Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Internacional, Edição Nº 301 - Jul/Ago 2009

Sobre o fascismo e a verdade histórica

por Jorge Cadima

Há 70 anos, iniciava-se a II Guerra Mundial. Pela segunda vez num quarto de século, as rivalidades e belicismo congénito do capitalismo ceifavam a vida a dezenas de milhões de seres humanos e semeavam a destruição. Entre as duas grandes guerras, o planeta foi varrido pela maior crise económica do capitalismo até então conhecida. Das entranhas dum sistema de exploração em agonia surgiu o monstro do nazi-fascismo, que precipitou a catástrofe de 1939-45 e chegou a imperar sobre quase todo o continente europeu.

Mas o início do século XX foi também um período de luta e avanço dos povos e do movimento operário: desde a grande Revolução de Outubro, passando pela resistência armada que desempenhou o papel decisivo na derrota do nazi-fascismo, até às profundas transformações do pós-guerra, que marcaram positivamente quase toda a segunda metade do século. Os trabalhadores e os povos tornaram-se actores de primeiro plano na História da Humanidade. Sem ignorar as grandes alterações entretanto ocorridas, os acontecimentos e lições desse período ganham redobrada actualidade num momento em que a Humanidade se vê de novo confrontada com um capitalismo em profunda crise.

A I Guerra Mundial

Em Agosto passam 95 anos sobre o início da I Guerra Mundial, «uma guerra imperialista (isto é, uma guerra de conquista, pilhagem e rapina), uma guerra pela partilha do mundo, pela divisão e redistribuição das colónias, das 'esferas de influência' do capital financeiro» (1), nas palavras de  Lénine. A I Guerra Mundial não opôs adversários ideológicos ou inimigos de classe, nem foi um «choque de civilizações». Os 15 milhões de mortos da guerra de 1914-18, foram vítimas das rivalidades entre classes dirigentes de potências europeias, «cristãs», defensoras de um mesmo sistema sócio-económico: o capitalismo. Esse sistema conhecera, após 1870, um desenvolvimento impetuoso, acompanhado da criação de gigantescos monopólios, duma associação cada vez mais estreita entre indústria e finanças, da financeirização crescente da economia, da necessidade de exportar os enormes excedentes de capital entretanto acumulados e de controlar as fontes de matérias-primas, com a consequente colonização e rapina dos países «periféricos». Nesta outra «globalização» a concertação alternou com a rivalidade. As «velhas» potências imperialistas entraram em confronto com uma «jovem» Alemanha, que chegara tarde à sua unificação nacional mas que, com taxas de desenvolvimento económico mais rápidas, se sentia no direito de agir como grande potência (2). Pergunta Lenine: «no terreno do capitalismo, que outro meio poderia haver, a não ser a guerra, para eliminar a desproporção entre o desenvolvimento das forças produtivas e a acumulação de capital, por um lado, e por outro, a partilha das colónias e das 'esferas de influência' do capital financeiro?» (3). 

A falência da II Internacional e a Revolução de Outubro

O movimento operário teve um grande desenvolvimento nas décadas que antecederam a I Guerra Mundial. A par do reforço sindical, criaram-se por toda a parte partidos operários, que formam a II Internacional.  Mas a guerra lançou a  Internacional numa profunda crise, devido à traição dos seus dirigentes a princípios sempre proclamados. Escreve Lénine: «Os socialistas de todo o mundo declararam solemnemente em 1912 [na Conferência de] Basileia que consideravam a futura guerra europeia como uma empresa 'criminosa' e reaccionaríssima de todos os governos, que devia acelerar a derrocada do capitalismo, gerando inevitavelmente a revolução contra ele. Começou a guerra, começou a crise. Em vez da táctica revolucionária, a maioria dos partidos sociais-democratas aplicaram uma táctica reaccionária, colocando-se ao lado dos seus governos e da sua burguesia. Esta traição ao socialismo significa a falência da II Internacional» (4). Analisando as causas dessa traição, Lénine fala nos «super-lucros» resultantes da exploração imperialista e dos seus efeitos entre uma pequena camada de beneficiários. «As condições objectivas de fins do Século XIX reforçavam particularmente o oportunismo, transformando a utilização da legalidade burguesa em servilismo para com ela, criando a pequena camada da burocracia e da aristocracia da classe operária [...]. A guerra acelerou o desenvolvimento, transformando o oportunismo em social-chauvinismo, transformando a aliança secreta dos oportunistas com a burguesia numa aliança aberta».  As origens do movimento comunista internacional residem na ruptura com quem defendeu as  burguesias do seu país na guerra que chacinou milhões de trabalhadores. A fidelidade dos bolcheviques à «táctica revolucionária» e o seu acerto na avaliação das condições objectivas da Rússia, conduziram, ainda em plena guerra, à Revolução Socialista de Outubro, nove meses após o derrube do czarismo. Os trabalhadores e o povo, vítimas primeiras da guerra imperialista, tomavam nas mãos o seu destino, num acto histórico que haveria de reorientar o curso da Humanidade e marcar todo o século XX.

