Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Efeméride, Edição Nº 338 - Set/Out 2015

O VII Congresso da Internacional Comunista - Significado e ensinamentos

por Domingos Abrantes

Há 80 anos, entre 25 de Julho e 20 de Agosto de 1935, na cidade de Moscovo, teve lugar o VII – e último – Congresso da Internacional Comunista (IC), que apesar do imenso tempo decorrido permanece como um dos maiores acontecimentos do movimento comunista e operário e exemplo da capacidade de definir orientações tácticas e estratégicas, na base da crítica e autocrítica, do trabalho colectivo e discussões democráticas alicerçadas no marxismo-leninismo, para responder a novas realidades e ultrapassar teses que se tinham tornado um sério entrave ao desenvolvimento do movimento comunista e conduzido ao enfraquecimento da sua ligação às massas.

Tendo como tarefas centrais o combate ao sectarismo, que marcara profundamente as orientações da IC durante mais de uma década, o retomar de teses leninistas sobre o trabalho de massas e da frente única, intensificar a luta contra o fascismo e a guerra, o VII Congresso deu um poderoso impulso ao movimento comunista, contribuiu para transformar os partidos comunistas em grandes partidos revolucionários, prestigiados, com um papel fundamental na luta contra a ofensiva do capital, contra o fascismo, contra a guerra, pela democracia e o socialismo. «Os partidos comunistas tornaram-se factores reais na vida política em grande número de países».

O VII Congresso foi preparado e realizado numa situação mundial extremamente difícil, perigosa e complexa, em que a reacção internacional ganhou novo fôlego com a subida do nazismo ao poder na Alemanha. O capital desencadeava a mais poderosa ofensiva contra os trabalhadores e suas condições de vida. As liberdades democrático-burguesas tinham sido liquidadas na maior parte dos países. As organizações operárias e a sua imprensa proibidas. O movimento operário em geral vivia uma fase de refluxo. Os partidos comunistas que não tinham sido ilegalizados contavam-se pelos dedos. Para além do número brutal de militantes assassinados, centenas de milhar de outros encontravam-se nas cadeias e nos campos de concentração. A ameaça de uma nova guerra mundial, tendo como eixo fundamental a agressão à União Soviética, tinha entrado no campo da preparação prática. O fascismo tinha-se tornado um perigo universal.

No pólo oposto, enquanto o capitalismo estava mergulhado na crise, na URSS o socialismo conhecia enormes êxitos, erradicando chagas sociais, nomeadamente o desemprego.

Ao movimento comunista colocava-se então a necessidade de reavaliar teses e experiências, de definir a etapa em que se estava, de responder às preocupações manifestadas pelas massas e sectores políticos cada vez mais numerosos. Tratava-se de responder à questão que fazer para barrar o caminho ao fascismo, para impedir a guerra, para reforçar o movimento comunista e antifascista.

A resposta a esta questão deu-a o VII Congresso, retomando e desenvolvendo teses leninistas sobre a luta de massas, a política de alianças e a frente única operária e popular, a diversidade de vias para o socialismo, a correlação entre a luta pela democracia e pelo socialismo, etc.

O quadro do mundo é hoje muito diferente de 1935, mas há realidades que convirá não subestimar e ensinamentos que importa não esquecer: o capitalismo está mergulhado numa profunda crise, não perdeu a sua natureza exploradora e predadora, nem a guerra lhe deixou de ser inerente, além de que, como é clássico, o capitalismo procura superar as suas dificuldades intensificando a exploração dos trabalhadores e das massas populares, limitando direitos e liberdades. O capitalismo na sua fase imperialista – como salientou Lénine e a vida confirma – tende para a reacção. Forças fascistas e fascizantes tornam-se cada vez mais ameaçadoras. As guerras de agressão imperialista multiplicam-se e os perigos de uma nova guerra mundial não é coisa que não deva ser considerada como uma possibilidade real.

