Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Organização, Edição Nº 342 - Mai/Jun 2016

Empresas e locais de trabalho - Experiências na Organização Regional do Porto

por Gonçalo Oliveira

Nas actuais circunstâncias, a organização do Partido nas empresas e locais de trabalho é uma tarefa que exige grande persistência e compreensão.

Sendo o PCP o instrumento privilegiado para concretizar a luta por uma sociedade mais justa, é necessário que os seus alicerces estejam firmemente implantados nas empresas e locais de trabalho. Essa implantação é necessária para garantir o conhecimento da realidade, para organizar e mobilizar os trabalhadores na luta por objectivos concretos, associados à mudança de políticas.

Se todos os militantes tivessem conhecimento destes princípios e se as condições fossem propícias à sua prática, então a maioria dos camaradas estariam organizados por célula de empresa e local de trabalho. Na realidade isso não acontece.

Atentemos no caso da Organização Regional do Porto (ORP): cerca de um terço dos seus militantes está reformado (de acordo com o ficheiro). Acresce um número difícil de determinar de desempregados, estudantes e de camaradas noutras situações. É seguro dizer que a percentagem de militantes da ORP que se encontra no activo, a trabalhar, será muito significativa. No entanto, apenas 19% do número total de militantes está organizado por empresa ou local de trabalho; e dos 195 organismos existentes na ORP, apenas 29 são células de empresa ou de sector profissional (15%).

Isto sucede porque não é possível passar da teoria à prática sem enfrentar dificuldades. A luta de classes encarrega-se disso. As próprias orientações e linhas de trabalho criadas pelo Partido contam com isso. Parte da nossa formação política e ideológica versa sobre essa matéria. Este artigo, aliás, incide sobre algumas questões associadas à célula de empresa – a mais importante organização de base do Partido –, partindo de exemplos concretos, possíveis de encontrar na ORP.

Note-se que o objectivo destes exemplos não é permitir que se façam generalizações – «não existe uma receita» para o trabalho nas empresas –, apenas pretendemos ilustrar algumas das condições objectivas com que nos confrontamos.

A organização nas empresas ou local de trabalho

Não é raro encontrar camaradas que, apesar de trabalharem em empresas ou locais de trabalho identificados pelo Partido como sendo prioritários, estão organizados «na freguesia». Os motivos são diversos: por vezes trata-se de um camarada que mudou de emprego e não avisou o Partido; por vezes há falta de iniciativa da organização responsável; noutras ocasiões é o próprio militante que não quer estar organizado dessa forma, talvez por recear ser alvo de repressão patronal.

No caso da Inapal Plásticos, onde trabalham três camaradas que estavam previamente organizados na freguesia, bastaram algumas conversas para criar a célula. Depois de explicar aos camaradas o objectivo do Partido, os mesmos «voluntariaram-se» para serem transferidos. Foi assim criada a célula de empresa.

Outros casos, envolvendo camaradas mais difíceis de persuadir, poderiam também ser mencionados. Nem todos foram possíveis de resolver. Persistem incompreensões de camaradas que levam à subestimação da importância deste trabalho. Na generalidade dos casos tem sido benéfico integrar estes camaradas na actividade do Partido, possibilitar-lhes acesso à formação ideológica e, simultaneamente, sensibilizar as suas organizações para a necessidade de definir objectivos e responsáveis por esta área. Há, no entanto, ainda um longo caminho a percorrer para explorar a linha de trabalho da transferência de membros do Partido com menos de 55 anos para organizações de local de trabalho.

Recrutamento

No princípio do ano passado, os trabalhadores da EFACEC iniciaram um processo reivindicativo exigindo o aumento de salário. Trata-se de uma empresa que já há vários anos não partia para a luta. O Partido acompanhou a greve dos trabalhadores, reuniu a organização de que disponha na empresa – muito débil na altura – e elaborou uma lista de nomes de trabalhadores honestos e com espírito de classe a abordar com vista ao recrutamento.

O trabalho deu frutos, foi constituída célula e presentemente reúne um pequeno colectivo de camaradas.

Este é um exemplo de como o recrutamento pode ser dirigido: dado que as movimentações de massas trazem ao Partido os lutadores de vanguarda, quando as organizações do Partido tomam a iniciativa de fazer abordagens em empresas que atravessam processos de luta estão a aumentar as probabilidades de recrutar.

Em alternativa, ficar à espera do recrutamento espontâneo – em que os militantes aparecem por iniciativa própria a inscreverem-se no Partido – geralmente leva a organizações enfraquecidas e fechadas sobre si próprias.