O rescaldo da I Guerra Mundial

Em Novembro de 1918, com uma situação militar e económica cada vez mais difícil e os marinheiros em revolta, os trabalhadores alemães desencadeiam uma revolução que derruba o Kaiser, instaura a República e põe termo à guerra. Nos meses seguintes, e sob a inspiração da Revolução de Outubro, geram-se situações pré-revolucionárias em vários países (Alemanha, Hungria, Itália), que são reprimidas de forma violenta. As burguesias europeias vivem no pavor de desenlaces revolucionários. Em 1922, em Itália, a reacção das classes dirigentes ao ascenso da luta de massas traduz-se numa nova forma de poder de classe, com a violência extrema de esquadrões de assalto, o anti-comunismo feroz, o ataque impiedoso ao movimento popular e à própria democracia burguesa. O fascismo de Mussolini, manipulando os receios da pequena burguesia arruinada pela guerra, a frustração dos soldados desmobilizados e jogando com anseios de «ordem» e de «resgate da Nação», canaliza a revolta de largos sectores, não contra as verdadeiras causas dos seus problemas, mas contra as suas vítimas. As teorizações dos nossos dias, que pretendem descobrir paralelos entre fascismo e comunismo, baseiam-se na mais grosseira falsificação da verdade histórica. Não apenas os comunistas e o movimento operário foram, desde a primeira hora, os principais alvos e vítimas do terror fascista, como o fascismo mussoliniano serviu de inspiração às burguesias da generalidade dos países europeus. A título de exemplo, registem-se as palavras de Winston Churchill, o mais importante dirigente da burguesia inglesa no século XX, após uma visita à Itália fascista em 1927: «Este país dá uma imagem de disciplina, ordem, boa vontade, rostos sorridentes»; «se fosse italiano, estou certo que teria estado de todo o coração convosco, desde a primeira hora, na vossa luta triunfante contra as paixões e apetites animalescos do Leninismo» (5).

Nos anos seguintes a praga fascista alastra por vários países, entre os quais Portugal, e ganha novo apoio entre as classes dirigentes sobretudo após a eclosão da grande crise do capitalismo, em 1929. E é na Alemanha, derrotada na I Guerra Mundial e humilhada pelo Tratado de Versalhes, que o ascenso do fascismo viria a ter um impacto terrível.

De Versalhes a Hitler

O receio de revoluções operárias não impediu que após a guerra as rivalidades inter-imperialistas continuassem a ter um papel de primeiro plano na política das grandes potências. O Tratado de Versalhes, imposto à Alemanha após a sua derrota, retirou-lhe as suas (poucas) colónias, amputou-lhe partes do seu território europeu, e impôs o pagamento de somas gigantescas como compensação pelos prejuízos de guerra. Nas palavras do Embaixador soviético no Reino Unido (1932-43), Ivan Maiski, o Tratado de Versalhes visava garantir «três coisas: (i) o domínio incondicional na Europa da coligação vitoriosa anglo-franco-americana (o grupo dirigente do imperialismo estado-unidense já então aspirava à dominação mundial, mas ainda não tinha decidido colocar abertamente a questão); (ii) a subordinação incondicional da Alemanha derrotada à coligação anglo-franco-alemã; (iii) a situação de inferioridade da Rússia revolucionária até ao momento em que o nosso país, como garantiam sem qualquer dúvida os dirigentes da coligação, se desfizesse sob os golpes militares e económicos da Aliança e fosse obrigado a regressar ao seio do capitalismo» (6). As reparações de guerra impostas à Alemanha tiveram um papel central na hiperinflação que varreu o país entre 1921 e 1923 e arruinou largos sectores da população. Mas para a grande finança das potências imperialistas a década de 1920 foi um maná. Segundo o professor em História Económica de Cambridge, Adam Tooze, «o carrossel com que os alemães pediam dinheiro emprestado aos americanos para pagar aos britânicos e franceses, que por sua vez pagavam aos americanos [pelas dívidas contraídas junto dos EUA durante a guerra] suscitava ansiedade em toda a parte. Mas alcançava o seu objectivo» (7). Os níveis incomportáveis de endividamento resultantes deste «carrossel» estiveram na base da derrocada do sistema financeiro alemão em 1931 (8), facto que agravou qualitativamente a grande crise mundial do capitalismo iniciada com o crash de Wall Street em 1929.