O VII Congresso não passou à história apenas por ter sido capaz de, num momento de viragem, elaborar uma estratégia e táctica adequadas a esse momento. Ficou na história também porque rompendo com princípios dogmáticos e voluntaristas nas questões teóricas, abandonando a prática de construir realidades a partir da teoria, procedendo a uma análise crítica e autocrítica das orientações e do funcionamento da IC à época, retomando teses fundamentais do leninismo há muito tempo abandonadas, deu uma enorme contribuição para o desenvolvimento do marxismo-leninismo e para o desenvolvimento do movimento comunista.

A deriva sectária que marcou a IC depois da morte de Lénine radica nas condições históricas em que nasceu e se desenvolveu a IC e o movimento comunista, sem subestimar a responsabilidade de todo um conjunto de dirigentes.

A ruptura com a II Internacional, com os partidos socialistas e sociais-democratas caídos no pântano do oportunismo, o trabalho de agrupar as forças revolucionárias, criar partidos políticos da classe operária – partidos comunistas – capazes de assegurar a sua acção independente, de classe, em defesa dos seus interesses e contra o capital, era o grande objectivo que se colocou com a fundação da IC.

A acção independente da classe operária tinha como exigência o combate ao reformismo, a denúncia da colaboração de partidos socialistas e sociais-democratas com a burguesia, e mesmo dos seus crimes contra o movimento operário – o Congresso fundador da IC (Março/1919) teve lugar dois meses depois do esmagamento do levantamento operário na Alemanha e dos assassinatos de Rosa Luxemburg e Karl Liebkecht –, a que estava associada a sua colaboração com as classes dominantes.

Sem abandonar a necessidade do combate ao reformismo, Lénine cedo percebeu que – operada a ruptura com a II Internacional – o esquerdismo se iria tornar no perigo principal, o que o levou a escrever O Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo, livro distribuído aos delegados ao II Congresso da IC, com o objectivo de dotar os jovens partidos comunistas de orientações tácticas revolucionárias.

Mas, um ano depois, Lénine teve de travar uma árdua batalha contra o esquerdismo para defender as orientações tácticas da IC que elaborara para o III Congresso (1921), quando a tarefa era dotar os jovens partidos comunistas – «que não eram ainda verdadeiros partidos comunistas» – de sólidos princípios tácticos de luta revolucionária, numa altura em que o movimento operário tinha sofrido pesadas derrotas em vários países.

Punha-se então aos comunistas a tarefa de reforçar a sua organização, de ir às massas, ganhar o apoio da maioria da classe operária, de estabelecer uma frente única operária e anti-imperialista. Táctica que os esquerdistas classificavam de «estática», opondo-lhe a «táctica ofensiva», aventureira, levando Lénine a defender ser necessário passar à ofensiva contra o esquerdismo, combatendo-o impiedosamente, porque «caso contrário, não há comunismo, nem Internacional Comunista».1

Mais tarde, Lénine diria: «Passaram-se já 8 meses desde o III Congresso da Internacional Comunista. pelos vistos o nosso debate de então com os «esquerdistas» já está ultrapassado. Resolvido pela vida».2

Lénine aqui enganou-se, Depois da sua morte (Janeiro de 1924) paulatinamente foi sendo construído todo um «edifício teórico» sectário, dogmático, desfasado da realidade e que na prática significou em toda a linha a aplicação da «teoria da ofensiva», agora num quadro muito mais difícil para o movimento comunista e operário. Um «edifício teórico» que depois do VI Congresso entrou em construção acelerada e que se traduziu numa actividade extremamente sectária.

Entretanto, a vida que, como salientava Lénine, é mais verde que a teoria, começou a abrir caminho para a alteração das orientações erradas.

