Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Tema, Edição Nº 336 - Mai/Jun 2015

O PCP na luta contra o fascismo e a guerra (*)

por Revista o Militante

O PCP tinha conhecido um forte desenvolvimento na primeira metade da década. O seu crescimento assustava o fascismo, que bem cedo lançou contra nele as forças repressivas reorganizadas por especialistas da Gestapo. Para o campo de concentração do Tarrafal, inaugurado em 1936, e para muitas outras prisões foram atirados alguns dos mais destacados quadros do PCP, entre eles o secretário-geral, Bento Gonçalves.

Muitos não mais voltarão.

Era intensa a solidariedade ao povo espanhol. Milhares de portugueses, entre eles muitos comunistas, vão combater nas fileiras do exército republicano. Álvaro Cunhal é preso em 1937, sairá um ano depois.

O PCP anima uma forte campanha contra a guerra imperialista em preparação. Antes do início da guerra o Avante chegou a publicar-se semanalmente, Mas em 1939 a tipografia cai e o Avante! só voltará a aparecer em 1941.

Num documento do CC, de Setembro de 1939, imediatamente a seguir ao início da guerra, o PCP afirma que «nesta hora de luta sem quartel, o PCP está pronto no seu posto para a batalha contra a reacção».

A derrota republicana em Espanha, isolava Portugal da Europa.

Os crescentes golpes assestados no Partido pela repressão fascista, à medida que a situação internacional evoluía (liquidação da República Espanhola; Pacto Ibérico Franco-Salazar; início da Segunda Guerra Mundial), criaram sérias dificuldades à acção o Partido que só seriam ultrapassadas a partir de 1940 com uma reorganização capaz de fazer frente à repressão.

A reorganização de 1940-41 iniciada por militantes como Álvaro Cunhal, Militão Ribeiro, Sérgio Vilarigues, Pires Jorge, José Gregório, etc., superando deficiências anteriores, permitiu uma rápida dinamização da actividade do Partido. O Avante! volta a surgir para nunca mais interromper a sua publicação regular.

A «neutralidade» do fascismo, definida no primeiro dia de guerra por Salazar, esconde uma efectiva colaboração com Hitler. O Povo sabe-o, o Avante! denuncia-o permanentemente. Salazar tira da boca do povo alimentos, bens, que vão clandestinamente para a Alemanha.

A situação das massas trabalhadoras torna-se desesperada. Os salários são baixíssimos, faltam os produtos mais essenciais, a fome alastra. Portugal não está em guerra, mas o governo instaura o racionamento de bens alimentares (as senhas) que se irá manter ainda depois da guerra acabar. As massas trabalhadoras lançam-se na luta.

1941-42

Em 5 de Novembro de 1941 tem início uma greve geral dos trabalhadores têxteis da Covilhã, que marcou o ponto de partida de uma grande vaga de acções de massas contra a ditadura. Em Dezembro desencadeiam-se importantes lutas estudantis. Os pescadores da Nazaré lutam por aumentos.

Em 1942 rebentam importantes lutas de camponeses contra o envio de géneros para a Alemanha. Realizam-se marchas de fome em várias localidades do País.

Em Outubro/Novembro assiste-se a uma vaga de greves em Lisboa e arredores, abrangendo um total de 20 000 trabalhadores, contra o congelamento dos salários. Entretanto a PIDE (polícia política) assassina a tiro o médico comunista Ferreira Soares. Bento Gonçalves morre no Tarrafal vítima de maus tratos.

O Avante! passa a sair quinzenalmente, desmascarando a política de Salazar. orientando as massas, mobilizando para a luta, dando informações sobre o andamento da guerra, sobre as derrotas do nazismo e as vitórias soviéticas, apelando para a criação de organismos unitários de luta contra o fascismo.

Em Maio o Avante! faz apelo à «união de todas as forças antifascistas com a classe operária e com o PCP».

1943

Em 1943 intensifica-se a luta contra a saída de géneros para os países do Eixo e pela melhoria de abastecimento da população.

As vitórias do Exército soviético em Stalinegrado, as vitórias das lutas operárias dão novo alento a todos os antifascistas, estimulando-os a unirem-se.

Em Março o CC do PCP propõe um programa de 9 pontos para a «constituição da unidade nacional» de todas as organizações, grupos, individualidades antifascistas e patriotas.

Reafirmam-se as lutas dos operários sapateiros de S. João da Madeira, e dos assalariados rurais do Alentejo.

