Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Efeméride, Edição Nº 306 - Mai/Jun 2010

Lénine e Portugal

por Revista «O Militante»

Em várias das suas obras V. I. Lénine faz referências a Portugal. Não o faz gratuitamente, de forma abstracta e fora dos problemas candentes da luta de classes. Faz, porque um dos traços fundamentais e mais rico do seu profundo trabalho de investigação e elaboração teórica é precisamente a estreita ligação a factos, questões, problemas e situações concretas em cada momento histórico, tanto da Rússia como de qualquer outro país do mundo.

A primeira referência de Lénine a Portugal remonta a 18 de Fevereiro de 1908, num artigo que publicou no jornal «Proletário» com o título «O atentado contra o rei de Portugal». Escreve aí:

«As simpatias do proletariado socialista vão sempre para o lado dos republicanos contra a monarquia. Mas, até ao momento presente, em Portugal, só conseguiram assustar a monarquia com o assassinato de dois monarcas, e não conseguiram esmagá-la». (1)

No artigo «Resposta a P. Kievski (I. Piatakov» (2), de 1916, no qual Lénine, a propósito do economismo-imperialista», defende o direito das nações a disporem de si próprias e critica a posição hostil ao marxismo do grupo anti-partido Boukharine-Piatakov, nova referência é feita a Portugal. Mais tarde, Lénine dedica à mesma questão um longo artigo, intitulado «Uma caricatura do marxismo», em que aborda as questões da guerra de 1914-18 e escreve:

«... a guerra imperialista actual mostra-nos exemplos de como se consegue, pela força dos laços financeiros e dos interesses económicos, arrastar um pequeno Estado politicamente independente para a luta entre as grandes potências (Inglaterra e Portugal)». (3)

Nos seus famosos «Cadernos do Imperialismo», escritos na primeira metade de 1916, que constituem os materiais preparatórios da obra O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, Lénine faz uma primeira análise aprofundada de todos os aspectos do capitalismo na passagem do século XIX para o século XX e referindo-se a Portugal destaca:

«É unicamente devido ao apoio da Grã-Bretanha que Portugal consegue conservar as suas colónias.»

«Indirectamente, uma vez mais graças ao protectorado sobre Portugal, a Grã-Bretanha mantém não apenas a sua posição na África do Sul e a sua influência no Congo, mas também a sua supremacia nos mares, base sólida da sua potência colonial e da sua potência política e económica mundial.» (4)

Na obra O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, publicada em 1916, ao desenvolver a sua teoria sobre a partilha do mundo entre as grandes potências, sobre a pilhagem colonial, a exploração das pequenas nações e a sua dependência em relação às grandes potências, Lénine volta a referir-se a Portugal e escreve:

«Portugal é um Estado independente, soberano, mas na realidade há mais de 200 anos, desde a Guerra da Sucessão de Espanha (1701-1714), que está sob o protectorado da Inglaterra. A Inglaterra defendeu-o, e defende as possessões coloniais portuguesas, para fortalecer as suas próprias posições em luta contra os adversários: a Espanha e a França. A Inglaterra obteve em troca vantagens comerciais, melhores condições para a expansão de mercadorias e, sobretudo, para a exportação de capitais para Portugal e suas colónias, pôde utilizar os portos e as ilhas de Portugal, os seus cabos telegráficos, etc., etc.»

«Este género de relações entre grandes e pequenos Estados sempre existiu, mas na época do imperialismo capitalista tornou-se sistema geral, entrou como um elemento entre tantos outros, na formação do conjunto de relações que regem a “partilha do mundo”, passam a ser elos da cadeia de operações do capital financeiro mundial.» (5)

Por último, na sua obra O Estado e a Revolução, escrita em Julho de 1917, Lénine faz a comparação entre a revolução portuguesa de 1910, que caracteriza como uma revolução burguesa, e a revolução russa de 1905-1907, que sendo igualmente uma revolução burguesa teve, no entanto, um carácter acentuadamente popular.

«... a massa do povo, a sua imensa maioria, não intervém de uma forma visível, activa, autónoma, com as suas reivindicações económicas e políticas próprias» – sublinha Lénine referindo-se à revolução portuguesa de 1910. (6)



Notas



(1) Obras Completas em francês, Vol. 13, Editions Sociales-Editions du Progrès, Moscou, Paris, 1976, p. 497.

(2) Idem, Vol. 23, pp. 21 e 22.

(3) Obras Escolhidas em 6 volumes, Vol. 3, Edições «Avante!»-Edições Progreso, Moscovo, Lisboa, 1985, p. 32.

(4) Obras Completas em francês, Vol. 39, p. 97.

(5) O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, Edições «Avante!», Lisboa, Abril de 2000, p. 88.

(6) O Estado e a Revolução, in Obras Escolhidas em 6 volumes, Vol. 3, p. 220.