Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Efeméride, Edição Nº 347 - Mar/Abr 2017

Alfredo Dinis – Uma vida inteiramente dedicada ao Partido, aos trabalhadores e ao povo

por Manuel Rodrigues

Alfredo da Assunção Dinis (Alex) nasceu em Lisboa a 29 de Março de 1917, quatro anos antes da fundação do PCP.

Oriundo de uma família de fracos recursos económicos, cedo ingressou no mundo do trabalho, repartindo, como aconteceu com muitos jovens nesta época, a sua adolescência entre o trabalho e o estudo nocturno.

Operário desenhador de máquinas da Parry & Son (Cacilhas), adere com 19 anos à Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas, assume tarefas no Socorro Vermelho Internacional e começa a militar num Comité de Zona de Lisboa, bem como no Comité Local. Em consequência desta actividade foi preso em Agosto de 1938 com apenas 21 anos e condenado a 18 meses de prisão.

Saído do cárcere, retomou de imediato a actividade política e, ao iniciar-se a década de 40 do século passado, participa no processo da reorganização do Partido de 1940-41 de que Álvaro Cunhal foi o mais destacado obreiro. É secretário da Célula do PCP nos estaleiros navais Parry & Son, passando a integrar, poucos meses depois, o Comité Local de Almada.

As lutas da década de 40, a reorganização e reforço do Partido

Em Outubro-Novembro de 1942 a região de Lisboa é agitada pelas jornadas de luta reivindicativa da classe operária, pugnando por melhores condições de vida. Nessa altura, a acção dirigente do Partido não se fazia ainda sentir capazmente. Mas algumas das suas organizações de base assumiram destacado papel na condução das greves, sendo Alfredo Dinis um dos entusiastas e empenhados combatentes nas movimentações e lutas das massas trabalhadoras.

Dessas lutas, o jovem militante comunista retirou ensinamentos que se revelariam muito úteis para a organização das grandes greves de Julho-Agosto de 1943, em que participaram mais de 50 mil trabalhadores de Lisboa e arredores e nas quais Alex tem um papel preponderante como responsável pelo Comité de Greve, em ligação directa com o Secretariado do Comité Central.

Alex era já funcionário do Partido, em 1943, e é como membro do Comité Regional de Lisboa que desenvolve grande actividade com vista ao reforço da organização do Partido e à mobilização dos trabalhadores.

Pela sua participação destacada neste movimento grevista, Alfredo Dinis passou à clandestinidade devido ao cerco policial em seu redor ter-se apertado – é desta data o pseudónimo Alexandre, do qual usava apenas Alex. Em finais de 1943, no I Congresso ilegal do Partido, foi eleito para o Comité Central, e logo em Maio de 1944 integrava o comité dirigente da greve de 8 e 9 de Maio.

Neste período, a II Grande Guerra assolava o Mundo e enquanto as forças hitlerianas esmagavam a Europa, Salazar, cúmplice activo, alimentava as hostes nazis com géneros e mercadorias roubados ao consumo nacional, agravando a carência e exacerbando o mal-estar social.

Em Abril de 44, o fascismo impunha o racionamento do pão. Seis dias depois, Alfredo Dinis escrevia uma carta ao Secretariado do CC sobre a possibilidade de uma nova greve, afirmando: «Considerando o mês de Maio como um momento excepcionalmente explêndido para um movimento nacional de luta pelo pão» e «todas as condições internas e externas se reúnem para isso».

Neste contexto, existindo condições muito favoráveis para novas iniciativas de massas, o Secretariado do CC decide avançar na montagem de um aparelho de agitação e direcção da greve, o Comité Dirigente da Greve, que além de Alfredo Dinis integrava os camaradas Sérgio Vilarigues, Dias Lourenço, Joaquim Campino e Gui Lourenço sob o controlo de Álvaro Cunhal e José Gregório. A greve pelo pão e por géneros viria a realizar-se com grande sucesso nos dias 8 e 9 de Maio de 1944, constituindo um novo marco na história do Partido, como assinalava Alfredo Dinis na reunião do CC de 30 de Maio de 1944: «O que é absolutamente novo para nós é termos mobilizado no mesmo dia e à mesma hora milhares de operários e milhares de camponeses, na mesma luta, pelos mesmos objectivos. É o termos posto em marcha ombro com ombro operários e camponeses»

Considerando-as como o maior movimento de massas após a implantação do fascismo em Portugal, Álvaro Cunhal refere-se a estas greves, destacando a sua particular importância e significado: «não é por acaso que nas greves de 1943-1944 a Direcção do Partido, concretamente o Secretariado do Partido, tomou nas suas mãos a direcção directa da greve. O Partido compreendeu que havia que jogar forte no desenvolvimento do movimento operário e nessas greves para criar uma base revolucionária, uma base de massas, para assegurar, como assegurou daí em diante, uma intervenção muito mais operativa na luta antifascista». (Álvaro Cunhal, «Duas intervenções numa reunião de quadros», Edições «Avante!», Lisboa, p. 25). «A classe operária – refere ainda Álvaro Cunhal – mostrou, pela sua intervenção e pela sua força organizada por iniciativa do Partido e por acção do Partido, ser a força de vanguarda, a força dinamizadora da luta antifascista». (Idem, ibidem, p. 24).

