Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Actualidade, Edição Nº 341 - Mar/Abr 2016

E no fim da noite houve… sabonetes! * - As eleições presidenciais e a comunicação social

por Carina Castro

Será escusado descrever o papel da comunicação social e os interesses que serve, tema tantas vezes tratado nas páginas de O Militante. Importa, no entanto, assinalar a continuada tendência de concentração dos órgãos de comunicação social em poucas mãos, assim como a fragilidade financeira, que resulta numa fragilidade da sua independência (?), no encerramento de títulos, despedimentos, e prática da precariedade neo-escravatura generalizada nas redacções que resulta inevitavelmente em auto-censura. Instrumentos fundamentais de dominação ideológica, batalha prioritária na luta de classes.

Assinala-se também a tendência de cada vez mais comentadores e opinadores (normalmente com passado, ou presente, em grandes grupos económicos e/ou partidos da política de direita) aparecerem como analistas, interpretadores/mastigadores das notícias, a que se somam pivôs de telejornal, com o poder de condicionar toda a leitura das peças, das notícias, dos factos (o impacto de um comício de campanha com 6000 pessoas será consideravelmente diminuído se durante todo o telejornal se ouvir: «há um total afastamento dos portugueses em relação aos candidatos e à campanha»1; ou de que vale uma boa peça de campanha se tudo à volta nos diz que o resultado está já decidido?).

A recente campanha não foi excepção nestas tendências, talvez evidenciando traços mais subtis e sub-reptícios. De novo as sondagens repetidas até serem verdade (nunca saberemos até que ponto as sondagens se confirmam porque existiram), a criação de «divisões de um campeonato» entre os candidatos, assumindo como factos, como notícia, realidades que só no dia do voto se poderiam verificar que a fabricação de factos condiciona os factos.

O capital não perdoa. Não perdoa ao PCP, desde logo por existir, mas as espinhas na garganta mais recentes com o rejuvenescimento do Partido (contraditando vatícinios passados), o resultado eleitoral nas eleições autárquicas e posteriormente nas eleições para o Parlamento Europeu fizeram soar os alarmes. A isto, somou-se o reforço da CDU nas eleições legislativas e a «Posição conjunta do PS e do PCP sobre solução política», que permitiu concretizar a derrota do PSD/CDS e procurar uma política que dê resposta a problemas mais urgentes dos portugueses.

Os alarmes que haviam soado desencadearam uma campanha rasteira nas eleições legislativas. Quem não se lembra das referências de Miguel Sousa Tavares aos activistas da CDU como «os alheados da vida», «sem o trabalho de pensarem pela sua própria cabeça», entre tantos outros absurdos repetidos uma e outra vez, que só não são insultos porque não valem tanto. Quem não se lembra do jornal «referência» (para quem?) e da sua campanha?2

Campanha que se estendeu, por oposição, à promoção de forças que pudessem ocupar espaço. Primeiros uns, que foram entretanto largados (tantas páginas de Livre…), depois os suspeitos do costume. Destacam-se dois exemplos nos antípodas dos «mimos» acima enumerados: a arruada do BE no Porto e a arruada em Coimbra deste mesmo partido.

No Porto, a arruada visível num dos canais de televisão como tendo uns generosos 200 participantes, o relato chega-nos desta forma: «êxtase»; a «Santa» Catarina; «o BE teve que improvisar um cordão de segurança para as pessoas não se aproximarem de Catarina Martins»; «a esquerda caviar passa a esquerda popular».

Em Coimbra, em que novamente um deslize de uma televisão nos permite visionar a presença de 30/40 pessoas, o relato vai no mesmo sentido: «grande manifestação de apoio»; «Coimbra foi demasiado pequena para o BE».

Nas eleições presidenciais não se podia baixar a guarda. No passeio pelo parque mediático de Marcelo – e que belo tempo estava! – a que se chamou Eleições Presidenciais (e para quem ache a acusação despropositada, lembre-se que o DN lhe chamou mesmo a «Primavera Marcelista dos afectos»…), o capital cumpriu o seu papel.

