Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Organização, Edição Nº 339 - Nov/Dez 2015

O Partido, o reforço orgânico e as eleições legislativas Experiências do distrito de Aveiro

por Tiago Vieira

Para lá da chantagem e da mentira, das distorções, manipulações e ocultações promovidas pela comunicação social dominante, para um partido revolucionário como o PCP as eleições são um importante desafio à sua organização.

É por demais evidente que numas eleições realizadas no quadro de um regime democrático empobrecido e descaracterizado, as forças que representam os interesses das classes exploradas estão condenadas a competir contra forças detentoras de meios e recursos incomparavelmente superiores. Não se trata apenas de uma questão financeira (embora também), mas sobretudo de ferramentas que lhes permitem uma «campanha» indirecta de modo a condicionar – ou mesmo comprar! – o voto. Um processo de formatação de opinião através de entidades alegadamente «imparciais», seja por via da comunicação social, do aparelho de Estado ou de instituições públicas, de que é exemplo a própria Presidência da República e a chantagem sobre os portugueses protagonizada meses a fio por Cavaco Silva.

É nesse quadro que a capacidade de mobilizar, esclarecer e intervir para, voto a voto, construir o resultado eleitoral representa um teste à organização do Partido. Vencer dificuldades exige a abnegada dedicação do colectivo partidário para dar resposta ao rol de tarefas que um período eleitoral compreende – desde as de maior visibilidade, como os contactos de rua, às menos visíveis, mas igualmente decisivas, como a organização e negociação das mesas de voto, entre outras.

A propósito desta ou daquela acção de maior envergadura, os fazedores de opinião desvalorizam o que alcançamos, atribuindo-o ao «aparelho», ou à «máquina de mobilização» do PCP. Partindo de uma realidade indesmentível – que o PCP é o partido nacional com maior capacidade mobilizadora – procuram que tal facto seja encarado como «natural», uma espécie de dado adquirido, tão rotineiro que é caricaturado como «automático», tipo relógio suíço.

Nada mais falso. O trabalho do Partido, a sua capacidade de ser visível e entendido por milhões de portugueses decorre de um incansável e contínuo esforço do colectivo partidário e só é possível porque há uma organização que funciona, que discute e colectivamente trilha os caminhos para resistir e lutar. São homens e mulheres «normais», gente com empregos precários e baixos salários, desempregados, reformados em situação difícil, pequenos empresários asfixiados pela carga fiscal, pais, mães e avós com obrigações familiares que levam a cabo o trabalho do Partido e que, ligados ao pulsar da vida, garantem as orientações correctas para a nossa intervenção. A «saúde» da organização do Partido é um elemento crucial para o trabalho, para a intervenção e a luta em geral, mas numa campanha eleitoral são muito mais evidentes os traços fundamentais que permitem caracterizar esta ou aquela organização local ou sectorial.

A força do colectivo

Tomemos o distrito de Aveiro como exemplo. Em Maio deste ano foi concluída a acção de contactos para a elevação da militância. No período que mediou o início desta acção (Dezembro/2013) e o seu final, e em que se esclareceu a situação de todos os militantes do distrito, realizaram-se várias assembleias de organização, desde a Assembleia de Organização Regional a assembleias concelhias e de freguesia, num total de 13; realizaram-se encontros de quadros sobre a intervenção no Poder Local e nas empresas e locais de trabalho; e foi inaugurado um novo Centro de Trabalho em Águeda. Neste processo constataram-se possibilidades de trabalho orgânico que estavam por explorar e isso permitiu a constituição de células de empresa, de comissões de freguesia, de organismos de empresas concelhios, de micro e pequenos empresários e de reformados, para além da responsabilização de dezenas de quadros por tarefas concretas dentro e fora de organismos. A par disto, no âmbito da campanha de recrutamento, aderiram ao Partido 80 novos militantes, alguns dos quais assumindo desde logo responsabilidades e sendo chamados a participar em organismos intermédios de direcção.

