Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Internacional, Edição Nº 299 - Mar/Abr 2009

Genocídio sistemático na Palestina - A barbárie da civilização

por José Goulão

Não podemos falar em rescaldo da tragédia de Gaza porque ela está longe do fim e, sob as bombas israelitas ou sofrendo as agonias da fome impostas pelo bloqueio humanitário, continuam a morrer inocentes naquele pequeno território asfixiado.  

«Enquanto o mundo continuar a ignorar as armas atómicas de Israel não pode dar-se ao luxo de dizer o mínimo que seja ao Irão»



Mordechai Vanunu,

cidadão israelita que denunciou Israel como uma potência nuclear





«São necessárias acções cruéis e poderosas. Se conhecermos a família devemos golpeá-la sem piedade, mulheres e filhos incluídos. De outro modo, a reacção será insuficiente. Não é necessário distinguir entre culpados e inocentes»




David Ben Gurion,

fundador do Estado de Israel, sobre a questão árabe





«A guerra contra o terrorismo é uma luta pela civilização

A guerra contra este inimigo é mais do que um conflito militar; é a luta ideológica decisiva do século XXI e o apelo da nossa geração

A libertação de 50 milhões de pessoas das garras de regimes bárbaros é, no mínimo, de registar»




George W. Bush

sobre a «guerra contra o terrorismo» e as invasões do Afeganistão e do Iraque



Não podemos falar em rescaldo da tragédia de Gaza porque ela está longe do fim e, sob as bombas israelitas ou sofrendo as agonias da fome impostas pelo bloqueio humanitário, continuam a morrer inocentes naquele pequeno território asfixiado. À luz das bitolas adoptadas em Washington e que se aplicam a todo o mundo, o drama que se vive em Gaza e também em todos os territórios palestinianos, incluindo Jerusalém Oriental, deve ser entendido, porém, como um acto «civilizacional» e «anti-terrorista».

Não duvidamos hoje, vendo, escutando ou lendo a vigilante comunicação social global e a sua pobre parente local, que Israel integra a elite das nações «civilizadas» como um ramo forte e indispensável da tal «guerra contra o terrorismo» que a nova administração norte-americana vai baptizar de outra maneira para que tudo continue na mesma. Sempre que se fala em extensão da NATO como braço armado da globalização imperial, Israel é citado como um novo membro na calha; a invasão do Iraque e consequente alteração de regime foi determinada por fortíssimas e eficazes pressões dos sectores israelitas e pró-israelitas do aparelho político de Washington; a democracia israelita poucas vezes é questionada ainda que o Estado seja teocrático e segregacionista; enquanto os fiscais da «civilização» mantêm o Irão debaixo de mira, grandes potências como os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a França participam secretamente, segundo Mordechai Vanunu, no programa nuclear israelita que para todos os efeitos, e para a própria Agência Internacional de Energia Atómica, continua a não existir; enquanto as instâncias internacionais discutiam as maneiras de impedir o «rearmamento do Hamas», dos Estados Unidos partiu um navio carregado com três mil toneladas de material de guerra destinado a Israel; os dirigentes norte-americanos e da União Europeia não se abstiveram de receber com grande familiaridade os principais políticos israelitas enquanto decorria a chacina em Gaza.

A integração plena de Israel no chamado «mundo ocidental», que se reclama de ser uma espécie de farol da civilização, tem contribuído para desfocar a realidade que está efectivamente por detrás do comportamento do aparelho israelita dominante. Ao contrário do que possa pensar-se, este não é constituído apenas pela direita política aliada ao fundamentalismo religioso, suportados pelas forças armadas e pela comunidade dos serviços secretos internos e externos, mas também pela generalidade dos partidos políticos, seculares ou religiosos, que têm participado nas diversificadas coligações governamentais. A excepção, que já não é recente, foi a gestão de Isaac Rabin, a quem a direita não deu tempo para mostrar até onde iriam as suas intenções pacifistas e cujo projecto começou a ser liminarmente desmantelado por um dos seus rostos principais, o do actual chefe de Estado, Shimon Peres.

