Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Efeméride, Edição Nº 300 - Mai/Jun 2009

Soeiro Pereira Gomes - Um militante que era escritor

por Manuel Gusmão

Soeiro Pereira Gomes é o nome de um escritor que era militante comunista ou de um militante comunista que era escritor? Soeiro Pereira Gomes foi alguém, um indivíduo concreto, que foi indissociavelmente uma e outra coisa, que construíu com a sua vida essa unidade íntima de duas qualidades distintas, num período histórico difícil mas exaltante. Soeiro Pereira Gomes, que se inspirou na actividade política e na luta operária e camponesa para a sua obra literária, desempenhou elevadas responsabilidades em diferentes áreas da actividade partidária, nomeadamente na organização de importantes lutas de massas no Alto e Baixo Ribatejo, organização pela qual foi responsável durante vários anos e que sob a sua direcção se tornou importante baluarte do PCP e da resistência antifascista.

O Militante publica o relatório de Soeiro Pereira Gomes sobre a histórica greve de 8 e 9 de Maio no Ribatejo, greve na qual desempenhou destacado papel como seu organizador e dirigente.








Soeiro Pereira Gomes é o nome de um escritor que era militante comunista ou de um militante comunista que era escritor? Soeiro Pereira Gomes foi alguém, um indivíduo concreto, que foi indissociavelmente uma e outra coisa, que construíu com a sua vida essa unidade íntima de duas qualidades distintas, num período histórico difícil mas exaltante.

Joaquim Soeiro Pereira Gomes nasceu há 100 anos, em 14 de abril de 1909, em Gestaçô, concelho de Baião, no distrito do Porto. Morreu há 60, em 5 de Dezembro de 1949, em Lisboa. Morreu relativamente jovem, alguns meses depois de ter feito 40 anos.  Filho de uma família de pequenos agricultores, fez a instrução primária em Espinho. Com 21 anos concluiu o curso de regente agrícola na Escola Nacional de Agricultura de Coimbra. Em 1930, parte para Angola, onde trabalha como guarda-livros na Companhia de Catumbela. Devido ao clima e às condições de trabalho apenas aí permaneceu um ano.

Regressado a Portugal, casa em Coimbra com Manuela Câncio Reis e vem fixar-se em Alhandra, onde trabalha como empregado de escritório na Fábrica de Cimentos Tejo. Data desses duros anos 30 o seu contacto com a brutal exploração e as desumanas condições do trabalho operário. O contacto transforma-se em consciência e a consciência exprime-se em acção de animação cultural e actividade política. Na viragem dos anos 30 para a década de 40, o PCP iria reorganizar-se na clandestinidade, organizar a luta de massas, reforçar a sua organização e alargar a sua influência.

Entretanto, Soeiro Pereira Gomes ajudava a criar bibliotecas populares nas colectividades de cultura e recreio, a promover cursos de alfabetização e de ginástica, sessões de poesia e palestras, e até promove a construção de uma piscina – a Charca – para o povo de Alhandra. Nessa sua intensa actividade tinha de encontrar e encontrou de facto o Partido Comunista Português, ao qual adere.

Como militante, integra a célula da empresa Cimentos Tejo e a seguir passa a fazer parte do Comité Local de Alhandra. A sua actividade de animação cultural intensifica-se, e instigado por Alves Redol, em 1939 e 1940, publica crónicas e contos no jornal O Diabo. Em sua casa, encontram-se outros intelectuais comunistas – escritores como Alves Redol, Sidónio Muralha e Alexandre Cabral.

Em 1941 publica o seu primeiro romance, «Esteiros», nas Edições Sirius, com capa e desenhos de Álvaro Cunhal, a quem o ligava uma grande amizade. «Esteiros» é um dos primeiros romances neorealistas e um dos mais belos romances de adolescência da literatura portuguesa.

«Esteiros» abre com uma dedicatória: «Para os filhos dos homens que nunca foram meninos, escrevi este livro». Essa dedicatória, justamente célebre, homenageia solidariamente as suas personagens.