Não sem forte oposição, o Comité Executivo da IC retomou o caminho de confrontar os reformistas com as suas responsabilidades, tendo dirigido, em 1933, 1934 e 1935, apelos à II internacional, a partidos socialistas e sociais-democratas, às organizações de trabalhadores para acções comuns contra a ofensiva do capital, o fascismo e a guerra.

Embora a resposta da II Internacional tivesse sido negativa, pondo em evidência as pesadas responsabilidades da social-democracia no avanço do fascismo e no desencadeamento da guerra, a iniciativa teve o apoio de personalidades e sectores, mesmo de partidos sociais-democratas – eles próprios vítimas do fascismo – que crescentemente participavam em acções comuns com os comunistas.

O apelo (1932) de H. Barbusse e R. Roland para a constituição de uma frente de intelectuais contra a guerra foi subscrito por destacados intelectuais de todo o mundo.

Com a criação do Comité Internacional Amesterdão/Pleyel contra a guerra e o fascismo (1934) por iniciativa de H. Barbusse foram criados milhares de comités de intelectuais de várias tendências que se incorporaram na luta antifascista.

Na Áustria (1934), trabalhadores sociais-democratas e comunistas desencadearam uma acção insurreccional para fazer frente ao fascismo.

Em torno da defesa de Dimitrov, a ser julgado pelos nazis em Leipzig (1933), desenvolveu-se em todo o mundo um poderoso movimento de solidariedade antifascista, impondo uma derrota aos nazis.

As grandes acções populares em França (Fevereiro de 1934) derrotando a tentativa de golpe fascista, e as que se seguiram em 1935, e em Espanha, na base de uma ampla unidade de comunistas, socialistas e radicais, impondo não só a derrota do fascismo mas importantes transformações sócio-económicas, tornaram-se um exemplo do caminho a seguir para derrotar o fascismo.

O antifascismo como etapa de luta tinha entrado na ordem do dia.

A subida de Hitler ao poder na Alemanha (Janeiro de 1933) fez «soar as campainhas». As tendências unitárias, a iniciativa dos Partidos Comunistas tornou mais fácil a intervenção de vários dirigentes da Internacional, de importantes partidos comunistas, incluindo do PCUS, que há já algum tempo, enfrentando obstinadas resistências, defendiam a necessidade de proceder à reavaliação das orientações seguidas à época, de elaborar novas orientações tácticas que levassem ao objectivo fundamental e premente: a formação de uma vasta frente contra o fascismo, a reacção e a ofensiva do capital, que abrangesse «não apenas os operários defensores da ditadura do proletariado, mas a maioria da classe operária», segundo as ideias defendidas por Lénine no III Congresso da IC.

Da maior importância para a viragem foi a realização do XIII Plenário do Comité Executivo (Dez. 1933) – a primeira grande reunião depois da tomada do poder pelo nazismo na Alemanha, que, embora mantendo teses erradas, aprovou teses que significaram uma mudança, tendo avançado uma nova caracterização do fascismo – que seria aprovada pelo Congresso – e tomou a decisão histórica de convocar o VII Congresso.

A preparação do VII Congresso e a sua realização irão centrar-se na resposta às questões prementes que se punham ao movimento comunista.

O facto de na primeira reunião da Comissão Preparatória do Congresso Kuusinem (destacado dirigente do PCUS e da IC) ter defendido a necessidade de uma mudança táctica radical, e Manuilski (igualmente destacado dirigente do PCUS e da IC) e Dimitrov terem chamado a atenção para que face à situação criada nos países capitalistas a palavra de ordem de luta imediata pela ditadura do proletariado estar desfasada da realidade e que era necessário uma palavra de ordem mais realista e que, opondo-se ao sectarismo reinante, tivessem posto o acento na necessidade de os comunistas tomarem nas suas mãos a luta pela frente única da classe operária, lutarem por conversações com partidos pequeno-burgueses, com partidos camponeses, com organizações que os fascistas queriam submeter à sua influência, mostra quanto tinham amadurecido as condições para a viragem necessária.

