Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Internacional, Edição Nº 350 - Set/Out 2017

Liquidaram o revolucionário. Não liquidaram as suas ideias

por Revista «O Militante»

A 9 de Outubro de 1967 era assassinado, na Bolívia, um grande revolucionário, internacionalista e comunista: Ernesto ‘Che’ Guevara. Argentino por nascimento, cidadão do mundo por convicção, o Che juntou-se desde o início à vitoriosa luta guerrilheira que pôs fim a décadas de ditaduras ao serviço do imperialismo, na heróica ilha de Cuba. O Militante assinala o meio século da morte do Che reproduzindo excertos da alocução com que Fidel Castro – outro grande revolucionário e comunista – homenageou o Che, no velório solene realizado na Praça da Revolução em Havana, poucos dias após a sua morte.

«(...) O Che era uma daquelas pessoas de quem todos gostavam imediatamente, pela sua simplicidade, o seu carácter, a sua naturalidade, a sua camaradagem, a sua personalidade, a sua originalidade, mesmo quando ainda não conhecessem as restantes virtudes singulares que o caracterizavam.

Naqueles primeiros momentos era o médico de nossa tropa. E assim foram surgindo os laços e os sentimentos.

Estava impregnado dum profundo espírito de ódio e desprezo pelo imperialismo, não apenas porque a sua formação política tinha alcançado um grau considerável de desenvolvimento, mas também porque muito pouco tempo antes tivera oportunidade de testemunhar, na Guatemala, a criminosa intervenção imperialista, com soldados mercenários a derrubarem a revolução naquele país.

Para um homem como ele, não eram necessários muitos argumentos. Bastava-lhe saber que Cuba vivia uma situação semelhante; bastava-lhe saber que havia homens determinados a lutar contra essa situação, de armas na mão; bastava-lhe saber que esses homens eram inspirados por sentimentos verdadeiramente revolucionários e patrióticos. Isso era mais do que suficiente.

Assim, um dia, no final de Novembro de 1956, embarcámos rumo a Cuba. Lembro-me que a viagem foi muito difícil para ele porque, dadas as circunstâncias em que foi necessário organizar a partida, não pôde sequer obter os medicamento de que precisava. Passou toda a viagem com um severo ataque de asma, sem alívio, mas também sem uma única queixa.

Chegámos, começámos as primeiras marchas, sofremos o primeiro revés, e depois de algumas semanas reagrupámo-nos, como sabem, no grupo de sobreviventes da expedição do Granma. O Che continuava a ser o médico da nossa tropa.

Chegou o primeiro combate vitorioso e o Che já foi um soldado e, ao mesmo tempo, continuava a ser o médico das tropas. Chegou o segundo combate vitorioso e o Che já não era apenas um soldado, foi o mais ilustre dos soldados em campo, realizando pela primeira vez uma daquelas façanhas singulares que o caracterizava em todas as acções. As nossas forças continuaram a desenvolver-se e chegou o momento dum combate de extraordinária importância naquele contexto.

A situação era difícil. As informações estavam erradas em muitos aspectos. Íamos atacar, em plena luz do dia, ao amanhecer, uma posição fortemente defendida junto ao mar, bem armada e com tropas inimigas na nossa retaguarda, não muito distantes. No meio desta situação de confusão, em que era necessário pedir aos homens um esforço supremo, em que o camarada Juan Almeida assumiu uma das missões mais difíceis, um dos flancos continuava no entanto completamente desprovido de forças, um dos flancos continuava sem uma força de ataque, o que podia colocar toda a operação em risco. Nesse momento o Che, que ainda era médico, pediu três ou quatro homens, incluindo um homem com uma metralhadora, e em poucos segundos rapidamente assumiu a missão de ataque a partir daquela direcção.

E naquela ocasião não foi apenas um combatente destacado, mas também foi um médico destacado, prestando assistência aos camaradas feridos, e ao mesmo tempo dando assistência aos soldados inimigos feridos. E quando foi necessário abandonar essa posição, estando todas as armas a ser usadas, e empreender uma longa marcha, acossados por várias forças inimigas, era necessário que alguém ficasse com os feridos, e com os feridos ficou o Che. Ajudado por um pequeno grupo de nossos soldados, cuidou deles, salvou-lhes as vidas e mais tarde juntou-se com eles à coluna.

E a partir daquele momento, destacou-se como um dirigente capaz e corajoso, um desses homens que quando há que cumprir uma tarefa difícil, não fica à espera que lhe peçam para realizar a missão. (...)

