Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Internacional, Edição Nº 297 - Nov/Dez 2008

O Cáucaso como pretexto - A escalada imperialista contra a Rússia

por Revista «O Militante»

A guerra no Cáucaso sobressaltou o mundo no Verão, tornando patente a gravidade do choque do imperialismo com a Rússia. A contundente reacção russa à agressão da Geórgia na Ossétia do Sul mostrou que o célebre discurso de Munique de Pútin, em Fevereiro de 2007, era para levar a sério. A determinação de Moscovo em defender os seus interesses nacionais causou a ira e o desconcerto em Washington e nas capitais da Aliança Atlântica. Em nome da UE, Sarkozy saltou a terreiro para negociar com o Krémlin e impedir estragos maiores. A resposta militar da Rússia e o reconhecimento, inesperado, da independência da Ossétia do Sul e da Abkházia representam um revés para os planos da NATO de prosseguir com a expansão no espaço pós-soviético. A parada, contudo, mantém-se, apesar de nenhum dos lados desejar uma ruptura total. Muito menos a Rússia capitalista de Pútin-Medvedev – que não deixará de procurar elementos de distensão e articulação com o Ocidente, embora não se afigure disposta a transigir na exigência de um relacionamento «entre iguais».

Parafraseando Lénine, o carro não segue para onde o dirigem.

De facto, não obstante a afinidade de classe e a inexistência de divergências de fundo no plano ideológico com Moscovo não é previsível que os EUA e a NATO desarmem o cerco estratégico à Rússia e alterem a política activa de hostilidades na frente leste. Pelo contrário. A lenta mas firme saída da cena histórica da Rússia de Iéltsin dos anos noventa e o fim de quase 20 anos de postura apaziguadora e servil do Krémlin desafiam a sanha expansionista dos EUA que Brzezinski apregoa como a necessidade de ocupar o «vácuo estratégico» deixado pela URSS. Para o imperialismo norte-americano é absolutamente vital afastar o fantasma de divisão na UE e manter o cordão umbilical transatlântico e a unidade hierárquica fundamental em torno de objectivos agressivos e hegemónicos comuns. Nesta espiral de confrontação é a própria Federação Russa e a sua integridade territorial que, inegavelmente, se perfilam como um dos alvos centrais do bloco EUA/NATO/UE. Este é um elemento essencial de análise. A resposta do Krémlin – servindo, por sua vez, as aspirações de afirmação como grande potência – passa por isso, também, por impulsionar a nova arrumação de forças e a exigência de um novo equilíbrio mundial assente na chamada ordem multipolar. A reactivação das relações no espaço pós-soviético (1) , o eixo estratégico com a China e a OCX (2) , a exploração da cooperação no âmbito dos BRIC (3) , a «ponte» com a Venezuela e o incremento da cooperação com a América Latina, em tempos de acelerada mudança progressista, assumem-se como importantes vectores da política externa russa, pressionando, ao mesmo tempo, o dilemático e nebuloso horizonte de «parceria estratégica» com a UE e os EUA.

Sinal dos tempos e elemento importante da volátil conjuntura internacional, a crise no Cáucaso e a escalada das tensões com a Rússia acontecem num momento em que a situação económica russa experimenta uma assinalável recuperação e o maior país do mundo afirma o seu estatuto de destacada potência energética mundial, enquanto os Estados Unidos – e o coração da economia capitalista – são assolados por uma gravíssima crise financeira e económica (4) .



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Apesar da barragem desinformativa montada em torno do conflito caucasiano, a memória da guerra contra a Ossétia do Sul não foi apagada.

Na madrugada de 8 de Agosto, após fogo cerrado da artilharia e aviação, tropas de Tbilissi irromperam em território da Ossétia do Sul, uma pequena república que na fase final da URSS proclamara a independência da Geórgia. A acção militar causou enormes destruições na capital, Tskhinvali, e em outras localidades ossetas. Fontes diversas convergem na avaliação de mais de 1500 mortos e um número superior de feridos, a maioria civis. Dezenas de milhares de habitantes da Ossétia do Sul procuraram refúgio em território russo, na vizinha Ossétia do Norte. Os observadores são unânimes em considerar que a inaudita operação georgiana visou directamente a instalação de um clima de terror na Ossétia e o êxodo populacional, num cenário típico de limpeza étnica.

