Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Álvaro Cunhal Centenário, Edição Nº 329 - Mar/Abr 2014

Comemorações do Centenário de Álvaro Cunhal - «Vida, pensamento e luta: exemplo que se projecta na actualidade e no futuro»*

por Manuel Rodrigues

A 1 de Julho de 2012 o Comité Central do PCP aprovou uma Resolução sobre as comemorações do centenário de Álvaro Cunhal apontando os objectivos, a natureza e o âmbito das comemorações e fazendo um apelo às organizações e militantes do Partido e da JCP para uma atempada preparação e desenvolvimento do programa, exortando «a que as comemorações ultrapassem as fronteiras do espaço partidário e se projectem, mais além, na sociedade portuguesa, assegurando a participação e apoio de democratas e patriotas sem filiação partidária num quadro amplo de homenagem a Álvaro Cunhal».

Apelava ainda à projecção das comemorações aos mais diversos níveis no plano do movimento operário e sindical, das escolas, das universidades, das áreas e estruturas culturais, das autarquias, do movimento associativo e popular, de entidades diversas.

Apontavam-se para estas comemorações como principais objectivos:

– homenagear Álvaro Cunhal, salientando «o seu exemplo inserido na acção colectiva em que se integrou e na causa à qual dedicou toda a sua vida». E em simultâneo:

– «promover a valorização de um legado constituído por um pensamento, acervo de análises e acção que expressam um conteúdo a que a vida deu e dá razão e que tem uma crescente projecção na actualidade e no futuro»;

– «valorizar a acção e as contribuições que Álvaro Cunhal nos legou e compreender e apreender os seus métodos e critérios de análise, que representam um notável domínio da base teórica e ideológica dos comunistas – o marxismo-leninismo, do seu desenvolvimento e aplicação criadora às condições concretas da sociedade portuguesa e do mundo»;

– «evidenciar o significado do seu percurso de homem e revolucionário e o que ele traduz não apenas como um exemplo a valorizar, mas como a atitude, o posicionamento, o projecto político que a situação de Portugal e do mundo exigem nesta segunda década do século XXI.»

O balanço político das comemorações do centenário permite concluir que os audaciosos programa e objectivos definidos pelo Comité Central do PCP foram desenvolvidos e mesmo superados em diferentes aspectos.

As iniciativas

Muitas foram as iniciativas que deram corpo ao programa das comemorações. Não sendo ainda possível uma análise quantitativa global é, no entanto, possível caracterizá-las na sua riqueza, diversidade e profundidade, agrupando-as em três categorias que, correspondendo aos objectivos apontados, trataram de forma equilibrada e indissociável todas as dimensões de Álvaro Cunhal como homem, comunista, intelectual e artista:

– as iniciativas de programação central;

– as iniciativas programadas e realizadas pelas organizações regionais e sectores do PCP e da JCP;

– as iniciativas promovidas pelo movimento operário e sindical, pelas escolas e universidades, por entidades das áreas e estruturas culturais, pelas autarquias, pelo movimento associativo popular, por entidades diversas.

As iniciativas de programação central tiveram um grande impacto

Destacamos, além da sessão pública de abertura, o comício no Campo Pequeno, que, pela dimensão, participação, força e unidade demonstradas, constituiu um grande momento das comemorações; a evocação da fuga da cadeia do Forte de Peniche e um comício que fizeram a ligação do centenário às comemorações do 40º aniversário da Revolução de Abril; o Congresso «Álvaro Cunhal, o projecto comunista, Portugal e o mundo de hoje»; as edições de obras, nomeadamente o Tomo IV das Obras Escolhidas e a Fotobiografia; as iniciativas de índole cultural, em particular a sessão cultural evocativa da Aula Magna, com uma impressionante participação de quase 2000 pessoas, cerca de cem artistas de diferentes quadrantes culturais e uma muito ampla comissão promotora; a exposição central patente no Pátio da Galé, em Lisboa, na Festa do Avante! e no Centro de Congressos da Alfândega do Porto, visitada por várias dezenas de milhar de pessoas; as conferências, seminários e colóquios abrangendo diferentes áreas da intervenção de Álvaro Cunhal; a publicação de artigos, dossiers temáticos, reportagens e comunicações (no Avante!, em O Militante e sítio na internet), a produção de vídeos e DVD.

As iniciativas programadas e realizadas pelas organizações regionais e sectores do PCP e da JCP assumiram uma grande dimensão, projectando-se por todo o país com grande diversidade e significado

Destacam-se a distribuição pela JCP de dois documentos alusivos ao centenário nas escolas; a exibição de uma pequena exposição sobre a vida, pensamento e luta de Álvaro Cunhal em centenas de iniciativas; a venda de um Avante! especial na semana do centenário (que quadruplicou as vendas normais do Avante!); a realização de inúmeras sessões de projecção do filme Cinco Dias Cinco Noites e de um vídeo produzido no âmbito do centenário sobre a vida, pensamento e luta de Álvaro Cunhal, em muitos casos seguido de debates; a organização de conferências, debates e colóquios sobre diferentes temas e dimensões de Álvaro Cunhal e a realização de concertos musicais.

