Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Cultura, Edição Nº 345 - Nov/Dez 2016

A escrita em nome dos condenados da terra - Nos 105 anos de Alves Redol e Manuel da Fonseca

por Domingos Lobo

Um homem só não vale nada! 1

Manuel da Fonseca, nasceu em Santiago do Cacém a 15 de Outubro de 1911 e Alves Redol a 29 de Dezembro de 1911, em Vila Franca de Xira, dois dos mais importantes escritores do nosso neo-realismo, ambos militantes comunistas, homens da luta e da resistência contra o fascismo. Cento e cinco anos do nascimento destes dois grandes vultos da nossa Cultura, servem de pretexto para percorrer e relembrar alguns dos títulos relevantes da extensa e influente obra destes dois autores, nomeadamente, os seus pontos de convergência sobre a realidade política e social, presente nas suas obras, e abordando a sua relação próxima com outras artes, como o Teatro e o Cinema, que a ambos seduziu.

Nascidos e tendo experiências de vida diferentes, tanto Fonseca como Redol, um percorrendo os silêncios planos, o canto dorido dos ganhões e a rebeldia do maltês, o gume das facas nas vendas, a usura dos latifundiários, os ventos de revolta e resistência nos casebres dos montes, o sol inclemente nos dias de ceifa no vasto chão do Alentejo; outro, sabendo dos homens e mulheres que de sol a sol mourejavam nos campos de arroz da planura Ribatejana, na ceifa, nos saveiros do Tejo, na fanga ou nas escarpas do vinho nas serranias durienses, conseguiram, através dos prodígios da palavra, construir uma obra perdurável e referencial, das mais perfeitas e relevantes da nossa Literatura, incidindo sobre as dores, as lutas, a resistência e os trabalhos dos condenados da terra.

Alves Redol (1911-1969)

A obra ficcional de Redol, a sua forte componente ideológica de raiz marxista, não pode desligar-se da sua condição de militante comunista, ideal que sempre o acompanhou desde os tempos da juventude até ao fim da vida. José Casanova, num texto evocativo do autor de Vinhas de Sangue, recorda de forma emotiva os últimos dias dessa relação entre camaradas: «Coube-me a mim, por feliz circunstância, a tarefa – honrosa tarefa – de estabelecer e assegurar o contacto partidário com Redol, de lhe fazer a entrega regular da imprensa do Partido; de receber as suas quotizações e outras contribuições financeiras…

Guardo na memória, como recordação imperecível, esse tempo de militância: as «reuniões» que, então, fazíamos no gabinete de Redol: o director e o empregado subalterno, ali na condição comum aos dois de militantes comunistas; ali discutindo o Avante!, O Militante ou outros materiais do Partido que lhe entregara dias antes; ali debatendo a situação que se vivia no País e no mundo; ali falando de literatura; ali cimentando uma amizade que só a morte do grande escritor interromperia.

Vi Alves Redol, pela última vez, no Hospital de Santa Maria. Quase não conversámos porque o seu estado de saúde já não lho permitia.» 2

Segundo Vítor Viçoso, «o movimento neo-realista foi sobretudo uma cultura de contra-poder, enquanto antítese da política de espírito de António Ferro e da ideologia estadonovista e, ao mesmo tempo, no campo de oposição ao regime, uma fractura tanto em relação ao ideário seareiro de António Sérgio e Raul Proença (no plano político/social) como em relação à geração da Presença (1927/40), no plano estético.» 3

Alves Redol, iniciou-se nas tarefas da escrita com um romance soberbo, texto que inaugura o nós no processo narrativo, estruturando, de modo fulgurante, o mais criativo, interventor e duradouro movimento literário do nosso século XX: o neo-realismo.

Com Gaibéus, de Redol, Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes e Aldeia Nova de Manuel da Fonseca, estabelecer-se-iam as coordenadas fundamentais do quadro iniciador de um movimento cultural, filosófico e cívico que pretendia traduzir, no processo literário, a luta pela dignidade da pessoa humana, como Armando Bacelar sintetizou numa nota crítica publicada em 1947 na revista Vértice.