A crise permanente do capitalismo alemão em 1914-33, e a incapacidade de a utrapassar no quadro da República de Weimar (que os sectores mais reaccionários das classes dominantes sempre encararam com suspeita), foi o factor decisivo do ascenso da mais violenta e terrível forma de dominação de classe jamais gerada pelo capitalismo: o nazismo hitleriano. Os comunistas (que nas eleições de Novembro de 1932, tiveram quase 6 milhões de votos – 16,9% –  e elegeram 100 deputados) e o movimento operário foram as primeiras e principais vítimas do nazismo, enquanto que parte importante da burguesia pseudo-liberal, que hoje procura falsificar a História, foi conivente e cúmplice com a ascensão de Hitler. Logo após ser nomeado Primeiro Ministro em 30 de Janeiro de 1933 (sem maioria parlamentar e após ter perdido 2 milhões de votos nas eleições) Hitler organizou o incêndio do Parlamento (Reichstag), que atribuiu aos comunistas e que serviu de pretexto para desencadear a primeira vaga de repressão: «Cerca de 4 mil dirigentes comunistas e muitos social-democratas e liberais foram presos, incluindo deputados ao Reichstag que, por lei, gozavam de imunidade. [...] Camiões repletos de tropas de choque percorreram as ruas da Alemanha, arrombando casas, arrebanhando as suas vítimas que eram levadas para os quartéis das SA onde foram torturados e espancados. A imprensa e os actos públicos dos comunistas foram suprimidas» (9). A ascensão do nazismo foi apoiada pelo grande capital alemão. O magnata da metalurgia, Thyssen, já financiava o Partido Nazi desde 1923 (10). O insuspeito Prof. Tooze escreve: «Aquilo que Hitler e o seu governo prometiam era pôr fim à democracia parlamentar e destruir a esquerda alemã, e a maioria do grande capital alemão estava disposta a dar uma contribuição substancial para estes fins. [...] E o resultado líquido, no fim de 1934, foi precisamente o visado: uma desmobilização popular global. [...] O movimento sindical foi destruído. [...] com a conjugação do congelamento salarial de 1933, a destruição dos sindicatos e uma atitude altamente permissiva em relação aos cartéis dos negócios, [...] as perspectivas de lucro eram seguramente muito favoráveis» (11).

Inspirando-se directamente no modelo mussoliniano, Hitler junta-lhe uma característica específica: o racismo anti-semita, que permitia aliar a demagogia pretensamente anti-capitalista (identificando os judeus com o sistema financeiro internacional que arruinara a pequena e média burguesia alemã) e o anti-comunismo (através da tese do «complot judaico-bolchevique» para arruinar a Alemanha). Também aqui, e ao contrário do que se pretende fazer crer hoje, o hitlerismo mostrava as suas afinidades com as classes dominantes europeias, onde o anti-semitismo era moeda corrente. O caso Dreyfus em França (12) foi apenas um episódio ilustrativo de concepções a que Churchill também deu voz: «Churchill enfatizou aquilo que considerava ser a natureza judaica do Bolchevismo. Em privado, descreveu o governo soviético ao Ministro dos Negócios Estrangeiros Curzon como “um governo tirânico de Comissários judeus” e mesmo em público apelidou-o de “estado comunista mundial sob domínio judaico”. Num discurso público em Sunderland, em 1920, falou do “Soviete internacional do judeu russo e polaco”. Em Abril de 1922 escreveu uma carta [...] descrevendo os bolcheviques como “esses conspiradores Semitas”» (13).

