Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Organização, Edição Nº 305 - Mar/Abr 2010

Uma tarefa central - A ligação do Partido às massas

por Armindo Miranda

A imensa sabedoria do nosso Partido, acumulada durante tantos anos de luta na defesa e junto dos trabalhadores, fornece-nos um conjunto muito vasto de experiências que devem ser conhecidas e estudadas pelos seus militantes, e em particular por todos os seus quadros dirigentes, para daí tirarem ensinamentos para a actividade e a luta nas novas condições em que hoje lutamos. E uma dessas experiências é, sem dúvida, a ligação do Partido às massas e a sua organização como instrumento dessa ligação e dinamização da luta.

Esta questão está presente em toda a actividade do Partido, de forma destacada em todos os Congressos, e considerada como elemento estratégico para a sua sobrevivência, crescimento e enraizamento no seio da classe operária e restantes trabalhadores. É como se a ligação às massas fosse o alimento diário sem o qual o Partido não sobreviveria como partido revolucionário. Assim, no III Congresso (1943), ao mesmo tempo que era feita uma apreciação muito positiva do êxito das greves e outras acções de massas dinamizadas e dirigidas pelo Partido, concluiu-se que: «Sem uma forte organização partidária que ligue inteiramente o Partido às massas, ele será incapaz de cumprir as suas tarefas históricas. (…) Assim, a constituição das células mereceu uma especial atenção. Às células que se foram formando, procurou-se que a sua actividade fosse realizada no seio das massas e fundamentalmente no sentido da sua mobilização à volta dos problemas concretos e imediatos. (…) Exigiu-se que cada militante fosse um elemento prestigiado entre as massas e que soubesse, de facto, criar à sua volta uma influência verdadeiramente política de massas, conseguida através do seu trabalho diário em defesa das reivindicações destas.» (1) E o Comité Central, em 1964, concluiu: «A tarefa das organizações do Partido é estarem atentas em cada caso ao desenrolar do movimento, auscultar os sentimentos das massas, e saberem escolher o momento para lançarem a palavra. Deve dizer-se que muitas vezes as organizações do Partido limitam desde o início o âmbito da luta, insistem rotineiramente numa só forma (comissões e concentrações, por exemplo), e não sabem empurrá-la para diante. Em muitos casos as organizações do Partido são demasiado tímidas e cautelosas, não sabem acompanhar a evolução da disposição das massas, não têm suficiente confiança na classe operária e na voz do Partido, não vêem com suficiente nitidez e perspectiva, e falta-lhes a coragem de, no momento devido, quando de facto existem já condições para isso, indicar com decisão o recurso à greve. Falta-lhes o engodo pela baliza.» (2)

Neste Congresso, perante o ascenso da luta de massas e as condições então existentes, foi decidido como orientação para todo o Partido o alargamento e a intensificação da luta, chamando novas camadas da população ao combate. Certeiras conclusões, ancoradas num profundo conhecimento da realidade concreta e numa enorme experiência acumulada e que indicaram o alargamento e a intensificação da luta de massas como o caminho certo a seguir para o derrubamento do fascismo, o que viria a suceder sete anos mais tarde.

O levantamento militar de 25 de Abril de 1974 depressa se transformou em levantamento popular, motor essencial da revolução que se lhe seguiu, com as extraordinárias transformações na vida política, económica, social e cultural do país. Foram variadas as causas que convergiram para que isto acontecesse, nomeadamente o facto de o Partido estar armado com uma teoria revolucionária sem a qual não há prática revolucionária e ter objectivos claros para apontar às massas, decididos no VI Congresso e assumidos pelo colectivo partidário. Mas tudo isto não teria sido suficiente se o Partido não estivesse como estava, ligado às massas, aos seus interesses e aspirações, com profundas raízes no seu seio e portador de uma grande confiança por parte das massas. Só assim se explica que ao apelo do Partido, operários, empregados, camponeses, intelectuais e outras camadas da população tenham vindo para a rua lutar pelo avanço da revolução e as suas transformações.

O XVII Congresso (2004) fez um balanço da intervenção política e da ligação às massas por parte do Partido e concluiu: «Não obstante os avanços nesta importante área de trabalho, continuam a evidenciar-se dificuldades para introduzir na discussão e concretizar na actividade diária o que tão facilmente é entendido no plano teórico.

Entre as principais dificuldades detectadas anota-se a ausência de discussão dos problemas dos trabalhadores e das populações, com origem, entre outros aspectos, na não realização de reuniões, ou na falta de espaço para a sua discussão nos organismos, ou ainda porque nas reuniões e conclusões se acaba por dar prioridade não à luta como o melhor caminho para a sua resolução mas à mera diligência pela acção dos eleitos locais junto dos órgãos do poder».