A carta que Dimitrov dirigiu a 1 de Julho de 1934 ao Comité Executivo da IC e ao Comité Central do PCUS – colocando as suas próprias reflexões, e que eram comuns a vários outros dirigentes da IC, incluindo dirigentes do PCUS e de importantes partidos comunistas – é de grande importância para a compreensão do avanço que essas reflexões tinham atingido e quanto tinha amadurecido a necessidade de uma reavaliação das orientações tácticas e a ruptura com orientações erradas e profundamente enraizadas à época.

A carta de Dimitrov especificava basicamente as questões prementes que na sua opinião se impunha reavaliar e que deveriam determinar a estrutura do seu relatório a apresentar ao Congresso. E essas questões, das quais derivam várias outras, tinham a ver com a natureza do fascismo, a social-democracia, a frente única, a Direcção da IC.

Dada a sua extensão, limitamo-nos a referir apenas algumas partes da carta:

Sobre a social-democracia coloca as interrogações de se era justo qualificá-la em bloco como «social-fascista» – posição que considera ter levado ao corte com operários sociais-democratas; se era justo considerar a social-democracia em todas as circunstâncias como o principal suporte social da burguesia e os grupúsculos social-democratas de esquerda como o perigo principal, bem como se era justo classificar em bloco todos os quadros dirigentes dos partidos social-democratas e dos sindicatos reformistas como traidores conscientes da classe operária.

No que se refere à frente única, Dimitrov avança desde logo o que pensa ser necessário decidir que era mudar a táctica em função da nova realidade; que em lugar de aplicar a táctica da frente única claramente como uma manobra para desmascarar a social-democracia se devia fazer da táctica da frente única um factor eficaz de desenvolvimento da luta de massas contra a ofensiva do fascismo.

Dimitrov tinha um conhecimento muito profundo sobre os graves problemas existentes na Direcção da IC. As propostas que avança no sentido da democratização do funcionamento da IC têm subjacente uma crítica muito clara a esse funcionamento.

Começa por considerar indispensável mudar de métodos de trabalho e de direcção da IC, tendo em conta ser impossível decidir a partir de Moscovo todas as questões e em relação às 65 secções, que actuavam em condições muito diversas umas das outras.

Desassombradamente defende ser necessário realizar uma grande crítica bolchevique, chamando a atenção que o receio do seu uso deixou sem explicação grandes problemas políticos.

Finalmente, defende ser particularmente necessário uma ligação estreita entre a direcção da IC e a Comissão Política do PCUS.3

O Congresso realizar-se-ia um ano depois da carta de Dimitrov e com um ano de atraso em relação à data prevista. Um período durante o qual se sistematizaram experiências, reavaliaram percursos e a validade de certas teses à luz da realidade concreta, amadureceram as soluções que tornaram possível ultrapassar dificuldades. Todo um trabalho que se pode avaliar pela riqueza de ideias que, aprofundadas pelo VII Congresso, dotaram o movimento comunista de sólidas e fundadas orientações para responder a um período extremamente difícil para os trabalhadores e os povos.

As questões debatidas no Congresso e sobre as quais se aprovaram orientações e tomaram decisões, abarcam uma vastidão de matérias. Concentremo-nos apenas em algumas questões nucleares e de certo modo inseparáveis.

No centro da discussão estiveram questões do fascismo considerado o perigo principal para os trabalhadores, os povos e a paz, pelo que o Congresso exigiu dos comunistas acabar com a subestimação inadmissível do projecto fascista nas suas fileiras.4

O Congresso confirmou e precisou a definição da natureza do fascismo avançada no XIII Plenário do Comité Executivo de que «O fascismo é uma ditadura terrorista declarada dos elementos mais reaccionários, mais chauvinistas e mais imperialistas do capital financeiro»5. Definição que se tornou clássica e que, ao caracterizar o fascismo pela sua natureza de classe, o seu lugar na evolução do capitalismo na fase imperialista, bem como as classes beneficiárias do fascismo, sublinhou as contradições entre o fascismo e a democracia, rejeitando as teses de que o fascismo era uma simples substituição de um governo burguês por outro governo burguês, mas a substituição de uma forma estatal de dominação burguesa – a democracia burguesa – por uma outra forma de dominação – a ditadura terrorista do grande capital.

