Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Tema, Edição Nº 324 - Mai/Jun 2013

O XIX Congresso do PCP e a comunicação social

por Carina Castro

Sabemos, vimos e lemos que o XIX Congresso do nosso Partido foi um êxito. Sabemos porque participámos na sua construção, vimos porque estivemos lá – delegados e convidados – e lemos porque acompanhámos o site do Partido e as edições do Avante! e de O Militante.

E foi um êxito não só pela forma como decorreu – culminando um intenso, colectivo e participado processo preparatório –, mas sobretudo pelos objectivos que traçou para o futuro do Partido e do País.

Tratou-se de um momento de extraordinária importância para os comunistas portugueses (e não só), em que a profundidade da análise da situação do país e das propostas para a alternativa política e a política alternativa constituíram um momento ímpar para o reforço e continuidade da luta dos trabalhadores, restituindo a esperança e a confiança num futuro melhor.

Este foi o Congresso em que os lutadores falaram da luta, onde se deixou o testemunho de um país e de um povo vítimas da política de direita, e se apontou a esperança e a confiança num futuro em que um governo patriótico e de esquerda concretize a ruptura com mais de 37 anos de política de direita, e com o Pacto de Agressão das troikas, e empreenda os valores de Abril no futuro de Portugal.

Mas este não foi o Congresso visto por quem leu os jornais, ou viu e ouviu as televisões e rádios nacionais. O mote da maioria dos órgãos de comunicação social – apesar da significativa deslocação de meios – foi afunilar, reduzir a diversidade, dimensão e profundidade da proposta, análise, participação, entusiasmo e militância a duas ou três parangonas – «O Congresso aponta a demissão do governo e a necessidade de eleições antecipadas»; «PCP quer a saída de Portugal do euro»; «Este é um Congresso para eleger o próximo Comité Central».

Em síntese, foi isto, com contornos sensacionalistas e preconceituosos a querer fazer do Congresso um espectáculo oco, procurando o soundbyte que faz a notícia, tentando resumir o grande colectivo partidário a dois ou três protagonistas. Só faltou o comentário à indumentária dos apontados como protagonistas.

Mas temendo que o afunilamento não fosse suficiente para desvalorizar este momento maior da vida do nosso Partido e do país, impunha explicarem como esse partido é «previsível e sem nada de novo» e com «paredes de cimento». Os diversos órgãos de comunicação social, vendo o PCP e o seu Congresso com olhos de quem vê os congressos e partidos da grande burguesia, depararam com o primeiro e grande desafio: o que fazer para minimizar as propostas apresentadas e como tratar um acontecimento sem dissidências nem lutas pelo poder?

E assim, sobre a proposta do PCP de ruptura com a política de direita, de construção da alternativa com um governo e uma política patrióticos e de esquerda, logo chegaram a conclusão unânime: «se o PCP não aponta de imediato uma aliança com BE e/ou PS, não faz uma proposta de governo séria e consequente. É fácil para o PCP, que é um partido de resistência, de oposição, que não é para ser levado a sério como protagonista da vida política nacional, como alternativa, não é um partido de poder, por isso lança assim umas propostas vagas», porque «o problema do governo de esquerda é com quem». Pois é: e então os democratas e patriotas que o PCP considera a base social das suas alianças? A resposta pretendida por tais comentadores irrompe em jeito de pergunta: «mas isso é o BE ou o PS?». Vão ao ponto de dizer que o PCP «não avança conclusões concretas de como o fazer», não «desvenda esse mistério» (!). Ainda que um deles tenha deixado escapar: «É preciso ter atenção a este partido porque na sua intervenção Jerónimo de Sousa falou para todos os descontentes: trabalhadores, empresários, intelectuais, reformados [...]». Afinal parece que se trata mesmo de uma proposta séria. Será que algum dos comentadores sabe que há um Programa e uma Resolução Política? Será que os telespectadores que não conhecem o PCP ficaram a conhecer, ou a saber da existência de tais documentos? Chega-se a dizer: «Na actualidade o PCP conseguiu encontrar uma narrativa magnífica. Ou seja, um partido de descontentamento anti-troika e anti-austeridade, que reclama que tem razão quando alertava sobre estas políticas». Isto é, factos objectivos são encarados como «narrativa magnífica»! Os media, cada vez com menos memória, parecem ignorar o que a história ensina: a luta determina a relação de forças, a base social de apoio de partidos e políticas, a consciência daqueles que, inevitavelmente, são os protagonistas das transformações e da história.

