Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Lutas, Edição Nº 301 - Jul/Ago 2009

Marcha de 23 de Maio Protesto, confiança e luta

por Paulo Raimundo

O país confronta-se com uma brutal situação económica e social que se agrava com a crise do capitalismo e sua expressão internacional, mas que tem acima de tudo as suas razões fundas na política de direita que vimos combatendo há mais de 33 anos.

A realidade de quem trabalha e das populações é a do confronto diário com o desemprego, os baixos salários, o trabalho precário, as pensões de miséria, os preços altos dos bens essenciais, a dívida aos bancos, um país com milhares de pequenas empresas arruinadas.Um país da dura realidade da profunda injustiça na distribuição da riqueza criada por todos nós, e em que o avançar da crise é proporcional ao avanço no ataque aos trabalhadores – como salários em atraso, encerramentos fraudulentos, recurso aleatório ao lay-off e tentativas de congelamentos de salários. Ao mesmo tempo que se desenvolve a pior situação económica de há várias décadas, situação que levou a que no primeiro trimestre do ano perdessem os seus empregos cerca de 3000 trabalhadores por dia, assiste-se à obtenção de lucros pelos quatro maiores bancos do sistema financeiro português de qualquer coisa como 4,5 milhões de euros por dia.Esta é a política que opta por deixar mais de 200 mil desempregados, uma larga maioria jovens, sem direito ao subsídio de desemprego, ao mesmo tempo que dá de mão beijada 1800 mil milhões de euros em benefícios fiscais para as empresas no off shore da Madeira. Esta é a política que permitiu que milhares de famílias durante meses a fio tivessem a corda na garganta com o aumento das taxas de juro, enquanto o Estado injectava milhões e milhões de euros no BPN e no BPP. Esta é a política que convive bem com o facto de existirem cerca de 2 milhões de pobres, dos quais mais de 700 mil, embora trabalhando todos os dias, não auferem rendimentos suficientes para saírem dessa situação, e que permite, por exemplo, que a EDP apresente, em 2008, os seus maiores lucros de sempre.A crise do capitalismo apenas veio evidenciar a fragilidade económica e a degradação social provocada por 33 anos a fio de alternância entre PS e PSD, com ou sem CDS, sempre no mesmo rumo de injustiça e declínio nacional.O país está ainda mais desigual, mais injusto, mais dependente e menos democrático. Um país com menos produção, com aumento da dívida externa. Um pais que destrói os serviços públicos, o Serviço Nacional de Saúde, que ataca a Escola Pública, que fere a Segurança Social e reduz as pensões, que ataca sem precedentes os direitos dos trabalhadores. Um país com um agravamento dos défices estruturais na energia, na agricultura, na ciência e tecnologia e que, no plano social, enfrenta hoje uma das mais dramáticas situações.A esta ofensiva política e económica os trabalhadores, as populações e amplos sectores da sociedade têm respondido de forma empenhada com a resistência e com a luta.