A rectificação da natureza do fascismo até então em vigor na IC foi a chave para a elaboração de novas orientações tácticas e estratégicas que permitiram um extraordinário desenvolvimento na criação de uma ampla frente popular de luta contra o fascismo, o imperialismo e a guerra.

Partindo da análise da natureza do fascismo e da ameaça que representava, o Congresso declarou que a realização da frente única da classe operária era naquela etapa histórica «a tarefa principal, imediata do movimento internacional»6

Uma frente única cujo conteúdo se definia pela luta em defesa dos interesses económicos e políticos da classe operária, pela procura de estabelecer relações com partidos sociais-democratas – que continuavam a ter enorme influência na classe operária, bem como nos sindicatos –, todos os trabalhadores independentes das suas opções políticas ou religiosas, pelo trabalho nos sindicatos fascistas, com vistas a acções comuns.

Mas na procura de acções comuns os comunistas não podiam nunca esquecer a sua posição de classe independente «As acções comuns com os partidos e organizações social-democratas, não só não excluem, como torna ainda mais necessário uma crítica da social-democracia como ideologia e prática da colaboração de classes».7

E tendo em conta que se produziam alterações em sectores sociais-democratas no sentido da unidade, o Congresso recomendava que «intensificando a luta contra a parte reaccionária da social-democracia, os comunistas devem estabelecer a mais estreita colaboração com os operários, militantes e organizações social-democratas de esquerda que lutam contra a política reformista e defendem a frente única com o partido comunista»8

Salientava-se ainda com particular ênfase de que o êxito das orientações dependiam do reforço contínuo, em todos os aspectos, dos próprios partidos comunistas.

O Congresso, à luz da definição da etapa em que se estava e da necessidade de se criar uma vasta frente popular contra o fascismo, procedeu a uma radical revisão das teses anti-leninistas acerca da democracia-burguesa, que não faziam destrinça entre democracia burguesa e regimes fascistas e que revelaram enorme incompreensão quanto à necessidade vital da luta por reivindicações democráticas gerais e antifascistas, não no sentido de ter o parlamentarismo como objectivo – como faziam os reformistas – mas como necessidade da classe operária conquistar posições e condições para melhor desenvolver o seu combate.

A experiência das frentes populares mostrava que a luta das massas unidas por reivindicações antifascistas e democráticas ultrapassava o quadro tradicional das liberdades democrático-burguesas, aproximando a luta pelo socialismo. Conclusão que Dimitrov reforçava com palavras de Lénine: «seria um erro capital crer que a luta pela democracia é susceptível de desviar o proletariado da revolução socialista, ou de eclipsá-la, de a esbater, etc. Pelo contrário (...) o proletariado não se pode preparar para a vitória sobre a burguesia se ele mesmo não trava uma luta generalizada sistemática e revolucionária pela democracia».9

Dimitrov lembrava que para o proletariado não é indiferente as condições em que luta, proletariado que derramou muito sangue na luta pela liberdade e em defesa das liberdades democráticas.

A tese leninista da correlação entre a luta pela democracia e pelo socialismo assume nos nossos dias enorme actualidade. Os comunistas portugueses podem avaliar todo o seu alcance pelas teses da revolução democrática e nacional e sua materialização na revolução antifascista, na luta contra a política de direita de desfiguramento do regime democrático de Abril, na luta pela realização do seu Programa por uma «Democracia avançada, os valores de Abril no futuro de Portugal».