As iniciativas promovidas pelo movimento operário e sindical, pelas escolas e universidades, por entidades das áreas e estruturas culturais, pelas autarquias, pelo movimento associativo popular, por entidades diversas, conheceu uma grande amplitude

Foram muitas as entidades, instituições e estruturas culturais que se associaram ao centenário promovendo iniciativas próprias. A impressionante diversidade de estruturas e entidades envolvidas e de iniciativas realizadas ultrapassou a expectativa inicial.

Realizaram-se espectáculos (nomeadamente o espectáculo e exposição subordinados ao lema «Alentejo, terra, luta, arte e futuro»), debates, colóquios, conferências sobre diferentes temas; exibiram-se exposições (com destaque para a Torre do Tombo, Biblioteca Nacional, Forte de Peniche e Museu do Neo-Realismo); foram projectados filmes seguidos de debate; atribuiu-se o nome de Álvaro Cunhal a diversas avenidas; foram realizados trabalhos com alunos sobre a obra plástica (sobretudo os desenhos) e literária de Álvaro Cunhal; foi produzido o filme Até Amanhã Camaradas a partir da mini-série homónima; foram encenadas peças de teatro, duas das quais («Um dia os réus serão vocês» pela Companhia de Teatro de Almada e «Os Barrigas e os Magriços» por três grupos de teatro) foram vistas por milhares de pessoas em diferentes regiões do país.

As comemorações tiveram também expressão internacional

Realizaram-se diversas iniciativas, nomeadamente no Parlamento Europeu, em França, Suíça, Bélgica, Alemanha, Brasil, Estados Unidos e aquando da realização em Lisboa do 15.º Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários com a participação dos seus representantes no comício do Campo Pequeno.

Expressão nos órgãos da comunicação social

A comunicação social dominante tratou as comemorações de uma forma descontínua e descontextualizada, ignorando alguns momentos (por exemplo, as iniciativas de índole cultural), minimizando a cobertura de outros e procurando, muitas vezes, cruzar a informação com críticas, abertas ou subliminares (sobretudo em entrevistas), de endeusamento ou de culto da personalidade (ou de «culto do líder»), em contradição com o próprio pensamento de Álvaro Cunhal.

Registam-se três momentos com uma cobertura ímpar (canais de televisão com diversos directos): o comício do Campo Pequeno, a evocação da fuga do Forte de Peniche e, a outro nível, também a exposição do Pátio da Galé. Registam-se igualmente alguns trabalhos que importa assinalar pela sua seriedade e impacto.

Este modo de tratamento, mesmo com alguns artigos, crónicas e entrevistas, que se podem considerar isentos, acabou por focalizar, de modo disperso, momentos das comemorações (raramente de forma positiva), passando uma imagem que, porque descontextualizada, descontínua ou mesmo desvirtuada, não exprimiu a imagem nem o significado global do que foi o rico, profundo e diverso programa de comemorações do centenário, dentro e fora do Partido, com uma extraordinária participação em todo o país.

A organização do Centenário

Mostrou-se determinante para a dinâmica e concretização dos objectivos a criação a nível central da Comissão das Comemorações do Centenário de Álvaro Cunhal, bem como as medidas de direcção, organização e quadros que foram tomadas. Mostrou-se igualmente ajustada a constituição de grupos de trabalho para cada área ou mesmo para as iniciativas específicas, bem como a aprovação dos planos regionais de comemorações com a indicação de camaradas responsáveis pelo seu acompanhamento.

As organizações e militantes do PCP e da JCP, de acordo com as linhas de orientação e de trabalho decididas pelo Comité Central na Resolução sobre o centenário, souberam inserir as comemorações na exigente resposta aos tempos que vivemos e articulá-las com a acção geral do Partido (centenário, eleições autárquicas, Festa do Avante!, reforço do Partido, combate à política de direita e contra o Pacto de Agressão), envolvendo o grande colectivo partidário, com dinâmicas reveladoras de um grande esforço, entusiasmo e empenhamento colectivo.

Saliente-se ainda o modo como as organizações do PCP e da JCP, a nível central e regional, acolheram a exortação do Comité Central para que as comemorações fossem programadas de modo a ultrapassar as fronteiras do espaço partidário e a projectar-se, mais além, na sociedade portuguesa, assegurando a participação e apoio de democratas e patriotas sem filiação partidária num quadro amplo de homenagem a Álvaro Cunhal.

Foram, de facto, muitos os milhares de pessoas que, neste amplo espaço, se sentiram atraídas e participaram nas inúmeras iniciativas e actividades realizadas, quer as que foram organizadas, central ou regionalmente, pelo PCP e pela JCP, mas também as centenas de outras iniciativas e actividades levadas a cabo pelo movimento operário e sindical, das escolas e universidades, de áreas e estruturas culturais, das autarquias, do movimento associativo popular e de outras diversas entidades.

Importante é também salientar o facto de, nestas comemorações, mesmo na maior parte das iniciativas promovidas por instituições, entidades e estruturas culturais, se ter tido por base a identificação de Álvaro Cunhal com o Partido e o seu projecto, valorizando-se o seu grande contributo para a definição e construção do PCP e tratando-se de forma indissociável as suas dimensões como homem, comunista, intelectual e artista.

