Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Juventude, Edição Nº 308 - Set/Out 2010

O 17.º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes e a crise capitalista

por Diogo D'Ávila

O 17.º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes (FMJE), que se realizará este ano na África do Sul, está a ser preparado em todo mundo num contexto em que os governos de um grande número de países capitalistas utilizam a crise como pretexto para atacarem direitos fundamentais da juventude.

A par desta realidade, cresce a escalada imperialista no que diz respeito às agressões militares, ao reforço dos orçamentos militares, bem como à rearrumação e alteração de conceitos das suas estruturas, com particular destaque para o papel da NATO. Por outro lado, em cada país intensifica-se a luta dos trabalhadores e da juventude, procurando dar resposta aos seus problemas concretos e aumentando assim, num quadro mais geral, as condições para o reforço do movimento anti-imperialista. O 17.º FMJE será certamente expressão e reflexo maior dessa luta.

As consequências da crise para a juventude



Uma violenta ofensiva ideológica tem vindo a ser levada a cabo pelas grandes potências imperialistas e pelo capital, fazendo passar a ideia de que a crise, sendo imprevisível e incontrolável, em nada se liga com o sistema capitalista e com os ataques feitos aos trabalhadores e à juventude, tentando deste modo apagar e mistificar o carácter explorador e opressor do capitalismo. A verdade é que, não deixando de assumir características particulares, esta crise é consequência de políticas assentes na lógica da exploração e do lucro, políticas que já muito antes foram sendo implementadas e que, numa perspectiva mais alargada historicamente, haviam sido responsáveis no passado por diferentes e cíclicas expressões de crise.

O grande capital vê aqui, também, mais uma oportunidade para destruir direitos arduamente conquistados e fazer pagar os trabalhadores, particularmente os mais jovens, por esta situação. Assim, um pouco por todo o mundo e sobretudo na UE, aparecem como naturais medidas como a deslocalização de empresas (uma das principais causas do desemprego), a diminuição dos salários, o aumento do horário de trabalho, o aumento da idade da reforma, a mercantilização e privatização das funções sociais dos Estados ou a intensificação dos ritmos de trabalho. O aumento do fluxo migratório na procura de melhores condições de vida, ou de flagelos sociais como a SIDA e a toxicodependência, são outros exemplos da amplitude das consequências do sistema capitalista para a juventude.

Assumem cada vez maior gravidade à escala internacional os perigos de novas agressões imperialistas, em parte por via do aumento do armamento militar e da proliferação de bases militares por todo o mundo, ou pelo reforço e afirmação da NATO como um pólo militar ao serviço dos interesses do imperialismo. A par da procura incessante de novos mercados e recursos, o grande capital procura também desta forma condicionar e silenciar o carácter revolucionário e progressista do movimento juvenil, bem como travar os focos de resistência que se verificam em vários países.

Em Portugal, o actual governo PS, apoiado pelo PSD, seguiu a linha dos seus homólogos europeus de total subserviência às orientações definidas pelas estruturas de regulação e dominação internacional, das quais se destacam a UE, o FMI, a OMC ou a OCDE. Aproveitando a crise internacional para se desresponsabilizar pelo estado do país, intensifica o ataque aos trabalhadores e à juventude, aprovando medidas que em nada correspondem às suas reais necessidades, medidas particularmente reflectidas nos vários PEC.

Novos passos são dados no caminho do aumento da exploração, com consequências dramáticas ao nível do desemprego e da precariedade. Continua e intensifica-se o caminho de destruição das funções sociais do Estado, como a privatização e elitização da educação, bem como de outros serviços como a saúde. Corta-se na acção social escolar, constituem-se mega-agrupamentos escolares, aplica-se um novo estatuto do aluno, diminuem-se apoios no acesso à habitação, à cultura, à prática desportiva, à participação no movimento associativo juvenil.



A juventude luta e resiste



Protagonizando importantes lutas pelos seus direitos, bem como integrando-se nas lutas mais gerais desenvolvidas pelos povos, a juventude destaca-se em todo o mundo, em áreas tão diversas como a defesa do direito ao emprego e à educação, contra o racismo e a xenofobia, o colonialismo, a ocupação, a fome, ou a guerra.

