Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Efeméride, Edição Nº 303 - Nov/Dez 2009

Manuel Guedes e Alberto Araújo - Exemplos de coragem e abnegação

por Gustavo Carneiro

O Partido Comunista Português não seria o grande partido que é hoje se não tivesse contado nas suas fileiras com sucessivas gerações de dirigentes e militantes que lhe consagraram o melhor das suas capacidades e energias, pagando por isso, muitos deles, com a liberdade e a própria vida. Manuel Guedes e Alberto Araújo são, sem dúvida, dois desses comunistas aos quais o Partido e o povo português tanto devem e cuja memória O Militante evoca no centenário do seu nascimento.Nascidos em Dezembro de 1909, com origens e percursos muito diferentes, Manuel Guedes e Alberto Araújo aderiram ao PCP nos primeiros anos da sombria década de 30 – os anos do avanço e consolidação do fascismo, em Portugal como um pouco por toda a Europa.

Nesses anos, o Partido procurava reconstruir-se após o golpe militar de 28 de Maio de 1926, que não só interrompera os trabalhos do seu II Congresso como praticamente a sua própria existência durante quase três anos. Em Abril de 1929, uma conferência do Partido (que designa Bento Gonçalves Secretário-geral), decide fazer o que nenhum outro partido ousou: reorganizar-se para resistir na clandestinidade.

Partindo de uma base de 40 militantes, com fraca experiência de luta clandestina, o Partido ganha novo fôlego: estalam lutas operárias; importantes sindicatos são reorganizados; criam-se várias organizações partidárias e unitárias; em 1931, sai pela primeira vez o Avante!. Em meados da década, o Partido conta já com 400 militantes e uma considerável influência junto da classe operária.

Mas o fascismo estava atento a este crescimento e concentra sobre o Partido as suas forças repressivas, reorganizadas com apoio dos nazis alemães. A direcção do PCP sofre sérias baixas. Em finais de 1935, o Secretariado cai nas mãos da polícia. Um rude golpe que leva a sucessivas alterações na composição dos órgãos dirigentes, com consequências graves na intervenção do Partido.

Aqueles que assumem a direcção partidária e muitos outros militantes dão provas de abnegação e coragem sem limites. Apesar das dificuldades, travam-se importantes lutas e o trabalho do Partido conhece assinaláveis êxitos, mas não se encontrava ainda capaz de resistir à perseguição e à repressão. Foi só com a reorganização de 1940/41 que o PCP se transformaria, definitivamente, no grande partido nacional da resistência antifascista. Todos os esforços desenvolvidos na década de 30 não foram em vão. Foram, antes, sementes deitadas à terra.





Da ORA à reorganização



Órfão de pai e mãe, Manuel Guedes foi internado no Asilo Maria Pia com apenas oito anos onde permaneceu quase uma década, até se alistar como voluntário na Marinha.

O golpe de 28 de Maio ocorrera pouco tempo antes e Manuel Guedes assistiu de perto à fascização das Forças Armadas, às primeiras revoltas contra a ditadura, às perseguições aos militares antifascistas e tomou contacto com as correntes republicanas e antifascistas que tinham ainda na Armada uma forte presença.

Terá mesmo sido toda esta vivência que o levaria a aderir ao PCP em Agosto de 1931. Pouco depois, era já um dos principais dinamizadores da criação da Organização Revolucionária da Armada (ORA), que, até à revolta dos marinheiros de Setembro de 1936, manteve uma intensa actividade de agitação e propaganda. O jornal da ORA, O Marinheiro Vermelho, do qual Manuel Guedes foi um dos redactores, chegou a editar 1500 exemplares.

Em Julho de 1933 é preso pela primeira vez. Julgado pelo Tribunal Militar Especial, foi condenado a 18 meses de prisão. Cumprida a pena, foi libertado em Janeiro de 1935 e imediatamente expulso da Armada.

É então que é chamado à Comissão Central de Organização, onde ficaria pouco tempo, pois seria novamente preso em Abril. Numa das deslocações ao Tribunal, aproveitou uma oportunidade e evadiu-se. É então encarregado pelo Partido de tarefas em Espanha, mas ao entrar no país vizinho, juntamente com Joaquim Pires Jorge, é detido por falta de documentação e posse de arma. Presos em Cáceres, assistem à tomada da cidade pelos fascistas de Franco, que os condenam a 28 meses e um dia de prisão.

Encarcerado durante mais de dois anos na cidade espanhola, em difíceis condições, Manuel Guedes assiste aos inúmeros crimes dos fascistas de Franco. Cumprida a pena, é entregue em Portugal à Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) em Novembro de 1938 e fica preso até Julho de 1940.