Em Julho/Agosto, mais de 50 000 trabalhadores da região de Lisboa e Margem Sul participam no «maior surto grevista desde o advento do fascismo», como afirma José Gregório no seu relatório ao III Congresso, que o PCP realiza nesse ano, e que deu um extraordinário impulso ao desenvolvimento da luta antifascista. No Congresso a análise da guerra e das relações do fascismo com Hitler são o ponto central.

Por todo o Norte organizam-se várias marchas da forme e manifestações, exigindo a distribuição de géneros alimentares ao preço da tabela.

Em Dezembro a testemunhar o desenvolvimento da luta, assiste-se à criação do MUNAF (Movimento de Unidade Nacional Antifascista), organização clandestina, unitária, que reúne as principais forças democráticas, e que tem a participação do PCP.

1944

Do MUNAF – anunciado publicamente em Janeiro e 1944, que representa um passo histórico na luta do povo português contra o fascismo – fazem parte comunistas, católicos, socialistas, republicanos, monárquicos, liberais.>

Segundo as palavras de ordem do PCP, milhares de trabalhadores, milhares de mulheres, manifestam-se em todo o País exigindo o fornecimento de pão e demais géneros.

Em 8-9 de Maio, ao apelo do PCP, os trabalhadores da Amadora, da zona de Sacavém, Vila Franca, Alhandra, Lisboa, Pêro Pinheiro, Loures, Barreiro, realizam uma greve em que participam mais de 25 000 trabalhadores, e que é acompanhada de manifestações com grande participação de camponeses. Os 800 rendeiros da Quinta do Goucha (Almeirim) lutam contra a expulsão das terras. O Avante! de Outubro, Novembro, Dezembro, relata numerosas lutas. O PCP apela à preparação das condições para o levantamento nacional e para a generalização das lutas.

É claro para o povo português que a possível derrota do nazismo poderá abrir condições mais favoráveis para o derrubamento do fascismo.

1945

Em Janeiro o PCP apela para a participação nas eleições sindicais, que se realizam pela primeira vez, por pressão dos trabalhadores, o que proporcionará a eleição de muitos homens honestos e da confiança dos trabalhadores. Meses mais tarde, noutras eleições sindicais, os trabalhadores alcançarão a vitória em 50 sindicatos.

Realizaram-se numerosas lutas (Trás-os-Montes, Carris, concentrações de camponeses em Montemor, Ermidas, Tavira) contra a falta de géneros.

As lutas durante a guerra contra o fascismo culminaram com as jornadas de vitória em Maio, autêntica afirmação do profundo sentimento antifascista das massas populares.

As grandiosas manifestações realizadas por todo o País assinalam a passagem à luta política aberta contra a ditadura salazarista. Centenas de milhares de pessoas inundam as ruas de Lisboa no dia 8 de Maio, convergindo para as embaixadas aliadas com bandeiras nacionais. Exigem «eleições livres», «libertação dos presos políticos», «extinção do Tarrafal»!

A maioria das fábricas paralisa, os estudantes abandonam as aulas, engrossa o caudal popular.

Muitos milhares de pessoas desfilam pelas ruas de Almada, Cova da Piedade e Barreiro, Moita, Torre da Marinha, Alhos Vedros, Seixal, muitas vezes com paralisações. Manifestações realizam-se também em Setúbal, Évora, Santarém, Alenquer e Almeirim e muitas outras localidades.

No Porto o povo sai em massa às ruas. Desfilando em frente da sede da PIDE, os manifestantes exigem a libertação dos presos políticos e a extinção do Tarrafal.

O Avante! de Maio de 1945 assinala: «Nesta grande jornada patriótica orientada no fundamental pelo nosso Partido, o povo português entrou abertamente no caminho da luta política. Nestes 19 anos de tirania, o fascismo tudo fez para roubar ao povo o sentimento nacional. Mas o povo português arrancou aos traidores salazaristas a bandeira e a hino nacional.»

Nas novas condições criadas pela esmagadora derrota do nazi-fascismo, o fascismo salazarista é obrigado a recuar.

A luta democrata conquista um reduzido, difícil, mas importante espaço de acção legal.

O fascismo é obrigado a ceder, a repressão abranda, alguns destacados dirigentes do PCP, como Militão Ribeiro, Manuel Rodrigues da Silva, Francisco Miguel, Pedro Soares, são libertados do Tarrafal.