Retomando teses do IV Congresso da IC sobre a questão colonial e nacional, elaboradas por Lénine, rejeitando teses sectárias que definiam as burguesias nacionais e as massas pequeno-burguesas nos países coloniais, como tendo um papel reaccionário,considerando imprópria a palavra de ordem da luta pela ditadura do proletariado generalizada a esses países, o Congresso, definindo a natureza da luta libertadora dos povos oprimidos na etapa à época como uma revolução anti-imperialista de libertação nacional, deu uma contribuição inestimável para o desenvolvimento da luta anti-colonislista, para o reforço da aliança povos oprimidos e trabalhadores dos países capitalistas, para o alargamento da influência do movimento comunista junto daqueles povos.

As orientações aprovadas em matéria de métodos de trabalho e estrutura orgânica da IC introduziram alterações significativas no domínio das relações entre partidos comunistas e organismos dirigentes da IC, e nos métodos do seu funcionamento. Considerando a necessidade de consagrar a direcção operativa nas secções, tendo em conta a realidade em que cada secção actuava, o Congresso incumbiu o Comité Executivo de transferir o centro de gravidade da sua actividade sobre a elaboração das orientações políticas e tácticas fundamentais do movimento operário internacional para os partidos e deixar de se imiscuir directamente nos assuntos internos da organização dos partidos comunistas.10

O VII Congresso marcou uma viragem radical nas orientações da IC: trabalho de massas em todos os países; abriu caminhos para a derrota do fascismo; a unidade da classe operária e das forças antifascistas; impulsionou a luta contra a guerra; o movimento comunista ganhou enorme prestígio e influência.

O legado teórico político e ideológico do VII Congresso tornou-se património colectivo. Conhecê-lo, assimilá-lo, saber utilizá-lo na busca de resposta aos novos problemas que a vida em permanente mudança coloca inexoravelmente, é um dever que se coloca a todas as forças revolucionárias e em particular aos comunistas.

As orientações do VII Congresso foram da maior importância para o desenvolvimento do PCP como partido de vanguarda da classe operária portuguesa e para ultrapassar concepções sectárias e voluntaristas – nuns casos por influência da IC, noutros por responsabilidade própria –, para a sua ligação às massas, o trabalho nos sindicatos fascistas, a unidade da classe operária, para a elaboração de uma estratégia de luta e de unidade antifascista, tendo em conta as realidades nacionais.

Já antes do VII Congresso Bento Gonçalves e outros dirigentes do Partido se tinham empenhado num trabalho que assegurasse a ligação do Partido às massas, que considerasse o trabalho sindical como indispensável para essa ligação, que assumisse a luta quotidiana dos trabalhadores, a elaboração de uma estratégia de luta antifascista assente na análise da natureza do fascismo – surpreendentemente mais precisa que a de muitos partidos comunistas – e da arrumação de forças em Portugal. Um trabalho dificultado pela permanência de fortes tendências sectárias e voluntaristas em matéria de táctica de luta.

A participação de uma delegação do PCP no VII Congresso, dirigida por Bento Gonçalves, e sobretudo as conversações que se seguiram ao Congresso entre a delegação do Partido, na qual foi integrado o camarada Álvaro Cunhal11 e o Comité Executivo da IC, encontro no qual se discutiram as orientações do Congresso e sua aplicação em Portugal à luz da realidade portuguesa e das experiências do PCP, foi da maior importância para que o Partido pudesse operar a viragem que se impunha.

Bento Gonçalves antes da sua prisão ainda sistematizou as orientações do Congresso e elaborou um plano de trabalho para a sua concretização, tendo em conta a realidade portuguesa.

A constituição da Frente Popular Portuguesa, expressão directa dessas orientações, apesar das suas limitações e pouca intervenção política, representou uma grande vitória política do PCP: pela primeira vez foi possível, depois da instauração do fascismo criar uma estrutura unitária entre o partido da classe operária – e por sua iniciativa – e sectores e personalidades democratas, alguns dos quais tinham desempenhado as mais altas responsabilidades de Estado na República.