A ascensão de Hitler foi vista com agrado por boa parte das burguesias europeias. O capitalismo vivia então uma crise sem precedentes, no decurso da qual a produção industrial planetária caiu quase 40%, as bolsas 70% e o volume do comércio mundial cerca de 30%. O desemprego afectava milhões de trabalhadores e a crise económica era acompanhada por crises políticas. A sobrevivência do capitalismo era posta em dúvida, mesmo pelos seus defensores (14). Em paralelo, a jovem União Soviética socialista conhecia taxas de crescimento económico impressionantes com os planos quinquenais e as conquistas sociais (emprego, educação, saúde, cultura). O contraste com o capitalismo em crise era evidente e cheio de significado político. Os ideais de transformação social revolucionária ganhavam terreno. A grande burguesia vivia um novo período de medo. Como afirma o jornalista americano William Shirer, que foi correspondente na Europa, «lembro-me que foi por esta altura que comecei a ouvir nos círculos da classe alta em Paris um comentário que se viria a tornar quase num cântico: “antes Hitler que [Leon] Blum”» (15).

Para a grande burguesia das potências imperialistas, o ascenso do nazismo representava não apenas uma solução de força para salvar o capitalismo alemão, mas também uma arma para destruir pela força a primeira experiência mundial de construção do socialismo, em curso na URSS. Os planos de expansão territorial e colonização do Leste europeu pela Alemanha eram claramente assumidos no livro de Hitler, Mein Kampf. Discursando sobre as suas teorias de «espaço vital» (Lebensraum), Hitler criticava os seus antecessores que criaram um Império alemão em África. «A conquista de novos territórios, prosseguia Hitler, [...] “apenas é possível a Leste .... Se pretendemos territórios na Europa, eles só podem obter-se essencialmente à custa da Rússia”» (16). A «corrida para leste» (Drang nach Osten) teorizada pelo nazismo representava uma saída para as rivalidades inter-imperialistas e uma «solução para o problema russo» (17) que agradava a largos sectores da grande burguesia mundial. E isso explica a vergonhosa colaboração de classe com o ascenso do nazismo, hoje negada por uma burguesia que pretende re-escrever a sua história.

De Madrid a Munique

A Guerra Civil de Espanha evidenciou o colaboracionismo filo-fascista. Em 1936 a Frente Popular ganhou as eleições. Esta aliança da esquerda republicana burguesa com o Partido Socialista e um Partido Comunista ainda pouco influente foi visto como uma ameaça pela reacção espanhola, onde os latifundiários e a Igreja Católica tinham grande peso. Em Julho de 1936 o General Franco lança um golpe de Estado. Apesar do apoio duma parte muito considerável das forças armadas, o golpe é derrotado nas principais cidades pela resistência das massas. Mas as «democracias», com destaque para a Inglaterra, a França e os EUA, proclamam a sua «neutralidade» entre um governo legitimado pela Constituição e o voto, e os golpistas fascistas. A política de «Não Intervenção» é um golpe mortal na República democrática, em grande medida desarmada pela traição dos militares. Graças ao grande apoio de massas, a República resiste durante três anos heróicos, nos quais o Partido Comunista de Espanha se torna um grande partido nacional. Mas a situação militar é desequilibrada de forma decisiva pelos 130 mil soldados  enviados pelas potências fascistas (18) para combater ao lado de Franco, enquanto o Comité de Não Intervenção criado pelos anglo-franceses impede à República de comprar armas no estrangeiro. Churchill dá de novo voz a largos sectores da burguesia europeia quando escreve em 1936 que o governo republicano «estava nas garras de forças obscuras e violentas que cada vez mais surgem a descoberto e agem através do assassinato, da pilhagem e dos distúrbios sindicais», representando «um proletariado miserável e atrasado que exige o derrube da Igreja, do Estado e da propriedade e a instauração de um regime comunista», enquanto do lado fascista estavam «forças patrióticas, religiosas e burguesas, sob o comando das forças armadas [...] que marcham para restabelecer a ordem através da instauração duma ditadura militar» (19). Foi ainda Churchill que, em Julho de 1937, discursando no Parlamento britânico, pediu o reconhecimento dos franquistas como governo legítimo de Espanha (20). O colaboracionismo anglo-francês com as agressões fascistas evidenciou-se na invasão da Etiópia pela Itália, em 1935, prosseguiu com a anexação da Áustria (o Anschluss de Fevereiro de 1938) e atingiu o seu apogeu com a vergonha do Tratado de Munique. Em finais de Setembro de 1938, os Primeiros Ministros de França e Inglaterra reúnem-se com Hitler e Mussolini para entregar à Alemanha importantes parcelas de território da Checoslováquia. Deixando os legítimos representantes checos à porta da reunião, Chamberlain e Daladier aprovam o desmembramento do país, apesar do Tratado com que a França se comprometia a defender a Checoslováquia em caso de agressão. À vergonha da capitulação, segue-se a humilhação de ver Hitler rasgar, no espaço de poucas semanas, os próprios termos do acordo, anexando o resto do território checo em Março de 1939. 