Gaibéus, romance escrito e publicado num contexto sócio-político de extrema complexidade (Guerra Civil de Espanha; ascensão do nazi-fascismo; fortalecimento institucional do fascismo luso), contém já as coordenadas principais que estruturariam a intervenção ficcional dos principais autores neo-realistas: a usura, a traição de classe, a violência do poder sobre os mais frágeis, a capacidade de resistência e de luta dos oprimidos.

É a busca da dignidade, através do processo literário, que leva o então jovem autor (Redol tinha 27 anos aquando da publicação de Gaibéus) a percorrer, com a perspicácia atenta de um antropólogo de afectos, o até aí ignorado universo dos descamisados, desses homens e mulheres que do Alto Ribatejo e das beiras desciam às lezírias pelas mondas e ceifas, trabalhando de sol a sol, amealhando uns cobres, escassos e sofridos, que lhes permitia manter a courela e alimentar a prole nas suas serranas e madrastas terras. Este mundo da gente miúda, olhando as éguas que pastavam de patas amarradas, espelhando a profunda consciência de que também eles eram éguas de mãos peadas, nunca antes fora abordado com lucidez analítica, munido da bagagem ideológica que lhe permitiu aprofundar, de modo dialéctico, os diversos interesses em confronto, como o autor de Fanga nos transmite nesse soberbo romance, contornando, frontal e corajoso, os limites efabulatórios de uma arte romanesca criada até então ungida para deleite e reflexo do mundo concentracionário da burguesia. É este universo, lírico, agreste e telúrico que encontramos na prosa de Redol, e que está igualmente presente na sua biografia, no modo como ele criava os seus livros e o território de afectos que o seu modo de estar e de intervir convocava.

Perguntaram um dia a Álvaro Cunhal, já após a sua saída de Secretário Geral do PCP, se não seria interessante, dado que mais disponível para a função, escrever a sua biografia. Respondeu Cunhal que não, que não fazia sentido, dado que toda a sua vida, a memória mais funda que desse percurso tinha, o vertera nos livros – só lhe faltava um episódio, mas disso estava agora a tratar. Cunhal tinha então 89 anos e estava a concluir o livro Corrécios.

Se instado sobre as suas memórias, Alves Redol certamente responderia de igual modo. Redol, em tudo o que escreveu, se o não viveu na dureza dos trabalhos, que nenhum autor como ele soube, com apuro estilístico, verdade e sentido crítico, descrever (nas mondas do arroz, na fauna agreste dos avieiros, nos duros caminhos do mar da Nazaré, nas vindimas de sangue e usura das escarpas durienses, nos rabelos que entre pedras e sobressaltos desciam o Douro, nos trabalhos da fanga), esteve sempre inteiro, sempre presente – e dessa presença, desse diálogo fraterno e solidário, dessa cumplicidade com os «descamisados» nos deixou perene, sensitivo testemunho. Mas encetou, na ficção que mordia as canelas do real, um mais longo caminho. Alves Redol foi-nos contando, desde os prefácios para Gaibéus e Fanga, passando por Teatro I, pela revista Vértice, até à Breve Nota de Culpa, publicada naquele que seria o romance pleno da sua arte de contar, obra prima absoluta do nosso neo-realismo, Barranco de Cegos; o autor nunca deixou, sem parcimónia, de se auto expor, de dizer quem era, donde vinha e, sobretudo, de claramente afirmar ao que vinha. Corajosa, frontal, loquaz desassombro. Sem rebuços, sem vaidade, sem falsas modéstias. Se há autor que está inteiro na obra produzida, se o seu percurso cívico, social e intelectual se expressa com veemência em tudo o que escreveu, esse autor é Alves Redol.

É-nos difícil, quando sobre a sua obra nos debruçamos, separar o homem que ele foi, as experiências que viveu, o meio onde nasceu, a marcante e dolorosa aventura africana, as lutas cívicas que empreendeu, do escritor maior, do cronista raro, perscrutador de sinais periféricos, de lúcida reflexão, de grande parte do nosso século XX: a sua obra está intimamente ligada a esse percurso, ao lado da vida que escolheu, às suas profundas inquietações sociais, políticas, culturais – à sinceridade de uma vida, de um projecto, de uma obra: e à generosidade de se dar a ver, de nessa obra se mostrar sem sofismas, sem manhas, sem enigmas. A grandeza da verticalidade, de uma humanidade chã que transbordava das páginas dos seus livros – e não apenas na forma como abordou a vida dos explorados –, fazendo-o sempre com assertivo sentido crítico, sem mancha de paternalismo, mas, de igual modo, na forma sensível e didáctica como escreveu para os mais novos: A Vida Mágica da Sementinha, A Flor Vai Pescar Num Bote, Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, Uma Flor Chamada Maria, etc.