Estes factos foram relevantes na campanha eleitoral, implementando-se de forma criativa e ambiciosa as linhas decididas pelo Comité Central do Partido. A planificação da campanha eleitoral foi alvo de discussão a vários níveis, estimulando-se o debate para que todos os organismos elaborassem um plano próprio, que por sua vez viria a ser integrado no plano do seu concelho, e por sua vez a ser «limado» através do seu cruzamento com a estratégia regional, e, designadamente, a agenda dos candidatos com maior visibilidade. A título de exemplo refira-se a célula dos reformados de Aveiro, que teve um calendário próprio de iniciativas dirigido a esta camada social; ou o organismo de empresas de Estarreja, cuja discussão permitiu avançar no número de empresas a abranger na campanha e realizar comunicados sobre questões concretas de alguns locais de trabalho, designadamente sobre a situação da Nestlé, o que redundou numa melhor receptividade dos trabalhadores e um recrutamento nesta empresa.

Foi um processo que exigiu grande reflexão e discussão por parte de dezenas de quadros, assim como uma permanente capacidade para ajuste em função de factos inesperados que impunham alterações à programação. Foi preciso cruzar aquilo que é a intervenção regular do Partido (nos locais de trabalho ou de grande concentração popular) com a abertura de horizontes para iniciativas de maior exigência ou criatividade.

Muito para lá de uma abordagem rotineira sobre a campanha eleitoral, a discussão colectiva sobre como a levar a cabo permitiu que se visitassem dezenas de locais que não se visitam com a regularidade desejável e que se realizassem iniciativas temáticas sobre questões concretas sentidas pelos trabalhadores e o povo do distrito. A experiência de visita a empresas como a Teka (Ílhavo) e a Durit (Albergaria) revelou imensas potencialidades; em paralelo, a realização de iniciativas sobre a defesa da água pública ou o combate à política de habitação deste e de anteriores governos foi particularmente acolhida pela população.

Foram centenas de visitas, distribuições, contactos e outras iniciativas que durante meses imprimiram um ritmo intenso ao trabalho do Partido. Para lá de aspectos específicos de cada uma, importa sublinhar que todas elas foram produto do trabalho da organização do Partido e o seu grau de sucesso resultou da capacidade que a organização teve para a sua concretização.

A intervenção junto dos trabalhadores

Do trabalho realizado há um aspecto decisivo que importa assinalar pelo seu carácter estratégico: a intervenção nas empresas e locais de trabalho. Apesar da destruição do aparelho produtivo que perpassa todo o país, no distrito de Aveiro há ainda uma importante concentração operária. Decorrente da natureza de classe do Partido e dos interesses que defendemos seria impensável que o contacto com os trabalhadores no seu local de trabalho não tivesse uma dimensão central na nossa campanha.

Passada que está a campanha é-nos possível retirar algumas conclusões da concretização desta linha de trabalho. Para tal, há que considerar duas dimensões da questão: uma primeira que se refere à agitação «de fora para dentro», ou seja, no contacto com os trabalhadores à porta das empresas; uma outra que diz respeito ao trabalho desenvolvido pelos comunistas dentro das próprias empresas.

No que toca à primeira estamos em condições de afirmar que foi um êxito. O número de locais de trabalho abrangidos e os contactos realizados revelam que estamos no caminho certo, que o prestígio do Partido junto dos trabalhadores é crescente e que temos capacidade para chegar a um número cada vez maior de locais de trabalho. Entre outros, destaca-se o exemplo da imensa simpatia com que fomos recebidos na Renault Cacia – seguramente indissociável da solidariedade prestada pelo Partido nas lutas recentes e da intervenção dos comunistas naquela empresa com muitos anos de história. Porém, este sucesso não pode nem deve iludir-nos pois continuam a verificar-se casos em que a intervenção é muito pouco regular, ou em que o conhecimento da realidade concreta das empresas é muito insuficiente. Subsistem dificuldades ainda em algumas organizações que não têm meios para ir tão longe quanto necessário por dificuldades na mobilização de militantes nos horários adequados para contacto com os trabalhadores, seja à entrada ou à saída do local de trabalho.

