Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Actualidade, Edição Nº 347 - Mar/Abr 2017

O XX Congresso e os media - «Factos alternativos»

por Carina Castro

Mais de um ano passado na nova fase política nacional e a inconformação e incompreensão do que ela significa persistem, de facto, em muitos órgãos de comunicação social. Desde a insistência, repetida à exaustão, de que se trata de um governo de esquerda ou das esquerdas, a referência aos «parceiros do governo», à «maioria», à «força de suporte», à existência de um tal «acordo de incidência parlamentar» ou do já clássico e pejorativo epíteto de «geringonça», a generalidade das notícias que se referem ao PCP parecem não querer ver o que o PCP tantas vezes já explicou.

Trata-se de um governo PS, com o programa do PS, numa nova arrumação de forças na Assembleia da República, em que o grau de compromisso é definido pelo grau de convergência que consta na Posição Conjunta. O PCP mantém, por isso, toda a autonomia e independência.

Como muitas vezes já foi referido, o facto de as notícias serem deliberadamente enquadradas em tais referências por parte de jornalistas e replicadas por comentadores deturpam a verdade, ou criam uma «pós-verdade», em torno da situação política que vivemos e do posicionamento do PCP.

Assim se compreende o verdadeiro romance construído em torno de toda e qualquer iniciativa política do PCP que não conste do Programa do Governo PS – mas que cumpre como se espera de quem é sério os seus compromissos com os trabalhadores e o povo – e em que se levantam sempre especulações em torno do futuro do governo.

Outra linha que fez caminho na actual fase foi o da surpresa pelo posicionamento do PCP e a sua disponibilidade para a Posição Conjunta. Diversos comentadores foram adiantando efabulações de disputas internas e reuniões tempestuosas, em que «os autarcas e sindicalistas que não queriam perder espaço e agradar às suas clientelas forçaram» o PCP a adoptar esta solução. Só não conhecendo este Partido, o seu funcionamento e história, se pode ter uma visão tão instrumental e mesquinha dos seus posicionamentos, ou encontrar novidade na disponibilidade para responder aos problemas mais imediatos dos trabalhadores e do povo.

Foi neste quadro mediático que chegámos ao XX Congresso do PCP.

Desde a publicação do Projecto de Resolução Política que se alinhavou a tese de «um partido a duas vozes» rapidamente replicada por dezenas de jornalistas nos mais diversos órgãos de comunicação social, confirmando a eficácia dos centros de diversão ideológica. É também neste unanimismo de conteúdos e análises que se regista a falta de pluralismo na comunicação social.

«Duplicidade táctica e estratégica», «como manter identidade e aprovar um OE que cumpre as regras europeias», «o que interessa neste Congresso é saber se o governo dura ou não 4 anos, e não os ideais que se proclamam», «PCP é um partido domesticado, suavizado», «O PCP pode dizer que não é força de suporte, mas é», «aplaudem o"ditador" Fidel, mas viabilizam o cumprimento do Tratado Orçamental», «a política patriótica e de esquerda é um caderno de encargos impossível, mas é um discurso que não deve ser levado a sério». Todas estas frases foram ditas por jornalistas e/ou comentadores na cobertura do Congresso.

As diferentes nuances ou derivações – tantas vezes carregadas de anti-comunismo mal disfarçado – radicam todas na tese da alegada contradição entre um partido que se afirma revolucionário, vanguarda da classe operária, com o objectivo supremo de construção do socialismo e a posição conjunta assinada entre PS e PCP, sempre acompanhada da expectativa de críticas e convulsões internas. Tese lançada com bastante e surpreendente rigor conceptual – conceitos como partido revolucionário versus partidos burgueses, construção do socialismo e vanguarda não são propriamente comuns nos órgãos de comunicação social dominantes nos dias que correm.

Mas tal rigor, lançado por alguns, fez parte do seu duplo objectivo: a intriga interna e a desconfiança externa.

Importa ainda registar que muitas destas derivações são quase textualmente críticas recorrentemente feitas pelo PSD e CDS dizendo ora que o PCP está domesticado, ora que o PS está radicalizado.

Mesmo quando os dirigentes do PCP desmontavam a tese em intervenções e entrevistas, logo se rematava com o comentário demolidor: «Mas esta dualidade não é considerada contraditória».

A tentativa de instigar a intriga foi mais longe: «um congresso diferente dos outros: já não se luta», «o primeiro congresso em que o primeiro-ministro e o governo não são os bombos da festa», «um congresso com mais fatos do que boinas» (?), «faz-se o diagnóstico mas não se referem culpados» (comentário que teve a deliciosa ironia de atrás do comentador se ouvir ao fundo na tribuna: que PS, PSD e CDS foram os responsáveis).