Alves Redol – Fotobiografia. Fragmentos biográficos, de António Mota Redol traz-nos, numa escrita que é, a um tempo, rigorosa e sensível (e só quem do autor de O Cavalo Espantado, foi tão próximo, como é o caso, o poderia fazer deste modo), é um documento de uma inexcedível importância para que possamos, a partir das pistas biográficas que ele nos fornece, algumas desconhecidas dado que pertença, até agora, do espólio familiar, aprofundar o estudo da obra do escritor, da orgânica genésica como construiu esse monumento de palavras, a partir das suas origens e da sua geografia de vida, profusamente ilustrada por fotografias às quais o grande público, e os estudiosos, não terá, anteriormente, tido acesso.

Paralelamente, esta Fotobiografia, remete-nos para um tempo português particular, para uma Vila Franca de Xira que ficava à babugem do Tejo, entre o rio grande e a Lezíria ribatejana, terra de avieiros, ganhões, marçanos, rabejanos, valadores, gaibéus transviados, agrários impantes de soberba, campinos, toureiros, varinos, toda uma fauna de humanas gentes que Redol, com mestria, haveria de transportar para a ficção; o país da resistência ao fascismo, das solidariedades e do companheirismo militantes, de uma Lisboa vivendo os dias do medo, sentindo na pele as agruras da II Guerra Mundial, cidade pejada de espiões, de judeus em fuga; país salazarento, da bufaria e da censura, das masmorras políticas e das sevícias da PIDE; a Lisboa das conferências, da publicidade e dos jornais – do reconhecimento dos seus pares e do público que lhe esgotava as edições; Redol andarilho, por Angola, primeiro, Terra de Pretos – Ambição de Brancos, depois, pelo Ribatejo, seu espaço identitário e amado; passeios pelo Tejo, respiração de Liberdade, barco mítico; por Porto Manso, pelos vinhedos do Alto Douro; pela Nazaré da aventura cinéfila e do romance Uma Fenda na Muralha; por Espanha, fazendo-se passar por bandarilheiro de seu primo José Júlio, onde, em Málaga, se encontrou com Ernest Hemingway; a casa de Caxias, a morte a 29 de Novembro de 1969. O funeral realiza-se em Vila Franca de Xira organizado pela Secção Cultural da União Desportiva Vilafranquense. É o maior de que há memória na terra, escreve António Mota Redol. E descreve: À frente vão estandartes de várias colectividades e uma fanfarra executa uma marcha fúnebre. Quando esta deixa de tocar é um silêncio completo. «Foi o silêncio mais cheio que eu senti em toda a minha vida», recorda Bernardo Santareno, onze anos mais tarde.

Este livro fala-nos de um autor, um dos maiores e mais fecundos escritores da nossa língua. Diz-nos desse raro percurso de vida, de obra, de luta e de trabalho. Desde as origens familiares, do seu chão de afectos, até ao amplo reconhecimento nacional e internacional.

A paixão pelo teatro

Em 1946, com a criação do Teatro-Estúdio do Salitre, de Luís Francisco Rebello, entre outros, jovens actores e dramaturgos acolitados a um ensaísta de renome (Gino Saviotti), o Teatro português começa a abrir-se a novos horizontes e a outras preocupações estéticas. Nesse espaço foi possível ver representadas peças de Rebello, Vasco Mendonça Alves, Branquinho da Fonseca, Pedro Bom, Alves Redol(aí se estreia a sua peça Maria Emília).