Essa era uma das suas características essenciais: a disponibilidade imediata, instantânea, oferecendo-se para desempenhar a mais perigosa das missões. E isso, é claro, suscitou admiração, admiração dupla por aquele camarada que lutava ao nosso lado, que não tinha nascido nesta terra, que era um homem de convicções profundas, um homem em cuja mente fervilhavam sonhos de luta noutras partes do continente, e ao mesmo tempo, com aquele altruísmo, aquele desprendimento, aquela vontade de fazer sempre o mais difícil, de arriscar sempre a sua vida.

Foi assim que conquistou o grau de Comandante e a chefia da segunda coluna que se organizou na Sierra Maestra. Foi assim que começou a crescer o seu prestígio, que começou a adquirir a sua reputação de combatente magnífico, que chegou aos mais altos cargos no decurso da guerra.

O Che era um soldado insuperável. O Che era um dirigente inexcedível. O Che era, do ponto de vista militar, um homem extraordinariamente capaz, extraordinariamente corajoso, extremamente agressivo. Se como guerrilheiro tinha um calcanhar de Aquiles, esse calcanhar de Aquiles era a sua agressividade excessiva, era o seu desprezo absoluto pelo perigo. (...)

O que há de estranho na morte deste artista no campo de batalha? Muito mais extraordinário é o facto de, nas inúmeras ocasiões em que arriscou sua vida durante a nossa luta revolucionária, não ter morrido em combate. E muitos foram os momentos em que foi necessário tomar medidas para evitar que perdesse a vida em acções de menor importância. (...)

A sua conduta pode ter sido profundamente influenciada pela ideia de que os homens têm um valor relativo na história, a ideia de que as causas não são derrotadas quando os homens caem, e de que a marcha irresistível da história não pára, nem vai parar, com o desaparecimento dos dirigentes. (...)

Podemos apreciar todo o valor do seu exemplo e estamos plenamente convictos de que esse exemplo servirá para que homens semelhantes surjam no seio dos povos.

Não é fácil juntar numa só pessoa todas as virtudes que nele se conjugavam. Não é fácil que uma pessoa seja capaz de desenvolver, de forma espontânea, uma personalidade como a sua. Eu diria que é um daqueles homens que é difícil de igualar e quase impossível de superar. Mas também dizemos que homens como ele são capazes, pelo seu exemplo, de ajudar a que surjam outros homens como ele.

No Che não admiramos apenas o combatente, o homem capaz de grandes proezas. E o que ele fez, e o que estava fazendo, esse próprio facto de enfrentar, com apenas um punhado de homens, todo um exército oligárquico, instruído por conselheiros ianques, fornecidos pelo imperialismo ianque, apoiado pelas oligarquias de todos países vizinhos, esse facto é, só por si, um feito notável. (...)

Mas enganam-se os que cantam vitória. Enganam-se quantos acreditam que a sua morte é a derrota das suas ideias, das suas tácticas, das suas concepções guerrilheiras, a derrota das suas teses. Porque o homem que caiu como um homem mortal, como um homem que se expôs muitas vezes às balas, que caiu como militar, como chefe, é mil vezes mais capaz do que aqueles que, com um golpe de sorte, o mataram.

Porém, como devem os revolucionários enfrentar esse golpe adverso? Como devem enfrentar esta perda? Qual seria a opinião de Che, se tivesse que fazer um juízo sobre esta questão? Ele emitiu esse juízo, exprimiu esse ponto de vista muito claramente quando escreveu a sua mensagem à conferência de solidariedade dos povos da Ásia, África e América Latina e disse que, se em qualquer lugar fosse surpreendido pela morte, seria bem-vinda sempre que o seu grito de guerra tivesse chegado a ouvidos receptivos e outra mão se estendesse para empunhar a arma. (...)

Porque o Che, na sua extraordinária personalidade, reunia virtudes que raramente aparecem juntas. Destacou-se como homem de acção insuperável. Mas o Che não era apenas um homem de acção insuperável: o Che era um homem de pensamento profundo, duma inteligência visionária, um homem de cultura profunda. Isto significa que se reunia na sua pessoa o homem de ideias e o homem de acção.

Não apenas reunia essa dupla característica de ser um homem de ideias – e ideias profundas – e ser um homem de acção, mas o Che, enquanto revolucionário, congregava as virtudes que se podem definir como a expressão mais completa das virtudes de um revolucionário: homem íntegro de forma plena, homem de honestidade suprema, de sinceridade absoluta, um homem de vida estóica e espartana, um homem a quem, no seu comportamento, praticamente não se pode encontrar uma única mancha. Pelas suas virtudes, foi aquilo a que se pode chamar um verdadeiro modelo de revolucionário. (...)