A falta de recrutamento, sobretudo quando associada à saída da empresa de camaradas por motivos de reforma ou despedimento, pode levar a situações delicadas. Este é o problema que afecta a organização do Partido numa outra empresa estratégica do distrito do Porto. O recrutamento nessa empresa é praticamente inexistente, no entanto, deu-se uma «sangria» de quadros do Partido devido a reformas e «rescisões amigáveis» de contrato, levando a que os militantes mais antigos já não estejam na empresa. O secretariado de célula, que já contou com perto de uma dezena de camaradas, é composto actualmente apenas por quatro. Paradoxalmente, um organismo tão pequeno tornou-se mais difícil de reunir. Devido ao trabalho por turnos e à disponibilidade reduzida para reuniões, é quase impossível encontrar um horário que funcione para todos os membros do secretariado. O resultado é que basta faltar um ou outro camarada para que os restantes, desmotivados pelas ausências, digam: «Não vale a pena reunir para falarmos só nós!». Ao não se ter acautelado esta situação mais cedo, tornou-se agora mais difícil inverter a falta de capacidade de recrutamento.

Responsabilização de novos quadros

A realização de recrutamento com regularidade é, no entanto, apenas metade do trabalho.

O património histórico de luta protagonizada pelo Partido só foi possível de atingir graças à constante renovação e atenção dada ao rejuvenescimento das organizações. Não cuidar da responsabilização de quadros seria comprometer o futuro do Partido.

Os riscos que uma responsabilização falhada acarreta por vezes servem de entrave à promoção de novos quadros: o necessário equilíbrio entre cautela e audácia nem sempre é fácil de atingir. A experiência tem demonstrado que compensa arriscar, e que, na prática, todos os quadros tendem a passar por uma fase em que são responsabilizados com tarefas para as quais não se sentem preparados.

Uma das mais importantes orientações para o reforço da organização requer que se assuma a prioridade desta tarefa, garantindo a existência de um camarada responsável por cada empresa ou sector prioritário. A escolha destes quadros deve ser feita com base em vários factores, sendo que aqui destacaremos dois em particular: que o camarada possua características para a tarefa e tenha disponibilidade para realizar actividade política durante o período normal de trabalho – repare-se no caso das distribuições de propagada à entrada e saída dos trabalhadores da empresa, por exemplo. Na ORP, a ponderação destes factores tem levado a que a tendência seja atribuir tarefas de empresa a funcionários.

No caso já citado da Inapal optou-se por atribuir a responsabilidade da organização a um camarada que não é funcionário do Partido. Alguns meses passaram e os atrasos que se verificam na concretização dos objectivos definidos pela célula não se devem ao camarada responsável, o atraso na resposta situa-se mais acima na estrutura, demonstrando que por vezes é mais trabalhoso responsabilizar e ajudar quadros do que centralizar o trabalho.

Este tipo de dificuldades deve ser vencido, pois a responsabilização de um número maior de camaradas pelo trabalho de empresas é condição imprescindível para o fortalecimento da organização dos trabalhadores e para o reforço do Partido.

Direcção

Cada organização precisa de assegurar que se cumprem as tarefas quotidianas do trabalho, e, ao mesmo tempo, de garantir a preparação das grandes iniciativas; precisa de dar resposta à dinamização da luta mais geral, sectorial ou nacional, e à luta mais específica, das responsabilidades na sua esfera de competência: tudo desde as pequenas acções às grandes manifestações e greves gerais.

Estas são tarefas imensas, complexas, mais do que qualquer indivíduo pode fazer sozinho, estando por isso a sua concretização apenas ao alcance do trabalho colectivo. Para promover esse trabalho temos necessariamente que proceder à distribuição de tarefas. A direcção, possibilitando a responsabilização de novos camaradas e dividindo tarefas, tem por isso um papel vital no Partido.

Devido à exigência do trabalho é a este nível que mais facilmente se põem à prova os militantes do Partido. O reforço da capacidade de direcção – mais uma tarefa central para o reforço do Partido e da sua intervenção – implica que se faça um acompanhamento dos quadros de direcção, assegurando uma efectiva responsabilização – em particular de jovens.

Sucede que na azáfama do trabalho diário do Partido nem sempre é fácil fazer este acompanhamento. Sucede ainda que por vezes se descuram certos métodos de trabalho, nomeadamente a planificação, controlo de execução e a regularidade de funcionamento dos organismos.

A experiência tem demonstrado que qualquer quebra de atenção significa o desperdício de potencialidades.

Em suma, o trabalho nas empresas e locais de trabalho coloca o Partido à prova, exigindo muito dos militantes – individualmente considerados – e dos organismos de direcção. Isto porque se por um lado o caminho a seguir é claro, pelo outro não existem «receitas mágicas« que se possam aplicar para atingir os nossos objectivos. Mas a persistência, a determinação e a confiança são imprescindíveis.