Em 1947, começam a aparecer textos ensaísticos na recentemente criada revista Vértice, de Coimbra, nomeadamente sobre o teatro de Frederico Garcia Lorca. Na Vértice, Luís Francisco Rebello refere-se, com entusiasmo, ao teatro de Armand Salacrou e à sua peça Les nuits de la colère. Também Joaquim de Oliveira assinalava, na mesma revista, ser «catastrófica a situação do teatro português» desses anos 1940, defendendo a criação de um movimento reformador que conferisse ao teatro a sua «verdadeira missão», o que levaria a que alguns autores neo-realistas se interessassem pela arte de Talma, nomeadamente Alves Redol, Alexandre Babo, Costa Ferreira, Mário Braga, Bernardo Santareno – e mesmo Manuel da Fonseca, com o poema dramático A Casa no Vento, que Artur Ramos encenaria no Maria Matos.

A primeira tentativa de montagem da peça de Alves Redol, Forja, escrita em 1947, partiu do actor/encenador Rogério Paulo que, juntamente com um grupo de grandes nomes do nosso teatro, tentou encenar o texto, em 1960, no palco do então Teatro Avenida. Intenção que a censura frustrou. A estreia desta tragédia do autor de Fanga, viria a ter lugar por um grupo de amadores do Buzi (Moçambique), dirigidos por Salvador Rego o qual, em plena guerra colonial, 1965, a apresentou no Festival de Teatro de Manica e Sofala.

No longo Prefácio que, em Abril de 1966, Alves Redol escreveu para a edição do volume Teatro I (que incluía as peças Forja e Maria Emília) o autor explica o profundo significado social e político desse magnífico texto: A forja desta tragédia é Hiroxima, tão distante e tão perto de cada um de nós. Nela arderam homens como meus tios se queimaram em pequena forja de ferreiro, todos sacrificados à mesma mão incendiária que os devorou. 4

O Teatro, como Redol e os seus pares o entendiam, deverá ser um jogo, um jogo levado às suas extremas coordenadas conflituais, expressando a própria condição do homem – incerta e vária. E será, segundo Dullin, o transbordar da imaginação sobre a vida que revela os homens a si mesmos. Roger Vaillant, no seu ensaio Expériense du Drame afirma que de todas as criações do homem, o espectáculo teatral é o que mais se parece com um organismo vivo.

Da vasta obra dramática de Redol, em parte ainda inédita em termos cénicos (e o texto dramático só existe, enquanto tal, quando transposto para um palco e transformado em organismo vivo), relevamos: O Triângulo Quebrado (1948); O Menino dos Olhos Verdes (1950); O Destino Morreu de Repente (1967) e Fronteira Fechada (1972).

A sua passagem pelo cinema fica marcada pelos diálogos que escreveu para Saltimbancos, de Manuel Guimarães e para o guião do filme Nazaré, também de Manuel Guimarães, a partir da adaptação do seu romance Uma Fenda na Muralha.

«Sou demasiado modesto, e também orgulhoso até ao desprezo, para que alguém me leve ao espelho dos bacocos. Todas as costelas que me arqueiam o esqueleto vêm de camponês e os meus antepassados sempre desconfiaram da fartura. É por isso que a minha charrua continua a lavrar num campo de pedras». Escreveu Alves Redol para a 6.ª edição, em 1963, de Fanga.

Redol estava consciente dos limites que lhe seriam permitidos, no seu labor contínuo de desbravador de signos, pelos esbirros do sistema. Sabia do atento olhar dos censores às suas incursões lúcidas e demolidoras, à abordagem das particularidades que a exposição dessa realidade, que plasmava nos seus textos, exerciam sobre os seus leitores. Obra produzida em contexto persecutório, de apertada vigilância dos poderes e seus agentes que, ora perplexos, ora agressivos e com zoilo, raro deixavam espaço de respiração a uma narrativa que punha a nu, na conflitualidade dialéctica que a denúncia nela operava, a verdadeira face do Estado Novo e da sua estrutura de classe.

Alves Redol conseguiu, graças ao fulgor do verbo e à verosimilhança dos conteúdos, dobrar com êxito os muros do cerco, tendo produzido obra vasta e singular, que implicava a consciência e reflexão face aos fenómenos sociais que expressava.

Nos dias rapaces que vivemos, tão alheios andamos no desespero de sobreviver que quase esquecemos o quanto precisamos destes sinais de vida e de dignidade – sinais plenamente inscritos na vida e na obra de Alves Redol –, para que a nossa charrua, também ela atulhada de escolhos, continue a lavrar num campo de pedras.

