Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Tema, Edição Nº 321 - Nov/Dez 2012

O contributo de Marx para o marxismo

por António Avelãs Nunes

Aproveito as notas que utilizei na apresentação que fiz na Festa do Avante (8.9.2012) de um trabalho de Sérgio Ribeiro, intitulado O contributo de Marx para o marxismo, separata do Boletim de Ciências Económicas (Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra), vol. LV (2012).

1.

A apresentação de uma obra não deve substituir a sua leitura por aqueles a quem ela se destina. Porque cada leitor fará dela a sua própria leitura e enriquecerá, com o seu contributo, o contributo do autor. Ponto é que haja leitores dispostos a «suar as estopinhas». Fica o desafio. É um bom exercício, recomendado a todos os marxistas militantes, empenhados em dar o seu contributo para transformar o mundo. Porque sem teoria revolucionária não há acção revolucionária.

2.

Não faria sentido eu tentar resumir o conteúdo deste trabalho do Sérgio Ribeiro, que parece uma obra pequena mas é um texto muito pensado, muito trabalhado, muito denso. Limitar-me-ei, por isso, a algumas notas, muitas vezes transcrevendo o texto do Sérgio, para sublinhar a importância do contributo de Marx para o marxismo, ontem e hoje.

1. ª NOTA

O relevo dado à confissão de Marx de «ter suado as estopinhas para chegar às próprias coisas, quer dizer, à sua conexão».

Um dos contributos de Marx para o marxismo é a permanente e autêntica «lição de rigor e de modéstia» que ele nos dá. Não se chega às coisas sem muito trabalho (sem suar as estopinhas) e o importante, para os marxistas, é chegar às coisas, às suas conexões.

2.ª NOTA

O marxismo não acabou com Marx: ele é apenas o ponto de partida. O Capital não é uma construção acabada, não é uma bíblia e Marx não é o nosso Profeta. O marxismo não é um dogma, mas um método de análise cuja validade há-de sempre confirmar-se confrontando-o com a realidade. E a realidade não é algo de definitivo, porque – como bem sabia o nosso Camões – «todo o mundo é composto de mudança».

O marxismo é uma metodologia para abordar, ler e compreender a realidade, mas não há catecismos no marxismo, não há pensamento único no marxismo.

3.ª NOTA

O marxismo é também um guia para a acção. Embora a realidade se vá transformando «sem estar à espera dos nossos esforços para a transformar», é importante levar a sério a injunção de Marx na 11.ª Tese sobre Feuerbach: «Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes. A questão, porém, é transformá-lo».

Sabemos que «o capitalismo por si, e por si só, não rebentará. Procurará sempre novas saídas, (…) intensificando a exploração até ao limite do suportável».

Sabemos também que «não há nenhuma receita para a transformação do mundo. A questão é que há que transformá-lo». A nosso favor temos a consciência de que, como sublinha Eric Hobsbawm (A Era dos Extremos), «o futuro não pode ser uma continuação do passado, e há sinais, tanto externamente como internamente, de que chegámos a um ponto de crise histórica. (…) O nosso mundo corre o risco de explosão e de implosão. Tem de mudar».

4.ª NOTA

Só conseguiremos transformar o mundo encurtando o «limite do suportável». E esta é uma tarefa da luta de classes, cujo êxito depende da correlação de forças entre o trabalho e o capital, porque dela depende a ocorrência do momento histórico em que, inviabilizada a exploração que é a essência do modo de produção capitalista e o combustível que permite o seu funcionamento, se abre uma «época de revolução social» e o capitalismo chega ao fim do caminho.

Por isso é que – por mais que se escandalizem com esta ‘verdade dinossáurica’ os aproveitadores e os servidores da ordem estabelecida – a história da humanidade até aos nossos dias é a história da luta de classes. Por isso é que a luta de classes é o motor da história.

5.ª NOTA

Nos dias de hoje é particularmente importante a «vertente ideológica da luta de classes».

O grande capital financeiro controla, praticamente em monopólio, a produção da ideologia dominante, que é, como sempre foi, a ideologia das classes dominantes, cada vez mais a ideologia dominante do sector dominante das classes dominantes, a ideologia do pensamento único, a ideologia TINA (There is no alternative), a ideologia de que não há alternativa ao capitalismo, ao mercado, à livre circulação de capitais, à política de globalização neoliberal.

Aos trabalhadores intelectuais cabe, pois, uma importante tarefa na empreitada de transformar o mundo: temos o dever de resistir, no terreno do trabalho teórico (que nos ajuda a compreender a realidade para melhor intervirmos no sentido de a transformar) e no terreno da luta ideológica (que nos ajuda a combater os interesses estabelecidos e as ideias feitas), porque a luta ideológica – insisto, com o Sérgio Ribeiro, que tem combatido muito e bem nestes terrenos – é, hoje mais do que nunca, um factor essencial do combate político, das lutas sociais, da luta de classes.

6.ª NOTA

O contributo de Marx para o marxismo não se esgota no tempo em que ele investigou, escreveu e actuou nas lutas sociais.