Mas durou pouco.

As potências ocidentais, os EUA e a Inglaterra e a França, esquecem-se depressa do nazismo. Emergiram as suas ambições imperialistas, os desejos de domínio, a vontade de travar a emancipação dos povos. O fascismo português interessa-lhes.

Entretanto, constitui-se o MUD – movimento legal de oposição antifascista, seguindo-se a criação de muitas comissões em todo o País – que inicia a campanha aberta pela democracia, exigindo eleições livres.>

A oposição democrática aproveita a realização das eleições de Novembro para desenvolver intensa acção em todo o País, mas acaba por boicotar a farsa eleitoral. Forma-se o MUD-Juvenil que chegará a ter 20 000 aderentes. A acção desenvolvida pelo MUD constitui um poderoso cimento de unidade das forças antifascistas. É pelo seu impulso, pela acção determinante do PCP, que se chegou em 1949 à grande campanha política de massas em torno da campanha do general Norton de Matos que, em centenas de comícios, mobilizou centenas de milhares de pessoas em todo o País.

Salazar consegue o apoio das potências ocidentais que se mostram dispostas a salvar o regime.

A repressão mantém-se e o PCP é a maior vítima. Em 1945 foram assassinados vários militantes (entre eles Alfredo Dinis – Alex – em Julho), foram presos 16 funcionários, centenas de militantes, foram apreendidas sete casas clandestinas e a tipografia do Avante!.

Enquanto em muitos países da Europa os comunistas estão nos governos, e a democracia se reorganiza, Truman e Atlee repescam Salazar e Franco, apoiam-nos, e irão integrá-los como elementos «normais» na política que irão seguir nos anos seguintes.

Salazar receberá as ajudas do Plano Marshall.

Em Portugal a luta irá continuar em 1946, 1947, e nos anos seguintes.

Mas é já a guerra-fria que aívem.

E com ela as divisões entre as forças democráticas, fomentadas pelo fascvismo a quem, entretanto, o imperialismo internacional reforçava o seu apoio. Isto levará a uma quebra da oposição.

Portugal entrará na NATO.

Virão os tanques USA. O comandante supremo da NATO na Europa, Eisenhower, visitará cordialmente Salazar (que, diz, o «impressionou») em Janeiro de 1951. O regime retoma os seus velhos métodos. A mais negra repressão irá abater-se sobre o povo português, e sobretudo sobre o PCP. O Tarrafal irá durar até 1954. Em 1947 realiza-se o primeiro grande julgamento político do pós-guerra, conhecido como «o processo dos 109». Um dos réus é Francisco Miguel, sobrevivente do Tarrafal, para onde será de novo enviado, e donde será o último preso a sair. Em 1949 são presos Álvaro Cunhal e Militão Ribeiro, que morre na cadeia, pouco depois. José Moreira cai assassinado pelas mãos da PIDE em 1950. Nos anos seguintes abater-se-á sobre o PCP a maior vaga de repressão de sempre.

Esta foi a verdadeira face da «paz» americana.

É a verdadeira face da hipocrisia democrática dos que ajudaram a ditadura fascista portuguesa a manter-se durante mais de 30 anos e a sustentar, os últimos 13 anos, uma criminosa guerra colonial.

Não podendo contar com o apoio do povo português, o fascismo salazarista procura no estrangeiro os apoios para se manter.

É isto que devemos lembrar aos que, hoje, nos países capitalistas e em Portugal, procuram reescrever a história da Segunda Guerra Mundial, para justificar o que fizeram desde Maio se 1945 e continuam a fazer na actualidade.

Em poucos anos Portugal será uma base de apoio militar importante. Os EUA nas Lajes; RFA em Beja; França nas Flores!; intensifica-se a exploração estrangeira em Portugal (um terço dos investimentos serão estrangeiros; entre 1960-1970 haverá um milhão de emigrantes); o fascismo conduzirá uma guerra colonial, em África, para defender interesses económicos e estratégias que não são os dos portugueses.

Afirma Álvaro Cunhal no Rumo à Vitória

«A fraqueza militar e o atraso económico de Portugal não lhe dão voto efectivo na OTAN. Na OTAN quem manda são os grandes. Portugal na OTAN é pouco mais que território ao serviço das grandes potências imperialistas...».

(*) Dossier Segunda Guerra Mundial, Edições «Avante!», Lisboa, 1985, pp. 147-152