Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Juventude, Edição Nº 341 - Mar/Abr 2016

19.ª Assembleia da FMJD - Os desafios da Federação no seu 70.º aniversário

por Duarte Alves

Celebrou-se no passado dia 10 de Novembro o 70.º aniversário da Federação Mundial da Juventude Democrática (FMJD). Ao mesmo tempo, realizava-se em Havana a 19.ª Assembleia desta Federação, que junta dezenas de organizações juvenis dos quatro cantos do mundo em torno da luta contra o imperialismo e por um mundo de paz, solidariedade e transformação social. A JCP participou nesta Assembleia, reafirmando o seu compromisso com a FMJD, que se mantém depois de oito anos em que assumimos a presidência, tarefa que passámos o testamento na 18.ª Assembleia, que se realizou em Lisboa em 2011.

Quatro anos depois da Assembleia da FMJD realizada em Lisboa, e com o significado particular de realizar esta 19.ª Assembleia em Cuba 70 anos depois da sua fundação, a Federação foi chamada a responder aos enormes desafios que a juventude enfrenta no mundo de hoje, em que o imperialismo está na ofensiva, atacando os direitos da juventude, atacando o direitos dos povos à soberania e independência nacionais, e agravando a expansão da guerra, da ocupação e da agressão militar. Um panorama mundial que levanta enormes perigos de retirada de direitos conquistados e de regressão social, de guerra generalizada e permanente, em que a juventude é das camadas sociais com mais a perder, como a História tem demonstrado. Ao mesmo tempo, um panorama mundial em que os povos e os jovens lutam, resistem às ofensivas do imperialismo e em alguns casos avançam em conquistas sociais e políticas, como nos demonstra a realidade de Cuba, país que recebeu esta Assembleia, e também de outros países da América Latina, em que os jovens vêem avanços na concretização das suas aspirações e anseios, como à educação, ao emprego e a uma vida digna. Os relatos de jovens que lutam e resistem nas mais duras condições, enfrentando a guerra e a ocupação, a perseguição política e o exílio, assim como daqueles que têm conseguido, pela sua luta, a efectivação de conquistas e vitórias, foram os exemplos que marcaram esta Assembleia e que confirmaram na prática as características da FMJD, que ao longo da sua História esteve sempre junto das lutas dos jovens em todo o mundo.

O carácter anti-imperialista da FMJD

A FMJD nasceu há 70 anos, após o fim da maior catástrofe que a humanidade já tinha assistido – a II Guerra Mundial –, num momento de vitória para as forças da paz. Por isso, a FMJD inscreveu como lema «Jovens uni-vos! Avante por uma Paz duradoura!», lema que transmite a esperança e a legítima aspiração da juventude de construir um mundo em que não voltasse a haver guerra. A Paz, alcançada após a vitória dos povos sobre o nazi-fascismo, abriu portas a uma época de vitórias, de conquistas, em que a juventude alcançou novos direitos pela sua luta. O novo ordenamento internacional, de que é expressão maior a Carta das Nações Unidas, tornou lei universal os princípios da auto-determinação dos povos, da não-ingerência, do respeito pela soberania e independência nacionais. Apesar de todas as conquistas, o imperialismo não deixou de procurar atacar os direitos conquistados e de impor a sua agenda de dominação mundial, guerra e colonialismo.

A Federação nasceu num período de conquistas e de vitórias, mas também de resistência face às novas investidas do imperialismo, e foi nesse período que forjou a sua identidade anti-imperialista, unitária e internacionalista. Nas condições do imperialismo, fase superior do capitalismo, a luta pela Paz não reivindica apenas o silêncio das armas, mas também a salvaguarda de direitos dos povos, e neste caso da juventude, e o respeito pela soberania de cada povo. Foi a partir desta concepção anti-imperialista que a FMJD se constituiu como um espaço amplo, que representasse a nível internacional as lutas da juventude, reunindo organizações com diferenças no que diz respeito à ideologia, objectivos, estratégias, dimensão e influência, forma de funcionamento, com diferentes contextos nacionais e regionais e diferentes percursos de intervenção, mas que tinham – e têm – em comum a luta contra as várias expressões nacionais e internacionais do imperialismo.

