Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Tema, Edição Nº 303 - Nov/Dez 2009

Media, pluralismo e consciência social

por Fernando Correia

Os ideólogos dos media alinhados com o sistema capitalista assim como os donos e os gestores dos próprios media dominantes(1) gostam de dizer que na sua comunicação social existe diversidade política e ideológica , todas as sensibilidades e correntes de opinião têm oportunidade para se exprimir e, em suma, existe um verdadeiro pluralismo. Esta afirmação é recorrentemente corroborada pelos dirigentes dos partidos ao serviço do sistema, quer sejam dele convictos defensores quer se «limitem» a ser seus solícitos gestores. Só deixa de ser assim, pontualmente, quando um desses partidos está na «oposição» e encontra motivos para se queixar dos «abusos» e «interferências» na comunicação social dos que estão no poder – sendo que, quando a alternância os faz trocar de posição, a mesma cena inevitavelmente se repete…

O mesmo se passa dentro dos próprios media dominantes, onde a maioria da elite jornalística, composta por directores e outros responsáveis editoriais, funciona como charneira entre as administrações e as salas de redacção e como responsável directa pela transformação dos interesses patronais em «produtos» jornalísticos. Mesmo que, neste ou naquele caso individual, o faça de forma contrariada e mesmo tente ser o mais fiel possível aos bons princípios do profissionalismo jornalístico.



O pluralismo, aqui e agora



O pluralismo não pode ser visto apenas no estrito plano político-partidário, tornando-se necessária uma visão mais ampla que, por um lado,  na elaboração da agenda e nos enquadramentos informativos tenha  em conta o plano social na sua plenitude e, por outro lado, penetre nos mecanismos de produção da informação e abranja a natureza e a aplicação dos «critérios jornalísticos».

Há monolitismo, e não pluralismo, quando se fala dos sindicatos apenas quando há greves e outras manifestações de conflitualidade social, ignorando a sua quotidiana e multifacetada actividade de apoio e defesa dos associados e familiares; quando se esquecem instituições como as colectividades de cultura e recreio, e outras do movimento associativo e mutualista, várias centenas por todo o país envolvendo centenas de milhares de activistas e participantes em múltiplas actividades culturais, desportivas, de solidariedade, etc.; quando as minorias étnicas, religiosas, sexuais e outras, só são integradas no tratamento da actualidade quando surgem situações insólitas ou problemáticas.

Há monolitismo, e não pluralismo, quando na selecção e na hierarquização da informação sistematicamente se valorizam uns e desvalorizam outros temas ou protagonistas; quando ao nível das programações se dá prioridade a tudo o que de algum modo se identifica com a ideologia neoliberal e com aquilo que são considerados os «valores ocidentais», isto é, das classes dominantes nos países capitalistas; quando o entretenimento se sobrepõe à informação e anula a formação; quando nos noticiários internacionais se recorre quase exclusivamente às grandes agências noticiosas (de texto e de imagem) dos países mais poderosos e se «informa» o público apenas com base nas notícias e comentários por elas seleccionados e produzidos; quando nos critérios jornalísticos se escolhem preferentemente os faits-divers, o que é espectacular e sensacional e se ignora ou subestima o que é socialmente importante e significativo.

Mas centremo-nos na visão mais corrente do pluralismo, a da representatividade político-partidária nos espaços de opinião e informativos. Visto por este prisma, o pluralismo tem-se traduzido, entre outros aspectos, por um lado, na clara predominância dos dois partidos do bloco central(2) e, por outro lado, em comparação com os outros partidos com representação parlamentar, na visível escassez/ausência de espaço e de tempo dedicados (nas notícias, nos debates, nas entrevistas, nos comentários, nas análises) ao PCP e à CDU nas suas actividades ao nível quer das instituições (Assembleia da República, autarquias, etc.) quer da acção de massas e de contacto com as populações quer das iniciatívas político-culturais (como é o caso escandaloso da Festa do Avante!(3) ). Esta é uma velha e conhecida realidade, tão evidente que dispensa exemplificações. Alguns dos próprios provedores dos leitores a ela se têm referido desde há muito.(4)

