Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Internacional, Edição Nº 317 - Mar/Abr 2012

O imperialismo e a crise mundial

por Jorge Cadima

O momento actual é de enormes perigos para a Humanidade. Os acontecimentos sucedem-se a ritmo vertiginoso. No curto espaço de 20 anos, a euforia da vitória do imperialismo sobre o campo socialista transformou-se numa crise do sistema capitalista de proporções históricas e os limites do sistema capitalista são hoje uma evidência difícil de negar. O recurso à lei da força e da guerra como prática corrente nas relações internacionais – a tradicional política da canhoneira – é de novo a norma. A estagnação ou crise aberta nos velhos centros imperialistas (EUA e Europa), e também no Japão, contrasta flagrantemente com a emergência de novas potências, como os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). A incapacidade das velhas potências imperialistas para ultrapassar a sua profunda crise (evidenciada nos últimos três anos) faz ressurgir os mais reaccionários ímpetos agressivos. É clara a opção por uma autêntica guerra contra os seus próprios povos, visando destruir as conquistas sociais que a luta de classes havia imposto em décadas anteriores. E estas políticas são inseparáveis duma escalada autoritária e de cariz fascista (quaisquer que sejam as formas exteriores de que se revista) no plano interno.

Os realinhamentos económicos

Enquanto se aprofunda a crise económica das velhas potências imperialistas, o crescimento económico impetuoso da China e outras potências emergentes gera uma situação mundial com traços qualitativamente novos. Os efeitos desta alteração fazem-se sentir de múltiplas formas. Há poucos anos seria impensável ler um título como «Ajudem-nos, implora a Europa à China» (Daily Mail, 28.10.2011), dando conta dos contactos para convencer a China a investir nos Fundos que as Cimeiras da UE queriam criar para salvar o euro. A entrada de empresas chinesas no capital da EDP e REN (no quadro da privatização que o PCP firmemente condena) ilustra o facto de que a presença económica chinesa já não é uma realidade de peso apenas na Ásia, África ou América Latina. No final de 2011 a segunda e terceira maiores economias do mundo, China e Japão, assinaram um acordo para efectuar as suas trocas comerciais nas respectivas divisas, evitando a utilização do dólar (Wall Street Journal, 26.12.2011). Este acordo, que se segue a numerosos outros acordos bilaterais do mesmo tipo estabelecidos nos últimos anos pela China, objectivamente socava o poder financeiro dos tradicionais centros imperialistas. No mesmo dia, a BBC anunciava que, segundo um estudo dum centro de pesquisas económicas, CEBR, o Brasil havia ultrapassado o Reino Unido, transformando-se na sexta maior economia mundial. O mesmo estudo antevê que em 2020 (daqui a apenas oito anos!), nenhum país europeu se encontrará entre as seis maiores economias mundiais, com a Alemanha a cair do actual 4.º para 7.º lugar e a França do 5.º para 9.º lugar. Entre os seis primeiros, encontrar-se-ão a China, a Rússia, a Índia e o Brasil. No século passado, a recusa de aceitar realinhamentos deste tipo contribuiu para a eclosão das duas grandes guerras mundiais.

O militarismo e a guerra como norma na política internacional

Toda a história comprova que o imperialismo é inseparável da guerra e da agressão. As duas décadas decorridas desde a destruição da URSS e as vitórias contra-revolucionárias no Leste europeu tornaram ainda mais patente esse facto. Foram anos de guerras quase permanentes, no Iraque (por duas vezes), Jugoslávia, Afeganistão, Líbano, Palestina, Líbia, sem contar com as incursões e ataques pontuais, ou as operações militares conduzidas por forças especiais e serviços secretos imperialistas ou exércitos mercenários ao serviço do imperialismo (como na Síria, Paquistão, Somália, Iémene, os assassinatos de cientistas e ataques terroristas contra o Irão, ou ainda, de forma crescente, em vários países de África). Assiste-se hoje à glorificação não apenas da guerra, como da captura e execução de chefes de Estado estrangeiros que resistem aos ditames das potências imperiais, sendo o exemplo mais recente o linchamento de Gadafi.