A formação política, ideológica e cultural

O programa das comemorações do centenário expressa também o significado político, ideológico e cultural que estas comemorações têm para a luta dos trabalhadores e do povo português, na actualidade e no futuro, ao contribuírem para:

– o reforço e alargamento do prestígio do PCP e da sua influência política, social, ideológica e cultural;

– a formação política, ideológica e cultural de muitos militantes comunistas e de outros democratas e patriotas sem partido;

– o alargamento e aprofundamento do conhecimento, no Partido, da intervenção e contribuição teórica e política de Álvaro Cunhal e para a formação dos quadros comunistas;

– a criação de um clima mais favorável à compreensão da mensagem do PCP, do seu programa «Democracia Avançada – os valores de Abril no futuro de Portugal», o seu ideal e projecto de uma sociedade socialista e, no momento presente, a sua luta por uma alternativa a esta política de exploração e empobrecimento, por uma política patriótica e de esquerda.

O alargamento da influência social e do prestígio do Partido

Mostrou-se ajustada a decisão de alargar as comemorações projectando-as para além do espaço partidário, enviando um texto-base inicial acompanhado de convite a milhares de órgãos das Autarquias Locais, Escolas e Agrupamentos de Escolas, Museus, Bibliotecas Municipais e Escolares, estruturas do movimento sindical unitário (CGTP-IN, Uniões Distritais de Sindicatos, Federações Sindicais e Sindicatos), estruturas do movimento associativo dos pequenos e médios agricultores (CNA e suas associadas regionais), Confederação das Micro, Pequenas e Médias Empresas, Confederação Nacional das Colectividades Portuguesas, colectividades de cultura e recreio e a outras entidades (Cinemateca, SPA, URAP, Fundação Calouste Gulbenkian, Escola Profissional Bento de Jesus Caraça, Instituto Bento de Jesus Caraça, JOC, LOC).

Foi grande o número das entidades que assumiram positivamente este convite e decidiram incluir nos seus planos de actividades para 2013 iniciativas associadas a estas comemorações.

Nos registos chegados à Comissão das Comemorações e às organizações regionais, a maior parte destas entidades mostrou-se satisfeita pela decisão tomada relativamente à realização das iniciativas e pelos apoios recebidos.

Portas que se abriram ou entreabriram à acção do Partido potenciando eventuais novas formas de colaboração no futuro, nomeadamente nas comemorações do 40.º aniversário da Revolução de Abril.

Nas escolas foram diversas as iniciativas de debate sobre Álvaro Cunhal em situação de sala de aula ou em auditórios escolares, iniciativas seguidas, de forma geral, com manifestação de grande interesse pelos alunos e muitos professores mostrando a importância que pode ter uma maior aposta nesta área nas comemorações do 40.º aniversário do 25 de Abril e em outras actividades futuras. Os dois documentos distribuídos pela JCP nas escolas foram bem acolhidos e propiciaram aproximações, contactos e recrutamentos.

As comemorações contribuíram para o alargamento do prestígio e influência do PCP.

O valor de um exemplo que se projecta na actualidade e no futuro

Estas comemorações constituíram uma justa e indispensável homenagem a Álvaro Cunhal, projectando a importância política, ideológica e cultural do seu legado e a sua actualidade na luta dos trabalhadores e do povo português, alicerçado no seu exemplo, sempre inserido na acção colectiva e na causa por que lutou toda a sua vida, e na afirmação da actualidade do seu pensamento e acção e do ideal e projecto comunistas.

Importa agora reunir, sistematizar e organizar os muitos materiais produzidos ao longo das comemorações deste centenário para que se possa, também por esta via, continuar a aprofundar o estudo sobre a vida, pensamento e luta de Álvaro Cunhal, sobre o PCP e o projecto comunista.

As comemorações transmitiram a multifacetada e profunda intervenção de Álvaro Cunhal, no plano nacional e internacional, o determinante papel que desempenhou na construção do Partido, na construção da unidade dos democratas e patriotas na luta pelo derrube do fascismo, na contribuição decisiva na análise da situação nacional, na definição da orientação, tarefas e na direcção da acção política do Partido, criando condições para a Revolução de Abril, na resistência à ofensiva contra-revolucionária e na continuada afirmação da actualidade da luta do Partido, hoje, pela democracia avançada como parte integrante da luta pelo socialismo e comunismo e na afirmação dos valores de Abril no futuro de Portugal.

Razão bastante para a natural interligação destas comemorações às comemorações do 40.º aniversário da Revolução de Abril, que assinalámos simbolicamente na evocação da fuga do Forte de Peniche, nos passados dias 3 e 4 de Janeiro.

Revolução de Abril cujos valores, consagrados na Constituição da República Portuguesa, continuam a ser património fundamental dos trabalhadores e do povo português e se projectam no futuro de Portugal.

(*) Artigo articulado com a Comissão das Comemorações do Centenário de Álvaro Cunhal