Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

JCP, Edição Nº 311 - Mar/Abr 2011

17.º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes. Uma onda mundial de esperança e combatividade

por Tiago Vieira

Num espírito de ampla camaradagem, de solidariedade e de luta, realizou-se em Pretória (capital da África do Sul), o 17.º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes (FMJE). Nele participaram 15 000 jovens de 126 países, que de 13 a 21 de Dezembro fizeram de Pretória a capital mundial da luta juvenil anti-imperialista.
Mas comecemos pelo início. A análise a um evento desta magnitude é sempre um exercício complexo e onde convergem múltiplas perspectivas e onde a comparação com as edições anteriores se torna sempre um exercício  importante mas insuficiente. É que se há importantes linhas de continuidade entre todos os Festivais, particularmente na última década e meia, há também elementos de análise e desafios que fazem de cada um dos Festivais uma experiência única e, assim, incomparável com todos os outros.

De facto, para este FMJE, o 17.º de um movimento iniciado há 63 anos, partimos com um horizonte de grande alegria e esperança pelos desenvolvimentos das lutas dos povos (e dos jovens, em especial) por todo o mundo, mas também conscientes de que enfrentaríamos vários desafios que, sendo ultrapassáveis, colocariam dificuldades à realização do Festival.

Assim, entre outros, contam-se por ordem crescente de dificuldade os principais desafios a enfrentar: 1) a realização pela primeira vez de um FMJE fora do Verão do hemisfério norte (os anteriores foram todos entre Julho e Setembro); 2) um processo preparatório internacional de menos de um ano (geralmente leva cerca de ano e meio);  3) o primeiro Festival realizado na África sub-saariana, região do mundo onde a FMJD tem mais dificuldades de implementação, organização e dinamização de actividade – algo a que não será indiferente o destacado papel e forte influência que forças da social democracia, que andam de mão dada com o imperialismo no combate às forças progressistas em geral, e à FMJD em particular, detêm na região através de diferentes veículos, e em especial através da Internacional Socialista e a sua estrutura de juventude (IUSY); 4) a crise internacional do capitalismo e o que ela vem significando em termos do escalar vertiginoso dos ataques aos direitos dos povos e jovens, e o que isso significa para um Festival que depende, não só mas necessariamente também, dos recursos encontrados pelo movimento juvenil para todas as muitas despesas que necessariamente um evento desta dimensão exige, tanto para quem acolhe como para quem participa.

O ultrapassar destes desafios foram passos que permitiram o sucesso do Festival, mas acima de tudo a consolidação de bases para a continuidade e o reforço da luta juvenil anti-imperialista.


O caminho para a África do Sul

Tal como quando preparamos um Congresso no Partido e na JCP, também para o sucesso do Festival em muito contribui o êxito do seu processo preparatório. Além das evidentes necessidades de aprofundamento do trabalho colectivo para a definição e concretização de todas as linhas que viriam a constituir o Festival (do plano político aos aspectos logísticos), o processo preparatório do Festival permitiu avançar perspectivas e concretizar iniciativas que possibilitaram chegar mais longe na mensagem de solidariedade e de luta que o movimento dos festivais tem como objectivo central.

Ao longo de vários meses, por todo o mundo, realizaram-se milhares de iniciativas de diferentes formatos e âmbitos, políticas, culturais e até desportivas, ligando a perspectiva geral das consequências da dominação planetária por parte do imperialismo aos problemas concretos da juventude em cada parte do mundo e em cada país, nos diferentes sectores, sempre tendo a luta como principal ferramenta para a resolução desses mesmos problemas.

No plano internacional, este foi um processo que levou a reuniões e iniciativas internacionais e/ou regionais a países tão diferentes, como a Venezuela, a Jordânia, a Namíbia, a RPD Coreia, a Argentina, a Sérvia, os Barbados, a Suécia, o Senegal e o Chipre, em eventos que, para além de permitirem a discussão sobre aspectos concretos da preparação do Festival, constituíram em si mesmo demonstrações de solidariedade para com a juventude desses países na sua luta contra o imperialismo. Como exemplo positivo destaca-se, pelo significado político (ainda mais em ano da Cimeira da NATO) e pela dimensão, a reunião preparatória do continente europeu, realizada em Belgrado (Sérvia), em que 27 organizações de 23 países europeus se juntaram e aí puderam testemunhar, quer as consequências dos bombardeamentos da NATO bem visíveis ainda nas ruas destruídas, quer os retrocessos sociais, fruto de políticas implementadas a partir de 2000 pelos sucessivos governos subservientes à NATO, à UE e aos EUA.

Por fim, mas não menos importante, este Festival permitiu a milhares de jovens de todo o mundo conhecer mais sobre o passado e a actualidade da África do Sul – sobre um passado de luta militante de um povo e de uma enorme onda de solidariedade internacional sem os quais jamais teria sido possível alcançar a vitória sobre o regime do apartheid, e sobre um presente marcado por debates de grande interesse para todos os povos (a começar no próprio povo sul africano) em torno da gratuitidade da educação e da nacionalização dos recursos minerais do país, métodos, perspectivas e objectivos desta medida.


Como foi na terra de Mandela

No que aos dias do próprio FMJE diz respeito destacam-se as várias dezenas de actividades para discussão e troca de opiniões sobre as diversas expressões do ataque imperialista contra os direitos dos povos e da juventude. Embora a centralidade estivesse nos temas mais fortes, como a luta pela paz, pelo direito à educação, pelo direito ao emprego com direitos e pelos direitos democráticos, vale a pena referir que houve diversas iniciativas em torno do direito ao acesso à cultura e ao desporto, das questões do ambiente, dos direitos da criança, do direito a habitação, entre outros, para além de espaços de solidariedade com a Palestina, o Saara Ocidental, a juventude coreana na sua luta pela reunificação do país e a juventude colombiana na luta pela democracia e o fim do conflito que atravessa o país.