Entretanto, Soeiro passa a integrar o Comité Regional do Ribatejo e participa da reorganização de 40-41, que, consolidada nos III e IV Congressos do PCP (os dois primeiros congressos na clandestinidade), vai preparar o Partido para se transformar, simultaneamente, de partido de vanguarda da classe operária em grande partido nacional, que, sem perder a sua natureza de classe, se torna a força aglutinadora e unificadora das forças sociais, cuja aliança e convergência exprimia a «unidade da nação portuguesa na luta pelo pão, pela liberdade e pela independência» (do relatório do camarada Álvaro Cunhal ao III Congresso), e era necessária para abrir «o caminho para o derrubamento do fascismo» (IV Congresso).

É por essa altura que Soeiro, com Redol e Dias Lourenço, organiza os célebres passeios de fragata no Tejo – que eram formas de proporcionar encontros entre intelectuais e quadros do Partido, fora da vista e dos ouvidos do inimigo fascista.

A integração do intelectual revolucionário no partido da classe operária entra numa nova fase de aprofundamento. Soeiro desempenha um papel importante na organização das históricas greves de 8 e 9 de Maio de 1944, integrando o «Comité Regional da Greve do Baixo-Ribatejo» e participando na organização de uma marcha da fome em Alhandra. A PVDE aperta o cerco e, na tarde de 14 de Maio de 1944, Soeiro Pereira Gomes passa à clandestinidade. Na situação de funcionário clandestino, de revolucionário profissional a tempo inteiro, é-lhe confiada a responsabilidade da Direcção Regional do Alto Ribatejo – onde virá a desenvolver um notável trabalho de alargamento da organização, da actividade e da influência do Partido. Em Julho de 1946, no IV Congresso, é eleito para o Comité Central do Partido. Nesse mesmo ano, é destacado para a comissão executiva do MUNAF e acompanha a actividade dos militantes comunistas no MUD. Passa pouco depois a ser o elemento de ligação da Direcção do Partido com  o MUNAF.

Entretanto, o escritor continuava; continuava escrevendo. Em Agosto do ano de 1946 escreve «Praça de Jorna», que é publicado em O Militante. «Praça de Jorna» é um notável texto sobre um problema concreto de organização económica, social e política de massas camponesas (ou, mais rigorosamente, de assalariados rurais). O texto, que se desenvolve ao longo de oito secções numeradas, abre com a descrição do que os próprios assalariados rurais chamam «praça de jorna» ou «praça de trabalho» e com um esboço do seu significado histórico e fecha, ligando a tarefa de utilizar as «praças de jorna» e a formação de comissões de praça e outras estruturas de unidade camponesa, com a construção de «um Movimento de Unidade Camponesa para o derrubamento do fascismo». Entre esses dois momentos, o texto argumenta a necessidade de defender e criar praças de jorna, entendidas como fruto da sociedade capitalista, espaço da luta de classses e terreno em que os camponeses se podem e devem unir contra os senhores das terras. O texto recomenda a sua organização para a luta, através da formação de  «comissões de praça», de carácter permanente e operando na legalidade, embora seja conveniente que a maioria dos seus elementos não seja individualmente conhecido como dirigente da «praça». Meticulosamente, sintetizando e generalizando frequentemente a experiência concreta dos trabalhadores na organização, funcionamento e acção destas comissões, o texto fornece indicações sobre a sua composição, sobre a maneira de garantir a sua ligação aos trabalhadores, homens, mulheres e jovens, e sobre a forma de  combinar e até de fundir tácticas defensivas e ofensivas. Finalmente, o texto de Soeiro chama a atenção para a importância da «Comissão de praça conhecer as condições de trabalho nas outras praças da região» e aponta a possibilidade das comissões alargarem o seu âmbito de actividade, «interferindo em todos os sectores da vida social que digam respeito à classe camponesa da sua localidade, tais como: racionamentos, melhoramentos locais, direcção da Casa do Povo, eleições gerais».

«Praça de Jorna» não é ficção, não é um texto literário, mas é um escrito político em que o seu autor usa a sua capacidade de escrita, a sua informação e poder de argumentação e de convencimento, para, trabalhando com a própria experiência das massas, encontrar a orientação mais adequada para um problema ou uma cadeia de problemas da vida social.