Hoje, os tempos são outros, e por isso o desafio de alargar a frente anti-imperialista reforça-se. Após a derrocada da URSS e de outros países socialistas, o imperialismo viu-se em melhores condições para aprofundar a sua senda agressiva de retirada de direitos, de recolonização e neo-colonialismo, de opressão e de guerra. Além disso, ao contrário do que profetizaram os arautos do «fim da história», por todo o mundo, a luta dos trabalhadores, dos povos e da juventude continua a travar, a diferentes escalas, as ofensivas do imperialismo e mesmo a alcançar importantes vitórias. Muitas dessas lutas foram relatadas com entusiasmo pelos participantes na Assembleia da FMJD.

Os desafios para a FMJD

Na resposta ao actual momento mundial, a Federação tem sabido, a partir da sua própria experiência, manter as suas características anti-imperialistas fundamentais. Se num momento de avanços e de conquistas, como foi o momento em que a FMJD foi fundada há 70 anos atrás, a opção tomada foi a de estabelecer uma Federação com estas características, hoje, num momento de grandes dificuldades para a luta organizada da juventude, que se expressam também no quadro da FMJD, a opção tem de ser o reforço desses princípios, o alargamento e aprofundamento da frente anti-imperialista da juventude, o reforço da actividade, intervenção, influência e prestígio da FMJD e o reforço dos laços de solidariedade e cooperação entre as organizações-membro da FMJD. Na 19.ª Assembleia da FMJD, a posição da grande maioria das organizações permitiu que a Declaração Política reafirmasse esse carácter anti-imperialista da FMJD, apesar de um conjunto reduzido de organizações ter procurado forçar uma discussão em sentido contrário, em torno de conceitos teóricos e catalogações completamente estranhos ao carácter e à Constituição da FMJD e às reais preocupações dos jovens em todo o mundo, posições essas que a JCP e a grande maioria das organizações não acompanharam. A reeleição da EDON de Chipre para a presidência, da UJC de Cuba para a Secretaria-geral, e para a vice-presidência, com presença na Sede da FMJD em Budapeste, a ULDY do Líbano, a SPYL da Namíbia e a SSU do Sri Lanka, bem como a eleição do Conselho Geral e do Conselho Coordenador, dão-nos ainda a garantia de uma direcção capaz de corresponder ao desafio de manter e reforçar esses princípios e de fortalecer o trabalho da FMJD.

A FMJD terá como grande desafio saber responder à cada vez mais complexa situação da juventude, que em todo o mundo é afectada de forma particular pelas políticas de regressão social promovidas pelo imperialismo, sendo ainda o alvo preferencial da intensa ofensiva ideológica de promoção dos valores mais reaccionários. O ascenso do fascismo, não só na Ucrânia, em que o fascismo está no poder, mas também em muitos outros países em que as forças fascistas e populistas crescem, representa um perigo imenso para a Paz, para a democracia e para os direitos da juventude. Muitos jovens são captados pelas organizações que promovem o fascismo, o racismo e a xenofobia por estarem descontentes com o sistema actual, apesar de ser o próprio sistema que cria o fascismo como válvula de escape. Também o fundamentalismo religioso e os grupos terroristas, financiados e apoiados pelo imperialismo, usam métodos semelhantes para captar os jovens. Em vários países da América Latina, vemos como o grande capital nacional e as instituições internacionais do imperialismo se articulam para promover o descontentamento na população e enfraquecer ou derrubar governos e processos que põem em causa a hegemonia do imperialismo na região, e como utilizam a ofensiva mediática para promover manifestações supostamente «espontâneas» e de «jovens» que visam os objectivos do imperialismo. Ou também em África, em que poderosas fundações ligadas ao grande capital transnacional investem milhões na promoção de conflitos e de ofensivas mediáticas, com o propósito de realizar inaceitáveis ingerências de cariz neo-colonial, mais uma vez instrumentalizando a juventude. Por todo o mundo vemos as televisões, os videojogos, os filmes, os conteúdos escolares, a promoverem os valores do individualismo, do conformismo e mesmo o fascismo, o anti-comunismo, o racismo e a xenofobia. A conjugação de uma brutal ofensiva ideológica com as políticas de regressão social, nomeadamente de aumento do desemprego, da precariedade, da exploração do trabalho e da elitização da Educação, representa, num quadro de cada vez maior articulação internacional do imperialismo, um grande desafio para a juventude, a que a FMJD terá de saber responder com o alargamento e fortalecimento da frente anti-imperialista e da luta da juventude em defesa dos seus direitos, em defesa da Paz, contra o fascismo e a guerra.