A guerra e a derrota do nazi-fascismo

A política de colaboracionismo reforçou o monstro nazi e tornou a guerra inevitável. Ao incentivar o expansionismo alemão, as classes dirigentes das restantes potências imperialistas condenaram-se a si próprias a serem vítimas do militarismo nazi. Nalguns aspectos, a II Guerra Mundial foi um prolongamento I Grande Guerra. O nazismo, ditadura terrorista do grande capital alemão, não esqueceu as lições da História e a forma como a Alemanha fora tratada pelos seus «irmãos de classe» em 1918. Compreendendo que as democracias burguesas ocidentais, e em particular a França, estavam profundamente corroídas pelo colaboracionismo, Hitler decidiu lançar-se na guerra a Ocidente antes de empreender o seu objectivo estratégico de ataque à URSS, a fim de evitar o perigo que havia condenado a Alemanha à derrota em 1918: ter de combater simultaneamente em duas frentes. A burguesia francesa levou a cegueira até às ùltimas consequências. Perante a agressão nazi, em Junho de 1940, capitulou em poucas semanas, tendo boa parte da sua classe dirigente ficado à frente do regime fantoche e colaboracionista de Vichy, chefiado pelo Marechal Pétain. A combatividade da classe dirigente francesa apenas se evidenciou na luta contra o Partido Comunista Francês, que foi proibido e perseguido a partir de Setembro de 1939 (21). Mas foram os comunistas que, nas dificílimas condições de então, ergueram a bandeira da resistência e forjaram uma guerrilha popular que contribuiu de forma notável para a posterior derrota do nazi-fascismo. À grande burguesia inglesa não restou outra opção senão reorientar (através de Churchill) toda a sua política.

É ridículo afirmar que o Tratado de Não-agressão assinado entre a URSS e a Alemanha em Agosto de 1939 tenha sido a causa da guerra, fazendo tábua rasa da natureza do regime nazi, do colaboracionismo das potências capitalistas e do seu encorajamento activo ao expansionismo alemão a Leste. Até à última, os dirigentes soviéticos fizeram repetidas e insistentes tentativas para assinar, com a Inglaterra, França e outras potências europeias, tratados de defesa mútua ou garantias a outros países cobiçados pelo nazi-fascismo (22). Foi a recusa desta colaboração e a cegueira anti-comunista e filo-fascista de círculos importantes das classes dirigentes europeias  que conduziram à guerra. Um destacado historiador militar francês, gaullista, escreve: «Não é correcto, como fizeram mais tarde os países ocidentais, invocar qualquer semelhança entre a URSS e a Alemanha para ver nisso o verdadeiro fundamento do pacto germano-soviético. A hostilidade feroz para com o comunismo e a vontade de o destruir sob todas as suas formas, estavam na própria raíz dos movimentos fascistas. Hitler sempre tinha apresentado o nacional-socialismo como instrumento de morte contra o bolchevismo. [...] Foi o Partido Comunista Alemão que ele proibiu e esmagou em primeiro lugar [...] Mas eram os dados estratégicos que deviam decidir a opção feita em Moscovo e que, no fim de contas, prevaleceram acima de tudo» (23).  A URSS assina o Tratado para evitar ficar na mesma situação que a República Espanhola. Tal como os comunistas foram as primeiras e principais vítimas do fascismo em toda a parte, foram também os comunistas que deram a contribuição principal e decisiva para a derrota do nazi-fascismo, sobretudo através do Exército Vermelho e da URSS, que enfrentaram e derrotaram o grosso do poderio militar nazi. Quando no Inverno de 1941 as tropas alemãs chegam às portas de Moscovo, a quase totalidade da Europa estava sob o domínio do fascismo e seus aliados. As batalhas decisivas da II Guerra Mundial, que alteraram o rumo dos acontecimentos, foram (pese embora Hollywood, os discursos de Obama e a mitologia negacionista dos nossos dias) travadas em solo soviético em 1941-3. Foi em Moscovo, em Estalinegrado, na resistência heróica durante o cerco de Leninegrado, em Kursk e em tantos outros locais que, à custa de terríveis sacrifícios e perdas humanas e materiais, o povo e os comunistas soviéticos derrotaram a máquina de guerra alemã. Quando as tropas anglo-americanas desembarcam na Normandia, em Junho de 1944, já o Exército Vermelho havia libertado a quase totalidade do território soviético e combatia pela libertação dos países limítrofes. E nos países ocupados, em Itália, na Grécia, em França, na Jugoslávia, na China, e em tantos outros, foram os comunistas os primeiros e principais actores da resistência armada que assegurou a derrota final da mais terrível expressão da dominação capitalista.

