Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Efeméride, Edição Nº 347 - Mar/Abr 2017

Joaquim Gomes – Uma vida inteira de luta!

por José Augusto Esteves

Começou cedo, muito cedo, o combate que ininterruptamente travou Joaquim Gomes, operário vidreiro, destacado dirigente do PCP na clandestinidade durante a ditadura fascista e depois durante um longo período da democracia de Abril.

Um combate e uma vida exemplar de dedicação à causa da emancipação da classe operária e dos trabalhadores, da libertação do nosso povo, da democracia, do socialismo, sempre com o seu Partido que ajudou a construir. Um combate e uma vida que temos o dever de assinalar agora que passam, neste ano de 2017, mais precisamente em 9 de Março, cem anos do seu nascimento.

Joaquim Gomes faz parte daqueles homens que nunca foram meninos, como o não foram muitos dos homens da sua geração na então vila da Marinha Grande onde nascera, grande parte filhos de operários vidreiros que, entre os seis e oito anos, eram confrontados com a dureza e a severidade da vida na fábrica, em muitos casos em condições impiedosas. Elos mais fracos da cadeia de um sistema de exploração desumano e desumanizante, muitos deles, tal como Joaquim Gomes, cedo aprenderam o caminho da luta pelo direito a uma vida vivida em dignidade, como homens livres que queriam ser e que só a luta que corajosamente travavam lhes podia dar.

Joaquim Gomes viveu, trabalhou e iniciou a sua actividade revolucionária na Marinha Grande, numa época simultaneamente dramática e exaltante.

Dramática, porque o fascismo mostrava as suas garras, sucedendo-se actos de perseguição e violência sobre o movimento operário e seus dirigentes e activistas que amiúde conheciam a prisão, particularmente na Marinha Grande onde a crise do sistema capitalista de 1929-32 tivera efeitos devastadores na indústria vidreira, agravando as já duras condições de vida do operariado.

Exaltante, porque eram tempos de intenso e duro combate, de grande actividade reivindicativa e revolucionária, de esclarecida acção sindical e política. Desde logo, do ponto de vista da actividade partidária, com o PCP a levar à prática e a concretizar na Marinha Grande as decisões da sua Conferência de 1929, que, sob a direcção de Bento Gonçalves, levava em frente a sua reorganização visando a edificação de um partido de novo tipo, um partido leninista, combativo e ligado às massas e que vai ter uma intervenção decisiva no desenvolvimento da luta e na actividade sindical dos vidreiros, levando à unificação das diversas associações sindicais de classe numa única organização nacional da indústria vidreira – o Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Indústria do Vidro, que haveria de ser constituído em 1931 e que, em Setembro de 1933, por imposição da ditadura fascista de Salazar é encerrado, dando início à fascização dos sindicatos e contra a qual se haveriam de levantar os operários vidreiros em 18 de Janeiro de 1934.

Exaltante, porque é um período de intensas lutas vitoriosas, das «marchas da fome», de poderosas greves dos diversos sectores da indústria, das expressivas greves dirigidas por aprendizes por reivindicações salariais e contra o trabalho violento e arbitrário do patronato, alguns com doze anos de idade, como era o caso de Joaquim Gomes, e que ele próprio nos fala no seu livro «Estórias e Emoções de Uma Vida de Luta».

É a intensificação da luta e a sua inserção na trajectória do combate da classe operária vidreira, mas também o gosto pela leitura, que o conduzem à Federação das Juventudes Comunistas Portuguesa, em 1931, tinha então 14 anos, iniciando a sua actividade em tarefas ligadas à difusão imprensa e angariação de fundos, incluindo para o Socorro Vermelho Internacional. Chega no período de maior intensidade da luta dos aprendizes. É o tempo da célebre «greve das alpargatas» e de outra greve que o iria marcar profundamente – a greve contra o imposto dos 2% para o chamado Fundo do Desemprego, decretado por Salazar em 1933. É preso em Novembro desse ano, tinha então 16 anos, e levado, com mais setde jovens, para as prisões de Leiria.

Alvo de violentas agressões em repetidos interrogatórios sobre a actividade das Juventudes Comunistas, seus dirigentes e reuniões, a tudo resistiu sem nada revelar. Preso durante quatro meses e meio, fica impedido de participar directamente no movimento insurrecional do 18 de Janeiro que os seus camaradas de profissão e de luta planeavam. Sabemos da sua amargura e tristeza por ter ficado de fora desse empolgante combate e de quanto lhe custou ver chegar à mesma prisão muitos dos protagonistas da revolta que a desigualdade de forças derrotou e que vão ser brutalmente torturados logo ali. Tal como sabemos do imenso orgulho do miúdo, que a dureza da vida e do trabalho forçou a ser homem antes do tempo, por ter sido capaz de resistir aos seus torturadores.

