Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Tema, Edição Nº 336 - Mai/Jun 2015

A informação, o conhecimento e a militância

por Fernando Correia

O Correio da Manhã é o mais vendido dos diários portugueses de informação geral, com mais de 100 mil exemplares por dia, número este que ultrapassa a soma das tiragens de toda a concorrência (Jornal de Notícias, Público, Diário de Notícias e i); a soma das tiragens das publicações semanais do mesmo sector (Expresso, Visão, Sábado e Sol), ronda os 150 mil exemplares por edição. Enquanto isso, os três telejornais das 20 h. dos canais generalistas (TVI, SIC e RTP) são vistos diariamente, em média, por um total de cerca de 3,5 milhões de pessoas; quanto ao género televisivo de maior audiência, as telenovelas, as três mais vistas (uma da SIC e duas da TVI) somam uma média diária de mais de 4 milhões de telespectadores.

Estes números, independentemente de outras leituras, falam por si relativamente ao lugar central ocupado pelos media generalistas dominantes, nomeadamente por uma televisão ostensiva e visivelmente subordinada a critérios comerciais, traduzidos numa implacável lógica: mais audiência = mais publicidade = mais lucro. O que significa transformar a conquista de audiências no grande objectivo, com as consequências que tal facto acarreta no plano dos conteúdos, no contexto de um panorama mediático dominado pelo grande capital e pelos seus interesses de classe.1

O lugar social dos media – incluindo, obviamente, os seus crescentes prolongamentos digitais – concretiza-se, desempenhando um papel determinante ou, no mínimo, altamente condicionante, ao nível da informação, do conhecimento, do entretenimento e da ideologia.

Ao nível da informação, na medida em que, logo à partida, a selecção dos acontecimentos escolhidos para serem notícia, e posteriormente a sua elaboração, hierarquização e apresentação, obedecem a critérios que proporcionam ao público um determinado retrato e interpretação da realidade, em que a pluralidade de perspectivas está geralmente ausente; ao nível do conhecimento, na medida em que para a maioria do público os media funcionam como o instrumento privilegiado, e na maioria dos casos o único, para a tomada de contacto e a interpretação das realidades que ultrapassam a sua experiência próxima e concreta; ao nível do entretenimento, na medida em que esta função, tornada predominante – nas programações, na multiplicidade de publicações especializadas e, cada vez mais, no próprio tratamento da informação – atenua ou mesmo obscurece as funções formativa e informativa, ao mesmo tempo que preenche quase em exclusivo as horas de lazer de milhões de portugueses, como os números citados claramente indiciam.

Finalmente, enquanto transmissores de informação, conhecimento e entretenimento, os media, de forma directa ou indirecta, assumem lugar central no plano da ideologia, na medida em que são inevitavelmente portadores de conteúdos e de sentidos de natureza ideológica, mesmo quando (ou principalmente quando) veementemente se afirmam alheios a quaisquer tipos de vinculações desse tipo. Ocupam uma posição decisiva na formação e condicionamento das opiniões, atitudes e comportamentos e constituem para a classe dominante um instrumento indispensável ao controlo da dinâmica e da conflituosidade sociais, assim como ao exercício do poder e à luta pelo poder.

Conhecer para transformar

É esta sua centralidade social que nos obriga a dar a tudo o que respeita aos media informativos, nas suas diversas dimensões e plataformas, uma importância que muitas vezes fica diluída no desespero ou na indignação compreensivelmente provocadas por deturpações, caricaturas, falsificações ou silenciamentos, por vezes hipocritamente justificados como resultantes de «critérios jornalísticos» e não de opções políticas e ideológicas, «sugeridas» ou impostas aos jornalistas ou por eles assumidas. Para já não falar dos ataques soezes por parte de alguns ditos «comentadores» e «analistas», reveladores de um primário e democraticamente intolerável anticomunismo – próprio deles mas que obviamente compromete quem lhes proporciona tribuna mediática.