O imperialismo promove a subversão total do Direito Internacional que emergiu da derrota do nazi-fascismo. A ONU, reflectindo a correlação de forças a nível dos governos do planeta, é crescentemente instrumentalizada para «legitimar» ou mesmo promover as guerras imperialistas, como ficou patente na agressão à Líbia.

Em Janeiro deste ano, a BBC divulgou a «História de bastidores da missão secreta do Reino Unido para derrotar Gadafi» (19.1.2012). Nessa peça, a instituição porta-voz do imperialismo inglês confessa que «os esforços britânicos para ajudar a derrubar o Coronel Gadafi não se limitaram às incursões aéreas. No terreno – e pela calada – soldados das forças especiais misturaram-se com os combatentes rebeldes. Esta é a história nunca antes contada do papel crucial que desempenharam». Nessa peça, a BBC confirma que «figuras chave em Downing Street [sede do governo inglês] estavam convencidas que apenas bombardeamentos não alcançariam o resultado que desejavam» – a mudança de regime – dando luz verde à intervenção das forças especiais no terreno, apesar da Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU explicitamente proibir a presença de «qualquer força de ocupação estrangeira, sob qualquer forma, em qualquer parte do território líbio». Confirma que também havia tropas especiais francesas e tropas do Qatar, Jordânia e Emiratos Árabes Unidos no terreno. Confirma que a França violou o embargo de armamento decretado pela Resolução 1973, entregando armas aos «rebeldes», enquanto a Inglaterra fazia as entregas por intermédio do Qatar. Confirma que tropas estrangeiras desempenharam um papel crucial na ocupação de Tripoli e Sirte. Deixa no ar que tropas terrestres inglesas participaram no assalto que conduziu ao linchamento de Gadafi, afirmando que «ainda ninguém o quer dizer».

A própria Amnistia Internacional (27.1.2012) fala da «morte de detidos num quadro de tortura generalizada» na Líbia «libertada» pelas bombas da NATO. A BBC refere «milhares de pessoas em centros de detenção secreta» (26.1.2012). Já assim foi no Iraque, no Afeganistão e noutros países vítimas do imperialismo. E não se trata apenas de mortes e presos torturados. As guerras imperialistas produzem milhões de refugiados. Segundo o Relatório Global Trends 2010 da Agência da ONU para os Refugiados, UNHCR – presidida por António Guterres –, os países do mundo de onde é proveniente o maior número de refugiados são o Afeganistão (mais de três milhões) e o Iraque (1,7 milhões). Os países que mais acolhem estes refugiados são todos países ameaçados por novas guerras imperialistas: o Paquistão (1,9 milhões), o Irão e a Síria (um milhão em cada país) (1).

É importante ler as confissões que hoje – passada a fase operacional – vão surgindo na comunicação social oficial dos regimes imperialistas sobre a guerra na Líbia. Importante por revelarem a verdade que essa mesma comunicação social escondeu quando poderia obstaculizar à guerra (confirmando assim que esses grandes meios de comunicação social são parte integrante da estrutura de poder do imperialismo). Importante porque revelam como a mentira permanente é prática quotidiana desses regimes. Importante porque ajuda a descodificar as mentiras dos dias de hoje relativas a outros países alvos do imperialismo, como a Síria e o Irão.

A nova estratégia militar dos EUA

Na passagem de ano foi anunciada por Obama a nova Revisão da Estratégia de Defesa dos EUA. Nalguma comunicação social falou-se de cortes nas despesas militares. Deixemos que seja o próprio Obama a esclarecer a questão: «nos últimos dez anos, desde o 11 de Setembro, o nosso orçamento de defesa cresceu a um ritmo extraordinário. Nos próximos dez anos, o crescimento no orçamento de defesa irá tornar-se mais lento, mas a essência da questão é esta: vai continuar a crescer, porque temos responsabilidades globais que exigem a nossa liderança. De facto, o orçamento de defesa vai continuar a ser maior daquilo que era no final da Administração Bush» (2). O Prémio Nobel da Paz anunciou formalmente o objectivo de garantir que «o nosso orçamento de defesa continue a ser maior que o dos próximos dez países em conjunto». Anunciou igualmente que a prioridade das forças armadas dos EUA vai-se virar para a região Ásia-Pacífico «onde iremos fortalecer a nossa presença […] sem que os cortes orçamentais afectem essa região crítica». Não é preciso ser adivinho para perceber a referência à China, já evidente na recente decisão dos EUA em instalar pela primeira vez uma base militar permanente na Austrália.

