Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Festa do «Avante!», Edição Nº 297 - Nov/Dez 2008

Nove registos para uma Festa de três dias: Festa do Avante! na comunicação social

por Vasco Cardoso

Quando em 1976 o PCP decidiu realizar a primeira Festa do Avante! estava aberto o caminho daquela que viria a ser a maior e mais importante iniciativa político-cultural de massas do nosso país.
Foi um passo de enorme coragem e audácia política. Saídos de quase meio século de luta contra o fascismo, e por entre as exaltantes conquistas do processo revolucionário, realizar uma festa com o nome do órgão oficial do PCP – o Avante! –, que combinava o debate e a intervenção política, as artes e os espectáculos, o desporto e a gastronomia, o país e o mundo, constituiu um acto de ruptura com o obscurantismo que tinha marcado a vida nacional, uma afirmação de liberdade e democracia que se haveria de projectar no futuro.



O percurso percorrido ao longo das suas 32 edições é inseparável das muitas lutas que fomos travando, das vitórias e das derrotas, dos avanços e recuos da história, da situação nacional e internacional. Uma festa que esteve sempre do lado dos explorados, de firme denúncia do carácter explorador e opressor do capitalismo, de afirmação do socialismo como alternativa possível e necessária. Uma festa dos trabalhadores e do povo e, por isso, tão fraterna, solidária, genuína, tão rica e diversificada quanto é a vida dos homens. A Festa do Avante! foi e é uma festa de classe, a festa do PCP, razão bastante para que desde o seu primeiro dia tenha sido alvo das mais variadas tentativas para a diminuir e limitar.

Recorreram a quase tudo, desde o recurso à bomba, passando pelo jogo indigno de lhe recusar um local, até às mais recentes leis dos partidos e do seu financiamento. Se variaram as formas, os objectivos, esses, foram sempre os mesmos.

Nessa linha de ataque à Festa e ao Partido que a organiza e constrói, assume particular importância o tratamento dado pela generalidade dos órgãos de comunicação social, em que muito daquilo que se disse, mostrou e escreveu procurou, apesar de honrosas excepções, alimentar preconceitos, projectar caricaturas, criar uma imagem distorcida da realidade muitas vezes sem qualquer limite para o dislate, para a mentira ou para a mais pura idiotice.

Se a Festa é a maior iniciativa do PCP, é também sobre ela que se manifestaram de forma mais intensa aspectos da campanha anticomunista. Com variações no tom e nos pretextos, há traços que marcam o tratamento mediático dado à Festa. Correndo o inevitável risco de não ser tão rigoroso quanto a matéria o exigiria, e deixando de fora muito do lixo produzido nestas décadas, há aspectos que merecem ser sublinhados, tendo como base sobretudo as últimas edições.

Arrumemos aqui então nove registos (sem que a ordem reflicta a sua importância), alguns dos quais contraditórios entre si, mas todos eles já experimentados e desenvolvidos ao longo dos tempos.



1. Comecemos pelo silenciamento. Para quem olhe para os jornais e esteja atento aos noticiários televisivos, ou simplesmente sintonize uma das principais rádios, quer durante os meses de preparação da Festa, quer durante a sua realização, terá dificuldade em encontrar o justo retrato desta iniciativa. Dos chamados jornais de referência, contam-se pelos dedos das mãos as vezes em que a Festa do Avante! foi notícia de «primeira página». Na última edição da Festa, o Público conseguiu mesmo não escrever mais do que breves colunas com pouco mais 2000 caracteres. Nas televisões, a Festa não abre noticiários de nenhuma estação e, a título de exemplo, a SIC, em 2007, conseguiu passar ao lado do comício da Festa sem que haja qualquer referência nos «telejornais» do canal generalista.   

Tal silenciamento não é contraditório com os aspectos que se evidenciarão em seguida, antes confirmam a ideia de que importa não só mostrar pouco como escolher bem aquilo que se mostra.



2. Uma das teses preferidas de desvalorização da Festa consiste em sublinhar tantas vezes quantas as necessárias que a esmagadora maioria daqueles que vão à Festa não são militantes, simpatizantes ou sequer eleitores do PCP. A este propósito escrevia o CM em Setembro/2008 – «São os artistas que atraem os mais novos que não querem saber de política».