Manuel da Fonseca (1911-1993)

Na poesia, primeiro, (Rosa-dos-Ventos de 1940 e Planície de1941), depois, na sua incontornável obra ficcional (Aldeia Nova, na sua 2.ª edição – na editora Inquérito – torna-se desde logo um livro de referência, um título histórico do movimento neo-realista), o autor de Tempo de Solidão, fala comovidamente de nós, percorre os nossos mais íntimos clamores porque, como escreveu Mário Dionísio no prefácio/estudo para a edição de Poemas Completos: «é por aí, decerto, que a obra de Manuel da Fonseca atinge um valor de símbolo que excede o mundo pessoal do poeta, exprime um clima e nos faz compreender a aceitação invulgar e imediata que sempre a acolheu. Porque nos retrata. Porque ela sonha e grita, e, sonhando e gritando, sobretudo explica. Nos explica.» 5

Este modo de contar, de nos contar, a fala profundamente enraizada nos axiomas dolentes e melancólicos do seu espaço de origem, a linguagem coloquial, a um tempo telúrica e sensível que nos diz, sem nunca ultrapassar os limites distanciadores que balançam entre a coragem interventora, a crítica sobre o real e as memórias sofridas das gentes e dos espaços que povoam esse universo de um avassalador lírico, de raízes ibéricas, com Lorca à ilharga, sobretudo no canto dos grandes espaços naturais do Alentejo e na envolvente erótica, (Não era noite nem dia./Eram campos, campos, campos/abertos num sonho quieto), 6 nos clamores acesos do desejo: Tremeram os seios de Nena/sob o corpete justinho./E uma oliveira amarela/debruçou-se da encosta/com os cabelos caídos!/Não era ladrão de estradas,/nem caminheiro pedinte,/nem nenhum «maltês» errante./Era António Valmorim/que estava na sua frente 7), na revolta dos trabalhadores, cuja violência que o patronato sobre eles exerce os conduz a infrene tomada de consciência: Levanta-se, leva a arma à cara, e puxa o gatilho. Ao arrepio de declive do cerro, rumorosa restolhada agita as estevas até lá abaixo 8. Uma linguagem que junta no mesmo espaço o lírico mais absorvente, o épico e o dramático, que é única de ressonâncias rítmicas, num narrativo ao rés da fala íntima, num modo lento e intenso de transmissão oral, perpassada de reverberações afectivas e memórias agrestes, de uma indefectível crença na mudança, como refere Maria Alzira Seixo, que assenta na análise marxista que as obras de Manuel da Fonseca profusamente reflectem.

O olhar do poeta, a forma descritiva e monologal desse escrita é única na poesia portuguesa do século XX, e não encontrou referentes similitudes nos poetas posteriormente revelados, tendo como eixo discursivo a limpidez do verbo, a emotividade e a implícita denúncia das opressões e da guerra como expoente da deriva capitalista: Que as balas só dão sangue derramado/Só roubo e fome e sangue derramado/Só ruína e peste e sangue derramado/Só crime e morte e sangue derramado. Ou, numa mais larga e assertiva intervenção crítica, Manuel da Fonseca dá-nos a inquietação, a denúncia, a solidariedade: Do frio/da cela do forte/a mão acena./Por sobre o rio/do lado norte/a mão acena/por Helena.

Manuel da Fonseca assume a frontalidade do combate, nesse chão dos homens, do humano, das injustiças e misérias que os assolam (miséria que ele, «contemplou ao natural») para nos dar a ler uma paisagem polvilhada de personagens raras e incontornáveis, essa geografia do humano que encontramos igualmente em Alves Redol, que nos respira e sofre, território percorrido pelos homens em desassombro e fúria, desapossados de Deus (ou, por Ele, abandonados), sós perante a sua perecível condição, como acontece, por exemplo, com os personagens de Seara de Vento: essa heróica Amanda Carrusca, «corpo seco e chato, só ossos», e o genro Palma, ambos acossados pela fome e ventos adversos.

