Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Partido, Edição Nº 333 - Nov/Dez 2014

Sérgio Vilarigues (1914-2014) - «O que sou devo-o ao Partido»

por Domingos Abrantes

No próximo dia 23 de Dezembro assinalar-se-á o centenário do nascimento de Sérgio Vilarigues, o camarada «Amílcar», seu pseudónimo durante mais de 30 anos de clandestinidade e com o qual desempenhou as tarefas como dirigente do Partido.

Evocar o centenário de Sérgio Vilarigues não é só prestar a justa homenagem ao lutador antifascista e destacado dirigente do PCP, partido a que pertenceu durante 70 anos. É igualmente projectar o exemplo do revolucionário que como tantos outros militantes comunistas, arrostando com enormes sacrifícios – prisões, torturas, assassinatos, deportações, anos e anos de clandestinidade – foram capazes de erguer o PCP como um grande partido nacional, vanguarda da classe operária e força dirigente da luta contra o fascismo e pela liberdade, por um Portugal soberano, socialista e comunista.

Por isso mesmo, Sérgio Vilarigues faz parte do núcleo de camaradas que justamente designamos de construtores do Partido.

Sérgio Vilarigues nasceu na freguesia de Torredeita, concelho de Viseu, no seio de uma família numerosa – sete irmãos – no dia 23 de Dezembro de 1914. Ainda criança iniciou-se nos trabalhos dos campos. Aos 12 anos, já órfão de pai, começou a trabalhar como marçano, e mais tarde, já em Lisboa para onde se deslocou, recomeça como cortador em carnes verdes.

Sérgio Vilarigues entrou no mercado do trabalho na altura em que, com o triunfo do golpe de 28 de Maio de 1926, começam a ser liquidadas as liberdades democráticas, ilegalizado o PCP e a CGT, e se desencadeia uma ofensiva contra o movimento operário e se intensifica a exploração.

Desde muito cedo Sérgio Vilarigues deu mostras de não estar disposto a deixar-se explorar sem luta, reagindo contra a exploração e as arbitrariedades patronais. O despertar da sua consciência de classe leva-o a ingressar aos 17 anos no Sindicato dos Trabalhadores das Carnes Verdes e a participar na acção colectiva dos trabalhadores.

Foi neste ambiente de trabalho e de luta que começou a desenvolver a sua consciência política, levando-o a ingressar, em 1932, com 18 anos, na Federação das Juventudes Comunistas e no ano seguinte também no Socorro Vermelho Internacional, no quadro do qual desenvolve acções de solidariedade para com as vítimas da repressão fascista.

Em Setembro de 1934 é preso quando, com outros jovens, realizava uma acção de agitação de propaganda clandestina a exigir a libertação de um jovem condenado a uma muito pesada pena.

No ano seguinte, em 1935, quando se encontrava na cadeia do Forte de Peniche, para onde foi enviado depois de ter sido condenado pelo Tribunal Militar Especial a 23 meses de prisão, adere ao Partido.

Sérgio Vilarigues aderiu ao PCP num momento muito particular da vida nacional e internacional. A ditadura fascista de Salazar já institucionalizada intensificava a repressão e declarava o combate aos comunistas como uma prioridade. Grande parte dos membros do Partido encontrava-se nas cadeias. O nazi-fascismo espalhava-se pela Europa, tornando-se cada vez mais ameaçador para os povos e o movimento operário e inscrevia igualmente como objectivo a erradicação do comunismo da face da terra. Era uma época de horizontes sombrios para os comunistas, uma época que exigia profundas convicções político-ideológicas a todos quantos se lançavam na luta contra o fascismo.

Depois de Peniche, Sérgio Vilarigues é transferido para a tenebrosa cadeia do Forte de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo. E em Outubro de 1936, quando já tinha terminado a pena, foi deportado para o igualmente sinistro Campo de Concentração do Tarrafal, donde só regressou em 1940, quando já tinha terminado a pena há quatro anos.

Sérgio Vilarigues passou seis anos nas cadeias fascistas. Na Fortaleza de Angra e no Campo de Concentração do Tarrafal foi submetido a violentos castigos, como a poterna, a frigideira e os trabalhos forçados. A prisão, a deportação, as violências sobre ele exercidas, a incerteza quanto ao seu destino como prisioneiro não abalaram as suas firmes convicções comunistas e a determinação de lutar contra o fascismo.

Regressado do Tarrafal (Julho de 1940), reinicia de imediato a sua actividade partidária, assumindo com vários outros camaradas, também eles acabados de sair do Tarrafal e das cadeias em Portugal, a audaciosa e corajosa tarefa de reorganizar o PCP – então mergulhado numa profunda crise, desligado das massas e praticamente paralisado – com vista a torná-lo num verdadeiro partido nacional.