O XVIII Congresso (2008) fez um balanço positivo dos avanços então verificados, considerou que «a situação melhorou», mas também que «persistem bloqueios». E decidiu um conjunto de orientações, das quais são de destacar as seguintes:

  • O empenhamento dos comunistas no fortalecimento e desenvolvimento da luta de massas e dos movimentos unitários de massas, devendo cada organização assumir a sua responsabilidade na dinamização e intervenção na luta, dando a relevância necessária à sua discussão nas reuniões, destacando quadros e tomando as medidas necessárias para que a luta dos trabalhadores e das populações, a partir dos seus problemas concretos, se alargue e se intensifique.
  •  A discussão de modo a estimular cada militante a tomar a iniciativa na acção política diária e no contacto junto daqueles com quem se relaciona, como sendo um dos elementos essenciais da ligação e influência do Partido e da sua capacidade de esclarecimento e mobilização.


O Comité Central do Partido, na sua reunião de 21 e 22 de Novembro de 2009, e embora tivesse considerado que a ligação do Partido às massas é uma tarefa permanente de todos os organismos e organizações, considerou que a situação existente justifica um debate específico em todo o Partido, e decidiu que o mesmo seja realizado até final de Março, em todos os organismos existentes, envolvendo o maior número possível de membros do Partido, realizando plenários das organizações de base para o efeito. Decidiu ainda realizar uma reunião do Comité Central para fazer o apuramento da discussão realizada. Está marcada e terá lugar em Abril. A discussão em curso nos organismos e organizações do Partido, e cujas consequências se farão sentir de forma clara na luta dos trabalhadores e das populações e no reforço do prestígio e enraizamento do Partido junto das massas, está já a tornar mais claro para milhares de quadros e outros militantes aspectos centrais da vida e da história do Partido, ligados e resultantes da sua ligação às massas, nomeadamente: sem organização não é possível conhecer de forma abrangente e com rigor, interpretar e até sentir os problemas e aspirações dos trabalhadores e das populações. Também não é possível dinamizar e dirigir de forma consequente a luta pela sua resolução.

Uma organização que, de forma continuada, está desligada da vida e do meio de onde emerge e desenvolve a sua actividade, transforma-se num grupo sectário, sem vida renovada e rejuvenescida. No livro O Partido com Paredes de Vidro, o camarada Álvaro Cunhal, abordando as questões de organização, deixou-nos escrito o seguinte: «(...) os problemas e tarefas de organização, abarcando toda a actividade partidária, traduzem-se em decisões e medidas de planificação, definição de objectivos de acções a apreender, determinação e calendarização dos actos, mobilização e distribuição dos recursos naturais e humanos, fixação de tarefas, sua direcção e execução. A organização não é um fim em si mas um instrumento, uma arma para a acção colectiva. (…) organização é ordem, é sistematização, é método, é eficácia.»(3)

É na ligação aos operários, aos trabalhadores em geral e às populações, que as organizações do Partido encontram e forjam os quadros de que precisam para alargar e reforçar o trabalho de direcção, ultrapassar bloqueios na estrutura resultantes da falta de quadros intermédios e dar resposta às milhentas tarefas a que temos de responder todos os dias.

Um partido revolucionário precisa de energia revolucionária para se alimentar de forma permanente e só pode encontrá-la, junto e em contacto com os operários, os trabalhadores e as massas em geral.

O nosso Partido desenvolve intensa actividade nas mais diversas áreas da sociedade, nomeadamente na área institucional, onde tem o trabalho mais qualificado, de todos os partidos. Mas trata-se de um terreno onde o inimigo de classe decide as regras do jogo, nomeia o árbitro e os fiscais de linha, tem mais jogadores, escolhe a bola, etc. Até podemos meter um golo de vez em quando, mas é uma paralisante e perigosa ilusão pensar que poderemos ganhar o jogo nestas circunstâncias. Ao contrário, se continuarmos a reforçar a organização partidária e, através dela, levarmos mais fundo as raízes do Partido junto dos trabalhadores e das populações, estaremos a criar condições para elevar a luta de massas ao nível necessário para impor a mudança e romper com a política de direita. Está ao nosso alcance. Cada organização do Partido, pode contribuir para tornar ainda mais próximo esse objectivo, se tiver como preocupação permanente a ligação às massas e a elevação da sua consciência social e política. Afinal, a sociedade nova, livre, solidária, liberta da exploração do homem pelo homem, por que lutamos, resultará da força e da determinação da luta de massas. E em primeiro lugar da luta travada no local onde o confronto da luta de classes é mais forte, a empresa e o local de trabalho.



Notas



(1) Da intervenção do camarada Manuel Guedes, no III Congresso (I ilegal).

(2) Álvaro Cunhal, Rumo à Vitória, «Edições Avante!», 2.ª ed., Lisboa, 2001, p. 233.

(3) Álvaro Cunhal, O Partido com Paredes de Vidro, Edições «Avante!», 1.ª ed., Lisboa, 1985, p. 173.