Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Internacional, Edição Nº 312 - Mai/Jun 2011

Cuba socialista - Os 50 anos de Playa Girón

por Jorge Cadima

No dia 17 de Abril de 1961, 1500 mercenários armados e escoltados pelo imperialismo norte-americano desembarcavam na costa sul de Cuba, numa agressão que visava provocar uma intervenção directa dos EUA para esmagar a jovem Revolução Cubana.
O imperialismo dos EUA, habituado a considerar a América Latina como seu pátio traseiro, não estava disposto a tolerar o exemplo duma Revolução que afirmava a sua independência. Sob a direcção de Fidel Castro, a Revolução Cubana conquistara o poder a 1 de Janeiro de 1959, derrubando o ditador de estimação de Washington, Fulgencio Batista, que a ditadura fascista viria a acolher em Portugal.
Após actos iniciais de sabotagem, em Março de 1960 o então Presidente dos EUA Eisenhower lança uma operação para derrubar a Revolução Cubana, sob a designação de «Operação Pluto» (1). O plano concreto de ataque em Playa Girón foi apresentado pela CIA já durante a presidência de J. F. Kennedy, que lhe deu o seu aval.

O desembarque foi precedido, no dia 15 de Abril, pelo bombardeamento de vários aeroportos por  aviões das tropas mercenárias. Os aviões partiram da Nicarágua (2), mas a comunicação social dos EUA falava numa “revolta de pilotos cubanos contra o regime”. Os dias seguintes seriam, aliás, férteis em mentiras e desinformação, visando criar a impressão de que os mercenários alcançavam vitórias decisivas, que contavam com apoio popular e que o regime revolucionário se desmoronava, chegando a ser noticiada a «fuga» de Fidel (3) - quando na realidade os invasores pouco passaram do local de desembarque. No dia seguinte aos bombardeamentos, a 16 de Abril de 1961, é proclamado o carácter socialista da Revolução Cubana.

O desembarque mercenário de 17 de Abril visava criar um território ocupado onde se pudesse instaurar um «Governo Provisório» que solicitaria a intervenção directa de tropas dos EUA. Mas a resposta pronta das forças armadas revolucionárias derrotou a invasão em menos de 72 horas, fazendo gorar esses planos. Foram capturados cerca de 1200 mercenários que, no ano seguinte, foram trocados por alimentos, medicamentos e tractores no valor de 53 milhões de dólares. Em finais de 1962, os mercenários foram «recebidos e homenageados pelo Presidente Kennedy» (4) na Florida.
Ao passar meio século sobre esta importante data, O Militante publica excertos do discurso de Fidel Castro no terceiro aniversário de Playa Girón (5), onde se aborda o significado da agressão e da sua derrota.


Discurso do Comandante Fidel Castro
no terceiro aniversário da vitória do povo de Cuba em Playa Girón


Assinalamos hoje o terceiro aniversário da vitória de Playa Girón. Esta data avoluma-se cada dia mais, adquire com cada novo dia a sua verdadeira dimensão aos olhos do nosso povo. Não significou a primeira agressão imperialista contra um povo da América Latina […]. São muito poucos os povos deste continente que não saibam o que é a intervenção, a pirataria, o gangsterismo e os golpes dos ianques, a começar por Porto Rico, país latino-americano que transformaram numa colónia.
Playa Girón representou a primeira derrota do imperialismo ianque na América Latina […]. Até àquele dia sempre tinham agido com total impunidade, até àquele dia sentiam-se no direito de desprezar os povos da América Latina, até àquele dia talvez tenham subestimado os nossos povos da América Latina.
A agressão imperialista de Playa Girón mostrou muitas coisas, mas mostrou, entre outras, que a Organização de Estados Americanos era um instrumento de dominação e colonização imperialista, um instrumento dócil nas mãos do Departamento de Estado [MNE dos EUA].