É preciso dizer que desde a sua primeira edição, a Festa do Avante! não foi feita apenas para os comunistas, bem pelo contrário, numa festa aberta aos trabalhadores e ao povo português haverá muitos milhares que não são membros do PCP. Mais, é para todos nós motivo de orgulho ver tantos homens e mulheres sem partido, ou mesmo de outros partidos, nas jornadas de trabalho ou em turnos durante a Festa e, sobretudo, a encherem as praças, os palcos e as avenidas da Quinta da Atalaia. Nem os comunistas estão na sua Festa apenas pela dimensão política da mesma, nem todos os outros ficam indiferentes às inúmeras manifestações políticas da Festa, aos valores e ideais que ela projecta, ao facto de ser uma Festa do PCP e de aí se sentirem bem e com vontade de lá voltar.



3. Aparentemente contraditória com a referência anterior é o apagamento da dimensão cultural da Festa. A esmagadora maioria das notícias ignora os espectáculos, as exposições, a música, o teatro. Um olhar sobre a imprensa mostra-nos que nem quando a Festa do Avante! era praticamente a única iniciativa no país que reunia em simultâneo centenas de artistas, mais de uma dezena de palcos, artes plásticas, teatro, literatura e cinema, nem agora, quando mantém e, em muitos aspectos, não só melhorou a sua extraordinária oferta cultural como continua a inovar, essa dimensão é referida.  



4. É evidente que mostrar o quanto diversificada e original é a Festa cola mal com a sua redução a uma mera «rentrée» política, espaço para onde tem sido arrumada nos últimos anos. Este ano repetiu-se a cena, o PSD tem uma Universidade de Verão, o PS um comício em Guimarães, o BE uma acção sobre a precariedade, o CDS ainda não decidiu, e o PCP tem uma coisa chamada Festa do Avante!. Sublinhe-se que este vocábulo francês estava ainda longe de entrar no discurso mediático e já milhares de homens e mulheres construíam a cidade dos três dias. É evidente que esta caracterização é justificadora em muitos casos dos «critérios» que levam a uma clara secundarização da Festa, permitindo, como assistimos este ano, a que fosse apresentada nos órgãos de comunicação social com um tratamento incomparavelmente inferior àquele que teve o discurso da presidente do PSD perante umas dezenas de jovens em Castelo de Vide. 



5. Se para uns é «rentrée», para outros a Festa do Avante! é «ritual», «romagem», «celebração», «purificação» ou «peregrinação anual», «liturgia comunista» e outras preciosidades que procuram alimentar a caricatura de um partido político que se parece com uma igreja. A forma como  Eduardo Prado Coelho, em 2003, no Público, sintetizava esta tese é notável: «a Festa do Avante existe fora do tempo», porque «podia ter sido hoje como podia ter sido no final do século XIX». Esta abordagem, que visa reduzir a acção criativa, a militância, a capacidade de realização do colectivo partidário, a sua consciência e acção revolucionária a uma questão de fé, e o Partido a uma espécie de seita que actua à margem da sociedade e das massas, é uma caricatura que o pensamento dominante procura ampliar para justificar o facto de só o PCP ser capaz de realizar uma Festa assim.



6. O sexto registo é para as imagens que passam da Festa. O esbatimento da dimensão de massas é uma evidência, que se torna um escândalo quando se trata do comício. Se alguma coisa é difícil para qualquer fotógrafo ou operador de imagem é conseguir não mostrar a enorme multidão que aí se encontra. Mas como dificuldade não significa impossibilidade, há televisões que conseguem mostrar o grande comício da Festa! sem que se perceba para quem é que o Secretário-geral do PCP está a falar. O esforço é tanto que chegou a haver uma jornalista que descobriu que tínhamos feito avançar o Palco 25 de Abril para disfarçar a pouca participação. Neste ano, das mais de 40 fotografias publicadas na imprensa apenas três mostram a tal multidão.



7. Os últimos anos acentuaram a tendência para colocar a Festa sob suspeita e tratá-la como algo que está fora da lei. Não é coisa nova, nem surpreendente. No entanto, com a imposição das antidemocráticas leis dos partidos e do seu financiamento, visando objectivamente atingir a Festa do Avante!, a coisa mudou de figura. Abriu-se um campo de confrontação pública, onde o lançamento de suspeições e ameaças a partir dos órgãos de comunicação social é parte da estratégia. Em vez da divulgação do programa, dos artistas, das iniciativas políticas, as últimas Festas têm sido marcadas pelos seguintes títulos de jornais: «PCP sob suspeita de ocultar receita» (CM, 2007); «Se o Avante for ilegal comunicamos ao tribunal» (DN, 2007); «Várias brigadas na Quinta da Atalaia. Entidade das contas fiscaliza Festa do Avante!» (Público, 2007); «Entidade das contas vai à Festa» (Público, 2008); «ASAE vigia a Festa do Avante!» (Sol, 2008); «Avante! Inspeccionada três edições seguidas» (Expresso, 2008); «Festa do Avante! está em risco» (Diário Económico, 2008).

