismo, muitas foram as conquistas para os trabalhadores. O grupo CUF, constituído por 187 empresas e detendo participações em mais de 254, tinha ao seu serviço mais de 50 mil trabalhadores e possuía um património imenso.

A degradação das fábricas no Barreiro, devido ao desinvestimento e à descapitalização das empresas levada a cabo pela família Mello, levou a que a nacionalização da CUF fosse um objectivo prioritário.

A 30 de Dezembro de 1977, concretiza-se a criação da Quimigal – Empresa Química EP. Em 1978 e 1979, a Quimigal tinha uma situação financeira equilibrada, mas o grupo Mello e os seus representantes nos sucessivos Governos não se conformam e desencadeiam um ataque às nacionalizações, tendo o boicote sido uma arma para enfraquecer a empresa.

Cerca de 90% dos trabalhadores eram sindicalizados e a célula do Partido atinge nesta altura quase 1500 militantes. Esta influência foi fundamental para resistir aos objectivos de privatização da empresa.

No final dos anos 80, num Governo PSD com Cavaco Silva como Primeiro-ministro, começa o processo de privatização. A Quimigal, a exemplo de outras empresas, foi destruída e entregue a preço de saldo.

A família Mello volta assim de novo ao controlo da empresa. Foram liquidados milhares de postos de trabalho, com consequências graves para o aparelho produtivo nacional e para o desenvolvimento do país.

Nos nossos dias, as oito empresas do sector químico no concelho do Barreiro surgem do desmembramento da Quimigal e da sua privatização. Continuando a ser o maior sector produtivo do concelho, trabalham nestas empresas mais de mil trabalhadores. E a luta continua!