Exigência da mudança

A elevação da consciência no que se refere à profunda injustiça social com que nos confrontamos diariamente tem alargado o legítimo e justo descontentamento, que toma a expressão em protestos que mobilizam largos sectores da sociedade e que tem levado para a rua milhares e milhares de trabalhadores. Protestos que deram corpo às mais impressionantes acções de massas realizadas nos últimos anos e que nos primeiros meses deste ano voltaram a assumir magníficas expressões de combatividade e de massas. A luta decisiva travada nas empresas e locais de trabalho, a magnífica jornada do 13 de Março promovida pela CGTP que trouxe para a rua cerca de 200 mil pessoas, a luta desenvolvida em mais de 90 escolas pelos estudantes do ensino secundário e as dezenas de iniciativas dinamizadas pelos estudantes do ensino superior no passado dia 24 de Março, a manifestação dos agricultores no dia 26 de Março, a combativa manifestação da juventude trabalhadora dinamizada pela interjovem/CGTP no dia 28 de Março, as jornadas desenvolvidas pelas forças de segurança, as lutas desenvolvidas por diversos e amplos sectores são exemplos recentes de uma grande resposta à ofensiva do Governo do PS e, acima de tudo, à sua política.Lutas recentes que, centrando-se em reivindicações específicas, tiveram como grande expressão política a exigência de mudança política e a necessidade de um novo rumo para o país. Expressão política da luta que teve continuidade nas amplas comemorações populares dos 35 anos do 25 de Abril e nas centenas iniciativas de celebração do 1.º de Maio.A actual situação do país, as políticas em curso que terão como consequência o aprofundamento negativo da situação e acima de tudo a luta de massas, têm contribuído para que cada vez seja mais larga a compreensão de que não há saída para o actual quadro político, económico e social sem uma ruptura com a política de direita e uma mudança de rumo na vida nacional. Ruptura e mudança que retomem os objectivos libertadores e as conquistas da Revolução de Abril vertidos na Constituição da República Portuguesa, que rompam com a subordinação do poder político ao poder económico e construam um tempo novo de progresso social, de justiça, democracia e liberdade.Numa altura em que os trabalhadores e as populações são todos os dias pressionados para optar por mais do mesmo, pelas mesmas políticas que estão na origem dos actuais problemas, então é hora de dizer basta!

A Marcha

Foi neste quadro de um país sem saída no quadro da actual política, foi perante a crescente e ampla exigência de ruptura e mudança na vida política nacional, que o PCP, no quadro da CDU, convocou para o passado dia 23 de Maio, em Lisboa, a Marcha «Protesto, Confiança e Luta, por uma nova política, uma vida melhor».Uma Marcha para levar mais longe a denúncia e o combate às injustiças, ao desemprego, à miséria e à corrupção e afirmar a possibilidade, necessidade e urgência da ruptura com a política de direita e a construção de uma nova política e de um novo governo para Portugal. Uma Marcha onde se expressaria de forma clara e inequívoca o descontentamento e a indignação que percorre o país e que, no seguimento das grandes acções de massas realizadas nos últimos anos, se assumiria como a grande expressão político-partidária e para onde queríamos que convergissem muitos dos que se sentiam atingidos, indignados e ofendidos com a actual situação do país.Uma acção de luta clara de oposição às opções do Governo e de afirmação clara de que basta de uma politica que está gasta e que está a levar o país à ruína.No dia 23 de Maio deu-se em Lisboa um acontecimento histórico: realizou-se a maior acção politica de cariz partidário alguma vez ocorrida nas ruas da capital. Uma grande acção de massas porque foram milhares os que quiseram marcar presença. Uma acção popular porque esteve presente povo de todo pais e de várias condições económicas e sociais, gente humilde, trabalhadora, gente que trouxe para esta jornada a sua forma de estar, a sua cultura e as suas tradições. Uma acção ligada à vida onde cada um dos presentes encontrou a forma de afirmar os problemas da sua empresa, da sua escola, da sua terra do seu sector de intervenção. Uma acção de proposta, porque a par da denúncia da real situação do país estiveram presentes as propostas e soluções para uma nova política. Uma jornada de confiança, onde esteve bem presente a disponibilidade para os exigentes desafios que temos pela frente.Ali estiveram mais de 85 mil pessoas que responderam ao apelo do PCP e da CDU e que quiseram e fizeram questão de vir a Lisboa protestar contra a actual situação do país, contra a política de direita em desenvolvimento, contra os responsáveis pela actual situação, por esses que conduzem os destinos do país há cerca de 33 anos.Foram 85 mil pessoas que vieram a Lisboa continuar uma luta que travam todos os dias no seu local de trabalho, escola, área de residência ou sector de intervenção, comunistas, verdes, outros democratas e milhares sem filiação partidária, homens, mulheres e jovens, de todo o país que acima de tudo vieram a Lisboa para reafirmar de forma clara que estão empenhados e disponíveis para aumentar, fazer crescer e desenvolver o movimento pela construção da ruptura política, pela luta por uma nova política e por uma vida melhor.A Marcha constituiu-se numa grandiosa, emotiva e acima de tudo combativa jornada de luta e de confiança de que não só é possível uma nova política e uma vida melhor, como ali estão os principais construtores da transformação dessa possibilidade em realidade.Com a prática que lhes conhecemos, os órgãos de comunicação e os comentadores de serviço, não podendo ignorar por completo a grandiosa realização que foi a Marcha, procuraram desvalorizá-la, ora passando a ideia de que juntar 85 mil pessoas é uma coisa simples para o PCP para quem basta estalar os dedos e já está, ora caracterizando a Marcha como mais uma iniciativa de campanha eleitoral, comparada a uma visita a uma feira ou coisa do tipo.O capital mais uma vez defende os seus interesses, eles sabem tal como nós o real significado da Marcha, eles sabem o que sentiram aqueles que nela participaram e o impacto positivo que teve para largos milhares que, não podendo estar presentes em Lisboa, estavam atentos à sua realização. Numa altura em que as forças ao serviço do capital nos empurram para o conformismo, para o desânimo e para o sentimento de que não vale a pena, eles sabem o real significado que tem o facto de largos milhares de pessoas, respondendo ao apelo do PCP e da CDU, virem para a rua afirmar que estão ali não só  inconformadas com a situação do país, como acima de tudo estão ali alegres e confiantes e que não baixarão os braços, pelo contrário, saiem da Marcha com forças redobradas para continuar a luta.O capital sabe bem o que representou a Marcha, daí as curtas referências, a desvalorização e o seu total desaparecimento dos órgãos de comunicação social. 