É evidente que não podem nem vão acabar com a Festa, mas o quadro intimidatório, a tentativa de afastar camadas e sectores da Festa e a preparação do terreno para novas investidas provocatórias são objectivos que não devemos subestimar e que exigem o prosseguimento da luta contra as iníquas leis dos Partidos e do Financiamento dos Partidos.



8. A tentativa de separar a Festa do Avante! do partido que a organiza e constrói faz também parte do cardápio de abordagens que têm feito caminho ao longo destes anos. A Festa não dá muitos argumentos a quem procura projectar a ideia de um partido cinzento, fechado, sectário, o partido dos «duros» e dos «ortodoxos», pelo que o melhor é fingir que são duas coisas distintas e lançar a ideia de que a Festa é uma cínica operação para enganar os mais desprevenidos. Já, em 1986, Paulo Portas escrevia no Independente sobre a Festa como sendo a «A segunda identidade do PCP». Com esta ou outra formulação, a verdade é que perdura esta linha de abordagem que procura esconder que o partido que faz a festa é o mesmo partido das lutas de todos os dias, o partido que fala verdade ao povo, o partido que quer uma sociedade nova, e que a Festa é como é porque são os comunistas, e não outros, que a sonham, que a realizam, que lhe dão vida.



9. Uma componente que marca a vida e identidade do PCP e que tem especial projecção na Festa é a sua dimensão internacionalista. A presença de dezenas de delegações de partidos comunistas e progressistas de todo o mundo e a realização de numerosas iniciativas (debates, exposições, encontros) de solidariedade, tem constituído motivo para atingir a Festa. Desde a versão de «cada vez menos amigos na Festa», formulação particularmente utilizada durante a década de 90, passando pela sistemática caricatura do «espaço internacional», até às mais miseráveis provocações em torno da presença de organizações a que o imperialismo chama de terroristas, vale de tudo um pouco. Sintomáticos do grau desta ofensiva foram os vários artigos publicados pelos fazedores de opinião com espaços cativos na imprensa nacional nos últimos anos. Entre eles, destaco um dito sociólogo (Alberto Gonçalves) que na revista Visão, em 2007, afirmava: «mais bifana, menos bifana, a Festa do Avante! é uma celebração dos horrores do nosso tempo» para a seguir concluir «ou se proíbe o partido, ou se proíbe a Festa».

A ofensiva imperialista, a criminalização da luta dos trabalhadores e dos povos não aceita o espaço de liberdade, democracia e solidariedade que é a Festa. A denúncia que aí é feita dos crimes do capitalismo e a afirmação do socialismo como grande exigência da actualidade e do futuro, contribuindo  para o alargamento da consciência dos milhares de visitantes, constitui uma atitude indispensável numa festa de um Partido Comunista.  





Uma realização ainda mais necessária




Esta tentativa de sistematização, ilustrada sempre que possível com exemplos concretos, não ignora que a questão determinante deste tipo de cobertura jornalística resulta essencialmente da natureza da propriedade dos principais órgãos de comunicação social. Numa parte significativa dos mais de 150 profissionais da comunicação social que todos os anos fazem a cobertura da Festa, encontramos sobretudo a admiração pela Festa, o respeito pelo Partido, a sensibilidade para tratar uma iniciativa com estas características.

A percepção que centenas de milhar de pessoas têm sobre a Festa, que resulta sobretudo da sua própria vivência, colide frontalmente com os traços anteriormente descritos. A Festa está profundamente enraizada junto dos trabalhadores, do povo e da juventude e todos os anos há milhares de novos visitantes e construtores. Com a próxima edição da Festa, que já se encontra em preparação, irão acrescentar-se, pelo próprio calendário político (eleições europeias, autárquicas e legislativas), outras exigências, e sendo justas as preocupações sobre a acentuação das linhas de deturpação, caricatura e condicionamento, temos, contudo, razões para estar confiantes no seu êxito.

O avanço da política de direita, a reconstituição do capitalismo monopolista, os ataques à liberdade e à democracia, a degradação do regime democrático tornam a nossa Festa não só um alvo cada vez mais nítido da ofensiva anticomunista, mas sobretudo uma realização cada vez mais necessária para o presente e para o futuro, um espaço de luta e resistência contra esta ofensiva, de exigência de um mundo novo a sério. Do socialismo e do comunismo.