Militante comunista desde os anos 1940, num dos períodos cruciais da vida do Partido, a da Organização (1940/41) e dos III e IV Congressos (I e II ilegais), Manuel da Fonseca foi sempre um intelectual destacado e activo nas organizações a que pertenceu, e essa profícua e corajosa acção prosseguiu mesmo após a Revolução de Abril, tanto na ligação à Reforma Agrária, que os seus livros, o seu modo de descrever a exploração, a fome e a miséria nos campos do Alentejo, expressam de forma dialecticamente emotiva, contribuindo para uma efectiva tomada de consciência dos fenómenos de exploração capitalista nas zonas do latifúndio, como participando nas tarefas de consolidação do regime democrático, sendo candidato nas listas da CDU, por Setúbal, nas eleições legislativas de 1983.

A saída de Manuel da Fonseca da sua terra de Santiago do Cacém e a sua vinda para Lisboa, para estudar no liceu Camões (onde conheceu Álvaro Cunhal), e a posterior adesão ao PCP, permitiu-lhe conviver com os mais brilhantes intelectuais desse período, de Bento Jesus Caraça, ao pintor Pavia, do escritor Ferreira de Castro ao crítico, e um dos mais profundos conhecedores e estudiosos da sua obra (acontecendo o mesmo em relação à obra de Redol), Mário Dionísio, até Alves Redol a quem o ligavam laços de amizade, de companheirismo militante, para além das naturais cumplicidades literárias.

Esteiros,de Soeiro Pereira Gomes, Uma Abelha na Chuva, de Carlos de Oliveira, Barranco de Cegos, de Alves Redol e Seara de Vento, de Manuel da Fonseca (de cuja 1.ª edição se cumprem 58 anos), formam o património de suporte do melhor que o nosso neo-realismo literário (na sua mais profícua e estruturada fase; estética e ideologicamente coerente e criativa) produziu na ficção. Neo-realismo que foi único na Europa dos anos 40-50 do século XX, dado que as nossas especificidades políticas e sociais foram estruturalmente diversas das vividas em outros países do continente e a produção literária dos seus autores mais contínua e socialmente comprometida. 9

Cerromaior, romance de estrutura circular, de onde não se sai, diz-nos M. F., situado no Alentejo da segunda metade dos anos 1930, denuncia já as formas de opressão que os fascismo exercia utilizando o braço armado da GNR, que efectua prisões de trabalhadores a mando dos latifundiários, e esse facto, dado que a acção se estabelece durante o período das ceifas, remete-nos para o romance de Redol, Gaibéus, destacando-se na narrativa a criação de personagens de forte intensidade dramática e humana, com claro recorte para a figura do maltês, altivo, consciente e livre, que nos remete para o «ceifeiro rebelde» da obra de Redol.

Em Manuel da Fonseca, é ainda no conto (a par com a poesia), na estória breve, que a frescura do seu verbo encontra espaço de afirmação, nele perpassando a leveza de um singular modo narrativo, destreza de ritmo e similidades fónicas, dos sintagmas recorrentes que imprimem a ductilidade fabular dessa suprema arte de contar a vida dos humilhados e ofendidos, inscrevendo-lhe, sem o detectável panfletário da indignação cutânea, e inócua, os quotidianos amargos, as mágoas, os sonhos, o desespero, o patético e o lírico – elementos, a um tempo, de respiração narrativa a modelar a orgânica da sintaxe, a trazerem para a nossa prosa e verbo novo e expressivo, enxuto e sensitivo.

É o Alentejo profundo, desse vasto território ao sol, do latifúndio, da fome, do cante agreste do trabalho e da revolta, da solidão imensa, do fogo e das cinzas, dos ventos suão que assolam os casebres dos Palma deste mundo desolado, dos largos destruídos pelo comboio, todo este universo, telúrico e afectivo, está profusamente descrito na obra singular de M. F. Mas o Largo que era centro do mundo, fez-se apertado, lugar apenas de memórias da infância e da adolescência, de rememorativos líricos: Senhora vizinha de crepes de viúva/deixe a sua menina vir brincar para o largo. Ao contrário de João Gadunha, que falava de Lisboa sem nunca lá haver pousado o olhar, o autor cresceu e partiu para a cidade, para ver o Tejo e as águas que ele leva em seu caudal de sonhos e pesadelos: Tejo que levas as águas/Correndo de par em par/Lava a cidade de mágoas/Leva as mágoas para o mar.