Apreciando e analisando com profundidade o comportamento do Estado de Israel perante a comunidade árabe da Palestina desde 1948, observando objectivamente os comportamentos militares, políticos e diplomáticos - mesmo quando decorrem tréguas ou sessões de negociações - conclui-se que existe um traço comum na actuação do aparelho israelita ao longo dos últimos 60 anos que traduz, de facto, um projecto estratégico: o domínio de todo o território da Palestina pelo Estado de Israel. Os que assumiram claramente esta versão «reduzida», se calhar historicamente transitória do «Grande Israel», afirmam que «não é preciso criar um Estado palestiniano uma vez que este já existe e é a Jordânia, a “Palestina Oriental”». Foi a tese proclamada por Ariel Sharon e continua a ser a dos acólitos e sucessores, mesmo que alguns sejam menos explícitos por razões tácticas. Quanto ao facto de ser uma versão reduzida do Grande Israel basta recordar que os fundadores do Estado proclamavam o objectivo de exercerem soberania no território situado entre os rios Nilo e Eufrates.

O traço comum correspondente ao projecto estratégico é o único dado que se mantém imutável na crise do Médio Oriente enquanto se sucedem guerras, governos, negociações, ocupações, massacres e bloqueios. Ele conduz-nos, sem qualquer remissão, à única conclusão possível e cuja existência nenhum pudor de linguagem consegue já disfarçar: estamos há 60 anos perante uma operação permanente de genocídio de um povo e de limpeza étnica no território da Palestina.





O plano




Segundo a imprensa israelita, desde 2001 o documento de cabeceira de Ariel Sharon e dos seus colaboradores é o chamado Plano Dalan, que foi buscar a designação ao nome do chefe da Mossad, os serviços de espionagem do Estado de Israel.

Os excertos do conteúdo desse plano que têm vindo a público não deixam dúvidas quanto à sua existência e consequente eficácia. Ele contempla o desaparecimento de cena de Yasser Arafat (sem afirmar, mas também sem rejeitar o recurso ao assassínio) e a sua substituição por uma direcção mais «maleável» da Autoridade Palestiniana; a «balcanização» dos territórios palestinianos, leia-se a divisão entre a Cisjordânia e Gaza que além de física passou a ser administrativa; o bloqueio de Gaza e operações militares contra este território (a ofensiva de Dezembro começou a ser preparada seis meses antes, quando o governo de Israel negociava indirectamente o cessar-fogo com o Hamas).

Uma interpretação óbvia deste plano é a de que ele se orienta pelo objectivo de inviabilizar a criação do Estado palestiniano nas fronteiras de 1967, tal como estipulam as resoluções internacionais sobre o assunto. Trata-se da aplicação da velha política do facto consumado tão grata a sucessivos governos israelitas. Enquanto decorre a aplicação de tal plano, Israel afirma que aceita esse Estado e mantém-se num «processo de paz» que há muito inviabilizou com a cumplicidade do principal mediador, os Estados Unidos da América. Se formos um pouco além e apreciarmos o papel inútil, ou mesmo perturbador, do chamado Quarteto, alargamos a lista dos cúmplices à União Europeia, à Rússia e à ONU, quanto mais não seja por darem o seu aval a um processo que, no limite, sabiam que eram incapazes de fazer funcionar.

O plano Dalan orienta a ofensiva político-militar israelita desde o início do século XXI e corresponde à recuperação da iniciativa pelos sectores nacionalistas de direita depois de os trabalhistas, sob o comando de Ehud Barak, terem liquidado as hipóteses de um acordo israelo-palestiniano no momento em que provavelmente esteve mais próximo, no ano 2000 em Taba, no Egipto. Observando o papel de Barak na recente ofensiva de Gaza, compreende-se o seu comportamento em Taba, onde se limitou a invocar falta de legitimidade uma vez que era um primeiro-ministro interino. Agora, a interinidade no cargo de ministro da Defesa não o inibiu de comandar a chacina.

Apesar da sua importância na aplicação de uma política adaptada às circunstâncias actualmente existentes, o plano Dalan é apenas mais uma peça na sucessão de medidas enquadradas no projecto expansionista e colonizador de Israel.

O Estado de Israel nasceu, de facto, a partir de uma limpeza étnica. Em 1948, centenas de milhar de pessoas foram expulsas à força das suas casas e das suas terras na Palestina durante uma das mais tenebrosas operações terroristas da história humana. Os campos de concentração onde tantos judeus foram massacrados tinham sido encerrados apenas três anos antes. Centenas de vilas e aldeias da Palestina desapareceram do mapa e nos seus territórios surgiram povoações agora habitadas por judeus chegados de todo o mundo para um novo país chamado Israel. O massacre de Deir Iassin, aldeia nos arredores de Jerusalém, ficou como um símbolo dessa vaga de terror, tal como o de Sabra e Chatila em 1982, o de Jenin mais recentemente, e agora o de Gaza.