Quinze anos de campanha eleitoral de conversas em família a cores, de vitória pré-anunciada, quase dispensando a realização do acto eleitoral, em três semanas de roteiro gastronómico (com papas e bolos…), sem uma crítica, sem um confronto, sem uma pergunta difícil. Destaques do dia: o pastel de nata e o enchido provados por Marcelo! Marcelo – o Professor, o já Presidente, nunca o candidato – passou toda a campanha sem se comprometer, sem nunca ser confrontado com essa ausência de compromisso ou posicionamento, fazendo lembrar a rábula «é proibido, mas pode-se fazer». Um jornal chegou mesmo a titular «One man show de Marcelo nas eleições que já estão decididas». O candidato que não recusou fazer a capa de publicações como «Cristina» e a «GQ», que afirmou que iria a todos os debates e que foi o único a não comparecer ao Fórum TSF, onde, talvez pela primeira vez, faria campanha sem rede. Até Paulo Baldaia, então director da rádio, assinalou tal facto. (4)

Dia das eleições, nova ronda, Marcelo vota às 13 horas e uma das televisões assinala em rodapé «O voto de Marcelo», muito próximo de um subliminar «vote em Marcelo», voto acompanhado pela «surpresa» da presença do filho vindo do Brasil a ser transmitida nos três canais de televisão.

A apresentação da candidatura ímpar de Edgar Silva gozou de umas breves horas de reconhecimento do percurso de vida do candidato, mas rapidamente foi rotulada como expressão de marcação de terreno por parte do PCP, como forma de condicionar o processo de «Posição conjunta com o PS», sendo tantas vezes (de forma despropositada) invocados exemplos passados de desistência de candidatos apoiados pelo PCP, e ignorando as circunstâncias concretas de cada momento.

Desde então, e para lá de um persistente silenciamento, os ataques à candidatura sucederam-se por vagas.

Primeiramente e estruturalmente a discriminação. O estabelecimento das tais «divisões de um campeonato» de candidatos, cuja primeira divisão mereceu grandes entrevistas, entrevistas em canal aberto e debates isolados sem o «amontoado» dos três debates por dia, com mais tempo e em canais gratuitos. A candidatura de Edgar Silva, pelo contrário, foi imediatamente desvalorizada porque associada ao PCP.

Das intervenções do candidato houve ocultação, manipulação, filtragem, distorção, excertos truncados, independentemente do tema da intervenção, e o bombardeamento repetido de perguntas procurando encontrar e explorar divisão ou discórdia, ou com o governo ou com o Partido. Chegou a ser apontado como o candidato que mais atacava o governo, parecendo mesmo um remake das legislativas – dissesse o que se dissesse só passavam as referências mais ou menos críticas ao PS, em que deu para tudo e para o seu contrário, como o prova o tratamento dado às questões do BANIF e do orçamento rectificativo. Do insulto à desvalorização – da sugestão de que o candidato «estava a trabalhar para chegar a secretário-geral», à ofensiva persistente, anti-democrática e populista em torno do orçamento de campanha.

E chegamos ao derradeiro trunfo anti-comunista, para quando nada mais há a sacar da algibeira: a Coreia. Dos moderadores de debates, aos dirigentes do BE, a Francisco Louçã e outros «istas», todos passaram pelo caminho fácil. Na longa estrada do anti-comunismo muitos caminharam, perdendo da mira o objectivo que para nós era claro – derrotar o candidato de Passos e Portas. Marisa, insistentemente sobre o orçamento rectificativo e subvenções vitalícias, com deturpações, mentiras e populismo; Mortágua, acusando num comício o nosso candidato de não levantar a voz sobre os direitos humanos em Angola, nomeadamente sobre Luaty Beirão; e Fernando Rosas, disparando em várias direcções, disse sobre Marisa: «fê-lo sem sermões e piscar de olhos para nenhuma confissão religiosa».

A repetição do estereótipo nas vozes de jornalistas cristalizou-se diariamente com expressões como: «procura mobilizar os fiéis»; «fala para o eleitorado comunista»; «quer segurar o eleitorado comunista que está dividido entre Edgar e Sampaio da Nóvoa»; «é a máquina do PCP a funcionar»; «a máquina que quase encheu o Palácio de Cristal»; «Edgar no bastião comunista»; «o candidato comunista», quem? «o candidato comunista», «o candidato comunista»...