De todas as actividades, vale a pena destacar a realização de um Tribunal Anti-imperialista, evento onde mais de 4000 pessoas assistiram, durante dois dias, à denúncia e condenação dos crimes do imperialismo, assim como a realização de uma conferência em torno dos 65 anos de vida da FMJD, em que veteranos de diferentes gerações trouxeram a sua experiência de luta e os seus exemplos concretos para partilhar com os delegados do Festival, num encorajamento à continuação da luta da juventude.
Mas o Festival foi mais ainda! Na «Feira da Amizade» juntaram-se expositores de mais de 60 países, onde em permanência os delegados do Festival tinham acesso a materiais sobre a situação política de cada um dos países aí presentes e onde podiam facilmente travar contacto com jovens de partes do mundo que de outra forma dificilmente conheceriam. A juntar a isto, realizaram-se variadíssimas demonstrações culturais, particularmente concertos, com a presença de artistas de todo o mundo, e em especial da África do Sul, e ainda um torneio de futebol (variante masculino e feminino) onde equipas de mais de trinta países tiveram oportunidade de «dar um chuto no imperialismo!».

O Festival terminou com uma imponente «Marcha pelos direitos da Juventude», em que participaram, para além dos delegados, mais jovens sul africanos, num mar de gente que ascendia a 20 000 participantes e que inundou as ruas de Pretória até desaguar no jardim em frente ao Palácio Presidencial, onde decorreu a cerimónia de encerramento.


A comunicação social lá como cá

De tudo isto, a comunicação social sul-africana, ao serviço dos sectores mais reaccionários do país e do capital, já rotinada em atacar o ANC por tudo e por nada, preferiu não ver nada, limitando-se a encher folhas e capas de jornais para alimentar polémicas em torno do orçamento do Festival, dos países que participavam (atacando em especial Cuba, Venezuela e Coreia) e até fazer capa com uma entrevista a uma suposta delegada do FMJE que teria participado num jogo de beijos durante uma tarde (!). A este nível, não deixa de ser interessante registar que, algum tempo antes do Festival começar, a linha de ataque centrava-se no seu conteúdo anti-imperialista – algo inaceitável aos olhos da comunicação social dominante na África do Sul. No entanto, após alguns comunicados e entrevistas em que o Comité Organizador Internacional demonstrou que era justamente pelo carácter anti-imperialista do Festival que este tinha sido uma importantíssima plataforma internacional de solidariedade com a luta do povo sul africano pela libertação do apartheid, a linha de ataque mudou para a acima descrita, ou não fosse a comunicação social estar a contribuir para o Festival ter ainda melhor receptividade pelo povo do país!

No fim de tudo, feitas as contas, é justo afirmar que o saldo político do 17.º FMJE é francamente positivo. Sem desvalorizar uma profunda análise colectiva que os organismos da FMJD e cada uma das delegações terão necessariamente de fazer, diagnosticando o que de menos bom houve e como se pode garantir que não se repita, o balanço que podemos desde já avançar a partir dos elementos que detemos permite-nos afirmar que o 17.º FMJE cumpriu os seus objectivos de plataforma de unidade de carácter anti-imperialista, juvenil e de massas.


Unidade – ferramenta indispensável

Na verdade, é justamente no seu carácter anti-imperialista que reside a chave para o êxito. Num momento em que a ofensiva imperialista é cada vez mais intensa sobre os povos, é através da capacidade de convergência com outras forças e camadas relativamente a aspectos concretos da resistência que somos capazes de fazer avançar a luta e juntar numa ampla frente um conjunto de expressões que, assim, estão em melhores condições de travar esta batalha. Mesmo nos tempos em que existia um pólo socialista no mundo e que muitas forças progressistas conquistavam a liberdade e o poder, esta foi desde sempre a matriz dos FMJE e é essa matriz que permite a continuidade do movimento. Apesar da existência de entendimentos contrários no próprio seio do movimento dos Festivais, a unidade é neste movimento (tal como no dia-a-dia nas escolas, universidades e empresas) a peça-chave da força do FMJE, contrariando as concepções tanto daqueles que consideram o FMJE como um «saco de gatos» sem identidade onde pode vir quem quiser (mesmo que venha defender o imperialismo), aos que, confundindo desejos com realidades, procuram implementar linhas de estreitamento do âmbito político-ideológico do Festival.

O espelho da unidade que representa o movimento dos Festivais poderia ser encontrado em muitos países, mas aqui mesmo em Portugal temos um bom exemplo no Comité Nacional Preparatório (CNP) português. Nesta estrutura participaram mais de 30 organizações, desde juventudes partidárias, a sindicatos, associações culturais, grupos de jovens, organizações de mulheres e de crianças, entre outros. De salientar, ainda, a participação do CNP na ampla campanha «Paz Sim, NATO Não!», ligando assim a luta anti-imperialista internacional à luta no plano nacional e ajudando a que a campanha chegasse ainda a mais gente através de dezenas de iniciativas realizadas no quadro da preparação do Festival, que assumiu expressão de massas em vários momentos, nomeadamente no Acampamento pela Paz (em Julho, em Avis) e na própria manifestação «Paz sim, NATO Não!», em Novembro.

Agora, e depois do 17.º FMJE, há que continuar a luta contra o imperialismo nas suas mais variadas expressões e prosseguir o trabalho de estabelecer cada vez mais e mais sólidas pontes com todos os que partilham desta luta, reforçando cada uma das organizações membro da FMJD em cada país, para que assim se reforcem estas preciosas ferramentas que a juventude anti-imperialista do mundo tem ao seu dispor para lutar: a própria FMJD e o movimento dos Festivais!