O facto do orçamento militar dos EUA crescer mais lentamente reflecte as enormes dificuldades financeiras do país-guia do imperialismo mundial. A anunciada redução de efectivos das forças armadas dos EUA (de 570 mil para 520 mil) pode reflectir também a crescente desmoralização duma força militar que é carne para canhão duma classe dirigente corrupta e criminosa, que também sacrifica o povo norte-americano. Não é casual que parte importante dos participantes do movimento «Occupy Wall Street» seja veterano de guerra. E é impressionante a notícia da imprensa militar de que nos EUA se suicidam 18 veteranos de guerra por dia (Army Times, 22.4.2010).

Mas não se deve exagerar a importância desses cortes. Como afirmou na cerimónia de apresentação do documento estratégico o Vice-Ministro da Defesa Ashton Carter: «nalgumas situações podemos melhor alcançar os nossos objectivos […] por outras vias que não a invasão e ocupação terrestre».

Os aviões não tripulados (drones) constituem já um terço dos aviões militares dos EUA (Los Angeles Times, 26.1.2012). Segundo o New York Times (21.1.2012), em 2011 foram utilizados em «centenas de ataques – secretos ou não», sem que suscitassem grande oposição, tratando-se «duma tecnologia que retira as últimas barreiras políticas à guerra». O jornal cita como exemplo as operações na «não muito secreta guerra no Paquistão, onde os Estados Unidos levaram a cabo mais de 400 ataques de drones desde 2004. E no entanto, esta operação nunca foi debatida no Congresso […]. Esta campanha não é conduzida pela Força Aérea, mas pela CIA». O artigo refere a utilização em larga escala de drones na guerra da Líbia, «incluíndo no último dos ataques, que atingiu a caravana do Coronel Gadafi em 20 de Outubro e levou à sua morte». O jornal dos EUA olha-se ao espelho quando afirma que a utilização de drones não sofre contestação. No Paquistão e Afeganistão, onde estes robots da morte são já responsáveis por centenas de mortes civis, a sua utilização é motivo de forte contestação popular e até governamental. Mas a notável captura pelo Irão dum drone norte-americano de última geração (o RQ-170 Sentinel, cuja existência oficial nem sequer havia sido confirmada), após tomar controlo electronicamente dos seus comandos, revela que mesmo as mais sofisticadas armas de morte têm calcanhares de Aquiles.

O Médio Oriente

Se a China em ascensão é o grande alvo estratégico do imperialismo norte-americano, nem por isso (como foi frisado na cerimónia) o Médio Oriente deixa de ter um papel crucial: o controlo dos seus gigantescos recursos energéticos é de importância estratégica. Neste contexto, a retirada das forças armadas norte-americanas do Iraque representa uma derrota para a super-potência imperialista, que viu os limites do seu poder evidenciados perante o mundo. Mas seria um erro pensar que os EUA se retiram definitivamente, ou que aceitam a sua derrota. Podemos estar perante uma redisposição de forças, na preparação de outras agressões na região. A retirada das forças armadas oficiais não significa a retirada dos mercenários ou forças especiais. Nem significa o fim da guerra suja que, desde a entrada das tropas de ocupação dos EUA, tem procurado dividir os iraquianos através de mortíferos atentados terroristas. Num acontecimento quase silenciado, juízes iraquianos emitiram, «no dia seguinte à saída do último contingente de tropas americanas», um mandato de captura contra o Vice-Presidente do país, acusando-o de chefiar um esquadrão da morte responsável por atentados e assassinatos (NYT, 19.12.2011). O Vice-Presidente Hashimi, descrito pelo New York Times como «um aliado próximo dos Estados Unidos» (NYT, 20.12.2011), foi incriminado por três dos seus próprios guarda-costas. Está fugido na zona curda do norte do Iraque, protegido pelas forças leais aos EUA. Em simultâneo, reacenderam-se os mortíferos ataques bombistas em larga escala em Bagdade.