Outro grande desafio a que a FMJD terá de dar resposta brevemente é a realização do 19.º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes (FMJE). Depois da 19.ª Assembleia, o Conselho Geral da FMJD já reuniu e, no seguimento das decisões emanadas da Declaração Final do 18.º FMJE (Equador, 2013) e da 19.ª Assembleia, decidiu aceitar a proposta de realizar o 19.º FMJE na Rússia, em 2017. A realização do FMJE, quatro anos depois do último, representa a vitalidade e o prestígio do movimento dos festivais e da própria FMJD, e pode ser aproveitada para potenciar a luta em cada país, e para uma vez mais juntar milhares de jovens de todo o mundo, com um amplo processo preparatório que envolva milhões de jovens, pelos valores do anti-imperialismo, da paz e da solidariedade. Além disso, o Festival em 2017 assinalará o centenário da Revolução de Outubro, uma revolução profundamente anti-imperialista, em primeiro lugar pelos seus objectivos de construção de uma sociedade sem classes, mas também porque pôs fim à participação da Rússia na I Guerra Mundial, e porque foi uma Revolução que resistiu ao ataque de 14 exércitos imperialistas. Celebramos ainda, em 2017, o 70.º aniversário do movimento dos Festivais, iniciado em 1947 com o FMJE de Praga, bem como o 60.º aniversário do 6.º FMJE, que se realizou em Moscovo, em 1967, tendo sido o festival mais participado até hoje. É ainda de assinalar que não se realizava um Festival no continente europeu há mais de 30 anos. As várias preocupações relativas à realização do FMJE num país como a Federação Russa, algumas das quais a JCP acompanha, não nos deve fazer ignorar a importância que este Festival pode ter, tendo em conta o cerco do imperialismo contra a Federação Russa. Cerco esse que tem como expressões mais evidentes a expansão das fronteiras da NATO para junto das fronteiras russas, o apoio da UE, dos EUA e da NATO ao golpe de Estado na Ucrânia, os exercícios militares em vários países da Europa e a instalação de um sistema anti-míssil visando a Federação Russa, e o inaceitável embargo económico. Não podemos ainda esquecer a importância, no actual quadro de rearrumação de forças a nível mundial, do crescente papel da Federação Russa e da afirmação soberana dos seus interesses, de que são exemplo o papel da Rússia no apoio à República Árabe Síria na luta contra o «Estado Islâmico» e outros grupos terroristas financiados pelo imperialismo que procuram atacar a soberania desse país; ou a ajuda humanitária às populações que são atacadas pelo novo poder fascista da Ucrânia; ou ainda os acordos para transacções directas com a China sem utilização do dólar como moeda intermediária, entre outros exemplos.

É nesta Rússia que se vai realizar o Festival: um país em que, apesar das dramáticas consequências da recuperação capitalista após o derrubamento da URSS, e apesar das suas próprias contradições por ser um país capitalista, tem no seu povo, um povo que derrotou o nazi-fascismo e que nunca abdicou dos mais profundos sentimentos patrióticos, que são também eles fruto da construção do socialismo, um garante de que a sua soberania não será pisada pelo imperialismo.

Para termos um 19.º FMJE ligado às massas, às lutas dos jovens pelos seus direitos em cada país, devemos trabalhar para que haja um amplo e dinâmico processo de preparação, com envolvimento da juventude em cada país a partir da constituição de Comités Nacionais Preparatórios (CNP), com grande envolvimento da juventude russa e das suas organizações, com uma grande mobilização.

Da parte da JCP, reafirmamos o nosso compromisso de contribuir na medida das nossas possibilidades para a construção do Festival e para o levar à juventude portuguesa. Neste ano em que celebramos o 40.º aniversário da Festa do Avante! com a abertura da Quinta do Cabo, iremos organizar um Acampamento Internacional por ocasião da Festa do Avante! 2016, convidando a FMJD e muitas das suas organizações-membro para esta iniciativa que terá o nome «Avante! Por um mundo de Paz». Esperamos com esta iniciativa poder dar a conhecer a Festa do Avante! e as suas características a estas organizações, e poder também contribuir para os objectivos traçados na 19.ª Assembleia, bem como para a divulgação da FMJD e do movimento dos Festivais junto da juventude portuguesa.