Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Juventude, Edição Nº 347 - Mar/Abr 2017

24 e 28 de Março - Património da juventude

por Diogo Correia

A luta pela melhoria das condições de vida, pela democracia e pela transformação da sociedade é também património da juventude portuguesa, que deu o seu contributo decisivo em muitos momentos da história do nosso país. A juventude luta e resiste e sempre o fez, mesmo sob as mais duras condições do fascismo.

Resistência e luta que queremos hoje recordar como contributo para contrariar as tentativas de revisão e branqueamento da história, valorizando o papel da luta da juventude nas transformações revolucionárias e progressistas no nosso país.

Registamos, pois, dois momentos que marcam o património de luta da juventude em Portugal. O Dia Nacional da Juventude, que assinala os acontecimentos em Bela Mandil há 70 anos; e o Dia do Estudante, no qual se comemora a luta dos estudantes em Lisboa e Coimbra há 55 anos.

Comemorado a 28 de Março, o Dia Nacional da Juventude remonta ao Acampamento organizado pelo Movimento de Unidade Democrática Juvenil (MUD Juvenil) em 1947, em Bela Mandil, no Algarve, e em que as forças repressivas da ditadura fascista intervieram violentamente, com detenções e rajadas de metralhadora sobre as centenas de jovens que se juntaram e exigiam paz, liberdade e democracia para Portugal.

A reacção juvenil não se fez esperar e seguem-se manifestações de estudantes em protesto contra as prisões dos activistas mais destacados, que acabam também elas por ser violentamente dissolvidas pelas forças repressivas do fascismo, de que é exemplo a actuação da GNR e da PSP na invasão que protagonizaram à Faculdade de Medicina, em Lisboa, recorrendo à violência e à detenção de mais estudantes, mas fazendo despertar também a solidariedade de outros sectores da população. No Avante!, em Maio de 1947, afirma-se que o fascismo intensifica a sua violenta ofensiva contra a juventude, e em especial sobre o MUD Juvenil, que se estava a desenvolver como um grande movimento nacional, numa tentativa «de aniquilar o movimento da juventude» um pouco por todo o país, «mas a juventude mantém as suas organizações, continua firmemente a sua actividade, defende a legalidade do movimento, substitui no trabalho aqueles que são atingidos».

Em 1957 o MUD Juvenil é declarado ilegal, e nem perante este duro golpe a juventude deixou de lutar. A ditadura fascista e o seu aparelho repressivo nunca foram capazes de liquidar a movimentação e organização da juventude em torno das suas aspirações e direitos. Saiu vitoriosa a luta pela existência legal e independente das Associações de Estudantes e outras organizações estudantis, tornando-se um bastião poderoso da luta estudantil e do movimento popular antifascista.

É no contexto do ascenso da luta da classe operária na cidade e no campo, com maior expressão nas manifestações do 1.º de Maio e nas greves pelas 8 horas de trabalho no Alentejo e no Ribatejo, do início da guerra colonial e do desenvolvimento da crise do regime fascista que se abre espaço ao desenvolvimento da contestação dos estudantes, na década de 60, cujo acontecimento mais significativo foi o encerramento, em Novembro de 1961, da Associação Académica de Coimbra por ocasião das celebrações da Tomada da Bastilha, iniciando uma nova fase da luta estudantil que se manteve durante vários anos até à eclosão da grande crise académica de 1969.

Se o 24 de Março é evocado como o «Dia do Estudante» é porque foi neste dia, em 1962, que milhares de estudantes que desfilavam da Cidade Universitária rumo ao Campo Grande foram alvo de uma violenta carga policial que originou um prolongado período de confrontação entre estudantes e o fascismo e as suas forças repressivas, fazendo deste dia um marco histórico na luta dos estudantes contra o fascismo e pela liberdade, pelo direito de reunião e de associação, pela autonomia da Universidade e a democratização do ensino.

Desencadeiam-se greves às aulas na maioria das faculdades e inicia-se o «luto académico» com a palavra de ordem «ofenderam-te, enluta-te!». Fazem-se ocupações de instalações, plenários e concentrações de enorme dimensão, desfiles e manifestações dentro e fora das universidades, sobretudo em Lisboa e Coimbra.

Em resposta, o fascismo reage com violência, perseguição, detenção e prisão dos activistas mais destacados, com cerco, invasão policial e encerramento de instalações, com cargas policiais e expulsões de estudantes das universidades, o que contribuiu fortemente para desmascarar, isolar e enfraquecer a ditadura fascista.

Não se pode ignorar o contexto de afluxo da luta popular em que se desenvolveram estas lutas estudantis que, tendo como motivação imediata a proibição das comemorações do Dia do Estudante em Lisboa, rapidamente se estenderam a Coimbra e ao Porto, conferindo-lhe uma dimensão nacional e contribuindo para a viragem no clima político português e para o enraizamento nas massas da tese do PCP da crise da ditadura e da possibilidade, viabilidade e necessidade de alterações políticas profundas.

Tal como nas lutas levadas a cabo pelo MUD Juvenil, também estas lutas estudantis foram uma escola de formação de antifascistas e de revolucionários e deram contributos decisivos para a politização de vastos sectores da sociedade como as forças armadas (mesmo quando o fascismo procurava lavar a cara com Marcelo Caetano e apresentar-se como «renovado», mais «liberal» e «democrático») e, consequentemente, para o derrube do fascismo e para a Revolução de Abril.

Processos que confirmam que a luta de massas, em unidade, organizada, é o caminho consequente para a conquista de objectivos concretos, em contraponto à luta espontânea e desorganizada.

Hoje evocamos estas datas não só para que não se branqueie a história, mas também porque a luta nas escolas, nos locais de trabalho e nas ruas, pela melhoria das condições de vida, pela justiça e dignidade, pelo desenvolvimento e progresso social, é um património da juventude que mantém toda a sua actualidade e de que ela não abdica.