Porém, é na segunda dimensão desta questão que se evidenciam as maiores dificuldades. Apesar dos passos positivos que fomos dando, a irregularidade de funcionamento dos poucos organismos de empresas (células de empresa, organismos concelhios ou sectoriais) levaram a que acontecesse o que se esperava – com honrosas excepções, a intervenção dos comunistas nos locais de trabalho foi essencialmente fruto da implementação individual junto dos seus colegas de trabalho da orientação geral. É óbvio que sem trabalho individual jamais existe o produto colectivo, porém foram muito poucos os casos em que tenha havido uma acção concertada, planificada e concretizada colectivamente, e isso é algo que não pode deixar de ser assinalado e que precisa de ser corrigido.

Pés na terra, olhos no futuro!

A abordagem criativa e audaz de uma campanha eleitoral permite que este trabalho não se esgote em si mesmo. Saltando rotinas, puxando pela imaginação – quantas vezes sob pressão pela necessidade de dar resposta aos imensos desafios colocados pela realidade – foram abertas importantes portas para o reforço do Partido.

Apesar do desgaste produzido pelo circo mediático e pela hipocrisia dos protagonistas da política de direita, que cria uma frustração e revolta que afasta importantes camadas da população da intervenção nesta batalha em defesa dos seus próprios interesses, designadamente pelo uso do voto como elemento de resistência e transformação, a verdade é que há igualmente predisposição para um debate mais profundo e estruturado por parte de milhares de pessoas.

Em simultâneo, o facto de a organização ser impelida a estar ainda mais na rua, visitando locais e tendo debates que vão para lá do seu trabalho regular, abre novos horizontes, permite estabelecer novos contactos e aprofundar outros já existentes. Não é por acaso que no mês que separa a Festa do Avante! e o dia das eleições se realizaram oito recrutamentos e se abriram sólidas perspectivas de quase mais uma dezena no conjunto do distrito.

Mas há mais: a exigência da campanha obriga o colectivo a encontrar soluções novas, responsabilizando mais quadros, criando condições para que estes adquiram um importante capital de experiência num curto espaço de tempo. Se é certo que nem todas as experiências correm bem, é justo afirmar que a campanha terá contribuído decisivamente para aprofundar a consciência, a militância e a disponibilidade de muitos militantes que são hoje quadros melhor preparados para enfrentar as batalhas que teremos pela frente. Entre outros exemplos, é disto elucidativo o da recém-eleita comissão concelhia da Mealhada que, apesar das dificuldades inerentes a um concelho onde os militantes do Partido não chegam a uma centena, foi capaz de planificar e concretizar uma acção que abrangeu as principais empresas e todas as freguesias do concelho, envolvendo várias dezenas de camaradas e amigos.

Passo a passo, consolidar e avançar

Acompanhando a tendência geral do País, também no distrito o resultado evidencia a derrota da direita (que perde mais de 40 000 votos e 8 pontos percentuais) e um crescimento da CDU. É verdade que não fomos ainda capazes de recuperar a representação parlamentar, porém o crescimento em votos e em percentagem são um factor de alento para todos os que nesta campanha se empenharam de forma abnegada.

Do quadro nacional que sai destas eleições é possível retirar ainda duas conclusões que devem ser encaradas de forma articulada: a primeira é que a nova correlação de forças na Assembleia da República deve dar ânimo à luta dos trabalhadores e das populações, que, tendo o PSD e o CDS em situação minoritária, devem legitimamente aspirar a verem satisfeitas as suas reivindicações, designadamente no que toca à reversão de muitas das malfeitorias feitas pelo anterior Governo; a segunda, é que o reforço orgânico do Partido não apenas foi uma ferramenta indispensável para a obtenção deste resultado como, e acima de tudo, é o caminho para garantir que, para lá de resultados circunstanciais, os trabalhadores e o povo venham a estar em condições de derrotar definitivamente a política de direita.

Para isso precisamos de recrutar mais militantes, alargar o número de quadros com tarefas – particularmente nas empresas e locais de trabalho –, reforçar a independência financeira do Partido e levar a imprensa do Partido mais longe. Articulado com o desenvolvimento da luta de massas, esse é o caminho para construir a alternativa de que o País precisa: uma política patriótica e de esquerda, vinculada aos valores de Abril!