Confrontados com a realidade da não verificação da tese, constatou-se uma e outra vez a surpresa com a ausência de críticas, insistiu-se com perguntas junto dos delegados, dos convidados (membros ou não membros do Partido), em tom tanto mais provocador quanto mais as malfadadas críticas não apareciam, fosse em torno da solução política, fosse em torno da natureza política de outros partidos ou dirigentes – «o que pensa do BE?», «António Costa é de esquerda?». Houve até um jornalista que chegou a dizer que se não aparecessem críticas seria melhor a organização tratar de as encenar.

A dificuldade em encaixar as lógicas de cobertura mediática ao singular Congresso do PCP, lógicas sempre marcadas mais pelas disputas internas pelo poder, por egos e protagonismos individuais do que pela construção colectiva de um objectivo comum, não são novas, como não são novas as extrapolações em torno das questões de direcção do PCP, numa tentativa de transposição mimética do que se passa em partidos burgueses.

Neste Congresso não foi excepção, procurando associar as questões de direcção à durabilidade da solução política, ou a resultados eleitorais futuros.

Novamente a dramatização em torno da sessão reservada, com directos da saída dos jornalistas da sala, o desligar dos equipamentos (curiosamente uma jornalista quando questionada lá contou o episódio em que um jornalista deixou um gravador ligado na sessão reservada…). Sempre num tom de suspeição e obscurantismo: «o Partido que se diz de Paredes de vidro reúne à porta fechada», isto dito num Congresso de três dias, aberto a todos e transmitido em permanência no sítio do Partido. Chegou a dizer-se que foi um congresso sem história por ausência de lutas fratricidas pelo poder como sucede noutros partidos.

É verdade que muito órgãos de comunicação salientaram e até valorizaram o rejuvenescimento verificado no Comité Central, mas várias vezes tal rejuvenescimento foi contraposto com o manutenção do Secretário-geral (e sugestões concretas de sucessão) e até com a ideia (não verdadeira) de que no CC já não há «quem venha da clandestinidade», apesar da óbvia e inexorável passagem do tempo.

Também é verdade que diversos jornalistas e comentadores sublinharam a identidade única do PCP, valorizando o trabalho colectivo na desmontagem, a sala cheia e atenta a todas as intervenções, o cumprimento de horários. Houve até quem reconhecesse a rectidão e o valor da palavra dada pelo PCP. Outros tentaram explicar, sobre-simplificando, o centralismo democrático, o amplo, profundo e aberto processo de preparação colectivo do Congresso. Mas invariavelmente esse tratamento caía no preconceito. Peças e comentários mais ou menos depreciativos em torno da existência de votações unânimes (talvez depois do mais recente Congresso dos Jornalistas seja mais fácil a alguns profissionais do sector compreender, já que a Resolução foi aprovada… por unanimidade). Não faltando as referências à «máquina» comunista, sempre desumanizada, num conjunto não de indivíduos capazes e livres, mas uma massa uniforme; não reconhecendo o valor da militância que une os homens e as mulheres porque partilham de objectivo comum, mas uma espécie de carneirada acrítica.

Para o tratamento do conteúdo político sobrou pouco mais de seis aspectos: saída do Euro, renegociação da dívida, aumento do Salário Mínimo Nacional, a nova administração da CGD, a morte de Fidel Castro, o objectivo de crescimento eleitoral nas autárquicas. É pouco? É muito pouco. Além das propostas para toda e cada uma área da vida nacional, para todo o território nacional, das questões nacionais e internacionais, os vectores determinantes da política patriótica e de esquerda foram reduzidos a pó. Propostas imediatas e outras de longo alcance, projecto político, Programa de Partido, tudo reduzido a cinco, seis ideias soltas. Faz sentido quando já tinha sublinhado que «não importa o caderno de encargos que o PCP propõe, o que interessa é quanto tempo dura a legislatura».

Poder-se-à dizer que a cobertura mediática deste congresso foi menos agressiva do que no passado, mas novas linhas de abordagem não significam mais complacência.

Poder-se-à dizer que muitos profissionais não fizeram a cobertura do Congresso mal-intencionados, o que é verdade. Muitos profissionais trabalham horas a mais, são sujeitos a ritmos brutais de trabalho, têm contratos precários, acumulam folgas e férias por gozar. Muitos jornalistas estão exaustos e não lhes é dado tempo para reflectir, enquadrar, conhecer mais, preparar trabalho, as redacções estão depauperadas por sucessivos despedimentos e o trabalho é muito a dividir por poucos. Muitos partem para o Congresso «de pára-quedas» e com um caderno de encargos e expectativas previamente estabelecido. Também por isso temos dito que a degradação das condições de trabalho dos jornalistas é também um ataque aos trabalhadores do sector, mas também à qualidade e ao rigor da informação, à própria democracia.

É ainda verdade que muitas destas tendências que se descreveram acima são tendências mais gerais que marcam hoje a informação: o imediatismo, o efémero, a contaminação da notícia pelo sensacionalismo, o entretenimento, o recurso sistemático à opinião e ao comentário, o recurso à interpretação para desvirtuar ou destruir mensagens e posicionamentos políticos.

Como é verdade que cada estamos, uns e outros, a cumprir o seu papel na luta de classes.