Mal se encontrou em liberdade, Manuel Guedes voltou à luta clandestina. Participante destacado da reorganização do Partido de 1940/41, passou a integrar o Secretariado, juntamente com Álvaro Cunhal e José Gregório.

É ele que apresenta, no III Congresso do Partido (I ilegal), em Novembro de 1943, sob o pseudónimo Santos, o relatório sobre as Tarefas de Organização, onde afirma que «hoje podemos constatar que o nosso Partido se tornou um Partido nacional pela sua organização e pela influência crescente das nossas organizações entre as massas». No relatório informa que o Partido contava então com «uma centena de organizações locais e regionais e, nos grandes centros, com umas dezenas de células de empresa».

No IV Congresso do PCP, realizado em 1946, onde seriam definidas as linhas fundamentais do caminho para o derrubamento do fascismo e os princípios orgânicos do centralismo democrático, Manuel Guedes é novamente eleito para o Comité Central e permanece no Secretariado até 1951. Ao longo de toda a década, acompanha e dirige poderosas lutas de massas, entre as quais as greves de 1942 e 1943 e as batalhas eleitorais de 1945 e 1949.

Preso novamente em Maio de 1952, Manuel Guedes é condenado a quatro anos de prisão, mas as medidas de segurança fazem com que permaneça 13 anos encarcerado, só sendo libertado em Março de 1965.

Depois do 25 de Abril, é reintegrado na Marinha e exerceu a profissão de revisor tipográfico. Continuando a militar no PCP, acabaria por falecer em Março de 1983 – tinha 73 anos, 20 dos quais passados na prisão.





Resistir nos tempos sombrios



Diferente, mas com a mesma entrega ao seu Partido, foi o percurso de Alberto Araújo. Nascido em Almada numa família da pequena burguesia, começou a sentir desde muito cedo os primeiros problemas de saúde, que o levariam ao internamento no sanatório da Guarda por dois anos. Ao mesmo tempo, revelava um grande amor pelo estudo que o levaria a ser admirado por iminentes intelectuais da sua época.

Depois de se licenciar em Filologia Clássica e Estudos Camonianos, torna-se professor do Liceu, ensinando em Castelo Branco e em Lisboa. Nesta altura, era já militante comunista e os seus conhecimentos do marxismo-leninismo tinham-no levado a uma colaboração próxima com Bento Gonçalves.

Com a prisão do Secretário-geral e dos restantes membros do Secretariado, em finais de 1935, Alberto Araújo é chamado às mais altas responsabilidades do Partido. Em Abril de 1936, numa reunião dos quadros mais responsáveis, é eleito um novo Secretariado, do qual passa a fazer parte juntamente com Manuel Rodrigues da Silva e Francisco Paula de Oliveira (Pável), que se encontrava no exterior do País.

Mantendo uma actividade legal como professor do liceu, Alberto Araújo chega mesmo a ser – durante alguns meses – o único membro do Secretariado a trabalhar em Portugal. É nesta altura que o Avante! volta a editar-se com regularidade. Alberto Araújo é então o responsável e redactor principal do jornal.

Em 22 de Janeiro de 1937, Alberto Araújo é preso, na sequência de duas viagens ao estrangeiro. Espancado e mantido incomunicável durante 11 meses, foi transferido para Caxias em Outubro de 1938. Em Abril do ano seguinte, é finalmente julgado: condenado a 24 meses de prisão, é mandado para o Tarrafal em Junho, quando lhe faltavam apenas cumprir pouco mais de cem dias de pena.

No «Campo da Morte Lenta», Alberto Araújo sofreu as maiores privações e violências. A sua saúde, que era já frágil, agravou-se fruto dos trabalhos forçados e dos castigos de que foi alvo. Numa ocasião, passou vinte dias na «Frigideira», de onde saiu directamente para a enfermaria. Por mais duas vezes sofreu esse pesado castigo. Em várias outras, fez todos os trabalhos pesados que a sua saúde não permitia que fizesse…

Apesar de todas as violências, Alberto Araújo ainda encontrou forças para ajudar a elevar o nível cultural e político dos seus camaradas presos, dando aulas de português e francês.

Libertado em 1946, na sequência da amnistia que o fascismo português foi forçado a conceder na sequência da derrota do nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial, Alberto Araújo regressa à sua terra natal, com a saúde totalmente arrasada. Impedido, por essa razão, de retomar uma intensa actividade política, manteve intocáveis os seus ideais e o seu amor ao Partido. Foi então que abriu uma escola de português na colectividade popular Incrível Almadense e participou em inúmeras actividades culturais, recreativas e políticas.

No dia 19 de Março de 1955, Alberto Araújo morreu no Hospital de São José, em Lisboa. No funeral, o povo de Almada perdeu o medo e despediu-se deste destacado lutador antifascista, que nem a frágil saúde impedira de lutar contra o fascismo, por um futuro melhor.