A prisão de Bento Gonçalves e restantes membros do Secretariado (Novembro/1935), a instabilidade a nível da direcção que se lhe seguiu, as resistências à necessária viragem na actividade política, nomeadamente no que se refere à necessidade de trabalhar nos sindicatos fascistas, impossibilitou a aplicação das orientações do VII Congresso, só possível depois da reorganização de 1940/41, iniciando o processo de elaboração de uma estratégia de luta antifascista, tendo a classe operária e o seu partido político – o PCP – como eixo e motor, estratégia para a qual o camarada Álvaro Cunhal deu contribuição determinante. Quando se realiza o III Congresso, o Partido encontrava-se no ponto de viragem: «Só em 1943, a consolidação do Partido, o rápido desenvolvimento da sua organização, a ampla difusão da sua imprensa e, sobretudo, as grandes lutas da classe operária dirigidas pelo Partido, aumentando extraordinariamente o prestígio do Partido ante todas as camadas democráticas, criam condições para que o Partido tome com êxito a iniciativa da constituição duma frente antifascista».12

Bento Gonçalves, assassinado no Tarrafal em 1942, não pôde ver a transformação do Partido no grande partido nacional para que tanto trabalhou, mas não se enganou quando afirmou, ao terminar a sua intervenção no VII Congresso da IC: «Inspirados nas decisões do VII Congresso e na ajuda política da IC, conseguiremos vencer os nossos erros, as nossas hesitações e debilidades, tornar-nos-emos um partido digno da classe operária e da Internacional Comunista».13

Notas

(1) Lénine, «Em Defesa da Táctica da Internacional Comunista, in Obras Escolhidas, t. 5, «Edições «Avante!», Lisboa, 1986, p. 226.

(2) Lénine, «Notas de Um Publicista», op. cit., p. 319.

(3) Carta de Dimitrov, in L'Internationale Communiste et la lutte contre le fascisme et la guerre (1934-1939), Éditions du Progrès, 1980, pp. 30-32.

(4) Relatório de G. Dimitrov ao VII Congresso, op. cit., p. 129.

(5) Le fascisme, le danger de guerra et les tâches des partis communistes (Thèses, decisions et résolutions de la XIII Assemblée Plenière du C.E. de l' lC (Dez. 1933), Bureau d'éditions, Paris, 1934, p. 6.

(6) Resolução sobre o Relatório de G. Dimitrov, in L'Internationale Communiste et la lutte contre le fascisme et la guerre (1934-1939), Éditions du Progrès, 1980, p. 386.

(7) Idem, p. 390.

(8) Idem, p. 390.

(9) Intervenção de Dimitrov no encerramento do VII Congresso, in L'Internationale Communiste et la lutte contre le fascisme et la guerre (1934-1939), Éditions du Progrès, 1980, p. 212. Citado em Lénine, Obras Completas, t. 22, Éditions Sociales, Éditions du Progrès, 1973, p. 256.

(10) Resolução sobre o Relatório de W. Pieck ao VII Congresso, in L'Internationale Communiste et la lutte contre le fascisme et la guerre (1934-1939), Éditions du Progrès, 1980, p. 379.

(11) Álvaro Cunhal, como Secretário Geral da Federação das Juventudes Portuguesas, encontrava-se em Moscovo para participar no VI Congresso Internacional das Juventudes Comunistas.

(12) In O Militante N.º 181, Dezembro de 1973, p. 13.

(13) Bento Gonçalves, in «O PCP e o VII Congresso da Internacional Comunista», Edições «Avante!», Lisboa, 1985, p. 255.

Sobre o VII Congresso da IC ver ainda:

– Domingos Abrantes, «Importância e actualidade. VII Congresso da Internacional Comunista», in O Militante N.º 277, Julho-Agosto/2005, p. 24.