Diga-se entre parêntesis que o pluralismo é muitas vezes entendido pelas empresas como uma estratégia de negócio, expediente comercial para agradar ao máximo de gente possível, no sentido de cumprir o grande objectivo que é aumentar as audiências para assim angariar mais publicidade e ter mais lucros. Não se trata de assumir os espaços e os tempos dedicados ao PCP como uma forma de esclarecer, ajudar a compreender, enfim, informar o público sobre as posições, as propostas, as opiniões, no que elas tenham de substancial, importante ou interessante. Trata-se, sim, de cumprir um «ritual estratégico»(5) que «comprove» perante o público que todos são contemplados, ninguém é discriminado. Isto é, trata-se de um arremedo de pluralismo, uma máscara que se ostenta para ocultar fins puramente mercantis – mas que têm também consequências políticas e ideológicas.

A análise do pluralismo não se deve limitar, porém, a uma perspectiva contabilística em termos de espaço e de tempo. É certo que esta contabilidade é importante, nomeadamente se nos lembrarmos que é ela que sublinha um dos mais terríveis e eficazes mecanismos censórios de que, há décadas, o PCP tem sido vítima: o silenciamento. No entanto, a apreciação qualitativa das peças tem também que ser feita – o número das notícias é uma coisa, o seu conteúdo é outra.

Ora, quando, aprioristicamente, se tem uma concepção preconceituosa e fechada sobre um partido como o PCP  e  se faz uma abordagem das suas actividades, dos seus documentos, das declarações dos seus dirigentes,  não com a preocupação de procurar o que possa haver de significativo, de substancial e de novo, mas sim com a intenção de apenas encontrar o eco da tal ideia preconcebida – então, obviamente, o público acaba por ao longo dos anos adoptar como sua uma determinada imagem (falsa) dos comunistas. Com reflexos em vários planos, incluindo o das opções eleitorais.



Perversões e estereótipos



Na análise da forma como o PCP é noticiado nos media dominantes detectam-se frequentes perversões jornalísticas, nomeadamente o recurso a velhos estereótipos e a ausência de uma genuína preocupação em encontrar nele o que realmente é diferente e próprio da sua identidade e da sua natureza,  em muitos aspectos o distinguindo dos outros. Tais actuações por parte dos repórteres que se encontram no terreno podem dever-se – e sem excluir os casos de puro e irreprimível anticomunismo – a inexperiência, incompetência, desleixo, preconceitos, mas também à aceitação de que é preciso fazer as coisas do modo que se prevê que as chefias gostariam que elas fossem feitas… Sem esquecer que aquilo que surge perante o telespectador pode também resultar de uma selecção «subjectiva» dos responsáveis editoriais com base no trabalho «objectivo» realizado pelo repórter no terreno.

Um dos mais persistentes estereótipos é o de que o PCP é um partido de «velhos». Não há imagens ou fotos de uma iniciativa que não deixem de incluir pessoas de idade avançada, ao mesmo tempo que a presença de jovens é escondida. A obediência a esta linha de actuação prolonga-se na ostensiva discriminação das actividades da JCP, em flagrante desigualdade com o que acontece com as  juventudes partidárias do PS e do PSD. Tal discriminação é «ajudada» pelo facto de estas duas organizações se assumirem essencialmente como «réplicas» dos respectivos partidos, na medida em que em grande parte funcionam no terreno das disputas internas, da «politiquice» e da conflitualidade tão do agrado dos media, enquanto a JCP tem uma agenda própria dirigida para o contacto e a mobilização das massas juvenis.

Outro estereótipo consiste em amarrar os objectivos do PCP a uma pretensa defesa exclusiva dos operários, no sentido «clássico» do termo (ligado, inclusivamente, a sinais externos como o uso do fato-de-macaco), deliberadamente escondendo que essa defesa abrange, com igual veemência, desde os pequenos e médios agricultores, comerciantes e industriais até aos trabalhadores de serviços e aos sectores intelectuais em acelerado processo de proletarização – enfim, todos os sectores vítimas da exploração do grande capital, todas as camadas antimonopolistas.