Libertado sem julgamento em Março de 1934, e com 17 anos feitos, vai encontrar na Marinha Grande um Partido flagelado pela repressão mas não rendido. Muitos dos revolucionários do 18 de Janeiro, uma grande parte comunistas, estão presos, serão condenados a pesadas penas de prisão e deportados para Angra do Heroísmo e Tarrafal. Era preciso refazer tudo, pôr de pé a organização, retomar o trabalho nas empresas, ligar os que tinham escapado à repressão, apoiar os presos e as suas famílias e continuar a luta. O jovem comunista Joaquim Gomes é chamado ao Partido e passa a fazer parte do Comité Local da Marinha Grande e a desempenhar importante papel na reactivação da organização do Partido nas empresas e no desenvolvimento do movimento de solidariedade aos presos e suas famílias, tarefa que atingiu uma amplitude e dimensão de que ainda hoje a Marinha Grande se orgulha. Em 1937, um novo emprego na Fábrica de Lâmpadas do Lumiar em Lisboa leva-o, com o acordo dos camaradas, a uma grande mudança na sua vida de militante. Integrado na organização do Partido na empresa, tem tarefas ligadas ao aparelho de distribuição da imprensa do Partido na industrializada zona de Alcântara.

Entre o desemprego que conheceu e uma nova actividade que lhe permite estabilizar a vida, Joaquim Gomes casa, em 1940, com a camarada Maria da Piedade, também ela marinhense, e ambos vão trilhar os duros e perigosos caminhos da luta de um partido que se vai afirmar nesses anos da década de 40 como um grande partido nacional, da classe operária, dos trabalhadores e dirigente da luta de resistência antifascista.

Uma década de trabalho exigente com a reorganização do Partido dos anos 40/41, de grandes lutas e actividade antifascista, o que impunha novas soluções e medidas de defesa do Partido. Joaquim Gomes cumpre agora a difícil tarefa de assegurar casas de apoio à Direcção do Partido. Da Marinha Grande ainda lhe chegavam os emissários com propostas para retomar o trabalho do Partido. Mas nem os seus velhos companheiros sabiam, nem Joaquim Gomes lhes podia dizer, que a tarefa era agora outra, não menos importante e, porventura, mais delicada – garantir em segurança o espaço vital para o desenvolvimento da actividade da Direcção do Partido.

Pelas suas casas passou a maioria dos dirigentes do Partido, incluindo José Gregório, outro marinhense, membro do Secretariado do Partido e com papel destacado na preparação do 18 de Janeiro. E foi José Gregório que, em nome da Direcção do Partido, propõe a Joaquim Gomes e a Maria da Piedade Gomes, no seguimento de um crescente cerco da polícia à sua casa de apoio, corria o ano de 1952, a sua passagem à clandestinidade, uma disponibilidade já antecipadamente manifestada.

Joaquim Gomes inicia esta nova fase da sua militância integrado no Comité Local de Lisboa. Trabalha na organização do Partido, acompanhando várias empresas, entre as quais a CP, mas é sempre nas diversas regiões do País que assumirá as mais variadas tarefas de direcção e organização, ligando e religando, fazendo e refazendo a malha por onde passa a corrente da luta do Partido e de um povo contra a ditadura.

Passará pelas prisões do fascismo mais duas vezes, mas como dizia, sorrindo, só na primeira é que lhe abriram as portas, nas outras fugiu. Na verdade, procurar fugir e recuperar o posto de combate não era apenas uma justa orientação, mas um dever que Joaquim Gomes levava a sério, bem como muitos outros camaradas.

Foi preso pela segunda vez em Janeiro de 1954. Suportou estoicamente a violência brutal dos interrogatórios, vencendo todos os medos, inspirado, como nos deixou escrito, no comportamento digno de outros seus camaradas perante os torturadores, como foi o de Francisco Miguel – o seu primeiro herói. Passou do Aljube para Caxias, dali para a prisão da sede da PIDE no Porto, donde se evade nove meses depois com Pedro Soares, membro do Comité Central do PCP, cerrando os ferros de acesso a uma claraboia, com o apoio dos companheiros presos e a ajuda do Partido no exterior. Volta à luta e em Dezembro de 1958 é preso juntamente com Maria da Piedade, na sua casa no Porto. Preso em Caxias, será conduzido para o Forte de Peniche e vai participar numa das mais espetaculares fugas das prisões fascistas.