Quando hoje se reescreve a História, reabilitando o fascismo, ocultando o papel decisivo dos comunistas na sua derrota, ou chegando ao vergonhoso extremo de tentar equiparar comunismo e fascismo (como fez recentemente o Parlamento Europeu), não se está apenas a cometer uma tremenda injustiça e falsificação histórica. Está-se também a abrir as portas para que, de novo, um capitalismo em profunda crise e gerador de miséria, guerra e exploração, possa recorrer a soluções de força e violência extremas para tentar salvar o seu domínio. A defesa da verdade histórica é, por isso mesmo, parte integrante das lutas que é hoje necessário travar.

Notas:

(1) V. I. Lénine, «O Imperialismo, fase superior do capitalismo», Obras Escolhidas em Seis Tomos, Tomo 2, p. 293,  ed. «Avante!», 1984.

(2) Churchill, na sua história da I Guerra Mundial («The World Crisis, 1911-1918», ed. A Four Square Book, 1964) considera que o factor decisivo para o conflito foi o facto da Alemanha pretender criar uma Marinha que ameaçava a supremacia naval mundial do Império Britânico.

(3) V. I. Lénine, op. cit., p. 377.

(4) V. I. Lénine, «O Socialismo e a Guerra», Obras Escolhidas em Seis Tomos, Tomo 2, ed. «Avante!», 1984.

(5) Clive Ponting, «Churchill», Ed. Sinclair-Stevenson, 1995, p. 350.

(6) Ivan Majskij, «Perché scoppiò la Seconda Guerra Mondiale?», Editori Riuniti, 1965, p. 33.

(7) Adam Tooze, «The wages of destruction – The making and breaking of the Nazi economy», Penguin Books, 2007.

(8) Adam Tooze, op. cit., p. 18 e seguintes.

(9) William L. Shirer, «The rise and fall of the Third Reich», Arrow Books, 1998, p. 194.

(10) Kurt Gossweiler, «Hitler, Ascensão irresistível?», ed. «Avante!», 2009, p. 13. Uma boa fonte para a história da ascensão de Hitler.

(11) Adam Tooze, op. cit. p. 102.

(12) Veja-se, por exemplo, William L. Shirer, «The collapse of the Third Republic», Pan Books, 1970, Capítulo 3.

(13) Clive Ponting, op. cit., p. 230.

(14) Num ensaio de 1932, «The World's Economic Outlook», o famoso economista britânico John Maynard Keynes perguntava: «Será possível evitar o colapso quase total da estrutura financeira do capitalismo moderno? [...] começamos a interrogarmo-nos e a duvidar». As mesmas dúvidas estão hoje na ordem do dia.

(15) William L. Shirer, «The collapse of the Third Republic», Pan Books, 1970, p. 359.

(16) William L. Shirer, «The rise and fall of the Third Reich», Arrow Books, 1998, p. 83.

(17) Expressão que o Primeiro Ministro inglês, Chamberlain, usou com Hitler durante a vergonhosa rendição de Munique (veja-se William L. Shirer, «The rise and fall of the Third Reich»,  op. cit., p. 419).

(18) Ivan Majskij, op. cit., p. 489.

(19) Clive Ponting, op. cit., p. 390.

(20) Clive Ponting, op. cit., p. 391.

(21) Charles Tillon «Les F. T. P.», Ed. 10/18, regista os números dessa repressão: «620 sindicatos [...] dissolvidos; [...] 2778 eleitos comunistas viram os seus mandatos revogados; a imprensa comunista foi suprimida; até 7 de Março de 1940, foram contabilizados 3440 prisões [...]; 26 deputados estavam presos e houve [várias] condenações à morte» de importantes dirigentes do PCF.

(22) A documentação dos arquivos de Estado relativos a essas negociações foi publicada pela URSS, e. g. «L'URSS dans la lutte pour la paix à la veille de la seconde guerra mondiale – Documents et matériaux», Editions du Progrès, 1976. Vejam-se também as já citadas memórias do Embaixador Maiski.

(23) Paul-Marie de la Gorce «1939-1945, Uma Guerra Desconhecida», Ed. Caminho, 2004, p. 48-51.