No nosso país, é inegável o papel da juventude no desenvolvimento da luta de massas, com particular destaque para o movimento estudantil e para o movimento dos jovens trabalhadores. Assumiram este ano importância fundamental, para além das inúmeras acções desenvolvidas nas escolas e locais de trabalho, o dia 4 de Fevereiro, onde mais de 30 mil estudantes do Ensino Secundário saíram à rua reivindicando a Escola pública, gratuita, democrática e de qualidade para todos, bem como o dia do estudante, 24 de Março, onde mais de 3000 estudantes do Ensino Superior se manifestaram nas ruas de Lisboa. Os jovens trabalhadores voltaram a participar massivamente na manifestação promovida pela Interjovem/CGTP-IN por ocasião do dia da juventude – 28 de Março –, marcando também importante presença nas lutas mais gerais desenvolvidas no passado dia 29 de Maio e 8 de Julho, assim como nas comemorações do 1.º de Maio, dia do trabalhador, momentos altos da luta pelo emprego com direitos, aumento dos salários e fim da precariedade.



O 17.º FMJE e a luta da juventude



É neste contexto de profunda ofensiva aos direitos, mas em que, simultaneamente, aumenta a resistência e a luta, que se desenvolve a preparação do 17.º FMJE sob o lema «Derrotemos o imperialismo, por um mundo de paz, solidariedade e transformação social». Preparação que está intimamente ligada com a luta da juventude em cada país, pela resolução dos seus problemas concretos e pelo concretizar das suas aspirações e que verá nos dias da sua realização (13 a 21 de Dezembro de 2010) reflectidas todas as expressões de criatividade, irreverência, resistência e luta inerentes ao movimento juvenil.

Esta é uma das características fundamentais do movimento dos festivais, pois a luta contra o imperialismo, pela paz, solidariedade e cooperação entre os povos não pode ser desligada da luta pelos direitos dos jovens em cada país, pois são inseparáveis as conquistas sociais no plano nacional e uma alteração da correlação de forças internacional que permita uma paz duradoura.

Foi com base nesta premissa que Portugal, no passado dia 8 de Maio, constituiu o seu Comité Nacional Preparatório (CNP) (estrutura que em cada país prepara, divulga e afirma o Festival), aprovando nessa mesma reunião os principais objectivos e linhas de trabalho a desenvolver até Dezembro.

Procurando, no que toca à sua composição, reflectir o mais possível o movimento juvenil português, o CNP conta já com mais de 30 associações ou estruturas juvenis, formais ou não, de áreas tão diversas como o movimento associativo estudantil, o movimento das mulheres, o movimento sindical, associações culturais, movimento anti-racista, grupos desportivos, entre outros.

No que toca à actividade, procura-se exactamente aliar as várias expressões da luta da juventude portuguesa às iniciativas que são realizadas, dando assim corpo à íntima ligação entre a luta contra o imperialismo e a luta pelos direitos fundamentais. Merece significativo destaque o Acampamento Nacional pela Paz, realizado no passado dia 23, 24 e 25 de Julho, em Avis, que, tendo sido dinamizado pelo CNP português, se enquadrou na campanha «Paz Sim!, NATO Não!» agora em curso, e que, juntando mais de duas centenas de jovens de todo o país, foi reflexo da profunda identificação dos jovens portugueses para com os valores da paz e da solidariedade.

Até Dezembro, muitas e diversas serão as actividades do CNP português junto da juventude portuguesa, fazendo o Festival percorrer as ruas do nosso país para dá-lo a conhecer, mas sobretudo para motivar a juventude portuguesa para as lutas que temos pela frente, batalhas intrinsecamente ligadas ao próprio Festival, como sempre foi e como tem que ser. A par disto, multiplicar-se-ão os contactos por forma a ir o mais longe possível na composição do CNP e na mobilização do maior número possível de jovens para a participação no Festival na África do Sul.

Contrariando o esmagador investimento que o capital desencadeia para fazer crer que não é possível concretizar uma alternativa ao serviço dos trabalhadores, dos povos e da juventude, estes lutam e resistem em todo o mundo, tendo nos comunistas e no seu projecto um forte estímulo e um claro caminho a seguir. Sendo certo que só com uma sociedade socialista será possível garantir um mundo de paz e de solidariedade, o actual contexto internacional, marcado pelo domínio esmagador do imperialismo, exige que se intensifique a luta de massas em cada país, a par do aprofundamento de amplas frentes de unidade que reforcem a resistência, a luta anti-imperialista e as perspectivas de transformação social. O 17.º FMJE assume assim um papel central no alargamento da luta e da unidade juvenil pela transformação social e pelo fim da senda destruidora e parasitária do imperialismo.

Numa altura em que são muitas as ameaças com que o mundo está confrontado com  o intensificar da exploração e o recurso à guerra por parte do imperialismo, o facto de milhares de jovens estudantes e trabalhadores  dos cinco continentes se unirem numa afirmação clara de que também com a sua luta será possível derrotar o imperialismo e viver num mundo de paz e de solidariedade, constitui em si mesmo um factor de esperança e confiança no futuro.  Em Dezembro lá estaremos, na África do Sul!