Porque Marx procurou, sobretudo, «encontrar as dinâmicas da história da Humanidade», «com uma base teórica que lhe permitiu construir uma interpretação do passado capaz de ajudar a extrapolar para o tempo a ser vivido».

Neste trabalho, Sérgio Ribeiro dedica particular atenção à presença da moeda na história do funcionamento do modo de produção capitalista. E a análise que faz do contributo de Marx nesta matéria ilustra muito bem, a meu ver, o que quero destacar nesta 5.ª nota.

Concebendo as relações de produção como relações sociais entre seres humanos (ou entre classes sociais) com coisas de permeio, a coisa específica que intervém nas relações de produção capitalistas é o dinheiro, como meio de troca, como mercadoria universal.

Na sua análise, Marx tomou em conta apenas o dinheiro metálico, porque – explica ele – naquela «primeira época da produção capitalista», o dinheiro simbólico (fictício) é «uma especialidade de certos estados» e o dinheiro creditício «ainda não está desenvolvido (…), não desempenha nenhum papel, ou [desempenha um papel] apenas insignificante».

Acontece que o dinheiro fictício e o dinheiro creditício ganharam um enorme relevo e uma importância crescente a partir do início da década de 1970, com a decisão unilateral da Administração Nixon de romper com os Acordos de Bretton Woods, deixando de garantir a conversão do dólar em ouro a uma certa paridade.

Esta desmetalização do dinheiro, esta desmaterialização da circulação monetária está na origem da financeirização da economia capitalista e do desenvolvimento da especulação como modo de actuação do capital financeiro (que descobriu um modo autónomo de ganhar dinheiro), transformando o capitalismo em capitalismo de casino desligado da economia real.

7.ª NOTA

A actualidade de Marx e do método marxista de abordagem da realidade fica às claras se lermos este trecho extraído pelo Sérgio Ribeiro do Livro Terceiro de O Capital:

«Se o sistema de crédito é o propulsor principal da superprodução e da especulação excessiva e acelera o desenvolvimento material das forças produtivas e a formação do mercado mundial, o crédito acelera (ao mesmo tempo) as erupções violentas (as crises), levando a um sistema puro e gigantesco de especulação e de jogo».

Marx não valorizou, nos seus escritos, o papel do dinheiro creditício, porque, no seu tempo, o dinheiro creditício ainda não estava desenvolvido. Mas a verdade é que, mesmo sem ser bruxo, Marx foi capaz de compreender que a realidade do seu tempo iria mudar. Os seus conceitos teóricos e a metodologia da sua abordagem da realidade permitiram que ele antecipasse um tempo em que é indispensável estudar e valorizar o papel do dinheiro creditício, porque o seu desenvolvimento iria conduzir o capitalismo a «um sistema puro e gigantesco de especulação e de jogo».

Vendo na ordem capitalista apenas uma fase transitória do processo histórico, Marx pôs em destaque que as categorias económicas do capitalismo não são leis eternas (o capitalismo não é o fim da história), antes leis históricas e transitórias, válidas apenas para um período marcado por um nível determinado das forças produtivas e condenadas a perder sentido perante o «movimento contínuo de crescimento nas forças produtivas, de destruição nas relações de produção, de formação na ideias».

Esta metodologia é que permitiu a Marx perspectivar a evolução do capitalismo até se transformar no que ele é hoje, segundo o diagnóstico de Marx: «um sistema puro e gigantesco de especulação e de jogo».

Munidos desta metodologia, cabe aos marxistas suar as estopinhas para aprofundar a análise teórica com o mesmo rigor e a mesma humildade de Marx. Só assim podemos compreender melhor a realidade que nos cerca e as mudanças que definem as formas que o capitalismo está a assumir e continuará assumindo ao longo deste nosso século, e intervir correctamente no sentido de transformar o mundo.

8.ª NOTA

Sérgio Ribeiro faz isto mesmo a propósito desta problemática do dinheiro fictício e do dinheiro creditício, ajudando-nos a conhecer as raízes e a natureza da crise que anda por aí à solta, que não pode explicar-se convenientemente com base na ‘teoria’ das bolhas ou dos excessos cometidos por alguns malandros ou mesmo pelos mercados (que, descobriu a angelical Ângela Merkel, também cometeram excessos, os malandros... Quem diria…).

Sérgio Ribeiro conclui, a este propósito, que «o esforço para contrariar a baixa tendencial da taxa de lucro pela via da especulação é novo vector suicidário do sistema que só sobrevive com a intensificação da exploração até ao limite do suportável». E acrescenta: «os problemas criados pelo ‘escape’ do capital dinheiro fictício e creditício não se resolvem com a injecção de mais dinheiro e de mais crédito». Por esse caminho, «agudizam-se e criam-se novos problemas».

É esta a nossa certeza: «a única via real pela qual o modo de produção e a organização social que lhe corresponde caminham para a sua dissolução e a sua metamorfose – escreveu Marx – é o desenvolvimento histórico dos seus antagonismos permanentes». As contradições que se vão desenvolvendo no seio do capitalismo vão minando a sua capacidade de resistência. Longe de ver garantida a sua eternidade, o capitalismo caminha para o seu fim. Só não sabemos quando ele chegará.