A data escolhida para a agressão não foi casual: as bombas começaram a cair sobre a Ossétia no momento em que delegações de todo o mundo se preparavam para o desfile inaugural dos Jogos Olímpicos de Pequim. Tratou-se, indubitavelmente, de uma monumental provocação.

É possível que o presidente georgiano, Saakashvili, tenha sido levado a crer que a dura reacção russa não passaria da retórica e que o sangrento Blitzkrieg contra a Ossétia do Sul e a política de «factos consumados» poderiam forçar o restabelecimento do controlo da província rebelde que Tbilissi perdera há mais de década e meia.

Afinal, em 2004, um ano depois da sua aclamação na «revolução das rosas», bastara uma demonstração de força para submeter a Adjária ao poder de Tbilissi, algo que o anterior presidente, Chevarnadze, não lograra em 11 anos de poder. E dois anos volvidos, a Geórgia recuperou o controlo militar do desfiladeiro de Kodori, uma zona tampão estratégica na Abkházia, outra república secessionista que, em 1992, proclamara a independência. Depois da Ossétia seguir-se-ia, inevitavelmente, uma operação de «pacificação» da Abkházia. Era aliás conhecida a velha pretensão de Saakashvili e dos círculos mais aventureiristas do nacionalismo georgiano de vingar a derrota na guerra de 1992-93. Para os anais da história permanecerá a humilhante fuga de Chevarnadze, nos instantes finais que antecederam a queda da capital, Sukhumi, em Setembro de 1993, com o seu avião ainda a ser alvejado pela vitoriosa rebelião independentista abkhaze. Naqueles dois anos, a guerra na Abkházia deixara dezenas de milhares de mortos e mais de duzentos mil deslocados, entrando no rol das «guerras esquecidas» da desintegração soviética.

Foi o separatismo anti-soviético da direcção georgiana no limiar dos anos 90 – levado ao extremo pela proclamação da «Geórgia para os georgianos» – o principal responsável pelo reacendimento dos conflitos que levariam à separação da Ossétia e Abkházia. Desde então, o ultranacionalismo georgiano, seguindo os trilhos da república menchevique de 1918-21(5) , funciona como joguete do imperialismo no «grande jogo do Cáucaso».

A Geórgia está «encravada» na rota dos corredores energéticos do Cáspio. Não muito longe das fronteiras da Ossétia, passa o traçado do oleoduto Baku-Tbilissi-Ceyhan, que transporta o petróleo do cáspio azeri, explorado novamente pelas grandes multinacionais, para o mediterrâneo turco. Inaugurado em 2006 e com mais de 1700 km de extensão, o 2.º maior oleoduto no mundo tem como accionista principal a British Petroleum (BP), sendo a mais importante via energética que parte do espaço pós-soviético sem atravessar território russo. Através da Geórgia passa também o gasoduto que liga Baku a Erzurum, no interior da Turquia. Uma autêntica guerra surda é hoje travada em torno do megaprojecto dos EUA e UE de complementar esta obra com o projecto Nabbuco (que ligaria a rede turca à Europa Central) e, por outro lado, com o gasoduto transcáspico para conectar Baku com a produção do Turquemenistão (podendo estender-se a outros fornecedores do Cáspio oriental e Ásia Central). Os desenvolvimentos dos últimos meses não são favoráveis à estratégia das grandes multinacionais do imperialismo, depois da Rússia ter acordado com o Turquemenistão, Casaquistão e Uzbequistão a expansão do gasoduto «ribeirinho» do Cáspio e a sua conexão à antiga rede soviética e a novos troços a construir na Ásia Central (Uzbequistão). A Rússia participa também na construção de novos corredores energéticos em direcção à China.