É óbvio que estes estereótipos estão longe de ser inocentes, no sentido em que a sua aplicação pela maior parte dos responsáveis editoriais não resulta de ingenuidade e desconhecimento do nosso panorama sóciopolítico (como acontece com muitos jovens jornalistas há pouco tempo nas salas de redacção, das quais têm vindo a ser afastados, cirurgicamente, os profissionais  com memória...), mas sim de uma atitude conscientemente assumida. Por alguma razão, para além da eventual competência técnico-profissional, eles são mantidos pelos patrões nessas funções de responsabilidade, permitindo que a máquina de produção da informação funcione sem que sejam precisas ordens expressas vindas de cima... 

Sendo certo que nos períodos eleitorais é mais difícil praticar estes e outros tipos de discriminações, nem por isso elas deixam de estar presentes. Como sejam os casos do silenciamento e dos seus terríveis efeitos – quem não aparece na TV é como se não existisse – e da hierarquização da informação: que «critérios jornalísticos» podem justificar que na campanha para as legislativas, no alinhamento dos noticiários a informação sobre a CDU aparecesse quase sempre em último lugar, a seguir aos outros quatro partidos parlamentares, assim condicionando, mesmo que subconscientemente, a opinião das pessoas acerca do peso relativo dos diversos concorrentes? 



O caso dos comentadores «independentes»



O pluralismo é também uma fraude quando a nível dos comentadores da actualidade política e social – na imprensa, na rádio, na televisão –, na quase totalidade dos painéis (fixos ou com convidados), quer sejam formados por «politólogos» e «analistas» quer por jornalistas profissionais, a participação de comunistas ou mesmo de pessoas apenas próximas do PCP e da CDU é claramente inferior (na maioria dos casos é mesmo inexistente) à de todos os outros partidos – desde o BE ao CDS. Basta fazer a contabilidade no que se refere aos canais  generalistas e noticiosos de Rádio e TV, ao Expresso, Sol, Visão e Sábado, ao DN, JN e Público para facilmente se chegar a tal conclusão.

Mas, também neste caso, não importa apenas a quantidade, mas também a «qualidade». A «independência» dos comentadores não fica assegurada pelo facto de não serem publicamente conhecidos como apoiantes deste ou daquele partido – sendo que, em muitos casos, até o são. E fica inapelavelmente posta em causa quando se percebe que, nos seus argumentos, nas suas abordagens da realidade política, económica e social, eles se movem dentro das concepções e dos quadros mentais próprios das visões neoliberais e mais ou menos conservadoras, integradas ou não no âmbito da social-democracia; ou seja, no interior da substância ideológica que sustenta os partidos (e os seus aliados) que, em alternância, têm estado no poder em Portugal e, em geral, no «mundo ocidental».

Este conceito de «independência» falsifica irremediavelmente o espaço de opinião nos media e tem, ao longo dos anos, discriminado  sistematicamente o PCP e alimentado deturpações sobre o que ele é e defende. Por um lado, os comunistas são sempre «analisados» e «comentados» por quem está logo à partida contra eles, muitas vezes ostentando um declarado anticomunismo, outras vezes argumentando com base em preconceitos e no desconhecimento (ou não...) do que realmente defendem. Por outro lado, os outros partidos não são confrontados nem sujeitos ao «comentário» de  quem, como os comunistas, se situa fora dos seus parâmetros e princípios ideológicos, evitando assim a possibilidade de que a sua aparelhagem conceptual seja radicalmente posta em causa.



O pluralismo e os seus contextos



A questão do pluralismo não pode ser desligada da evolução recente dos media, caracterizada por um crescente predomínio  do factor económico traduzido na constituição de grandes grupos plurimedia (incluindo imprensa, rádio, televisão e Internet), na mercantilização da informação (é «boa» a notícia que «vende» bem) e suas consequências  na cultura e na prática jornalisticas, no reforço da concepção dos media como um elemento estruturante do domínio e do controlo social e uma arma fundamental na luta de classes.