Participante activo na reorganização dos anos 40/41, torna-se funcionário do Partido em 1942, passando à clandestinidade, situação em que se encontrava no 25 de Abril de 1974, sendo consequentemente o quadro do Partido que mais anos consecutivos – 32 – viveu na clandestinidade sem ser preso, o que lhe permitiu intervir nos diferentes aspectos da vida partidária durante décadas.

Em 1943, no III Congresso do Partido, Sérgio Vilarigues é eleito para o Comité Central, ao qual irá pertencer durante 53 anos.

O III Congresso realizado na mais rigorosa clandestinidade, foi o primeiro grande sucesso da reorganização de 1940/41, indiciando que a grave crise em que o Partido tinha mergulhado tinha sido ultrapassada, melhorado o trabalho conspirativo, alargada a organização e criada uma direcção capaz de assegurar a continuidade do trabalho partidário.

Resultados que foram constatados pelo Congresso ao concluir que no espaço de três anos «o nosso Partido se tornou num Partido nacional pela sua organização e pela influência entre as massas».

Com os desenvolvimentos posteriores à reorganização 40/41, é consolidada a estrutura orgânica do Partido e criado um sólido aparelho técnico que os golpes policiais não conseguiram destruir. O PCP torna-se num grande partido nacional, vanguarda da classe operária e da resistência ao fascismo e que irrompe no 25 de Abril como o grande partido da Revolução. A actividade de Sérgio Vilarigues como membro do Comité Central de 1943 a 1996, do Secretariado de 1949 a 1988, da Comissão Política nas décadas de 40 e 50, e de 1974 a 1988, está intimamente ligada a todas as decisões e orientações decisivas do Partido nesses anos.

Sérgio Vilarigues percorreu o País de Norte a Sul, tendo sido responsável em diferentes momentos por todas as organizações regionais e por sectores específicos, incluindo o da Juventude. Dirigiu importantes acções de massas, tendo integrado o comité dirigente das grandes greves de 8 e 9 de Maio de 1944. Integrado no Secretariado teve papel destacado na defesa do Partido depois do golpe policial que levou à prisão de Álvaro Cunhal, Militão Ribeiro, Sofia Ferreira e outros quadros do Partido. Foi responsável pelo aparelho técnico de falsificação de documentos indispensáveis à defesa do trabalho clandestino do Partido. Foi responsável pelo Avante! clandestino em diferentes períodos, num total de 16 anos. Interveio directamente na implementação de estruturas de unidade antifascista. Foi responsável pela apresentação de Relatórios a reuniões do C.C. e a Congressos do Partido.

Sérgio Vilarigues, que já antes do 25 de Abril tinha desempenhado tarefas de relevo no plano internacional em representação do Partido, assume depois do 25 de Abril a responsabilidade pelas Relações Internacionais e pela Secção Internacional do PCP, empenhando-se na divulgação da Revolução portuguesa e das posições do PCP.

Participou em variados encontros com as direcções dos movimentos de libertação das colónias portuguesas, visitou alguns dos novos países e assistiu à proclamação da independência de Angola em representação do PCP, a única força política presente nessa cerimónia.

Sérgio Vilarigues teve a felicidade de assistir ao derrube da ditadura fascista, objectivo ao qual, como muitos outros comunistas, deu o melhor da sua vida e participou activamente nas batalhas políticas do PCP para assegurar o triunfo da Revolução.

Nos momentos difíceis da resistência antifascista, como nos momentos exaltantes das transformações revolucionárias, Sérgio Vilarigues interveio sempre com empenho, determinação e enorme confiança na luta do Partido e das massas populares.

Sérgio Vilarigues morre a 8 de Fevereiro de 2005, com a idade de 92 anos. Até ao fim da vida manteve-se firme na sua opção comunista e confiante no triunfo da causa que abraçou desde a juventude.

Por ocasião do seu 90.º aniversário, ao fazer o balanço do seu percurso de vida como revolucionário, em entrevista ao Avante!, Sérgio Vilarigues nada reclamava para si a não ser a consciência de ter cumprido um dever com a sua entrega total ao Partido e à causa da emancipação dos trabalhadores.

A história de vida de Sérgio Vilarigues confunde-se com a história do PCP e no entanto considerava que o que ele era o devia ao Partido.

Pela nossa parte, lembramos, como declarou Jerónimo de Sousa, Secretário-Geral do Partido, na hora do último adeus ao camarada «Amílcar», que «sem ele e outros camaradas como ele, o PCP não seria a força necessária e insubstituível aos trabalhadores portugueses que realmente é».