O uso da força contra a Ossétia do Sul – em frontal violação dos acordos e compromissos assumidos pela Geórgia no âmbito dos mecanismos de estabilização da região e das próprias garantias pessoais dadas por Saakashvili na véspera da agressão (Sovietskaya Rossia, 09.08.08) – configurou além do mais um casus belli ao constituir uma agressão militar directa contra as forças russas de paz aí estacionadas, ao abrigo do Conselho de Estados da Comunidade de Estados Independentes (CEI) e reconhecidas pela Organização de Segurança e Cooperação da Europa (OSCE) e o Conselho de Segurança (CS) da ONU (6) . O carácter e dimensão da acção do regime fantoche de Saakashvili abalaram irremediavelmente o anterior status quo, abrindo espaço ao reconhecimento pela Rússia da independência da Ossétia do Sul e Abkházia.

É uma evidência que a criminosa agressão desatada pelo poder georgiano não seria possível sem o apoio e o envolvimento directos dos EUA que, nos últimos anos, treinaram e modernizaram as forças armadas georgianas. O financiamento norte-americano permitiu a Tbilissi, desde 2003, multiplicar as despesas militares mais de dez vezes, o que faz da Geórgia um dos países no mundo com maior taxa de crescimento dos gastos militares. Facto que contrasta com a fragilidade da sua economia e a grave situação social enfrentada pela população. Paradoxalmente, a Geórgia acabou por ser uma das repúblicas mais afectadas pelo desaparecimento da URSS, em resultado da qual milhões de georgianos emigraram em busca de melhores condições de vida (7) .

O primeiro-ministro russo, Pútin, foi enfático ao acusar a participação de conselheiros militares norte-americanos nas operações militares em território osseta (Reuters, 29.08.08). Durante toda a segunda quinzena de Julho os EUA realizaram manobras militares com a Geórgia no seu território. Aviões militares norte-americanos asseguraram o repatriamento do contingente de dois mil soldados da Geórgia no Iraque (o 3.º maior depois dos EUA e Grã-Bretanha!), que a versão oficial diz ter sido efectuado somente depois da intervenção da Rússia no conflito. São factos que assumem uma extraordinária gravidade.

Para o secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Patruchev, o interesse dos EUA na Geórgia assenta em razões estratégico-militares que envolvem não só o controlo do Cáucaso mas também o seu papel de testa de ponte numa eventual agressão ao Irão, considerando tal facto uma ameaça à segurança russa (Voz da Rússia, 02.10.08).

A agressão da Geórgia e a crise no Cáucaso confirmam a cristalização de sérias contradições com a Rússia. A perigosa estratégia de confrontação do imperialismo subiu a um novo patamar. O seu âmbito extravasa largamente a questão específica da auto-determinação da Ossétia e Abkházia e o complexo mosaico caucasiano. A investida imperialista contra a Rússia e a tentativa de erguer um «cordão sanitário» em seu redor tem como eixos visíveis o alargamento da NATO, sobretudo, os planos para forçar a inclusão da Geórgia e Ucrânia, a criação de novas bases militares na cercania das fronteiras russas, a instalação do escudo antimíssil dos EUA na Europa de Leste (visando aniquilar o equilíbrio nuclear estratégico) e a tentativa de controlo de recursos e corredores energéticos. É acompanhada por uma agenda encoberta de ingerência e desestabilização interna da Rússia, colocando a nu objectivos inconfessáveis ou professados em surdina. Nos media internacionais voltam-se, subitamente, a ventilar as «preocupações» com a liberdade na Tchetchénia, Inguchétia ou Daguestão. As «aspirações» de independência na Tartária ou Basquíria, também repúblicas autónomas da Federação Russa, ressurgem em certa imprensa russa, mostrando que os potenciais focos de instabilidade não se confinam ao Cáucaso.

No extremo oposto, o resvalar para o velho nacionalismo grão-russo não deixará de servir os objectivos da campanha anti-russa. O Krémlin tem revelado cautelas neste capítulo – e Pútin considerou mesmo o «chauvinismo grão-russo inadmissível» (RIA Novosti, 24.07.07) –, mas o afunilamento para soluções de cariz securitário e a inclinação para uma concepção de Estado unitário não enfrenta as raízes socioeconómicas e políticas do descontentamento larvar verificado, nomeadamente em algumas das repúblicas russas do Cáucaso.

Por outro lado, a guerra na Ossétia deixou um rasto de turbulência em todo o perímetro da ex-URSS.