Pela sua combatividade e firmeza Alex torna-se um alvo de primeira importância para o fascismo.

Quando, como por todo o mundo, os trabalhadores e o povo português comemoravam o fim da II Guerra Mundial e a pesada derrota infligida ao nazi-fascismo, no dia 4 de Julho de 1945 Alex dirigia-se de bicicleta pela estrada de Bucelas para participar na primeira reunião do novo organismo de direcção de toda a região de Lisboa, Alto e Baixo Ribatejo e de toda a região sadina ao sul do Tejo quando foi interceptado por uma brigada da PVDE (mais tarde PIDE/DGS) e ali mesmo brutalmente assassinado a tiro.

Exemplo de uma vida

No sexagésimo aniversário do assassinato de Alfredo Dinis, o Secretariado do Comité Central do PCP recordava o odioso crime cometido pela ditadura fascista, assinalando: «A luta contra o fascismo e pela liberdade, a luta em defesa das conquistas de Abril e a longa história do PCP são inseparáveis de sucessivas gerações de revolucionários que, como Alfredo Dinis, defrontaram corajosamente a repressão fascista e suportaram enormes sacrifícios por um Portugal livre, democrático e socialista». E sublinhava que «a melhor homenagem que se pode prestar ao camarada Alfredo Dinis, é tomar-se como exemplo a sua vida de dedicação ao Partido, de firmeza revolucionária, de empenhamento no desenvolvimento da organização e da luta dos trabalhadores, pelo pão, pelo direito ao trabalho, pela liberdade, a democracia e o socialismo».

A vida de Alfredo Dinis, que o fascismo ceifou brutalmente, constitui de facto um exemplo de dedicação ao Partido, aos trabalhadores e ao povo. Sublime causa que as gerações de comunistas dos dias de hoje prosseguem, nas lutas do presente pela defesa, reposição e conquista de direitos, pela concretização de uma política patriótica e de esquerda, pela democracia avançada vinculada aos valores de Abril, pelo socialismo e o comunismo.

A organização da luta vista por Álvaro Cunhal

«A organização de greves deve merecer particular atenção. As greves não se decretam, mas decidem-se e declaram-se. Para o fazer com êxito é necessário conhecer de perto a disposição das massas, conhecer a evolução da luta e escolher o momento justo. A percepção revolucionária e a audácia dos militantes representam um importante papel. Vinte anos atrás, o êxito de algumas importantes greves dirigidas pelo Partido deveu-se em grande parte à acção de um militante destacado: Alfredo Dinis, operário da Perry & Son, assassinado pela PIDE em 1945. Alfredo Dinis conhecia profundamente os problemas da classe operária, conhecia a classe, acompanhava dia a dia as lutas dos sectores que lhe estavam confiados, era um óptimo organizador das lutas reivindicativas e mais de uma vez foi ele a dizer audaciosamente à direcção do Partido: «O momento para a greve é agora!» E acertava. As organizações operárias do Partido devem trabalhar, na luta reivindicativa, com o entusiasmo e a confiança com que trabalhava Alfredo Dinis. Tal como ele, ao organizarem as pequenas lutas reivindicativas, devem olhar sempre audaciosamente em frente, procurando incansavelmente alargar as lutas, unificá-las, fundi-las, conduzi-las a etapas superiores, encontrando em cada fase formas eficientes de organização.»

Álvaro Cunhal, Rumo à Vitória, Edições «Avante!», Lisboa, 2001, pp. 248-249.

As greves de 1944

«No dia 9 de manhã, os nossos camaradas de Sacavém começaram a organizar uma manifestação que fosse a Loures, reclamar mais pão ao administrador. Como as forças da PSP e muitos polícias de informação ocupassem as principais vias de Sacavém, prendendo todos os trabalhadores que passavam, os nossos camaradas lançaram a palavra de ordem: «Todos os trabalhadores e mulheres se devem dirigir em grupos pequenos para Camarate, ninguém utilize as estradas; vamos por fazendas e azinhagas.» Assim se fez. Centenas de homens e mulheres dirigiram-se para lá. Pouco depois das 10 horas partiram de Camarate para Apelação mais de 1000 pessoas.

«Aqui juntaram-se, além dos operários da fábrica de munições, muitas centenas de camponeses de vários lados. Já com mais de 2000 manifestantes, a marcha prosseguiu o caminho para Frielas e Loures. Até Loures a manifestação foi sempre engrossando e, quando lá chegou, por volta do meio-dia, tinha já mais de 3000 pessoas. Três bandeiras negras flutuavam. Milhares de vozes gritavam que queriam pão. O administrador disse que ia procurar resolver tal situação. Ainda que ele não resolva nada, o Partido Comunista e os trabalhadores já conseguiram uma grande vitória.»

Alfredo Dinis, «As Lutas de 8 e 9 de Maio e a Aliança do Proletariado e do Campesinato», in As Greves de 8 e 9 de Maio de 1944, Edições «Avante!», Lisboa, 1979, p. 91.