Seguiu-se um rodopio de outros «factos»: só bate em Marcelo, não tem ideias, nem propostas, faz um discurso vazio, ou, em sentido oposto e contraditório, faz discurso de governo, não tem noção das competências do PR, de tal forma que mesmo um jornal que não acompanhou a campanha consegue concluir que os discursos foram todos iguais. Afinal de quem é a cassete?

Houve peças ostensivamente agressivas (as gaffes de Edgar, o partido do envelope – atacando a recolha financeira com base na militância, com insinuações de obscurantismo e até usurpação. Seria mais «transparente» se os fundos viessem directamente de um qualquer grupo económico?), mas o mais determinante jogou-se noutras frentes. Toda a campanha dos colunistas e outros artistas de variedades, de que se destacam Henrique Monteiro – com o artigo «O pior dos candidatos» na rúbrica «chamem-me o que quiserem» (e que vontade!) – e Miguel Sousa Tavares (que suscitou tal artigo), de apoucamento das capacidades e condições políticas do candidato (exemplo de Daniel Oliveira). Vindo de onde vem, só pode ser elogio, mas vai fazendo caminho.

O day-after e o cíclico decretar da «morte irreversível do PCP»

1991, 2002, 2009, só para referir exemplos mais recentes, foram todos momentos em que se vaticinou «a morte irreversível do PCP». Morte irreversível em contraposição com a «vitória estrondosa» de Marisa Matias, «vencedora na comunicação social nacional e internacional, quase que a chegar a Belém, Palácio». Dois actos eleitorais a perder (porque atrás do BE), não importando que nas legislativas a CDU tenha reforçado a sua votação em percentagem, votos e mandatos. Tantos anti-comunistas profissionais a apontarem caminhos e lições ao PCP: necessidade de repensar a estratégia, a linguagem, o rejuvenescimento que se verificou e não chegou ao topo; a crise de liderança e as supostas cisões rumo ao Congresso. Que preocupados que eles estão. Alvitram ainda consequências para o quadro político e o Orçamento de Estado: o PCP vai ter de fazer cair a «Posição conjunta com o PS» e derrubar o governo nas ruas porque perdeu peso nas negociações, e vai usar a CGTP para isso.

Curiosamente, estes ciclos de memória curta, medidos por quem mede avanços e recuos apenas pelas eleições, esquecem que a seguir às eleições para o Parlamento Europeu tanto foi escrito de elogio (ainda que com preconceito latente) sobre a capacidade de rejuvenescimento ímpar do PCP, o discurso da coerência que trouxe frutos, o enraizamento popular, as características únicas do secretário-geral, simpático e empático, para passado uns meses sermos reduzidos novamente ao Partido anquilosado, preso no muro de Berlim, incapaz de se actualizar, estafado.

O Congresso do Partido está à porta e o que se prevê é um agravamento de todas estas linhas, que exigem de cada um a capacidade de estar munido para mais esta batalha, com a certeza de que cada um destes ataques nos reforça a convicção de que escolhemos o rumo certo.

Esquecem-se que este Partido é feito de homens, de mulheres, de jovens que travam todos os dias o confronto de classes, que todos os dias sabem e sentem o que é a exploração, que não se resignam, que decidem todos os dias que já basta, que jamais baixarão a bandeira da emancipação humana. Uma bandeira com mais projecto e futuro que memória. E essa é a história que não se conta em domingos à noite.

* Referência à famosa expressão de Emídio Rangel num documentário sobre a SIC em que afirmava que uma televisão com mais de 50% de share tanto vende sabonetes como Presidentes da República.

Notas

(1) Miguel Sousa Tavares no seu espaço de comentário do Telejornal da SIC.

(2) «O programa está todo centrado no líder comunista»; «campanha mais calma e sentada»; «os militantes de base que seguram a CDU estão velhos»; «Jerónimo, Jerónimo, Jerónimo. A campanha da CDU não é feita por mais ninguém»; «Não há campanha sem o líder»; «O cansaço já pesa»; «Parece claro que estas poderão ser as ultimas eleições legislativas de JS»