Entretanto, Soeiro Pereira Gomes não abandona a ficção. Já na clandestinidade vai encontrar os seus motivos na própria situação de clandestinidade. Na primavera de 1945, escreve «O Pio dos Mochos», conto que virá a integrar um pequeno conjunto de narrativas que, intitulado «Contos Vermelhos», conhecerá publicação também clandestina. Sucedem-lhe, em Novembro de 1948, «Refúgio Perdido», e em 20 de  Janeiro de 1949, o ano da sua morte, «Mais um Herói». Cada conto tem uma dedicatória: «O Pio dos Mochos» é dedicado «ao camarada Duarte» (pseudónimo usado na clandestinidade por Álvaro Cunhal); «Refúgio Perdido», ao camarada João (pseudónimo de Dias Lourenço); «Mais um Herói» cuja dedicatória – «À memória de Ferreira Marquês e de quantos, nas masmorras fascistas, foram mártires e heróis» – diz o nome legal e não  o pseudónimo, porque o camarada homenagedo fora (em 1944) assassinado. A colectânea, por seu turno, expande as dedicatórias singulares, até abraçar o colectivo dos revolucionários: «Aos meus companheiros – que, na noite fascista, ateiam clarões duma alvorada».

Com «Contos Vermelhos», pequenas histórias, contos exemplares numa tradição que vem da Idade Média, a vida clandestina dos militantes do Partido Comunista Português torna-se pela primeira vez matéria ficcional e inspiração ética e ideológica da narração, e entra na literatura portuguesa.

Estes contos narram acções de personagens em situações ao mesmo tempo típicas e excepcionais. Excepcionais porque a clandestinidade política é um estado de excepção, por um lado, porque é violentamente imposta, por outro, porque aqueles que se decidem a ela o fazem para acabar com a situação que a impõe. São histórias que representam homens comuns, mas portadores de uma força; histórias sobre a experiência física e moral do medo e sobre a força anímica, moral e política que pode vencer o medo. Medo de ser preso, medo de falhar, medo de ter medo, medo supersticioso dos fantasmas que  em parte vêm da infância, medo da tortura e do sofrimento físico, medo de morrer, de perder a vida e os afectos que a tecem. Esses medos irão sendo vencidos; estas são também histórias da esperança. A daqueles que são animados por uma paixão histórica: a de uma luta pela liberdade que lhes aparece indissociavelmente ligada à luta por uma revolução social. E talvez se perceba que essa esperança é nestes contos factor de dignidade individual e, ao mesmo tempo, algo que vem de se fazer parte de um colectivo tão livremente escolhido que por ele se arrisca a dureza da vida clandestina e, no limite, o risco de morte. E este fazer parte significa a partilha de ideais, valores e projectos  de uma mudança do mundo e da vida.

Em «O Pio dos Mochos», alguém que, tendo estado preso, «falou», recebe dos seus camaradas uma oportunidade para se reintegrar no combate. Deve deixar no cemitério de uma povoação em luta e cercada pelas forças policiais, panfletos de apoio aos camponeses e alguns mantimentos; é assaltado pelos medos, mas, ajudado por aquele que lhe propôs a tarefa, acaba por cumpri-la e reencontrar uma maneira de alegria. No fundo, venceu uma prova.

Em «Refúgio Perdido», um revolucionário, perseguido e quase cercado, perde o seu refúgio e, por duas vezes, no mesmo dia, falha a sua instalação num novo quarto. Falha também um encontro para passar os jornais clandestinos que deve distribuir. Acaba por dormir ao relento, sem ter comido e pensando que não vai faltar ao encontro de recurso (um segundo encontro já pré-marcado para o caso de falhar o primeiro).

No último conto, «Mais um Herói», alguém que é preso parece preparar uma auto-justificação para a eventualidade de, sob a tortura, acabar por denunciar os seus. Entretanto, confrontado com um camarada que já cedeu e começou a «falar», opera-se nele uma convulsão ao mesmo tempo estranha e clara: um gesto de indignação e rebeldia que faz com que o seu companheiro recuse o que já disse, e faz com que ele próprio vá resistir à tortura.

Em cada conto, os protagonistas estão em grande medida sós. É certo que há sempre, embora com funções diversas, um outro camarada que aparece, mas a força que vence o medo, que os faz reagir e actuar, têm que a encontrar em si. Entretanto, a essa relativa solidão chegam os gestos e os ecos de uma presença solidária: a de um partido que, golpeado pelas prisões e o assassinato, sobrevive e resiste, pelas suas raízes sociais de classe, pela sua teoria e pelos laços que o ligam àqueles por quem é feito.Tais ecos  chegam pelo encontro ou acção de um camarada, pela «voz» que fala na imprensa clandestina e pela cumplicidade muito próxima do narrador, ou seja, pela participação de quem conta naquilo que conta.