Quando o nosso país foi criminalmente agredido, bombardeado por aviões procedentes de diferentes bases centro-americanas, invadido por forças mercenárias escoltadas – além de armadas – pelo Governo dos Estados Unidos, o nosso país teve que enfrentar o ataque com o seu sacrifício e o seu sangue. Os Estados Unidos, o governo desse país, não recebeu sequer uma recriminação.
Poucos meses depois essa mesma Organização, que nem uma palavra de desaprovação teve aquando daquele atentado criminoso, expulsou Cuba, o país agredido, o país vítima, do seio da Organização de Estados Americanos. Esse facto ensinou-nos que, perante o imperialismo, esses organismos – instrumentos desse mesmo imperialismo – eram totalmente inúteis, e que não serviam outros interesses que não fossem os interesses dos inimigos dos povos.

Passaram três anos. Aquela vitória custou ao nosso povo um elevado número de vidas, vidas de trabalhadores, de camponeses, de soldados, vidas de civis, isto é, tivemos que pagar um alto preço. Mas significava isso que após aquele ataque teríamos de cruzar os braços? Que após aquele ataque nos deixariam viver em paz? Não! Os planos agressivos continuaram. Os imperialistas ianques não se resignaram à sua derrota e começaram a preparar novos planos de agressão.
Foi necessário fortalecer militarmente o nosso país, foi necessário tomar medidas para estar em condições de nos defendermos. E veio então a Crise de Outubro (6).
Desde há cinco anos, desde o próprio triunfo da Revolução, que o nosso país não conhece a paz. Durante cinco anos sofremos agressões de tipo económico, político e militar; durante cinco anos sofremos invasões do tipo de Girón, sabotagens como a do navio «La Coubre», incêndios como o que [foi ateado no dia 13 de Abril de 1961 nas lojas] «Encanto», a introdução no nosso país de armas, explosivos, agentes de todo o tipo, a organização de bandos contra-revolucionários que cometeram um sem número de crimes contra camponeses, contra professores, contra membros das brigadas [de alfabetização].
E, finalmente, a história destes cinco anos de Revolução é a história dum povo que se defende contra esse inimigo; é a história das agressões do imperialismo ianque contra o nosso país, dum povo que teve que defender incessantemente a sua obra, que não apenas teve que pagar um alto preço em sangue para derrubar a tirania instalada por esses interesses, armada por esse imperialismo, como teve que o continuar a pagar e teremos que o continuar a pagar não sabemos por quanto tempo ainda.
O nosso povo, sem abandonar por um único instante a sua defesa, teve que fazer frente ao bloqueio económico; teve que fazer frente a todos os entraves que um país rico e poderoso, de grande influência imperial, colocou no nosso caminho; teve que reconstruir a sua economia e levar adiante os seus planos a todos os níveis, sempre com uma espada pendurada sobre as nossas cabeças: a espada da agressão imperialista.

E nessas condições o nosso país avançou. Nessas condições levou adiante os seus planos, os seus planos de ensino, os seus planos de saúde, os seus planos de desenvolvimento económico com o povo, com os homens e mulheres mais humildes do povo, sofrendo não só todas as agressões de que já falámos, mas também a pirataria dos nossos técnicos.
Porque não se detendo perante nada, trataram inclusivamente de deixar o nosso país sem médicos, sem engenheiros, sem técnicos universitários; trataram de criar todas as condições, as piores condições, para fazer fracassar a Revolução; mas uma Revolução não é fácil de derrotar; não é fácil vencer a uma Revolução, e eles não conseguiram derrotar-nos! Não conseguiram derrotar-nos simplesmente porque esta é uma verdadeira Revolução! Se tivesse sido uma Revolução a meias, ter-nos-iam vencido; se tivesse sido uma Revolução tímida e cobarde, uma Revolução de vacilantes, ter-nos-iam vencido. E, não obstante, não nos venceram, nem conseguirão vencer-nos! [...]