Verifica-se hoje um realinhamento geral da política das potências imperialistas na região, realinhamento também associado à chamada «Primavera árabe». A política do imperialismo anglo-franco-norte-americano passa hoje por uma aliança com os sectores mais tradicionalistas do fundamentalismo religioso inspirado e financiado pela Arábia Saudita e Qatar. Exemplo escandaloso dessa nova aliança é a nomeação de Belhadj, fundamentalista islâmico que chegou a ser torturado pela polícia secreta inglesa (Telegraph, 12.1.2012), como comandante militar de Tripoli, por obra e graça das bombas da NATO. E que dizer da notícia de que «al-Zawahri, chefe mundial da Al Qaeda desde a morte de Osama bin Laden» apela à «solidariedade com os protestos anti-governamentais na Síria»? A «guerra ao terrorismo» transformou-se numa pouco santa aliança EUA-UE-Al Qaeda... tal como no início dos anos 80. Estas reviravoltas são bem o espelho da total falta de escrúpulos e moral da política dos principais centros imperialistas. Vale a pena registar que poucos são os governos laicos (e anti-imperialistas) que sobrevivem no Médio Oriente nos dias de hoje.

A frente interna

A ofensiva do imperialismo no plano mundial é indissociável da ofensiva contra os povos nos próprios centros do imperialismo. A guerra contra os povos da UE, conduzida a partir dos centros dirigentes da UE, é uma tentativa de ajuste de contas com os avanços alcançados pelas lutas populares e revoluções de muitas décadas. Visa dar um salto qualitativo nos níveis de exploração dos trabalhadores e povos europeus, como foi feito nas décadas passadas em boa parte do planeta (incluíndo os EUA). Mas as políticas de guerra contra os povos, nos planos externo e interno, são inconciliáveis com um quadro de democracia e liberdade. E as classes dirigentes sabem-no. Recentemente, o Chefe de Estado Maior General das Forças Armadas dos EUA falou de preocupação por motins nas ruas da Europa (BBC, 10.12.2011). Os motins do Verão passado na Inglaterra ilustram que o descontentamento social atinge níveis explosivos mesmo fora da periferia europeia. Por isso, as classes dirigentes reforçam os mecanismos de repressão. A crise na Grécia é também um balão de ensaio para medidas repressivas que até há pouco seriam consideradas impensáveis, como evidenciado por apelos ao golpe militar. Jornais ingleses informam que «tropas paraquedistas estão a ser treinadas para conter distúrbios» nas ruas de Inglaterra (Telegraph, 28.1.2012). Dos EUA chega a notícia de que Obama assinou, no último dia de 2011, uma lei (NDAA) prevendo a detenção por tempo indeterminado de cidadãos dos EUA por forças militares, à margem do sistema judicial (Guardian, 2.1.2012). Por toda a parte sobem de tom as perseguições anti-comunistas. Não se devem subestimar os perigos de involuções autoritárias num futuro próximo.

A resistência

Neste quadro, não devem também ser subestimados os perigos de que o imperialismo esteja a preparar um conflito de grandes proporções, numa tentativa desesperada de manter a sua hegemonia planetária pela força das armas. Uma aventura militar imperialista envolvendo um ataque à Síria, ao Irão, ou no Líbano pode vir a resvalar para uma tragédia de dimensões globais. O recente veto da Rússia e China no Conselho de Segurança da ONU reveste-se assim de significado positivo. Reforça a resistência que os países progressistas da América Latina já haviam manifestado durante a agressão à Líbia. Reforça aquelas forças que, no próprio Médio Oriente, resistem aos planos de ocupação e recolonização imperialista. Reforça a resistência que prossegue na Líbia, no Afeganistão, na Palestina e em todo o Médio Oriente. Mas a agressão imperialista está em marcha.

Em última análise, a História é feita pelos povos. Será esse o factor decisivo para derrotar os planos de guerra (militar ou social) do imperialismo.

Notas

(1) Estes números não englobam os refugiados internos, nem os cinco milhões de refugiados palestinos, que estão sob a alçada de outra agência da ONU.

(2) Do texto oficial da intervenção de Obama aquando da apresentação do «Defense Strategic Review», 5 de Janeiro de 2012.