Empenhamo-nos, e bem, no protesto e na denúncia. Mas isso não nos deve levar a esquecer ou subalternizar a necessidade de um paralelo esforço de análise, compreensão e desmascaramento dos mecanismos do processo de formação da opinião e de funcionamento dos media – um esforço, que é também um imperativo democrático, exigível aos cidadãos civicamente conscientes e activos, e em primeiro lugar a todos os que militantemente se empenham nas tarefas de organização, esclarecimento e mobilização. Tendo sempre presente, e nunca é demais sublinhar este aspecto, que para uma grande parte das pessoas com quem contactamos – na vida quotidiana, nos locais de trabalho, nos campos e nos escritórios, nas fábricas e nas escolas, incluindo nas universidades… – a realidade que conhecem, no sentido amplo do termo, e a forma de a interpretar, são apenas aquelas que resultam da construção feita pelos media dominantes.

Lutar pela transformação implica conhecer o que se pretende transformar, divulgando ao máximo esse conhecimento. E se isto vale para o sistema social, por maioria de razões vale também para uma componente essencial ao funcionamento do capitalismo como são os media.

Temos que os perceber nos diversos planos e formas de intervenção que lhes são próprios, no quadro da manutenção e reprodução do sistema, como por exemplo: na transversalidade e omnipresença que lhes permitem diversificada influência na formação da opinião e na definição do espaço público, na qualidade da cidadania e da própria democracia; como ferramenta essencial do domínio de classe e de sustentação das políticas neoliberais, independentemente das siglas partidárias com que se apresentem; na defesa da pretensa inevitabilidade de certas políticas económicas e na «naturalização» das desigualdades sociais; na desvalorização, sem distinções, da política e dos políticos, abrindo espaço ao predomínio do poder económico e à abstenção e indiferença cívicas; na menorização da cultura e na valorização das indústrias culturais, simultaneamente com o estímulo a modalidades ocas, tontas ou degradantes de entretenimento; na forma discriminatória como encaram o pluralismo político e ideológico, não só no plano da informação – escolha dos temas, das abordagens, das fontes (nacionais e internacionais) – mas também no do comentário; no tratamento diferenciado que dão, por um lado, aos grandes patrões, protagonistas únicos dos jornais, suplementos e programas ditos de economia, e por outro lado aos trabalhadores, aos pequenos e médios empresários, aos profissionais em adiantado processo de proletarização – professores, médicos, advogados, etc.

Perante a generalidade das pessoas os jornalistas assumem um lugar de primeira linha na actividade mediática. Mas há várias confusões que têm de ser evitadas. Os jornalistas, trabalhadores assalariados, não podem ser identificados com a empresa onde trabalham (provavelmente não aquela em que gostariam de estar, mas sim onde foi possível arranjar emprego…), cujo objectivo último não é propriamente a informação, no sentido jornalístico do termo, mas sim a venda de notícias. Nem confundidos com colaboradores exteriores à sala de redacção convidados ou contratados para emitirem a sua opinião, mas muitas vezes interpretada pelo público menos precavido como sendo informação. Nem metidos todos no mesmo saco, ignorando a existência de uma pequena elite, que ocupa lugares de direcção e de chefia, e que funciona como instância de intermediação entre os proprietários do órgão e os restantes membros da redacção, encarregue de transformar objectivos comerciais em tarefas jornalísticas, e cuja visibilidade e protagonismo mediáticos, nomeadamente no caso da televisão, dão uma falsa imagem daquilo que é o conjunto do grupo profissional.

Absolutamente essencial para o conhecimento do lugar dos media na nossa sociedade é ter em conta a sua ligação estrutural ao sistema capitalista, nomeadamente através da natureza da propriedade. Meia dúzia de poderosos grupos económicos concentram na sua posse praticamente toda a comunicação social dominante no nosso panorama mediático – na televisão, na imprensa, na rádio e no digital. Nos detentores do seu capital social, uma constante: a presença do capital financeiro.

