Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Juventude, Edição Nº 306 - Mai/Jun 2010

Aspectos da ofensiva ideológica junto da juventude

por Tiago Vieira

Segundo as estatícas das Nações Unidas (ONU), os jovens entre os 15 e os 24 anos representam 18% da população do planeta – qualquer coisa como 1,2 mil milhões de pessoas.  Número significativo e importante, ainda mais se somado com um número seguramente não menor de jovens entre os 24 e os 35, que ajuda a perceber o peso real que a juventude tem no mundo – pese embora as grandes disparidades entre regiões e países que devem ser tidas em conta.No entanto, e bem além da estatística pura e dura, o que mais importa sobre a juventude é a sua capacidade de organização, a criatividade e irreverência de quem não vê o mundo de forma rotineira e cansada, mas antes como uma constante surpresa, sendo uma massa dinâmica e heterogénea capaz de empregar os seus esforços cheios de energia e força nas mais diferentes iniciativas e caminhos, desde que devidamente motivada.

Não sendo uma verdade científica, esta é uma verdade que a interpretação da vida e da realidade nos permite. Sabemo-lo nós, os comunistas, e sabem-no também os capitalistas, daí que, tanto no plano nacional como internacional, haja uma importante dose de atenção para tentar mobilizar a juventude para o respectivo lado de cada um na luta de classes. Diga-se, em abono da verdade, que da parte dos capitalistas e seus instrumentos a ideia é sobretudo desmobilizar a juventude, fazendo com que esta esgote os seus esforços e esperanças em eventos de cariz reformista ou assistencialista, que têm como aspecto essencial mascarar a natureza predatória e injusta do sistema capitalista.

Muito haveria para escrever neste capítulo e muito já se tem (e bem) escrito em diversas publicações do PCP e da JCP sobre esta matéria, foquemo-nos então num aspecto mais concreto.

No ano que agora decorre começará o «Ano Internacional da Juventude» da ONU e mesmo o mais distraído dos comunistas ficará com o pé atrás ao saber que o tema principal que a ONU atribui a este seu ano dedicado à juventude é o «Diálogo e compreensão mútua». Como se nota, um lema que em nada se adequa à realidade do mundo em que vivemos e que, particularmente os jovens do Iraque, Afeganistão, Sahara Ocidental, Palestina, Burma, Filipinas, Colômbia, Kosovo, Porto Rico, Guiana Francesa, Haiti e Somália olharão com particular desinteresse, ou não fosse o diálogo o que tanto lhes prometem e a ocupação, a guerra e/ou a colonização o que na realidade lhes é «dado» diariamente.

A título de curiosidade interessa ainda destacar que o seu início será a 12 de Agosto, no tristemente conhecido como «Dia Mundial da Juventude da ONU», data criada numa reunião de Ministros de Juventude que teve lugar em Portugal em 1998, a par de um chamado «Festival Mundial da Juventude», evento com o objectivo de abafar o Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes organizado pelos jovens anti-imperialistas e progressistas do mundo e, particularmente, pela Federação Mundial da Juventude Democrática (FMJD).

No entanto, e além do preconceito, podemos constatar que no diversificado rol de iniciativas já agendadas para esse ano da ONU se enquadram como principal objectivo a promoção dos chamados «Objectivos de Desenvolvimento do Milénio» e a integração da juventude como agente a ser envolvido no atingir desses ditos objectivos. Na realidade, em quaisquer das iniciativas «abertas» mas sujeitas a candidatura com inquérito, que já estão a ser preparadas, a organização que tenta participar é questionada no sentido de se saber o que é que esta faz (ou não) pela promoção e cumprimento desses mesmo objectivos.

Daqui se pode depreender que se trata, uma vez mais, da visão que o capital procura impor de transferência das responsabilidades dos Estados para as pessoas e para as suas organizações, com vista à sua desresponsabilização.  Sejam o «Congresso Mundial da Juventude» (em Istambul, Turquia), os «Jogos Olímpicos da Juventude» (redundância a ter lugar em Singapura), ou a «Conferência da Juventude do Mundo» (em Monterrey, México), os principais aspectos e valores destes eventos a que a ONU dá mais projecção internacional são o «empreendedorismo», a «defesa do ambiente» (particularmente a redução das emissões de carbono) e a intervenção das organizações de juventude junto das suas «comunidades» para a produção de mudanças e melhoria da qualidade de vida.