Quando passara à clandestinidade teria acabado uma primeira versão de um segundo romance, «Engrenagem». Sabe-se que essa versão foi posteriormente emendada, e que o seu autor não dera por terminado o texto que veio a ser editado, pela primeira vez em 1951. Mais tarde, já alcançada a liberdade, tornar-se-á possível a publicação de uma outra versão corrigida pelo seu autor. Este romance conta a dura experiência da passagem de camponeses a operários, a violência das condições do trabalho fabril e o progressivo ganhar de consciência de um operário que, em situação de encerramento da fábrica, incita à luta oganizada os seus companheiros de trabalho.

Também «Engrenagem», abre com uma dedicatória: «Para os trabalhadores sem trabalho – rodas paradas duma engrenagem caduca». Se insisto neste facto – todas as principais ficções de Soeiro Pereira Gomes abrem com dedicatórias, que além do mais se dedicam aos heróis das suas narrativas – é porque quero avançar a ideia de que todo o trabalho ficcional do autor é, por ele, sentido, entendido e praticado como uma intensa dedicatória, não apenas literária, mas uma dedicatória da sua vida. Quando o lemos, percebemos que quem dedica aqueles contos e romances é alguém que assim estava a dedicar a sua vida. E essa dedicação foi extrema, ou seja, foi até ao fim. Até à morte.  Atingido pela doença, as condições de clandestinidade não permitiam o necessário acompanhamento médico. Ainda regressa discretamente à legalidade, mas era tarde demais e morre quase a terminar o ano de 1949, esse ano que começara escrevendo, mas referindo-se a outros, «Mais um herói».

O seu funeral foi uma expressiva manifestação de pesar e de admiração pelo revolucionário caído na luta. O povo de Alhandra exigiu a passagem pela localidade do carro funerário que o transportava para o cemitério em Espinho, de modo a prestar a sua última homenagem ao «querido, inesquecível amigo Joaquim Soeiro Pereira Gomes.»

Em 1949, o regime fascista recompunha-se temporariamente. Era criada a NATO e Portugal era admitido: a guerra fria dava a mão a Salazar, Portugal adere ao plano Marshall. A polícia política prende mais de uma dezena de dirigentes e funcionários do Partido, entre os quais Álvaro Cunhal e Militão Ribeiro.

A noite parecia adensar-se, mas os companheiros de Soeiro Pereira Gomes persistiam, preparavam uma nova ofensiva que, desde 1958 e durante toda a década de 60, abalaria o regime, ateavam os «clarões duma alvorada», que havia de chegar em Abril de 1974.





Informação de Soeiro Pereira Gomes




Apesar de não ter sido secundada e das baixas havidas nos quadros do Partido, a greve de 8 e 9 de Maio no Baixo Ribatejo foi um êxito.

1.º Porque as massas cumpriram integralmente – com excepção de Alenquer, Alverca e Vila Franca de Xira  – as palavras de ordem do Partido.

2.º Porque preparou o Ribatejo para novas lutas.

3.º Porque tirou ao patronato a segurança resultante da não adesão do Ribatejo à greve de Julho-Agosto de 1943, o que levará a novas concessões aos trabalhadores.



Descrição do movimento



Sacavém – O responsável do Comité de Greve local não apresentou informes, nem se apresentou ele próprio à reunião do dia 8 à tarde. Houve paralisação total das fábricas e organizou-se uma manifestação cuja marcha foi interceptada pela GNR, que não a susteve, e depois pelos carros de assalto. As mulheres, à frente, com bandeiras negras, recuaram, primeiro, e em seguida gritaram: – Os carros podem esmagar-nos, que já ninguém recua mais! A marcha seguiu. Até onde não sabemos.