O elevado grau  de concentração da propriedade a que hoje se chegou(6) faz com que a informação, o conhecimento e o entretenimento mediáticos sejam controlados por um pequeno núcleo de pessoas e entidades representantivos de uma camada social a que poderiamos chamar dos mais ricos entre os muito ricos.

Só o grande capital, e a política e os políticos que se lhe subordinam, podem ser protagonistas na concretização da «liberdade de expressão». Só o grande capital, e aqueles que nos media estão ao seu serviço (com ou sem carteira profissional de jornalista) têm poder para definir em que consiste e quais os limites do pluralismo. Não são os grandes patrões dos media que escrevem as notícias ou produzem os telejornais. Mas eles estão no topo da hierarquia que, de degrau em degrau, determina que na sala de redacção sejam estes e não aqueles a elaborar a agenda, a organizar as edições, a seleccionar a informação, a escolher os comentadores, etc. São eles que, mesmo sem ordens explícitas e quotidianas, ditam as «regras do jogo» e impõem o «consenso implícito» que, sem grandes sobressaltos, preside ao funcionamento dos media e à orientação das suas agendas.

Estamos, pois, perante uma realidade de classes com naturais consequências ao nível da expressão das várias correntes de opinião,   pelos seus efeitos  na lógica de funcionamento do sistema mediático em geral e do campo jornalístico em particular, e ainda, naturalmente, pelas suas consequências no plano da formação das opiniões e da consciência social. É a natureza de classe da propriedade dos media dominantes que nos fornece a chave para compreender a realidade da comunicação social e do seu lugar, papel e influência na nossa sociedade.

Uma nota final. A importância dos media na luta política e ideológica é fundamental, mas precisa de ser relativizada. Os media não são a única instância que condiciona a evolução dos actores sociais e da sociedade. O próprio facto de os resultados do PCP e da CDU (ainda que aquém do que seria de desejar e de prever) terem frontalmente contrariado os «prognósticos» e «sentenças» dos que há muito vaticinam o «desaparecimento» do PCP, mostra até que ponto as acções de organização e de mobilização, a intervenção junto e com os trabalhadores, a luta de massas, são decisivas na prática social, no combate político e ideológico e na própria formação da consciência social.

A luta pela democracia implica a luta pela democratização do sistema mediático. Ainda que saibamos que não serão os media a transformar a sociedade, mas será a sociedade que, um dia, transformará os media.



Notas

(1) Sobre a concepção de «media dominantes» ver Fernando Correia, Jornalismo, Grupos Económicos e Democracia, Caminho, 2006, nomeadamente pp. 91-92.

(2) Este facto é simbolizado pela escandalosa exclusividade de Marcelo Rebelo e Sousa e José Vitorino como «comentadores» fixos de política na RTP1, ainda por cima tratando-se de um canal público.

(3) Se fosse outro partido a fazê-lo, a quantas manchetes, notícias e comentários não teria direito, por exemplo,  um evento como a Gala de Ópera, que juntou dezenas de milhares de pessoas na abertura da Festa deste ano e que foi totalmente ignorado na chamada «grande imprensa»?

(4) Depois de analisados os factos que lhe tinham sido expostos por um leitor acerca do tratamento informativo do PCP no jornal Público, o provedor de então, Jorge Wemans, concluía: «A desvantagem do PCP é notória!» (Público, 6/4/1997). Ver Fernando Correia, Jornalismo e Sociedade, Editorial Avante!, 2000, pp. 97-100.

(5) A expressão é da socióloga americana  Gaye Tuchman.

(6) Cinco grandes grupos económicos (Controlinvest, Impresa, Media Capital, Cofina e Impala) são os donos de uma centena de órgãos de comunicação (excluindo os do Estado e da Igreja) que dominam o nosso panorama mediático na imprensa, na rádio, na televisão e na Internet.