Trabalhador incansável, nos anos em que esteve ao serviço da nossa pátria não conheceu um único dia de descanso. Foram muitas as responsabilidades que lhe foram atribuídas: Presidente do Banco Nacional, director da Junta de Planeamento, Ministro das Indústrias, Comandante de regiões militares, chefe de delegações de tipo político, económico, ou fraternal.

A sua inteligência multifacetada foi capaz de desempenhar com a máxima segurança qualquer tarefa, seja de que tipo e de que sentido. E assim, representou de forma brilhante o nosso país em numerosas conferências internacionais, da mesma forma que conduziu brilhantemente os soldados em combate, da mesma forma como foi um modelo de trabalhador à cabeça de qualquer das instituições que lhe foram atribuídos. Para ele não havia dias de folga, não havia horas de descanso! E se olhássemos para as janelas dos seus escritórios, mantinham-se as luzes acesas até alta noite, estudando, ou melhor, trabalhando ou estudando. Porque ele era um estudante de todos os problemas, era um leitor incansável. A sua sede de conhecimento era praticamente insaciável, as horas que arrebatava ao sono dedicava-as ao estudo e os dias de descanso regulamentar foram dedicados ao trabalho voluntário.

Foi a inspiração e o promotor máximo do tipo de trabalho que é hoje a actividade de centenas de milhar de pessoas em todo o país, o impulsionador dessa actividade que hoje ganha força nas massas de nosso povo.

E enquanto revolucionário, enquanto revolucionário comunista, verdadeiramente comunista, tinha uma fé infinita nos valores morais, tinha uma fé infinita na consciência dos homens. E devemos dizer que na sua concepção viu, com total clareza, os valores morais como alavanca fundamentais da construção do comunismo na sociedade humana. (...)

Nós temos a consciência da dimensão da perda para o movimento revolucionário. E, no entanto, é precisamente aí que reside o lado fraco do inimigo imperialista: acreditar que liquidando o homem físico, se liquida o seu pensamento; acreditar que junto com o homem físico, se liquidam as suas ideias; acreditar que junto com o homem físico, se liquidam as suas virtudes; acreditar que junto com o homem físico, se liquida o seu exemplo. (...)

O Che não tombou defendendo outros interesses, defendendo outra causa, senão a causa dos explorados e dos oprimidos deste continente: o Che não tombou defendendo outra causa senão a causa dos pobres e dos humildes desta Terra. E nem os seus mais encarniçados inimigos ousam sequer questionar a forma exemplar e o desprendimento com que defendeu essa causa. (...)

O Che tornou-se um modelo de homem, não só para o nosso povo, como para todos os povos da América Latina. O Che levou à sua expressão mais elevada o estoicismo revolucionário, o espírito de sacrifício revolucionário, a combatividade do revolucionário, o espírito de trabalho do revolucionário, e o Che levou as ideias do marxismo-leninismo à sua expressão mais fresca, mais pura, mais revolucionária. (…)

E assim o seu sangue foi derramado sobre esta terra, quando foi ferido em vários combates. Sangue seu foi derramado na Bolívia para a redenção dos explorados e oprimidos, dos humildes e pobres. Esse sangue foi derramado por todos os explorados, por todos os oprimidos. Esse sangue foi derramado por todos os povos da América e foi derramado pelo Vietname. Porque ele sabia que lá, lutando contra as oligarquias, lutando contra o imperialismo, prestava ao Vietname a mais alta expressão de solidariedade!

É por isso, camaradas da Revolução, que devemos encarar com firmeza e com determinação o futuro. É por isso que devemos encarar com optimismo o futuro. E procuraremos sempre no exemplo do Che a inspiração, inspiração para a luta, inspiração para a tenacidade, inspiração para a intransigência face ao inimigo e inspiração no sentimento internacionalista!

É por isso que nós, nesta noite, após este impressionante acto, após esta incrível – pela sua dimensão, pela sua disciplina e pela sua dedicação – demonstração multitudinária de reconhecimento enorme, que revela como este é um povo sensível, que mostra como este é um povo agradecido, demonstrando como este povo sabe honrar a memória dos homens valentes que caem em combate, demonstrando como este povo sabe reconhecer aqueles que o serviram, que mostra como este povo se solidariza com a luta revolucionária, como este povo ergue e manterá sempre erguidas e cada vez mais altas as bandeiras revolucionárias e os princípios revolucionários. Hoje, neste momento de recordação, ergamos o nosso pensamento e com optimismo no futuro, com optimismo absoluto na vitória final dos povos, digamos ao Che, e aos heróis que com ele lutaram e caíram: Até à vitória, sempre!

Pátria ou Morte!

Venceremos!»