Durante algum tempo após a Revolução Cubana, e não logo a seguir, mas mais de dois anos após o triunfo da Revolução Cubana, o Governo dos Estados Unidos começou a falar em planos de ajuda para a América Latina, começou a falar da «Aliança para o Progresso», começou a falar de reformas sociais. Claro que nunca nos Estados Unidos se tinha falado numa Reforma Agrária para os países da América Latina, nem de reformas de qualquer tipo; mas depois da Revolução Cubana, o medo que a Revolução Cubana despertou fez com que pela primeira vez em toda a sua história de país imperialista, começassem a falar de reformas sociais tais como a Reforma Agrária, Planos Educacionais, Reformas Tributárias; começaram a falar da existência de massas enormes de camponeses sem terra e que isso era o combustível para a Revolução. E então, alguns elementos chamados «liberais» que tinham alguma influência no anterior Governo [de Kennedy, nos EUA] conceberam aquela coisa da Aliança para o Progresso.

Naturalmente tratava-se duma mera cilada, um logro para os povos da América Latina, uma pomada para tratar de curar o cancro da miséria deste continente, que ao fim e ao cabo não tinha outro propósito que não fosse o de consolidar a dominação económica e política dos Estados Unidos sobre a América Latina […].
Era mais ou menos assim que descreviam a sua política. Mas na realidade verificaram-se golpes de Estado constantes, verificou-se que nesses governos pseudo-democráticos, no Perú, no Equador, nas Honduras ou na Argentina, os verdugos, alentados pelo Pentágono, tomavam o poder, invocando sempre o argumento do anti-comunismo; até Presidentes como Frondizi [na Argentina], que eram instrumentos servis do imperialismo, foram derrubados, alegando-se ser necessário restabelecer a ordem, que era necessário evitar o perigo comunista. […]
Somos a primeira Revolução Socialista neste continente, a primeira, e proclamamo-lo com muito orgulho! Somos a vanguarda deste continente, o primeiro país sem analfabetos neste continente, o pequeno país que se irá colocar à cabeça da técnica, da cultura e do progresso, no seio dos povos deste continente. Que ninguém duvide disso; o esforço realizado nestes cinco anos, os progressos alcançados, garantem o nosso futuro. E os imperialistas sabem-no: não pode haver progresso dum qualquer povo com 60, 70 ou 80% de analfabetos; o problema da abundância não é apenas um problema de dispôr de instrumentos de trabalho, mas de ter a capacidade para utilizar esses instrumentos de trabalho, de dominar a técnica. E no meio das dificuldades, das agressões, dos bloqueios, avançámos extraordinariamente na preparação técnica e cultural do nosso povo, sem a qual não há progresso […].

Somos e seremos um exemplo. E a fé em nós depositada pelos povos explorados deste continente, e até de outros continentes, essa fé nunca a defraudaremos, porque não se baseia numa mentira, nem numa farsa, baseia-se numa realidade. Essa esperança, essa confiança depositada no nosso povo, não será defraudada, qualquer que seja o perigo, o momento ou a circunstância! […]
Que vivam para sempre os que caíram em Girón! Seremos fiéis ao seu exemplo, fiéis à sua memória! Pátria ou Morte! Venceremos!


Notas

(1) http://www.bohemia.cu/variado/graf-interact/historia/giron-bahiadecochinos.swf
(2) A Nicarágua vivia então sob a ditadura pró-imperialista da família Somoza, facto que apenas se veio a alterar com a Revolução Sandinista de 1979.
(3) http://www.cubasocialista.cu/texto/0004080mentiras.html. As «notícias» inventadas pelas agências de notícias AP e UPI («queda» da cidade de Pinar del Río, cerco ao porto de Bayamo, combates nas ruas de Havana, destruição do Hotel Habana Libre num bombardeio aéreo, fuga de Fidel e captura de Raúl, etc.) são duma actualidade evidente, tendo em conta as campanhas de mentiras que visam justificar as actuais «guerras humanitárias» do imperialismo.
(4) Wikipedia, http://es.wikipedia.org/wiki/Invasi%C3%B3n_de_la_Bah%C3%ADa_de_Cochinos
(5) http://www.cuba.cu/gobierno/discursos/1964/esp/f190464e.html
(6) A chamada «crise dos mísseis» de Outubro de 1962.