Assim, com milhões de euros e comprometimento de agentes económicos de peso na promoção e patrocínio (Coca-Cola, Samsung, Acer, McDonald’s, entre outros), se constróiem eventos para convencer os jovens e o resto do mundo que o mais importante é que cada jovem crie o seu próprio emprego e a sua empresa de forma «sustentável» e «verde», que os jovens comprem produtos «verdes» e contribuam para a histeria em torno da emissão de gases e que façam lá na sua «terrinha» qualquer coisa para a vida ser mais agradável. Assim, da exacta mesma maneira que se quer fazer os jovens esquecer ou abdicar da luta pelo direito ao emprego e à educação, procura-se (no seguimento da Cimeira de Copenhaga) limpar as responsabilidades do sistema capitalista e das grandes potências pelo delapidar dos recursos da Terra e transferir as responsabilidades para os povos. E por fim, e não menos grave, tenta-se que os jovens encarem a resolução dos problemas concretos que enfrentam numa perspectiva assistencialista e caritativa, despolitizada e desresponsabilizadora do Estado que, dessa forma, existe cada vez mais e mais para cumprir os interesses dos grupos económicos.

De facto, esta perspectiva despolitizada chega ao ponto de na conferência do México haver três espaços principais: a reunião de chefes de Estado, a reunião de organizações de juventude (num limite máximo de duas por país!) e a de «legisladores», cujo papel é, segundo os organizadores, ajudar a que o diálogo entre os jovens e os governantes seja baseado em propostas concretas e com cariz legal, como se a ausência de resposta dos governantes às aspirações dos jovens fosse apenas e só uma questão técnica que um qualquer entendido em leis pudesse desbloquear, e não um autismo total resultante da subordinação do poder político aos interesses dos grupos económicos…

Por último, no que a estes eventos internacionais se refere, não deixa de ser penoso observar a ONU associar-se a um evento como o da Turquia, em que um dos objectivos declarados é o da «promoção da nova Turquia, de sucesso e dinâmica», isto num país que, contra as resoluções da própria ONU, apoiou os bombardeamentos no Iraque, esmaga o povo curdo e ocupa o Norte do Chipre, além da intensa repressão do movimento popular e juvenil que leva a cabo no seu interior.

Também em Portugal, estas linhas estão a ser implementadas desde há algum tempo. A descaracterização do Conselho Nacional da Juventude (CNJ) e o seu papel de correia de transmissão das políticas do PS e PSD (sobretudo do que esteja no Governo em cada momento em particular) faz-se através de uma estratégia semelhante às linhas principais da ONU. Cada vez mais próximo do Fórum Europeu de Juventude, o CNJ tem vindo a sofrer limitações ao seu funcionamento quando em comparação com o que o caracterizava aquando da sua fundação.

Seja pelo esvaziamento e raridade de reuniões, pela política do «facto consumado», pela rejeição de acções e posições efectivamente próximas das necessidades e aspirações da juventude portuguesa, o CNJ vai-se tornando mais e mais um instrumento de adereço bem comportado a qualquer Governo do nosso país, nem que para isso a direcção chegue ao ponto (e já chegou várias vezes) de recusar ou tacticamente de se esquecer de cumprir resoluções e/ou decisões tomadas em sede de Assembleia-Geral.

Também a representação externa desta estrutura é reveladora destas intenções. Quando pretendemos discutir a paz e as guerras de ocupação, é-nos contraposto que essas matérias devem ser entendidas num sentido mais lato, o sentido da «segurança humana».