Póvoa de Santa Iria – A greve começou na Covina. O pessoal saiu em massa da fábrica depois de ter apresentado reclamações ao patrão. Na fábrica Soda-Póvoa, como parte do pessoal não quisesse aderir, houve que agir com energia. A reclamação tomou aspectos duros e o director levou com um objecto na cara. As outras fábricas secundaram o movimento. Tocou o sino a rebate e a marcha seguiu sobre Sacavém, mas foi dispersada pouco além de Santa Iria. O povo colocou bandeiras negras nas janelas das casas. Parece que foram presos bastantes militantes, entre os quais o responsável local, que não estabeleceu ligação até agora nem enviou informes.

Alverca – Aqui não houve movimento grevista. Tinha-se resolvido que uma coluna de grevistas da Póvoa marchasse sobre o Parque de Alverca, o que não se fez.

Alhandra – A greve teve início na Cimento Tejo às 12 horas. O pessoal explicou ao director a razão por que ia para a greve: falta de pão e géneros. O director disse-lhes que achava mal, mas que fizessem o que entendessem. A maioria dos grevistas marchou sobre a fábrica de Penteação de Lãs, cujo pessoal foi mandado embora pelo director, depois de muitos operários, especialmente mulheres, já terem aderido. Os restantes grevistas foram à Sociedade Têxtil do Sul, Fábrica de Pimentação e Descasque de Arroz e convidaram os camaradas a aderir. Entretanto, no regresso da Pimentação, surgiu pela frente o polícia Sousa Lobo, que, de braços abertos, implorou que os operários regressassem à fábrica, recebendo por resposta alguns comentários irónicos. A marcha atravessou a vila, onde já se encontrava a Guarda Republicana, que se colocou atrás e seguiu também. Perto de Vila Franca, apareceram pela frente alguns marinheiros da Escola de Mecânicos. Houve tiros para o ar, uma rajada de metralhadora e a guarda separou o cortejo em duas partes. Mulheres e homens fugiram. Para evitar o pânico e a deserção total, o Comité Local e outros militantes e algumas valentes mulheres encabeçaram a marcha que à entrada da vila foi cercada e obrigada sob ameaça das metralhadoras a entrar na Praça de Touros, onde ficaram cerca de 300 pessoas. A marcha, em que se tinham incorporado alguns operários da Construção Civil, compunha-se de 2000 pessoas, mais ou menos, e as mulheres levavam bandeiras negras e um cartaz «Queremos pão e géneros».

A-dos-Loucos – A greve foi desencadeada pelos camaradas camponeses e operários. Depois do sino ter tocado a rebatre em S. João dos Montes, a marcha deu volta por Linhou, A-dos-Bispos e Rondulha, apelando aos camponeses, mas, quando chegou a esta localidade, apareceu uma camioneta da Guarda, com uma metralhadora, sendo presa a vanguarda da marcha. De tarde, o polícia Lobo tentou levar os operários que andavam pelas ruas a que fossem trabalhar sob promessa de fazer libertar os presos, no que foi obstado pelo responsável local, que lhes aconselhou a solução contrária: libertarem os presos antes do regresso ao trabalho.

Vila Franca – Aqui o movimento gorou-se totalmente, pois os camponeses não aderiram nos mouchões, nem os operários da Fábrica de Moagem e Penteação deixaram de trabalhar. No entanto, os camponeses que ficaram na vila de manhã incorporaram-se na marcha. Abandonaram também o trabalho os operários da Construção Civil.

Alenquer e Arruda – Não há conhecimento de qualquer movimento nestas localidades. Para Arruda estava combinado enviar uma coluna de grevistas.

Perda de quadros – Em Sacavém e Póvoa não se sabe. Em Alhandra: 2 responsáveis do Comité Local, o responsável da agitação regional, 4 elementos de 2 células de empresa, 1 responsável do Comité Local de Vila Franca, e não se sabe quantos militantes e jovens. Em A-dos-Loucos: 2 responsáveis do Comité Local da Arruda.

A grande baixa dos quadros do Partido foi devida ao entusiasmo dos camaradas responsáveis, que se esqueceram das instruções terminantes de não encabeçar as marchas e de não se deixarem prender em caso de perigo (passarem à clandestinidade, mesmo que temporária).

Consta que as autoridades tinham conhecimento prévio do movimento. Por outro lado, a forte rede de espionagem deu logo uma lista de todos os suspeitos e dos chefes do movimento, pela qual se guiaram nos interrogatórios.