Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Efeméride, Edição Nº 300 - Mai/Jun 2009

Um lutador indispensável - Manuel Rodrigues da Silva

por Revista «O Militante»

Por ocasião do centenário do nascimento do camarada Manuel Rodrigues da Silva, um daqueles lutadores que Brecht consideraria «indispensável», transcrevemos o artigo sobre o camarada, publicado em O Militante, N.º 182, de Julho de 1990. Manuel Rodrigues da Silva foi um exemplo de militante dedicado, destacado dirigente do Partido na clandestinidade, tendo consagrado toda a sua vida à luta contra o fascismo e pela liberdade, luta pela qual pagou um pesado tributo: clandestinidade, torturas e longos anos de cadeia. Preso por duas vezes, foi um dos preso político que mais tempo seguido passou nas cadeias fascistas (14 anos) e que mais anos teve de prisão (23 anos), enfrentando sempre com grande firmeza e coragem os esbirros da polícia política e os carcereiros fascistas.

Manuel Rodrigues da Silva faz parte, muito justamente, do núcleo de camaradas construtores do Partido.

Incluímos ainda extractos da sua intervenção de abertura ao VI Congresso do PCP, em 1965.



«Filho de um operário português emigrado no Brasil, Manuel Rodrigues da Silva nasceu em S. Luís do Maranhão em 10 de Abril de 1909, vindo para Portugal com quatro anos de idade. Pouco depois de completada a instrução primária, com 13 anos, começa a trabalhar como aprendiz de serralheiro mecânico na Manutenção Militar de Lisboa.

Querendo continuar os estudos, consegue frequentar o curso nocturno da Escola Industrial. As duras condições de vida e de trabalho do operariado português nesses duros anos 20 e o contacto com as estruturas sindicais foram formando em Manuel Rodrigues da Silva a consciência de classe, e transformando-o em activista sindical e militante político.

Em 1932 adere ao PCP e, pouco depois, é eleito secretário da Comissão Regional do Centro da CIS (Comissão Inter-Sindical). A sua intensa actividade e dedicação desperta a atenção dos seus camaradas, sendo chamado a tarefas de cada vez maior responsabilidade. Em 1934 passa a integrar, no campo sindical, a Comissão Executiva da CIS. No que respeita ao Partido, passa a fazer parte, em 1935, do Comité Central do PCP e, em 1936, do seu Secretariado, ficando responsável pela actividade sindical clandestina.

O importante trabalho desenvolvido, nas difíceis condições criadas pela prisão do Secretariado do Partido em finais de 1935, atraiu também sobre si a atenção e o ódio da polícia fascista. Preso em 23 de Setembro de 1936, Manuel Rodrigues da Silva é mantido incomunicável durante 23 dias e, sem qualquer julgamento, é enviado para o campo de concentração do Tarrafal, para onde partiu em 17 de Outubro desse ano.

No Campo da Morte Lenta permaneceu Manuel Rodrigues da Silva quase dez anos. Abrangido pela amnistia que o fascismo salazarista foi obrigado a conceder em 1945, após a derrota do nazi-fascismo na guerra, regressa a Portugal a bordo do navio «Guiné», em 1 de Fevereiro de 1946. Mergulhado de novo na clandestinidade, é eleito membro do Comité Central no IV Congresso do PCP, realizado em Julho de 1946.

Como dirigente da Comissão Nacional Sindical do PCP, a ele estão ligadas muitas das acções que tiveram lugar nessa época.

De novo preso em 7 de Fevereiro de 1950, é encarcerado no Aljube, onde permaneceria três anos em péssimas condições, sem recreio e sem visitas. Entretanto, foi julgado em Abril de 1951, fazendo do tribunal fascista uma tribuna de denúncia dos métodos de repressão da PIDE, de desmascaramento do regime e de defesa do seu Partido.

O Tribunal plenário condenou-o a quatro anos de prisão maior. Mas o Ministério Público recorreu da sentença e a pena foi-lhe ampliada para oito anos e «medidas de segurança».

Em 1954, Manuel Rodrigues da Silva foi transferido para Peniche. Com a saúde já abalada e a pena já terminada em 1959, é mantido encarcerado devido aos sucessivo pedidos da PIDE de prorrogações das «medidas de segurança».

Manuel Rodrigues da Silva sofre, em 1961, uma congestão cerebral, mas é-lhe recusado o internamento hospitalar. Temendo pela sua vida, é lançada uma grande campanha, ao nível nacional e internacional, pela sua libertação. A grande pressão exercida sobre o fascismo obtém resultados: em 8 de Janeiro de 1964, quase 14 anos depois da sua prisão, Manuel Rodrigues da Silva sai em liberdade condicional.

Apesar da sua fraca saúde, não hesita: volta novamente à militância política e à vida clandestina. «Este homem aparentemente tímido, fatigado e débil, tinha a força indestrutível de uma dedicação sem limites à sua classe e ao Partido. Toda a sua vida os serviu. Tudo lhes sacrificou: a vida pessoal, a família e os próprios últimos tempos de vida, quando, já com uma primeira trombose ocorrida em Peniche, se dispôs, uma vez libertado, a voltar à clandestinidade.» (In José Magro, Cartas da Prisão, Edições «Avante!», Lisboa, 1975, p. 48)

Chamado ao Secretariado do Comité Central, Manuel Rodrigues da Silva participa no VI Congresso do PCP, realizado em 1965, onde faz a intervenção de abertura.

O seu estado de saúde vai-se agravando e, em 22 de Julho de 1968, viria a falecer na União Soviética, onde seria sepultado, no cemitério Monasteri Novodevitche, em Moscovo.»



 «O Comité Central saúda em vós todos os militantes que nas difíceis condições do fascismo, no desempenho das tarefas mais modestas ou nas de maior responsabilidade lutam tenazmente pela realização dos objectivos do Partido e a cujo trabalho abnegado se devem, no fundamental, os grandes êxitos que temos obtido.»

«Saudamos calorosamente todos os lutadores anti-fascistas presos, particularmente todos os nossos camaradas que frente aos assassinos da polícia fascista, nos tribunais e nas masmorras salazaristas estiveram e estão dispostos a fazer todos os sacrifícios pela libertação da nossa Pátria. Na memória de todos nós permanecem vivos os exemplos de camaradas, como José Gregório, José Dias Coelho, Maria Helena Magro, Maria Albertina, Adângio, Capilé, Fineza, e outros heroicos combatentes que, desde a realização do V Congresso, deram as suas vidas à causa da classe operária e do povo português.»

«O VI Congresso realiza-se num momento em que pesadas tarefas e grandes responsabilidades recaem sobre a classe operária e o seu Partido. Para que os nossos trabalhos sejam frutuosos é indispensável que cada militante dê a sua opinião, faça as suas críticas e contribua com a sua experiência.»

«Para o bom êxito dos trabalhos do nosso Congresso é necessário que se debatam francamente todos os problemas. Apontemos corajosamente as dificuldades, insuficiências e erros do nosso trabalho, para os podermos superar.»

«Saibamos fazer deste Congresso um grande passo para o reforço de todo o trabalho partidário, para o reforço da unidade de pensamento e de acção de todo o Partido. Saibamos reforçar os princípios ideológicos e orgânicos do Partido, para forjarmos a arma que levará o povo português à vitória sobre o fascismo, à conquista da Democracia, da Independência Nacional, da Paz e do Socialismo.»



Outubro de 1965