As mais recentes direcções do CNJ vêm usando, em pleno cumprimento das directivas que chegam do Fórum Europeu de Juventude (espécie de Comissão Europeia dos Pequeninos, composta por dirigentes juvenis que um dia querem ser alguém e para isso vão desde cedo viver em Bruxelas, ganhar bem e dizer «amém» ao que emane da União Europeia), o valioso argumento de que a paz não se resume a não haver guerra, que vai muito mais além, tocando aspectos como o direito à educação, ao emprego, à saúde, à participação, à igualdade entre homem e mulher. E até aí, muito bem, estamos de acordo! E não só estamos de acordo como louvaríamos se o nosso CNJ mais insistentemente focasse estes aspectos, nem que fosse «só» para divulgar junto dos jovens portugueses o conteúdo da Constituição do nosso país e para exigir do(s) Governo(s) o seu cumprimento; mas é evidente que isso não acontece!

Porquê? Porque essa dita «segurança humana», essa aparente febre de tudo discutir e intervir em todas áreas da vida é na verdade um isco, uma espécie de «tudo em um», que permite dizer que é impossível focarmo-nos num ponto, aspecto, conflito ou situação em particular e que temos de atentar nos fenómenos de forma global. Ora então, tudo somado e metido no mesmo saco o resultado é um fascinante monte de nada, porque enquanto se argumenta que se tem que discutir e agir sobre tudo nada se faz e mesmo indo contra resoluções adoptadas em Assembleia-Geral continua sem haver uma acção firme e consequente sobre a questão do Sahara Ocidental e, enquanto durou, continou silenciada a ilegalização da União da Juventude Comunista Checa (KSM).

A título de exemplo, o CNJ participa num encontro com a Liga Árabe, mas não tem posição sobre a Palestina, ou mesmo o exemplo da «Cimeira de Juventude Europa-África», cuja composição se limitou a organizações com filiação à União Internacional de Juventude Socialista (IUSY) ou à Federação Internacional de Juventude Liberal (IFLRY), ou associações de escuteiros. Tratou-se de uma autêntica farsa de discussão colectiva, em que as conclusões estavam previamente definidas e cabalmente impostas, em painéis de discussão castradores e limitadores, e resumindo-se a um apelo a dirigir aos líderes dos países que se encontrariam na Cimeira Europa-África, dos dias seguintes, na prática a tentativa de legitimação das políticas da UE e dos governos ao seu serviço, por parte da juventude. Curioso, é o facto de apesar de nunca ter sido discutido durante os seus dias, este encontro ter «concluído» que os seus participantes apelavam aos seus líderes (incluindo os africanos, já que se tratava dum «encontro entre União Europeia e África»…) que de forma célere se aprovasse em cada país e se implementasse o Tratado de Lisboa (!). Por fim, e digno de registo, é também o facto de para este evento, altamente patrocinado pelo Governo, tantos vistos tenham sido rejeitados a delegados africanos.

Pela nossa parte temos claro que o caminho da efectivação dos direitos da juventude depende de uma alteração profunda no quadro de cada país e, no plano internacional, pela promoção da cooperação entre os povos na base da soberania, auto-determinação e igualdade de direitos e responsabilidades. Esses mesmo são os valores que estão na base da realização do próximo Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes (o 17.º), cujos alicerces estão já lançados para que se realize em Dezembro deste ano na África do Sul.

No seguimento da sua rica tradição e história, com atenção particular ao estrondoso sucesso que foi a última edição (em 2005, Caracas, Venezuela), este será um Festival cuja construção será internacional e democrática, em que o conteúdo definido resultará da discussão colectiva das organizações anti-imperialistas de todo o mundo e dos Comités Nacionais Preparatórios por elas formados por forma a garantir que, uma vez mais, este é o palco maior de convergência de todas as expressões de luta e defesa da paz, da justiça, da transformação social e dos direitos da juventude, sem medo do debate aberto e frontal rumo a uma mais sólida cooperação e mais efectiva rede de solidariedade entre as forças juvenis anti-imperialistas. Quer pelo seu processo preparatório, quer pelos conteúdos, em contraponto ao que se procurar impor à juventude e ao movimento juvenil, o FMJE representa uma oportunidade importantíssima (talvez única, dadas as suas características) de reforço dessa ferramenta fundamental para transformação da sociedade: a unidade.

Vamos a isto, então!