Uma nova grande vaga de refugiados foi obrigada a partir da Palestina em 1967 na sequência da chamada Guerra dos Seis Dias, através da qual Israel ocupou Jerusalém Oriental, a Cisjordânia e Gaza. O povo palestiniano ficou então distribuído pelo interior de Israel (onde os que ali permanecem são cidadãos de segunda), pelos territórios ocupados ou bloqueados (como é o caso de Gaza) e pelos numerosos campos de refugiados distribuídos pelo mundo árabe.

Em alguns desses campos situados no Líbano, na Jordânia ou nos territórios ocupados a história regista terríveis massacres cometidos por militares israelitas ou aliados seus em situações de completa impunidade perante civis indefesos, a maioria dos quais crianças ou mulheres.

Apesar de existirem períodos de grandes vagas de refugiados, a fuga de palestinianos da Palestina foi permanente durante as últimas seis décadas. Circunstâncias várias e convergentes provocaram e provocam essa emigração forçada: a confiscação constante de terras árabes por motivos administrativos, quase sempre arbitrários; a proibição imposta a famílias árabes de construírem ou reconstruírem as suas habitações; a permanente implantação de colonatos nos territórios ocupados, violando as Convenções de Genebra e outras normas internacionais elementares, além de imporem a anexação gradual de terras como facto consumado; a criação de dificuldades à vida quotidiana dos palestinianos, desde a multiplicação de postos militares de controlo à construção de estradas proibidas a palestinianos e que, na prática, isolam as suas comunidades umas das outras.

A par do bloqueio a Gaza, a construção do chamado muro de separação na Cisjordânia é um dos mais recentes artifícios para inviabilizar o Estado palestiniano. Através dessa vergonhosa e humilhante barreira física, que reforça o isolamento dos palestinianos entre si e que as autoridades israelitas apresentam como traçado da futura fronteira, o Estado de Israel está a consumar a anexação de 40 por cento da Cisjordânia, uma percentagem que é muito mais elevada quando se lhe soma a área ocupada pelos colonatos.

Não é difícil fazer o apuramento dos resultados deste conjunto de acções ininterruptas de Israel sobre os palestinianos, a sua vida e as suas terras. As chacinas regulares assumem a forma de genocídio sistemático. Na invasão de Gaza foram assassinadas mais de 400 crianças e de 100 mulheres no quadro do «combate ao terrorismo», realidade que desvenda a intenção israelita de continuar a travar com sangue a guerra da demografia. É que todas as projecções realizadas com base no panorama existente no território da Palestina prevêem que a prazo os palestinianos sejam mais numerosos do que os israelitas – o verdadeiro pesadelo do aparelho dirigente de Israel.

Por isso o genocídio é acompanhado pela limpeza étnica. As condições de vida impostas pelo bloqueio em Gaza e pela repressão, pelo muro, pelos controlos militares, as humilhações, o isolamento comunitário, a asfixia económica e a confiscação de terras na Cisjordânia transformaram a vida dos palestinianos num inferno. Não admira que sejam aos milhares as pessoas, principalmente as mais jovens, que querem fugir de Gaza ou da Cisjordânia em busca de um dia-a-dia normal que lhes permita garantir a sobrevivência das suas famílias.

Esta realidade existe sob os olhos de todo o mundo. Ao observá-la na sua globalidade, somando os efeitos dos vários fenómenos isolados, não podem ficar dúvidas de que estamos perante um projecto gradual de liquidação e transferência de um povo e sua substituição por outro povo. Por isso assistimos também à sabotagem permanente, por Israel e seus aliados, das iniciativas diplomáticas de paz e ao esvaziamento da Autoridade Palestiniana – o que resta dos acordos de 1993.

E quando a democracia funcionou nos territórios palestinianos, a chamada comunidade internacional decidiu que os resultados não valiam. Como, ainda assim, os principais movimentos palestinianos teimavam em entender-se, Israel e os seus aliados armaram e incitaram uma facção contra a outra num projecto de guerra civil.

A «civilização ocidental» prossegue a sua expansão no Médio Oriente.