Saído do seu Alentejo, espaço mítico e referencial da sua escrita – de Cerromaior, Aldeia Nova, O Fogo e as Cinzas - Manuel da Fonseca parte à aventura pelo corpo complexo da cidade grande, descobrindo-lhe e desnudando os seus subterrâneos húmus, suas leis rapaces de sobrevivência, sua usura, para nos contar em sete contos sinfónicos (e digo sinfónicos porque esta escrita alarga os territórios da língua; inaugura uma outra forma de dizer; é fala polifónica, de cambiantes metafóricos múltiplos, onde o riso e a dor, a sátira e a argúcia crítica se interpenetram numa simbiose notável) nesse livro raro e, penso, ainda não suficientemente amado que é Um Anjo No Trapézio. Nesta série de contos, Manuel da Fonseca renova a sua «arte de contar» e deixa, pelo espaço de um livro, «o largo, que era o centro do mundo» 10,os ambientes das feiras, das tabernas onde a voz dos homens cantava o desespero mordido de uma vida à míngua mas temperada pela dignidade de a viver de pé, de navalhas e de vento, das suas memórias de infância, ardentes e sofridas, para penetrar a mãos ambas o lodo que percorre as margens da cidade grande, da sua ignominiosa hipocrisia: «A caridade é amor/proclama dona Abastança/Esposa do comendador/Senhor da alta finança». 11

Com ele, com esse olhar atento e perscrutador de sombras, viajamos a cidade sabendo-o ora magoado, ora descobrindo-lhe o pícaro por onde subtis traços de tragédia oculta se insinuam – acontece assim, no conto que dá título ao volume, verdadeira obra-prima da arte de narrar, onde a diegese das penumbras estua nesses labirintos brumosos da casa de Lídia e Noémia, nas elipses que atravessam a narrativapara, paradoxalmente, a tornar mais clara, adensando o crepuscular desse impressivo quadro da condição humana – mesmo que, nesse espaço redutor, uma esquiva réstia de esperança ainda habite. Somos, deste modo, tocados pela tosse convulsa e contínua de Luís, que vem do quarto dos fundos, impregnando o texto de uma dramaticidade sufocante.

Mas é o Tejo e suas águas, Lisboa e as margens que a habitam, que seduzem o olhar do poeta de Rosa dos Ventos. Ao lê-lo, imaginamo-lo à mesa do café (seu espaço de criação essencial, dado que território de tertúlia, de convívio, de cumplicidades) a contar anedotas, a falar dos pequenos títeres, dos sabujos, da cupidez que nos dói – mas também da generosidade, dos afectos, da solidariedade.

A passagem ao cinema do seu romance Cerromaior, de Luís Filipe Rocha, ao projecto frustrado de Seara de Vento, que teria Raf Vallone como protagonista, bem como o envolvimento de outros escritores neo-realistas na 7.ª Arte, como Leão Penedo, Redol, Carlos de Oliveira e Fernando Namora, que viram obras suas adaptadas ao cinema, levou Manuel da Fonseca a revelar o seu fascínio pela arte das imagens, fascínio que o levou ao guionismo: «Fiz os diálogos de um filme de Perdigão Queiroga (Os Três da Vida Airada, 1952), que foi massacrado pela crítica; trabalhei como actor no filme O Trigo e o Joio, de Manuel Guimarães (1965); desde muito cedo que me interessei pelo cinema. Passava muito tempo nos estúdios da Lisboa Filmes. Não só pela arte, mas também porque havia lá raparigas excelentes...» 12 Nada que seja estranho neste homem de ofícios vários, na luta diária de escreviver, que já havia declarado que «o homem que escreve tem de ter em si todas as artes. E tem de ter em si o cinema, que é o resumo de todas as artes».