Sobre as questões de direcção, prevaleceu a intriga. Mas quem conhece o PCP sabe que estas questões têm uma naturalidade decorrente de um processo profundamente democrático e colectivo que não se encaixa em intrigas. Entrevistou-se uma e outra vez, quem sai, quem entra: «Sai a bem?»; «Está de acordo?»; «Vai continuar no PCP?»; «Foi ouvido?». Mais adiante, procurou-se interpretar/deturpar o rejuvenescimento dos órgãos de direcção, admitindo que é uma realidade, mas «como é hábito no PCP, isso significa sempre um aprofundar da ortodoxia»; «o PCP não tem dificuldade em renovar quadros com sucesso, mas as questões ideológicas não estão associadas a esse rejuvenescimento. O marxismo-leninismo está sempre presente». Acontece que isto não merece contestação da nossa parte, é sim motivo de orgulho! E no entanto, este mesmo facto pode ser visto com preconceito. E é este preconceito que imprime o tom dominante de quem comenta o Congresso e a realidade nacional.

Comentadores houve que chegaram a assumir: «Nunca se sabe o que se passa no PCP – tem um lado pouco mediático, também por responsabilidade da comunicação social. É difícil analisar os novos protagonistas porque não se conhecem». Isto é inegável, pois quem comenta o Congresso não conhece a generalidade dos dirigentes do Partido. E porquê? É porque não dinamizam, nem estão presentes em iniciativas públicas para as quais se convoca a comunicação social? Será que não fazem conferências de imprensa? Viverão escondidos numa cave escura? Nada disso. A verdade é porque não aparecem na televisão, nem têm colunas de opinião e comentário (ao contrário de outros) e sobre isso já muito tem protestado o PCP. Afinal, quem é que determina essa mediatização?

Também o funcionamento e a unidade do nosso Congresso mereceram reparos e críticas de jornalistas e comentadores. O facto de os delegados não deslocarem o Congresso para os microfones da televisão foi alvo de crítica. A unidade e força do Congresso, ao contrário das divisões que ocorrem noutros partidos, «é só e lamentavelmente unanimismo»; «afinal onde está o debate?»; «um partido que só não tem problemas maiores pelas características do Secretário-geral». A sessão reservada mereceu igualmente críticas. Nas televisões é feito grande aparato, com directos nos jornais das 20h: «estamos ao frio, como é tradição no PCP»; «fomos obrigados a desligar os equipamentos, como é tradição no PCP», procura-se filmar delegados a sair e entrar. Houve até quem, insistentemente, perguntasse aos convidados se estavam de acordo com o facto da sessão ser reservada. E como a resposta obtida foi um unânime acordo, passaram a outra pergunta: «então, mas não gostava de poder assistir?»

Conclusão: tudo o que de bom há a registar é criticável, ou resultado de factores circunstanciais em que que a ideologia e o projecto do PCP nada têm a ver.

Outro momento digno de registo teve a ver com o vídeo de homenagem ao camarada Álvaro Cunhal. Não podendo deixar de reconhecer a merecida homenagem, procuraram, contudo, explorar contradições inexistentes: o Partido do colectivo que homenageou o indivíduo, levando ao limite as legítimas e privadas emoções de delegados e convidados: «procurar a lágrima», «o momento mais emotivo». E por fim recorre-se ao anticomunismo: «o vídeo não contempla aspectos negros da história do Partido, parece que voltámos a antes da queda do muro»; «Existem contradições – o Partido é incapaz de falar sobre a Rússia e a China (com representantes no Congresso)». Houve mesmo um conhecido comentador da nossa praça que na sua rubrica semanal transformou o Congresso num comentário sobre o camarada Álvaro, mencionando que sendo verdade que as suas previsões em relação à situação política e económica do país, particularmente no que toca às questões europeias, são impressionantes, também não é menos verdade que «é sempre possível ocultar os factos em que se enganou, nomeadamente em relação ao 25 de Abril.» (!!!)