Nova política, uma vida melhor!

Afirmámos aquando da convocação pública da Marcha que esta não ignorava o ciclo eleitoral que tínhamos pela frente, e em particular, pela proximidade, as eleições europeias, mas que a Marcha e seus objectivos estavam para lá das eleições.A Marcha foi também a afirmação de que a alternativa política passa pelo reforço do PCP e da CDU. O magnífico resultado obtido pela CDU nas eleições europeias contribui para o reforço da construção da alternativa, conquistámos com trabalho cada voto que a CDU obteve, mas também podemos afirmar que em potência conquistámos cada um que em nós votou para esta profunda e exigente tarefa.A par da continuação da luta, os actos eleitorais que temos pela frente podem também eles contribuir para continuar a reforçar e alargar o movimento pela necessária e urgente ruptura e mudança de rumo e de política.A Marcha foi uma grandiosa realização pela dinâmica criada nas organizações do Partido e da JCP em torno da preparação, afirmação, divulgação e mobilização de largos milhares para nela participarem. Foi uma grande realização pelo impacto do momento, mas acima de tudo pelo significado que assume na nossa intervenção no presente e futuro. A nossa responsabilidade depois da Marcha é maior, logo deve ser ainda maior o nosso empenho na dinamização da luta, nas batalhas eleitorais, no alargamento e reforço do Partido e na da construção da alternativa.Como afirmou o Secretário-Geral do Partido, o camarada Jerónimo de Sousa, «a decisão de convocar esta Marcha é muito audaciosa. Exige uma grande confiança nas forças de que dispomos, mas exige ainda mais uma grande confiança no nosso povo. Nós temos razões para ter essa confiança.  Ontem na resistência antifascista, hoje na luta contra a política de direita, sempre na luta contra a exploração e as injustiças, é no PCP que os trabalhadores e o povo procuram apoio, ânimo e organização.»O dia da Marcha, assim como os bons resultados nas europeias, por si só não resolveram os profundos problemas dos trabalhadores, das populações e do país. Ai está a dura realidade a exigir de nós que, reforçados com a Marcha e em melhores condições depois das europeias, continuemos com confiança redobrada o protesto e a luta por uma nova política e uma vida melhor.