Deste aspecto decorre um outro: a sua dependência da publicidade das grandes empresas – telecomunicações, grandes superfícies, banca, multinacionais de produção e distribuição de produtos para o lar, cosmética, saúde e alimentação, sector automóvel, entre outros. E não é por acaso que o media mais beneficiado é o que de longe domina as audiências e exerce maior influência. Em Janeiro e Fevereiro últimos o investimento publicitário foi assim distribuído: TV – 76,3%, Imprensa – 8,3%, Internet – 6,6%, Rádio – 3,6%, cabendo ainda 4,9% ao Outdoor e 0,3% ao Cinema.2

A «comunicação social» do Partido

Para transformar é preciso conhecer – e isto aplica-se, naturalmente, não apenas em relação aos media. Mas é também necessário divulgar esse conhecimento, torná-lo acessível ao maior número de pessoas, fazendo dele um factor de enriquecimento e de consciencialização que contribua para a mobilização e a acção. O recurso aos meios digitais está a assumir um protagonismo cada vez maior em tudo o que tem a ver com a comunicação interpessoal, não podendo haver dúvidas sobre a necessidade de desenvolver e melhorar a intervenção neste domínio. Entretanto, a imprensa partidária continua a cumprir aqui uma das suas mais importantes funções: aprofundar as causas, mostrar os contextos, desvendar as motivações, explicar os mecanismos, facilitar o debate e estimular a reflexão nos terrenos da economia, da política, da cultura, da ideologia... e da comunicação social.

Em contraponto com os media dominantes, O Avante! e O Militante, em coordenação com as iniciativas de informação, propaganda e formação inerentes à actividade da organização, contribuem para a formação de leitores, ouvintes e telespectadores apetrechados para lidarem criticamente com a comunicação social dominante e capazes de recorrer à informação, ao conhecimento e aos argumentos susceptíveis de, conforme os casos, a complementar, corrigir, combater ou denunciar.

Isto será possível aproveitando todas as possibilidades que a nossa imprensa propicia para o aumento da qualidade e da intervenção dos militantes e do colectivo, a melhoria do trabalho orgânico e da ligação às massas. Fazendo dela uma componente viva e activa do trabalho organizativo e político; um agente integrador, catalizador e disseminador de experiências, reflexões e orientações; um elemento que funcione, simultaneamente, como reflexo e motor da vida orgânica a todos os níveis. Sublinhe-se a importância da venda militante, cujas potencialidades – tudo depende de cada situação concreta – estão longe de estar ultrapassadas, enquanto forma de contacto, de aproximação e de esclarecimento.

Hoje como ontem, a desproporção de forças entre os media dominantes e a comunicação social do Partido é enorme. Tal como acontecia há trinta anos, era Cavaco Silva primeiro-ministro... Revestem-se de inegável actualidade estas palavras então proferidas por Álvaro Cunhal, no discurso de encerramento de um encontro de militantes comunistas ligados a este sector:

«Perante os colossais meios de que dispõe o governo e as forças de direita, os meios de que dispõe o Partido são no ponto de vista material, técnico e de difusão comparativamente muito reduzidos.

Seria entretanto um erro subestimá-los.

Primeiro, pelo seu valor e influência próprios, que representam papel importante na força do Partido na vida nacional e no apoio de massas que o Partido dispõe.

Depois porque (como de forma desenvolvida sublinhou o camarada Vítor Dias na sua intervenção inicial) aos meios de comunicação social geralmente como tal definidos, o Partido acrescenta, na sua acção política, na sua comunicação com as massas, as mais diversas formas de informação, de propaganda, de esclarecimento, de acção política e cultural, de contacto pessoal directo, ou seja, a comunicação oral, que se podem inserir, num sentido mais lato, mas com inteira propriedade, na «comunicação social» do Partido3

Notas:

(1) A RTP, Rádio e Televisão de Portugal, empresa de serviço público, coloca questões específicas de que aqui não trataremos.

(2) Números da Markteste/MediaMonitor.

(3) Encontro Nacional de Quadros do PCP sobre Comunicação Social, Editorial «Avante!», 1987, pp. 101-102. O encontro realizou-se na Voz do Operário, em Lisboa, em 29 de Novembro de 1986.