Não deixa também de ser curioso, embora não surpreendente, que no último dia Congresso ganhassem mais protagonismo a presença e as declarações dos representantes dos partidos nacionais convidados para o encerramento do que o próprio Congresso do PCP. Quem esteve presente, o que disse, onde estava, especulações sobre o significado da presença de X ou Y: «Será uma aproximação?», sucedendo-se pedidos de reacção àquilo que os órgãos de comunicação social entenderam resumir o Congresso. Chega-se a encontrar canais de televisão que abrem o telejornal com a reacção de António José Seguro ao apelo feito pelo PCP no Congresso!

Houve ainda provocações avulsas, desde: «Um partido que fala em renovação mas que 40% dos membros tem mais de 65 anos e com o líder mais velho», até à exploração das questões financeiras – aliás só possível com o PCP pois nenhum outro partido apresenta de forma tão transparente e pública as suas contas e a respectiva avaliação política.

Importa referir que o Congresso do PCP praticamente não «fez» manchetes. Houve algumas chamadas de primeira página, sobretudo em torno de questões de direcção, mas manchete só numa excepção a confirmar a regra. Alegados prejuízos de greves, cartas de (des)amor que Soares assinou e Seguro rejeitou, os carros que José Lello comprou, Marilyn Monroe, tudo questões consideradas mais significativas que o XIX Congresso do PCP. E também foi difícil assistir ao Congresso em aberturas de telejornais, particularmente na sexta-feira, dia de jogo de futebol, em que, em geral, as peças passaram depois do início do jogo.

Com tudo isto, o que a comunicação social não mostrou foi o Congresso: a diversidade de temas abordados; as propostas apresentadas para os mais variados sectores da vida do país; as manifestações, os protestos, as concentrações, paralisações e greves que por todo o país disseram basta às políticas de direita e que também fizeram o Congresso; o profundo enraizamento nacional e popular deste Partido espelhado na composição dos delegados ao Congresso; um Congresso preparado de forma ampla, criativa e colectiva, durante meses, nas ruas e nos locais de trabalho. E todos estes aspectos poderiam ter sido noticiados desde Março, em iniciativas com a presença do Secretário-geral e não só, mas optou-se por noticiar uma reacção à questão do dia, de descontextualizar essa reacção, resultando que toda a dimensão do Congresso não tivesse sido de todo tratada na comunicação social, e portanto que não fosse conhecida por quem não conhece o PCP. E como se não bastasse, ainda ouvimos comentadores a dizerem: «as alterações ao programa, como é forma de trabalhar do PCP, foram preparadas cautelosa (durante meses) e sigilosamente». Parece mentira, mas isto foi dito assim mesmo.

Inegável foi a força que o Congresso deixou transparecer nos vários directos que, durante os três dias, se foram sucedendo. Com ou sem comentadores a «interpretar» a realidade do PCP, foi visível a alegria, a unidade dos comunistas em Congresso, como na luta e na vida – mulheres, homens e jovens, pessoas como tantas outras que apenas diferem porque unidas por um ideal e um projecto. E foi essa força, a força da luta e da convicção, que esteve presente nas televisões e foi partilhada à distância por muitos amigos do Partido e por aqueles que, mesmo não o conhecendo, não deixaram de ficar contagiados com tais imagens. Com ou sem comentadores, o poder das imagens, mesmo com cortes e omissões, é incontestável.

Em jeito de conclusão, diríamos que à medida que o tempo passa o PCP avança, avançam as suas propostas e a sua análise a par da realidade. O que parece «preso ao passado», «sem rejuvenescimento ou ideias novas», «com paredes de cimento» é o preconceito com que o PCP é tratado na comunicação social. E é preciso dizer que esse não é um problema que se esgote em si mesmo: esse preconceito e desconhecimento projectam-se naqueles que queremos trazer para a luta.

Quer isto dizer que temos responsabilidades redobradas em dar a conhecer o Programa, projecto e propostas do PCP. É de cada um de nós, da nossa organização e intervenção, da capacidade de levarmos mais longe a propaganda e informação do Partido que depende a capacidade de passar a mensagem, derrubar preconceitos, ganhar mais lutadores para as fileiras dos que resistem e constroem a alternativa. Se da comunicação social não podemos consentir desigualdades e discriminações, também não é de esperar fretes, nem facilidades, a sua concentração e propriedade justificam a sua actuação, mesmo que com pergaminhos de independência. Libertar o país da política de direita, construir uma política patriótica e de esquerda são os passos mais consequentes, também em nome de uma comunicação social pluralista e verdadeiramente livre.