O foco das atenções vira-se de novo para a Ucrânia, onde a crise política se arrasta penosamente. A colossal ingerência do imperialismo continua a aprofundar a divisão do país, empurrando-o para um beco perigoso. A maioria dos ucranianos permanece contra a adesão à NATO exigida pelos EUA, enquanto os parceiros da «coligação laranja», várias vezes desfeita e refeita, se digladiam na praça pública. O presidente Iúchenko, cuja «popularidade» se situa nos 10%, ameaça com nova dissolução do parlamento. A questão nacional continua a alimentar as tensões, particularmente na Crimeia. Se Kiev apoiou e armou a agressão georgiana, o parlamento daquela região autónoma ucraniana, maioritariamente habitada por população russófona e onde está sedeada a frota russa do Mar Negro, reconheceu simbolicamente a independência osseta e abkhaze.

É agora mais claro que a guerra na Jugoslávia e o recente reconhecimento unilateral do Kosovo pelos EUA e as cúpulas da UE, evidenciando o cinismo das preocupações humanitárias e da defesa da «integridade territorial da Geórgia», não está desligado da espiral desestibilizadora que se move em direcção às fronteiras russas. Com a UE a aproveitar para prosseguir o «desbravar» do terreno, assumindo o atavismo colonial e a sua natureza imperialista. Depois da missão de tutela do Kosovo – implantada à revelia da ONU –, Bruxelas envia agora para Geórgia uma missão policial de observação de 300 efectivos, não escondendo a pretensão de alargar o seu raio de acção à Ossétia do Sul e Abkházia...

Traçando uma nova linha no plano internacional, a evolução da posição russa reflecte também o amadurecimento de sentimentos patrióticos e de dignidade nacional. A defesa da Ossétia do Sul e o reconhecimento das duas antigas repúblicas autónomas da Geórgia mereceram amplo consenso interno. O Partido Comunista da Federação Russa, principal força da oposição, criticou a decisão apenas por a considerar tardia.

A ofensiva anti-russa comandada pelos EUA torna mais aguda a contradição entre a defesa dos interesses nacionais e a insistência em soluções de cariz neoliberal.

Na encruzilhada russa, acabarão por ser as massas populares, organizadas e portadoras de um projecto transformador avançado, a desempenhar o papel crucial para assegurar que o país regresse a um caminho de desenvolvimento e progresso que responda aos interesses da grande maioria da população. Um novo capítulo de complexas lutas sociais só agora tem início na pátria de Lénine.



Notas



(1) Designadamente na esfera da defesa através da Organização do Tratado de Defesa Colectiva, integrado pela Rússia, Bielorrússia, Arménia, Casaquistão, Quirgistão, Tadjiquistão e Uzbequistão.

(2) Organização de Cooperação de Xangai de que são membros a China, Rússia, Casaquistão, Quirgistão, Tadjiquistão e Uzbequistão. Índia, Irão, Paquistão e Mongólia possuem o estatuto de observador.

(3) Brasil, Rússia, China e Índia, grupo das chamadas «potências emergentes».

(4) Que não deixará de se repercutir na economia russa. Até que ponto esta dispõe de uma margem de segurança ou, pelo contrário, se apresentará amplamente vulnerável ao seus impactos é uma incógnita. Permanece viva a memória do default económico de 1998 que, atingindo a bolha especulativo-financeira, acabou por contribuir para a recuperação económica russa. Por outro lado, o espectro do efeito contangiante da crise actual aumenta as pressões internas para uma mudança de agulhas do curso económico do país.

(5) Associada à ocupação por forças britânicas do porto de Batumi, vital para o transporte do petróleo de Baku, também sob domínio inglês, e à colaboração com os exércitos brancos de Denikin. Em 1920 a Guarda Nacional do Governo menchevique de Tbilissi lançou uma expedição punitiva contra Tskhinvali, acusada de cooperação com os bolcheviques.

(6) Segundo o Procurador Militar da Federação Russa, em resultado da agressão georgiana morreram 71 soldados das forças de paz russas e 340 foram feridos (RIA Novosti, 03.09.08).

(7) O crescimento populacional da Geórgia apresenta um dos balanços negativos mais expressivos do mundo.