O Joaquim Gomes que conhecemos não era apenas aquele homem profundamente humano e fraterno, corajoso e abnegado. Era um homem perseverante que possuía a serenidade dos combatentes de firmes convicções que se revelava quando era necessário enfrentar as condições mais adversas. Revelou-o muitas vezes, e particularmente na fuga do Forte de Peniche, em Janeiro de 1960, que protagonizou com mais nove camaradas, entre os quais Álvaro Cunhal. Fuga em que participou activamente, fazendo parte do organismo que a planeou e na superação das inesperadas e sérias contrariedades surgidas durante a fuga. Uma fuga que constituiu uma importante vitória do Partido e que em muito vai contribuir para o reforço do seu papel na criação da situação revolucionária que se aproximava.

Joaquim Gomes no seu percurso revolucionário foi assumindo as mais altas responsabilidades. Membro do Comité Central do PCP desde 1955 até ao XVI Congresso, em 1996. Integra, em 1963, a Comissão Executiva do CC, fazendo a ligação entre os camaradas da Direcção que se encontravam fora do País e as organizações do Partido no interior, num vaivém de passagens clandestinas da fronteira. Posteriormente, membro do Secretariado e da Comissão Política até ao XIV Congresso, em 1992, altura em que foi eleito membro da Comissão Central de Controlo. Exerceu responsabilidades até ao fim da sua vida no âmbito das Comissões Administrativa e Financeira e do Património Central.

Joaquim Gomes deu melhor de si à luta pelo derrubamento do fascismo e pela conquista da liberdade que chega com a Revolução de Abril.

No imediato assume a responsabilidade pela Direcção da Organização Regional do Oeste e Ribatejo, que abrange os distritos de Leiria e Santarém, e estará em todo o País dando o seu contributo nas batalhas em defesa da Revolução e depois na luta de resistência à ofensiva de recuperação capitalista e restauração monopolista. Numa fase posterior acompanhará também a D.O.R. de Setúbal.

Eleito deputado por Leiria logo em 1976 e até 1987, e ao mesmo tempo principal responsável por toda esta vasta Região, vimo-lo muitas vezes lá onde estava o problema, sempre solidário com as lutas dos trabalhadores, dos agricultores, das populações, ou dando apoio onde surgia o novo pela acção dos trabalhadores ou do movimento popular, fosse nos campos do Ribatejo, onde a Reforma Agrária dava os primeiros passos, nos portos de mar, onde nascia a nova realidade das cooperativas de pesca, nomeadamente em Peniche, nas muitas empresas e nas inúmeras batalhas em defesa da produção e do emprego face à sabotagem do patronato. Vimo-lo sempre atento, acompanhando directamente ou indiretamente as mais diversas e complexas situações, fosse as resultantes da arrastada crise por que passou a cristalaria da Marinha Grande, incentivando a procura de soluções, fosse para responder aos atrasos do desenvolvimento das respectivas regiões que acompanhava.

No momento em que evocamos a vida de Joaquim Gomes por ocasião do centenário do seu nascimento, não podemos deixar de lembrar a sua companheira de sempre, a mulher e revolucionária que foi Maria da Piedade, que no seu trajecto comum conhece a prisão e a violência policial fascista que enfrenta com a dignidade e a coragem dos combatentes convictos e firmes. Funcionária do Partido na clandestina durante 22 anos, com a sua saúde debilitada e a vida em perigo é libertada em 1964 na sequência de uma campanha nacional e internacional de solidariedade e logo voltou à clandestinidade e ao trabalho militante que prosseguiu com grande dedicação até ao 25 de Abril de 1974, continuando depois em tarefas de apoio ao Secretariado do CC. De uma dedicação inexcedível, de uma jovialidade cativante, Maria da Piedade constitui uma referência e um exemplo da mulher comunista dedicada à causa revolucionária do seu Partido de sempre.

Joaquim Gomes deixou-nos em 20 de Novembro de 2010. Modesto e discreto, era um patriota que serviu o seu povo e a sua pátria, orgulhoso de ser vidreiro, da sua Marinha Grande e da história heróica do seu povo, uma história que a sua vida de lutador incansável também dignificou.

A sua dedicação e disponibilidade revolucionária são um exemplo e um incentivo para prosseguir os combates de hoje.