Mário Sacramento, ao referir-se, em 1959, à capacidade narrativa de Manuel da Fonseca, ao poético e teatral que a enforma, referia que «a poesia é, com efeito, a porta central do Teatro; e Manuel da Fonseca, um Bertolt Brecht que se ignora como tal. Seara de Vento é uma tragédia belíssima, que exorbita da novelística e da dramaturgia clássica, para reclamar a tela das obras do cinema – ou do palco giratório». 13

Se o primeiro projecto de levar ao cinema o seu romance Seara de Vento, em moldes hollywoodescos, se frustrou, o mesmo parece não acontecer desta vez: o realizador Sérgio Tréfaut está a ultimar a adaptação da obra cimeira de Manuel da Fonseca ao cinema e o filme deve estrear nos primeiros meses de 2017. Só lamentamos que o autor, que tanto desejou ver as suas personagens criarem vida numa tela, já não esteja entre nós para ver esse sonho concretizado.

Essa argamassa que urdia a urgência de escrever, de olhar a realidade nossa e portuguesa, passa indemne para a lisura com que o autor de A Lareira, nos Fundos da Casa Onde o Retorta tem o Café, redefine os arquétipos para nos contar a vida que pulsa, em pessoalíssimo fulgor, nas palavras, no seu clamor mais fundo, tal fosse um trovador inquieto e abismado: Tu de Montemaior agora chegado/nesta hora chegado de Montemaior/conta quem cá viste neste gradeado/conta as espadas ruins que há em meu redor (...) olha bem as espadas que há em meu redor/olha bem os ferros deste gradeado: que te fique na memória/a prisão onde me vês./Esta é a minha história/a saga de um português. 14

Que nos fique na memória a fala de Manuel da Fonseca: um poeta vital que se funde com o nosso tempo, autor de uma obra tão forte, poética e dramática que se confunde com a vida – com a vida de todos os que almejam os dias levantados de um tempo justo.

Notas

(1) Manuel da Fonseca, in Seara de Vento.

(2) José Casanova, Breve Memória de Alves Redol, jornal Avante!, n.º 1984, de 7 de Dezembro de 2011.

(3) «Do realismo “Etnográfico” ao lirismo telúrico em Alves Redol», de Vítor Viçoso, in Alves Redol – Horizonte Revelado, Edição Assírio e Alvim, Lisboa, 2011, p. 13.

(4) Alves Redol, Teatro I, 2.ª edição, Publicações Europa-América, Lisboa, 1970, p. 32.<

(5) Manuel da Fonseca, Poemas Completos, 2.ª edição, Colecção Poetas de Hoje, Portugália Editora, Lisboa, 1963, p. 17.

(6) Idem, Poemas Estradas, p. 96.

(7) Idem, p. 97.

(8) Manuel da Fonseca, Seara de Vento, 17.ª edição, editorial Caminho, Lisboa, 2011, p. 162.

(9) «Se nenhuma Arte é uma ortodoxia, o Neo-Realismo também não é essa ortodoxia. Suporta um princípio geral que é apenas este: determinadas condições político-sociais contaminam, de tal modo o quotidiano do Homem, que tudo o que é reflexo seu, Acção ou Sentimento vem larvado de uma determinada especificidade que seria outra se o referido condicionalismo fosse também outro.» – Alexandre Pinheiro Torres, in O Neo-Realismo Literário Português, 1.ª edição, Moraes Editores, Lisboa, 1977, p. 42.

(10) Manuel da Fonseca, O Fogo e as Cinzas, 19.ª edição,editorial Caminho, Lisboa 1992, p. 23.

(11) Manuel da Fonseca, Obra Poética,7.ª edição,editorial Caminho, Lisboa1984, p. 164.

(12) Entrevista a António Tavares Telles e Francisco Teixeira da Mota; Cerromaior – um livro,in Arteopinião, n.º 12, Lisboa, Dezembro, 1980.

(13) Mário Sacramento – Programa da peça Seara de Vento, Teatro Maria Matos, 1975.

(14) Poemas Completos, de Manuel da Fonseca – Forja, 6.ª edição, 1978.

Bibliografia

Obras de Alves Redol e Manuel da Fonseca.

Manuel da Fonseca – Por Todas as Estradas do Mundo (Museu do Neorealismo/2011).

Alves Redol – Horizonte Revelado (Museu do Neorealismo/2011).

Alves Redol – Fotobiografia, de António Mota Redol (Althum.com)